Como anda a alimentação de nossas pequenas grandes consumidoras: as crianças?
Por Luís Marcelo Alves Ramos
27/04/2003

Refletindo sobre o hábito de consumo alimentar, algo desse assunto que muito tem me chamado a atenção - e de vários outros profissionais e pesquisadores da área da saúde - são os malefícios que esse comportamento vem trazendo a uma significativa parcela de nossas “pequenas grandes consumidoras” - as crianças - por ter adquirido uma característica compulsiva.

Tomando a saúde a partir de uma concepção ampla, isto é, considerando seus diversos aspectos biopsicossociais, confesso que fico perplexo com o contínuo crescimento do número de crianças obesas - fenômeno que vejo não apenas no meu dia-a-dia, mas que também constato nas estatísticas de saúde pública e que tem sido constantemente veiculado como matéria pela mídia.

Não me refiro àquela obesidade de causas genéticas ou patológicas, falo daquela obesidade fruto dos hambúrgueres, cachorros-quentes, pizzas, batatas fritas, salgadinhos, bolachas recheadas, chocolates, refrigerantes, sorvetes, etc., etc., que desfilam frente aos olhares sedentos das crianças - e, diga-se, não só delas.

Não é minha intenção fazer uma apologia à “corpolatria”, nem tampouco querer privar as crianças de certos prazeres da vida. Para longe de mim essas idéias!

Estou tomando para crítica a obesidade infantil produto dos fast foods, lojas de conveniências, padarias e prateleiras de supermercados apenas para exemplificar o quanto um comportamento de consumo compulsivo pode desde cedo trazer prejuízos à saúde do próprio consumidor.

Vários médicos e nutricionistas têm alertado sobre o risco de doenças - diabetes, hipertensão, artrose, transtornos psíquicos, entre outras - que podem futuramente acometer as crianças que aderiram a essa modalidade de comportamento - e, não esqueçamos, conseqüentemente comprometer ainda mais a tão precária qualidade de nosso já tão falido sistema de saúde pública.

Com freqüência ouço alguém dizer que uma criança - filha de não sei quem - está fazendo regime sob prescrição médica para emagrecer, uma fala um tanto rara há dez, quinze anos, atrás.

O fato é que o velho e bom “arroz e feijão” não está fazendo frente à cultura globalizada e sedentária do hambúrguer e batata frita.

Até mesmo a água muitas vezes chega a perder para o refrigerante.

Não foi uma única vez que ouvi uma mãe dizer que o filho não toma água, só refrigerante!

Disso que foi dito, fica o problema: como prevenir esse gênero de comportamento de consumo compulsivo para prevenir as doenças que dele derivam ?

Nesse ponto, lembro-me da fala de um ex-aluno - pai de duas crianças - durante uma aula da disciplina Comportamento do Consumidor ao comentar que “dizer ‘não’ aos filhos é impossível hoje em dia pois não é possível afastá-los da TV, do supermercado, do shopping e dos coleguinhas.”

Embora, à primeira vista, pareça uma simples fala, esse discurso aponta para algumas das causas do problema acima colocado, bem como deixa lhe entrever prováveis soluções - ainda que bem limitadas.

Primeiro, falando das causas, devemos nos perguntar quais são os agentes de produção dos estímulos que condicionam essas crianças a terem esse determinado tipo de padrão alimentar.

A fala de meu ex-aluno denuncia alguns desses agentes: por um lado, a mídia e o comércio, responsáveis pela propaganda e oferta desses gêneros alimentícios e, por outro, os grupos sociais próximos da criança, notadamente a família, que não consegue lhe dizer “não”.

E entre esses agentes não devemos nos esquecer do Estado - aquele que muitas vezes nos passa desapercebido, inclusive está omisso no discurso de meu ex-aluno - que, em primeira instância, possibilitou a gênese e permite a manutenção desse tipo de cultura alimentar - alguém já tinha ouvido falar em fast food antes da ascensão do Neoliberalimo, da “tribo global” ?

Agora, passando a falar das soluções... Começando pelas ações que cabem ao Estado, penso que de nada adianta, através de um monitoramento da saúde da população, apenas se chegar à conclusão de que a obesidade infantil irá se tornar um grave problema de saúde pública num futuro não muito distante - as crianças crescem rápido.

É preciso, além disso, tomar-se medidas coletivas de prevenção desse tipo de hábito alimentar. E quando falo sobre prevenção não quero dizer tão somente campanhas informativas - não que as esteja descartando -, mas algo mais amplo e contínuo.

Refiro-me a programas de Educação em Saúde realizados em instituições de educação e saúde públicas e privadas - escolas, centros de saúde, etc. - e comunitárias - centros sociais, igrejas, entre outras - que abranjam ao menos os “locais críticos” onde essa cultura alimentar se faz presente.

Também é preciso que o Estado cumpra sua tarefa de fiscalização sobre os estabelecimentos comerciais no sentido de que estes veiculem informações ao consumidor sobre o teor nutricional dos produtos que lhes oferecem.

Ainda no que diz respeito a estes estabelecimentos, a exemplo do que alguns já vêm pensando em fazer - e, aqui, há que se questionar se mais pelo temor de ter que enfrentar possíveis ações judiciais por danos à saúde de clientes do que por uma legítima preocupação com a saúde destes -, deveriam oferecer um cardápio “alternativo”, outras opções de produtos - e não estou me referindo aos velhos conhecidos diet e light -, para os consumidores que desejam se servir de uma refeição mais saudável do que a tradicional por eles oferecida.

Claro é que isso é uma solução bem limitada para nosso problema uma vez que o hábito alimentar “globalizado” já se tornou fortemente enraizado em nossa cultura, mas penso que, desde que essa idéia seja bem trabalhada, pode se tornar uma possível saída para pelo menos amenizar o problema da obesidade infantil - e não só a infantil.

Entendo “essa idéia bem trabalhada” como resultado de um esforço multiprofissional - envolvendo profissionais do marketing e da nutrição - que veicule propagandas eficientes para chamar a atenção do consumidor para esses produtos “alternativos” e que estes sejam, de fato, agradáveis ao olhar, olfato e paladar.

Mas há ainda um grande desafio a se enfrentar: o como a família age em relação ao hábito alimentar da criança.

Como propor uma alimentação saudável a uma criança cuja família não possui ela própria uma alimentação saudável ?

Que direito teriam os pais de “cobrarem” da criança aquilo que eles próprios não estariam dispostos a seguir ?

Como fazer essa proposta a pais que não conseguem dizer “não” aos filhos quando necessário ?

É frente a questões dessa natureza que acredito que os programas de Educação em Saúde são necessários.

São necessários não só para repassar à população informações nutricionais sobre os alimentos, mas para criar a consciência coletiva de que uma boa saúde está vinculada à boa alimentação, à prática contínua de exercícios físicos - logicamente, com acompanhamento de profissionais da saúde -, ao lazer, ao descanso, etc.

São também necessários para se criar uma consciência coletiva acerca dos direitos do consumidor, para que se crie uma cultura de consumo mais questionadora e exigente em relação aos produtos que o mercado apresenta.

Seria uma pretensão muito ambiciosa esperar que o Estado, a mídia, os estabelecimentos comerciais e a maior parte das famílias se preocupassem realmente com uma conduta alimentar saudável, entretanto, quis mostrar, através deste pequeno artigo - que tem um caráter mais reflexivo, filosófico, do que científico - que há soluções para o problema apresentado e que mais cedo ou mais tarde teremos que pô-las em prática - por bem ou por mal.





Prof. Ms. Luís Marcelo Alves Ramos

Docente nos cursos de graduação em

Administração de Empresas e Comunicação Social (Publicidade e Propaganda)

e de pós-graduação em Psicopedagogia Inclusiva

na UNOPEC Sumaré e Indaiatuba

Mestre pela Faculdade de Educação / UNICAMP na área de Educação em Saúde

Pesquisador pela Faculdade de Educação / UNICAMP na área de Psicologia da Educação aplicada ao Ensino Superior