Fatos contábeis, não são necessariamente, fatos mercadológicos
Por Marcelo Miyashita
01/08/2004
A contabilidade financeira deveria servir como um ‘porto’ para uma análise
segura de empresas. Mas com a valorização dos intangíveis, ela assume o papel de
mais um indicador, passível de interpretações pessoais
As regras básicas da contabilidade financeira e seus objetivos primários não se
aplicam totalmente à nova realidade mercadológica. Originalmente, a
contabilidade financeira deveria registrar um filme e uma fotografia da situação
presente da empresa, baseada em seus fatos contábeis formuladas através de
balanços e demonstrativos.
Numa economia com um mercado estável, com pouca mobilidade, poucos competidores,
empresas com foco em produção, com vendas que não sofrem nenhuma influência das
atividades de marketing, ou seja, um mercado que hoje não existe (excetuando
raros casos regionais) a contabilidade financeira é um bom indicador da
realidade registrada da empresa e todo seu negócio. Afinal neste cenário, ativos
intangíveis como marca, relacionamentos e geração de inteligência competitiva
tem pouca relevância para o sucesso dos negócios.
Hoje, devido ao aumento dos competidores ofertando mais opções ao mercado, as
empresas na necessidade de se tornarem mais competitivas investem, e muito,
justamente nesses ativos intangíveis – buscam através delas se diferenciarem. O
raciocínio é lógico: primeiro faça a lição de casa (desenvolva um negócio
estruturado com qualidade em todos os processos, para atender as expectativas
criadas com potencial para satisfazer compradores); depois vá ao mercado e
trabalhe para que a sua empresa e seus produtos sejam consumidos.
A questão está justamente aí. O que diferenciava as empresas antigamente era a
qualidade de seus processos, a sua experiência e seus conhecimentos adquiridos,
e havia muita variação de qualidade no mercado. O que não acontece neste novo
mercado. Como um processo natural evolutivo, as técnicas de gestão e produção se
aprimoraram, a informação se tornou mais disponível e, em função disso, as
grandes variações de antigamente, hoje ainda existem, mas são menores.
A competição e a obrigatoriedade de fazer o mercado moldam negócios e estruturas
gerenciais com níveis de qualidade necessárias. Ou seja, o que antes era um
diferencial das empresas, hoje é uma obrigação básica. É a lição de casa.
Seguindo esse raciocínio, uma empresa gerencialmente e contabilmente organizada
tem condições de atuar no mercado, mas isto só, não garante operações de
sucesso. Justamente porque a concorrência também pode possuir estas mesmas
características. E aí entra a importância dos ativos intangíveis – é o que pode
diferenciar negócios e levar empresas à liderança mercadológica.
Ofertas, formadas por produtos e serviços, racionalmente podem ser muito
similares não significando, por si só, fatores de decisão para seus compradores.
Pois o comportamento humano no ato da decisão de compra costuma valorizar outros
fatores, muitas vezes subjetivos e emotivos. Aí entra a importância da marca e
seus significados, dos relacionamentos e dos conhecimentos gerados por ela. E é
nesses pontos onde empresas competitivas investem capital e recursos.
A questão está justamente aí. Contabilmente podemos identificar o quanto é
investido em uma marca ou nos relacionamentos com os clientes e parceiros de
negócios (fornecedores e intermediários). Porém uma marca pode ter um valor para
o negócio muito maior que os seus investimentos registrados. Como tangibilizar
algo que é subjetivo e, ao mesmo tempo, fator importante para a diferenciação no
mercado?
Essa é a área de sombra que existe quando analisamos empresas. Antigamente
somente a contabilidade já garantia uma boa conclusão. Hoje ela é apenas mais um
indicador, que deve ser levada em consideração, porém deve ser interpretada. As
regras contábeis e suas leis poderiam evoluir e se adequar a esta nova situação.
Isso evitaria os malabarismos contábeis entre ativos e passivos, custos de
vendas e despesas de marketing, para maquiar balanços e demonstrativos. Mas por
outro lado, poderia abrir mais brechas, afinal como identificar o resultado de
um investimento em algo subjetivo?
Como analisar a situação de uma empresa já não é algo tão palpável assim, o que
diríamos sobre a análise do potencial futuro de um negócio? O novo mercado
trouxe muito mais especulação. Se já há campo para divagar sobre o valor
presente, imagine o valor futuro.
Mas o mercado é interessante, enquanto governos não definem novas leis – pelo
menos mais atualizadas – surgem a cada dia mais modelos de estudos,
desenvolvidos para atender interesses de investidores e empreendedores que
buscam justamente aplicar seus recursos com mais segurança. Há consultorias que
tem como core business realizar esta análise, que possuem seus modelos próprios
de quantificação de fatores subjetivos.
E é interessante quando verificamos que consultorias diferentes chegam a
conclusões diferentes, das mesmas empresas.
Isto acontece muito no universo dos investimentos em ações. Tudo o que um
investidor quer é conhecer a realidade e projetar com segurança o futuro de uma
empresa, para assim decidir por seus investimentos. Este mesmo mercado criou
outro método de interpretação: a análise fundamentalista, um modelo de
interpretação de balanços baseado em coeficientes e índices que tentam traduzir
a competitividade da empresa. Só que balanços contábeis não possuem essa função.
E do que adianta uma análise dos fundamentos da empresa baseado nos balanços, se
os balanços por si só, não traduzem a valor real da empresa?
Infelizmente não há uma regra única para verificar matematicamente o potencial
de negócios no futuro. Justamente por haver no mercado infinitas variantes que
podem influenciar o sucesso de uma operação. O que não significa que devemos
recorrer a outros caminhos como bola de cristal ou numerologia, mas simplesmente
que devemos interpretar todos os fatos que uma empresa declara. E não assumir
como uma verdade única. Ou seja, os fatos contábeis não são necessariamente,
fatos mercadológicos.
Marcelo Miyashita é consultor líder e palestrante da MIYASHITA CONSULTING. É
professor de marketing em cursos de MBA e pós-graduação. Atualmente leciona na
Cásper Líbero, FGV-EAESP GVpec, Trevisan, PUC-SP COGEAE, Madia Marketing School,
IMES e IBModa. Foi colunista do Comercial & Cia, na rádio BandNews FM. Em 2006
recebeu o Prêmio Marketing Best e em 2007 o título de Marketing Expert,
concedido pela Editora Referência (Jornal Prop&Mkt), pela FGV-EAESP e pela
MadiaMundoMarketing. É mestrando em Administração pela PUC-SP, pós-graduado pela
ESPM e publicitário pela Cásper Líbero. Conheça seu trabalho:
www.miyashita.com.br