A Falta de Heresia em Relações Públicas
Waldyr Gutierrez Fortes
07/01/2001

Heresia, de acordo com diversas fontes, é um conjunto de idéias, opiniões, ou práticas com as quais desvia-se daquele corpo aceito de convicções, costumes e práticas em um empreendimento organizado.

Embora o termo seja usualmente aplicado em matérias de crença ou moral, como a religião, é apropriado onde quer que a educação, costumes ou "práticas-certas" ditarem as reações de uma maioria ou de todos os profissionais de uma área, como acontece na Ciência. Mais claramente, falar sobre heresia requer dois componentes lógicos: um corpo aceitável de costumes, crenças e práticas, endossadas pela maioria dos praticantes de uma área ou profissão, e um conjunto de propostas desviadas, não tradicionais, ou idéias e práticas não aceitas.

É nosso ponto de vista que as Relações Públicas, tanto no seu pensamento teórico quanto na sua prática profissional, têm uma grande subjugação das primeiras condições, tidas como lógicas, e uma carência da segunda. Há um volume insuficiente de heresia no pensamento de Relações Públicas, um número insuficiente de práticas alternativas, pensamentos e crenças.

A proposta é sugerir algumas idéias potencialmente heréticas e, ao mesmo tempo, desvios heurísticos da prática acadêmica e profissional corrente de Relações Públicas. É basicamente uma provocação para que outros também venham a apresentar outras idéias heréticas, para que fique assegurada a sobrevivência da profissão de Relações Públicas.

Ao examinar o lado acadêmico de Relações Públicas, pode ser observado que muito pouco, em termos de novas idéias, tem surgido. A repetição constante dos mesmos conceitos provoca um desgaste natural desta teoria, pois a repetição nem sempre transmite o conteúdo completo e, como nada é adicionado, o desgaste é muito grande. Não que esta teoria não seja boa. Ela é a melhor possível. Mas não tem avançado tanto quanto permite os caminhos abertos pelos seus autores.

Colocá-la em cheque poderia ser uma opção, desde que lúcida, para testá-la em novas aplicações, novas maneiras de pensar, ou mesmo uma leitura mais moderna desses pressupostos, ainda não totalmente esgotados. Entretanto, o que se observa é uma crítica contundente por parte daqueles hábeis leitores das "orelhas" de livros, que não leram, não entenderam, mas partem para a crítica, como se fossem grandes pesquisadores. Além disso, não apresentam nenhuma contribuição teórica para modificar ou mesmo refutar o que é tido até como senso comum.

Falar-se em público, comunicação dirigida, pesquisa de opinião, comunicado de imprensa e outras expressões corriqueiras no meio acadêmico, faz com que os "grandes" profissionais ou apresentem um ar de espanto ou de total desprezo, pois para eles professor não é um profissional de Relações Públicas em atividades acadêmicas, aluno é um alienígena, e a escola é alguma coisa para se ficar distante.

Não se pode dizer, também, que o que se produz nas escolas é a mais pura ciência de Relações Públicas. Infelizmente, muitos cursos de Relações Públicas ainda são "tocados" por recém-formados ou por professores improvisados de outras áreas, que apenas procuram desempenhar um papel de reprodutores salivares daquilo que um dia tiveram uma vaga referência. Mas, existem exceções, e elas apresentam um número significativo.

A baixa remuneração, a falta total de condições plenas de ensino e pesquisa, o despreparo dos alunos ingressantes nos cursos superiores, faz com que a situação tenda a agravar-se. Chegou-se ao absurdo das entidades mantenedoras preferirem graduados, em detrimento dos pós-graduados, para gerar uma "economia" para os seus cofres. E o nível de ensino, como fica? Resposta: professores fazem de conta que estão ensinando e os alunos fazem de conta que estão aprendendo algo, ou até alguma coisa realmente útil.

Esta situação, felizmente, começa a mudar, não por uma "tomada de consciência" dos interessados, mas por forças externas, isto é, em decorrência das exigências do Ministério da Educação, pela realização da avaliação dos cursos, professores e alunos.

Aqueles realmente preocupados com a situação ficam praticamente sozinhos com os seus temores, pois os profissionais já colocados no mercado de trabalho não querem nem lembrar que existem cursos de Relações Públicas, quanto mais contribuir com a sua experiência ou mesmo com a pressão de sua importância, quando poderiam propor convênios, ajudas financeiras, ou mesmo, um tipo de fiscalização para que as escolas pudessem oferecer aquele mínimo necessário ao futuro profissional que estará concorrendo no mercado. Aqui, também, há exceções, mas são poucas.

Isto tudo poderia levar para uma outra heresia. Teriam esses profissionais que estão atuando no mercado de trabalho contribuições reais a oferecer às escolas? Pelo que se tem visto, a resposta é: não.

Por recusarem compreender a teoria proposta, as pesquisas desenvolvidas (principalmente pelos programas de pós-graduação), por não saberem das reais potencialidades surgidas nos cursos de graduação, esses profissionais permanecem repetindo eternamente as mesmas "técnicas", as mesmas rotinas e as mesmas performances, que um dia deram certo. Ter uma experiência repetida vinte vezes, não é a mesma coisa que ter vinte anos de experiência.

Os profissionais no mercado de trabalho desenvolvem determinadas alquimias entendidas somente por eles próprios. Exceções existem, felizmente, mas são poucas. Apesar disto, esses praticantes de Relações Públicas acabam sendo considerados os maiores. E os menores? A heresia está em que, qualquer que seja a experiência, ela deve ser compartilhada e estar aberta às críticas, para que tanto os profissionais como os estudantes de Relações Públicas, possam tirar delas novos caminhos, novas posturas, novos padrões éticos, e o melhor lugar para que isto ocorra é, sem dúvida nenhuma, o mundo acadêmico de Relações Públicas.

Se verificarmos outras profissões, constata-se que os iniciantes estão ligados aos grandes nomes, são discípulos de determinados especialistas, e têm muito orgulho disto. Já em Relações Públicas...

Aqueles que se aproximam das escolas de Relações Públicas passam a ser vistos com desconfiança pelos seus pares. Qual seria a intenção? Preparem-se para o que está por vir? Quere, descobrir mecanismos para resguardarem-se das reais potencialidades? As dúvidas são muitas, e o quadro fica mais claro quando se participa de encontros, seminários, congressos. Aqueles que são convidados a falar – e, praticamente, são sempre os mesmos, pois não se sabe o que está sendo realmente produzido e muitos profissionais simplesmente se escondem – fazem relatos parciais, contando o milagre mas jamais o "santo" ou a "prece".

O que ouvimos é o quanto foi gasto para a distribuição de agrados e de brindes, na veiculação de anúncios na televisão, ou o quanto foi conseguido na imprensa em termos de informação gratuita. E o público? O público que se dane! E a responsabilidade social da empresa? Nem sei o que é isto! E o assessoramento à alta direção, a pesquisa? Ah! Isto é conversa de professor, de teórico, a realidade profissional é outra. E qual é a realidade profissional, então? Bem, isto é outra conversa, que fica para outro dia. Até logo. Venham me visitar, OK?

Então, o que fazer? Cabe aos profissionais de Relações Públicas tentar outras idéias, colocar no papel as suas experiências, sistematizá-las objetivamente, com método, para que os leitores tenham condições de perceber o quadro como um todo. O caminho intuitivo poderia ser uma grande contribuição desses profissionais, quando tentariam teorizar em torno daquilo que tem como a prática profissional de Relações Públicas. O grande perigo aqui é se o que está sendo feito é realmente consistente e importante.

Esses mesmos profissionais devem procurar as escolas, ficar à disposição dos professores, cobrar uma participação mais efetiva e, eventualmente, conseguir de suas empresas uma participação financeira de apoio às iniciativas das escolas. Não é necessária uma grande contribuição, mais o somatório de pequenas quantias poderia dar bons resultados. Que tal se, ao invés da produção de caros brindes ditos culturais, o famigerado "marketing cultura", esse mesmo dinheiro fosse encaminhado para uma escola para equipar um laboratório de Relações Públicas? Parecer heresia? Então as coisas estão realmente precisando ser mudadas.

As escolas, seus alunos e professores, devem estar conscientes daquilo que realmente desejam. Para isto, é importante que conheçam os profissionais, debatam com eles, procurem conhecer novas obras e não somente aquelas indicadas pelos professores, decidir ser efetivamente um profissional de Relações Públicas e procurar todos os meios para que isto ocorra.

Um recado tanto para os profissionais como para estudantes e professores da área: qual foi a última vez que a sua entidade associativa, a ABRP, foi procurada? Está registrado no Conrerp? E as anuidades, estão em dia? Isto é uma outra heresia? Tomara que não.

Para finalizar, o que realmente importa é que todos nós, profissionais, professores, alunos de Relações Públicas, dediquemos um tempo para pensarmos na profundidade e na abrangência das Relações Públicas, preparando esta atividade para os novos tempos, quando a participação mais efetiva e consistente nas organizações será uma exigência.

Se não estivermos preparados para isto, outras profissões ou profissionais irão ocupar o nosso lugar, pois terão muito mais para oferecer do que a simples rotina. A nova administração que se desenvolve está preocupada com o ambiente no qual as empresas atuam, e quem, melhor do que nós, poderia interpretar este ambiente? Ou conhecer os públicos de interesse da organização seria mais uma heresia?

Adaptação de artigo originalmente publicado no número 34 do jornal O Público, órgão informativo da Associação Brasileira de Relações Públicas – Seção Estadual de São Paulo, em junho/julho de 1988, página 3.