Comunicação sem vergonha
Por Suyen A. Miranda
23/10/2007
Posso ousar dizendo que pelo menos 60% dos problemas mundiais contemporâneos são
diretamente causados pela falta de clareza na comunicação. É aquela famosa
história de achar que “está subentendido”, quando na verdade, a frase quer dizer
“descubra o que se passa em minha mente”. Você pode até dizer que isso é óbvio;
mas todos os dias ouço pessoas se queixando de seus clientes, seus fornecedores,
seus funcionários, sempre repetindo a mesma frase “eles não fizeram – ou fazem –
do jeito que eu falei”. Ficam aqui dois pontos para pensar: será que a razão da
má compreensão é sempre nossa? Ou será que estamos superestimando o poder
adivinhatório de nossos parceiros profissionais? Acho que posso jogar alguma luz
sobre esse tema.
Não pense você que o diploma em Comunicação por si só já facilita essa tarefa;
vejo muitos colegas repetirem o bordão do subentendido. Até com mais veemência
entre eles, pois para alguns o fato de querer explicar demais soa como “coisa de
gente burrinha”. Vi isso na faculdade; as primeiras aulas que assisti eram
confusas, e o professor discorria sobre temas relevantes conosco como se
fôssemos pares, colegas de longa data. E eu, tímida e envergonhada, me achava o
suprasumo das pessoas burras e não entendia nada. Mas eu olhava ao meu redor e
os outros pareciam entender tudinho, tudinho, como se fosse uma linguagem para
iniciados – e eu certamente não pertencia a essa elite. Daí que a vergonha,
aquele sentimento que mata qualquer um a pau, falou mais alto e eu fiz de conta
que estava compreendendo tudo, que coisa linda... Só quase no fim do primeiro
mês de aula é que as máscaras caíram com as provas, porque TODOS também não
estavam entendendo.
Essa cena e muitas variáveis eu tenho visto ao longo da minha carreira. Gente
que não entende – ora porque tem pressa e não espera para que o outro conclua o
raciocínio, ora porque tem vergonha de assumir que a comunicação não está clara
– e que posteriormente sofre conseqüências sérias desse trabalho “adivinhatório”
ou “suposicional”. Eu pergunto a você: será tão ruim assumir que não se entendeu
alguma coisa? Será que há uma falha na comunicação pelo emissor, que não
conseguiu se expressar de modo inteligível? Ou será que temos tanta culpa
embutida que já pensamos que “se não entendemos, o problema é nosso”...
De mais de uma fonte ouvi que o saber e o conhecimento são inesgotáveis, e nunca
alguém saberá tudo. Sinceramente, isso me deixou profundamente aliviada... E me
fez pensar que a comunicação entre pessoas é uma riqueza ímpar, pois pode
construir e destruir, pode gerar ou matar, conforme o uso que se faz dela. Hoje,
procuro ouvir mais do que falar até para entender melhor clientes, fornecedores,
alunos e ter melhores argumentos em negociações de todo tipo. Procuro ser clara
no que desejo falar – e ainda assim existe margem para confusão – e sei o quanto
é difícil para as pessoas se expressarem com clareza.
Do mais eu busco muita inspiração nos gurus da criatividade: as crianças. Que
não tem vergonha de perguntar, repetir e nos fazer cansar, mas sempre tem uma
resposta rápida e sem titubeios. É vendo a elas que deixo a vergonha de lado –
até porque ela só nos atrasa a vida – e permito que a ousadia, uma marca
registrada dos vencedores da atualidade possa se manifestar na minha vida
profissional. Não é uma receita de sucesso, é apenas uma constatação. Será que
fui clara?
Suyen A. Miranda é publicitária e Sócia-Diretora da Persona Consultoria.