A Boa Crítica
Por Jerônimo Mendes
04/05/2009
Num mundo recheado de amadorismo e ferramentas tecnológicas à nossa disposição,
é comum aflorar no ser humano comum, muitas vezes desprovido de senso crítico,
aquela vontade incontrolável de participar do debate em qualquer circunstância.
Nesse sentido, não há problema algum, afinal, temos o livre arbítrio para
decidir entre o que queremos e o que não queremos expressar mediante um fato
inusitado, um comportamento malogrado ou uma opinião exacerbada, embora essa
atitude não produza qualquer efeito positivo em nossa vida.
Como diz o adágio popular, se conselhos, críticas ou simpatias valessem alguma
coisa, estaríamos todos ricos. Entretanto, quando uma crítica se torna a
atividade primordial do ser humano, principalmente quando escondido sob um
pseudônimo ou coisa que o valha, não faz o menor sentido nem deve ser submetida
a qualquer parâmetro de validade.
Há quem se deleite ao expressar uma crítica ou opinião sem consultar a parte
contrária, sem o menor embasamento em pesquisa, sem fatos e dados, sem
fundamentação que mereça um pouco de crédito ou ainda sem o senso crítico
necessário para expressar o melhor julgamento sobre o trabalho realizado, e não
necessariamente sobre a pessoa ou o profissional que o executa.
Isso ocorre em todas as camadas da sociedade com a maioria das pessoas por conta
da pobreza de espírito e do instinto primitivo de algumas pessoas que em vez de
ler, de estudar ou de compartilhar conhecimento, preferem aderir à opinião
alheia. A constatação é simples e, geralmente, pessoas que nada tem a ver com o
problema são induzidas a participar, o que torna ainda mais ridícula a versão de
quem iniciou a crítica.
Reflita um pouco. Quantas vezes você já foi induzido a participar de uma crítica
no trabalho, na internet ou no happy hour ainda que não tivesse a mínima vontade
de contribuir para o acirramento do ódio alheio? Creio que você já perdeu a
conta. Quantas vezes as pessoas são capazes de interromper ou enfrentar um
crítico e difamador apenas para não participar daquilo que consideram um
perfeito desperdício de energia vital? Poucas vezes ou talvez nenhuma.
Por que isso acontece? Por inúmeras razões, dentre as quais é possível destacar
aquilo que eu chamo de Ausência de DPO no ser humano:
1. Ausência de Discernimento: saber conhecer distintamente, distinguir entre a
realidade e a ficção, o justo e o injusto, o certo e o errado, o bom e o mau e
assim por diante, sem tendência ao pré-julgamento ou influência de terceiros;
2. Ausência de Princípios: existem valores que são universais, ou seja, valem
para todas as pessoas, independentemente da cor, origem, opção sexual ou
religião, portanto, não fazer aos outros aquilo que você não quer que façam a
você ou a qualquer um dos seus amigos e familiares continua extremamente atual;
3. Ausência de Objetivos Pessoais: quando alguém não produz nada de bom e não
tem a mínima preocupação com o futuro, torna-se mais crítico em relação àqueles
que produzem coisas positivas e canalizam esforços para reduzir a hipocrisia do
mundo.
Muito bem! Isto significa que você não pode mais criticar aquilo que considera
injusto ou fora de propósito, sob o seu ponto de vista? Claro que não.
Entretanto, saber criticar é uma dádiva para poucos. Uma boa crítica ou crítica
construtiva, se é que podemos chamá-la dessa maneira, requer postura ética e
alguns cuidados mínimos que apenas as pessoas bem intencionadas são capazes de
adotar. Leia, reflita, pense nisso e seja feliz!
1. Conhecimento do assunto: qualquer crítica requer embasamento e,
principalmente, um ponto de vista que estimule o aprendizado em vez de fomentar
o ódio e o desprezo pelas pessoas ou idéias alheias; criticar apenas porque os
outros estão criticando, sem propriedade ou consistência, é uma atitude leviana
que não acrescenta nada na sua vida nem na vida de quem você deseja criticar;
2. Respeito à opinião alheia: uma coisa é você imaginar que está no caminho
certo; a outra é achar que o seu caminho é o único, já dizia Paulo Coelho;
portanto, admita que o outro, assim como você, deve ter seus motivos para seu
comportamento; cada um sabe da sua própria dor ou renúncia, completa o escritor;
3. Assuma a responsabilidade: quem critica deve dar a cara para bater; criticar
de forma vil ou apunhalar os outros pelas costas, sem chance de defesa,
escondido sob pseudônimo, cartas anônimas, conversinhas informais de botecos ou
coisa que o valha, representa simplesmente um ato de covardia.
Jerônimo Mendes é Administrador, Consultor e Palestrante
Autor de Oh, Mundo Cãoporativo! (Qualitymark) e Benditas Muletas (Vozes)
Mestre em Organizações e Desenvolvimento Local pela UNIFAE