Laços e Abraços : o marketing de relacionamento com o cliente
Por Rosângela Maluf
02/02/2009
Introdução
Para Kotler (2006), um dos grandes nomes do marketing, o relacionamento com o
cliente pode ser conceituado como sendo a grande tarefa de se criar fortes laços
com os consumidores assegurando-lhes a lealdade. Marketing de relacionamento
pode então ser definido como a utilização de um conjunto de técnicas e processos
de marketing - vendas, comunicação e cuidados com o cliente, visando
identificá-los, de forma individualizada e nominal, criando relações duradouras
e administrando essa relação para o benefício de ambas as partes (Stone &
Woodcock ,1998) .
Para Copulsky & Wolf(1990) o marketing de relacionamento combina elementos de
propaganda, promoção de vendas, relações públicas e marketing direto com o
objetivo de criar modelos permanentes e eficazes de comunicação com o cliente.
Até bem pouco tempo atrás, o foco do marketing concentrava-se, principalmente,
nas transações comerciais. Com o passar do tempo e com todas as mudanças
determinadas por novos comportamentos do consumidor, esse foco passou a
concentrar-se não apenas nas trocas comerciais mas no relacionamento com os
parceiros dessas transações. Daí passou-se a valorizar, enormemente, a
satisfação dos clientes, seguida da sua fidelização e retenção.
Observamos assim uma mudança de paradigma onde a área do marketing deixa um
pouco a área de compras & vendas passando a priorizar as retenções e as
relações. Uma vez que os clientes passam a ser considerados parceiros efetivos,
é importante que a empresa procure, de maneira clara e eficaz, estabelecer com
eles, compromissos de longo prazo para que esse relacionamento se mantenha com
qualidade, inovação e prestação de serviços cada vez mais adaptadas às
exigências desses clientes.
Nessa nova filosofia poderemos dizer que a orientação estratégica de fazer
negócios dá lugar a uma outra orientação estratégica, centrada na manutenção e
no aperfeiçoamento da relação com os clientes atuais, não mais saindo,
desesperadamente, na conquista de mais e mais novos clientes mas estreitando os
laços com os já existentes.
Pesquisas já demonstraram e a prática comprovou que é muito mais barato manter
um cliente do que atrair um novo o que leva os profissionais de marketing no
investimento de estratégias eficazes para a satisfação, fidelização e retenção
desses parceiros dos novos mercados.
Contextualização
Inicialmente, foi sugerido um primeiro ato, em que todo e qualquer investimento
deveria ser direcionado à conquista do cliente; em seguida os estudiosos
observaram que as empresas, preocupadas com a conquista, davam pouca ou quase
nenhuma importância à manutenção dos mesmos, o que constituiria o segundo ato (Zeithaml
e Bitner, 2003).
O conceito de "marketing do balde" surge com a entrevista dada por James Schorr,
na época vice-presidente da rede americana de hotéis, a Holidays Inn , na qual
ele dizia que todas as campanhas de marketing (propaganda, publicidade,
promoção, vendas) tinham como único objetivo encher o balde mantendo-o sempre
cheio, até a borda. Assim, enquanto os programas se mostrassem eficientes, o
número de clientes tenderia a se manter e aumentar. Para Schorr, por melhor que
fosse o balde, em algum momento apresentaria um furo: se o furo fosse pequeno
por ele sairia um pequeno número de clientes; entretanto, se a operação fosse
fraca e a insatisfação fosse grande, muitos clientes sairiam rapidamente em
tempo maior do que o tempo necessário para que fossem colocados outros clientes,
como substitutos, no balde.
A teoria do balde faz sentido: a estratégia concentrando-se no fechamento dos
buracos, procede! Historicamente, o marketing tem se dedicado, claramente, à
conquista de mais e mais clientes. Ao se pensar em uma mudança, da simples
conquista para a efetiva manutenção dos clientes, é preciso também alterar a
cultura da empresa, mudar suas estratégias e redirecionar a premiação, menos
aplausos para o vender mais e novas recompensas pela manutenção dos clientes.
Como fazer isso ? Ainda que as pessoas mais próximas do cliente já tenham
percebido que o caminho é esse, as organizações ainda podem optar pelo apoio à
implementação de ações, voltadas muito mais para a conquista do que para a
retenção dos clientes.
Para se construir e manter relacionamentos com clientes comprometidos e que
sejam rentáveis para a organização , a empresa precisa atuar com seus clientes
de modo a :
atrair
reter
fortificar as relações
Além das pesquisas básicas de mercado, um bom banco de dados (DBM - data base
marketing), um CRM (Customer relationship management) bem desenvolvido, canais
de comunicação estreitamento e ligados aos principais clientes, todos esses
esforços deverão ser direcionados ao conhecimento detalhado dessa clientela:
quem é ela, como vive, seus hábitos de compra, com quanto vive, do que gosta, o
que espera da empresa e o que , de melhor, a empresa poderá fazer por ela.
Estratégias de retenção
As empresas têm percebido que os relacionamentos duradouros, baseados na
confiança, cumplicidade e sentido real de parceria constituem seus ativos mais
valiosos. A tecnologia com seus avanços constantes vêm permitindo modificações
bastante significativas nas relações entre empresas e clientes : a informação
passa a fluir bilateralmente tornando possível um diálogo, em substituição ao
monólogo onde apenas a empresa se manifestava, sem ouvir, sem escutar, sem levar
em consideração os anseios de seus clientes.
Se durante muito tempo o foco das organizações era o investimento na captação de
clientes - quanto mais, melhor - logo se viu a necessidade de manter esses
clientes satisfeitos, fidelizá-los e retê-los para o bem da empresa e sucesso
consolidado das organizações.
Zeithaml & Bitner (2003) propuseram uma variação de um programa de retenção de
cliente com base em uma sugestão proposta por Berry e Parasuram (1992) em que as
estratégias de retenção bem sucedidas ocorrem quando, fundamentadas na prestação
de serviços com alta qualidade implicam na correta segmentação dos mercados e,
principalmente, no monitoramento dos relacionamentos. È sabido que, com o passar
do tempo, os consumidores vão tendo suas necessidades modificadas, seus hábitos
dão lugar a outros hábitos e um desgaste previsível se mostra aos olhos da
organização.
Assim teríamos, para cada nível proposto, uma classificação de acordo com os
tipos de laços envolvidos nesses relacionamentos com o cliente ( Zeithaml &
Bitner), 2003.
a) Nível 1 - Laços Financeiros
b) Nível 2 - Laços Sociais
c) Nível 3 - Laços de Customização
d) Nível 4 - Laços Estruturais
Nível 1 - Laços Financeiros
No primeiro nível o cliente tem ligações financeiras com a empresa: são os
incentivos financeiros que o mantém fiel; os preços mais baixos, seja por volume
de compra, seja por tempo de relação comercial. Como exemplos, podemos observar
as locadoras de veículos, hotéis, companhias de aviação. Os programas de
milhagem são exemplos claros dos laços financeiros, assim como os hotéis que,
através de descontos e variados tipos de promoções, procuram manter a fidelidade
do cliente, ofertando-lhe opções de acordo com sua necessidade de utilização
daquele serviço.
No longo prazo esse laço se desfaz pois todos os concorrentes passam a fazer o
mesmo e o que antes era um diferencial competitivo passa ser um fator comum. A
Varig foi pioneira no sistema de milhagem, entretanto hoje todas as outras
companhias também possuem o mesmo sistema de recompensa. Associando-se aos
cartões de crédito, quase todas as companhias passaram a transformar os dólares
gastos em pagamentos de faturas, em pontos válidos para o sistema de milhagem.
Na associação Varig - cartão Visa : para cada dólar pago com o cartão , o
cliente ganharia uma milha na companhia aérea!
A Localiza, por exemplo, também possui um marketing de relacionamento baseado
nos laços financeiros, seja no pagamento de um menor valor da diária, seja na
liberação dos quilômetros rodados, seja um benefício por ocasião do aniversário
do cliente, entre outros. Algumas empresas adeptas do laço financeiros também
propiciam, aos seus clientes antigos, preços menores do que aqueles ofertados
aos novos clientes; assim estarão recompensando seus clientes fiéis
prestando-lhes serviços ao longo do tempo.
Como podem ser facilmente copiados esses laços financeiros não terão vida muito
longa, devendo então ser acrescidos de outras vantagens ou revistos em seus
objetivos.
Resumo:
preços constantes
venda de serviços complementares
venda de serviços associados
premiações por volume
premiações por freqüência
Nível 2 : Laços Sociais
Os profissionais de marketing, além dos laços financeiros, estabelecem com os
clientes novas modalidades na tentativa de retê-los. Além do preço, que ainda é
fator importante para o cliente, laços mais estreitos lhe são ofertados: eles
deixam de ser apenas um número ou um desconhecido para ganhar rosto e
identidade. Deixam de ser anônimos para tornarem-se indivíduos, com necessidades
e desejos diferenciados.
Em uma empresa de seguros, por exemplo, a importância do tête a tête com o
cliente é fundamental para que se conheçam suas necessidades, únicas e
particulares. Esse relacionamento é estreitado pela oferta de brindes,
acompanhamento de agendas, períodos de intensificação do conhecimento do
cliente, descoberta de outras necessidades, entre outros.
Os laços sociais ou interpessoais são bastante comuns nos prestadores de
serviços como advogados, consultores, e, principalmente daqueles prestadores de
serviços dos centros de cuidados pessoais, como dentistas, médicos, institutos
de beleza, academias, clubes, ou sempre que houver interação de uns com os
outros, gerando proximidade e até, certa intimidade .
Esse tipo de laço também é facilmente encontrado nos relacionamentos
organizacionais em que o pessoal de venda desenvolve relações próximas com seus
clientes ou com as empresas. Uma dessas ações foi a criação do gerente de contas
como os gestores dos banco; conceito esse que estende-se agora também ao varejo,
já que esses gerentes trabalham junto com o cliente a fim de suprir todas suas
necessidades e atender a todos os seus anseios e desejos.
Organizações que estimulam a criação de laços, também entre os próprios
clientes, estão desenvolvendo estratégias de retenção de nível dois: se os laços
sociais não são suficientes para manter o cliente ligado à organização por toda
a vida, pelo menos dificulta a imitação de suas estratégias pela concorrência.
Os laços sociais podem, muitas vezes, desencorajar o cliente a mudar de
fornecedor pois a ligação é mais difícil de ser rompida.
Há algum tempo, introduzimos a etapa "Gerente de contas" em nossos treinamentos
de venda no varejo, principalmente no segmento de moda (artigos de alto luxo) e
o resultado foi altamente satisfatório: as vendedoras passam a ser também
consultoras e assessoras de moda além de gerenciar, elas mesmas, o seu ganho
mensal trabalhando a agenda e as necessidades dessas clientes especiais.
Resumo:
relacionamentos mais duradouros
relacionamentos pessoais
laços sociais verdadeiros
Nível 3 - Laços de Customização
Nesse nível parte-se do princípio que a fidelidade dos clientes pode ser
estimulada pelo conhecimento íntimo que se tem deles, como indivíduos. Também
pressupõe-se que o desenvolvimento de soluções individuais, adequadas à
necessidades de cada, seja uma forma de valorizar esse consumidor como ser
humano e não apenas como cliente. Na estratégia de nível 3, existem elementos
dos outros níveis, tanto dos laços financeiros como elementos do laço social.
A customização pode ser abordada sob duas óticas distintivas: desenvolvimento da
intimidade com o cliente, utilizada na prestação de serviços one to one, assim
como no conhecimento das suas preferências ao longo do tempo. E a customização
em massa , definida como sendo o uso de processos flexíveis e estruturas
organizacionais eficazes afim de produzir produtos e serviços variados e
frequentemente individualizados ao preço de produtos e serviços padronizados,
como se fossem alternativas da produção em massa (Zeithaml & Bitner, 2003).
Um exemplo da customização em massa poderia ser dado com os medicamentos que
escolhemos, e os serviços da drogaria entregam em nossas casas. Da mesma forma
podemos citar os serviços de delivery, encontrados em inúmeros segmentos. Alguns
restaurantes, ao programar seu serviço de entrega, utilizam-se de recursos
tecnológicos , capazes de informar ao cliente, suas ultimas escolhas, seus
pratos mais pedidos, os acompanhamentos mais solicitados conferindo ao
relacionamento um caráter de intensa proximidade.
Vale ressaltar que a informatização e as tecnologias avançadas são
indispensáveis na prestação desse tipo de serviço ao cliente. Os programas (CRM
- customer relationship management), permitem, através de um completo banco de
dados, um relacionamento muito eficaz com os clientes.
Na prestação de serviços, em consultoria empresarial, adotamos essa
customização: os programas de desenvolvimentos gerencial, os treinamentos de
venda, entre outros, são totalmente adaptados à necessidade de cada cliente. Uma
intensa coleta de dados, uma avaliação profunda das reais necessidades desse
cliente e a elaboração de programas distintos, são modulados diferentemente para
cada categoria de profissionais; ainda que a meta seja a mesma, os objetivos se
modificam em função da área de trabalho a ser treinada ou capacitada.
Resumo :
antecipação e inovação
customização em massa
maior intimidade com o cliente
Nível 4 - Laços estruturais
Um pouco mais difícil de serem imitados os laços estruturais também possuem um
pouco de cada um dos níveis anteriores. Algumas grandes empresas, do segmento
industrial, conseguiram desenvolver, a partir do seu trabalho de campo, uma
maneira de aperfeiçoar ordens de compra, separação dos pedidos, embalagem,
entrega, faturamento, ofertando um eficiente serviços pós compra, de modo que o
seu valor, aos olhos do cliente, tornou-se enormemente ampliado.
Ao fornecer, inicialmente, apenas o serviços prometidos, as organizações terão
um longo caminho a percorrer em direção à retenção dos clientes individuais. No
mundo dos negócios costuma-se dizer que o cliente tem sempre razão... Hoje já se
fala que nem sempre o cliente tem razão, outros, mais fanáticos afirmam que o
cliente é a própria razão de ser da empresa. Deixando de lado a obediência cega
aos manuais de marketing, ouvindo um pouco menos as nobres verdades dos gurus da
administração, podemos afirmar, sem dúvida, que nem sempre o cliente tem razão ,
nem sempre ele está certo...Onde ficaria a opção da empresa em querer ou não um
relacionamento complicado, desgastante ou pouco lucrativo com um determinado
cliente? A empresa precisa ter o direito de escolher bons clientes, parceiros
rentáveis e merecedores de um relacionamento de longo prazo!
Resumo:
processos e equipamentos compartilhados
sociedade nos investimentos
sistema integrado de informações
Conclusão
Sabemos que em qualquer relação existem as fases boas e as más fases.
Sabemos também que as empresas não podem oferecer tudo- o tempo todo- para
todos.
E#m uma consultoria empresarial, por exemplo, preferimos indicar um outro
profissional do que assumir um cliente que não não interessa pelos mais diversos
motivos.
Vale lembrar que o bom cliente é aquele cliente lucrativo, exigente - que nos
leva a melhorar sempre, que traz inovação ao nosso negócio e que seja,
verdadeiramente, um parceiro. Assim, uma empresa não pode direcionar todo tipo
de serviços para todos os clientes. Se a empresa percebe que não pode atender a
uma necessidade especifica de um cliente, melhor que não caia na tentação de
fechar o negócio, e nem insistir em relações incompatíveis, com o seu core
business, suas estrutura de atendimento e seu quadro de pessoal.
No desenvolvimentismo de relações duradouras com os clientes são necessários
benefícios, estratégias, concentração em planos de atração, mas também ações
específicas para satisfazê-lo, fidelizá-lo e retê-lo por um longo prazo.
Observar a saída desses clientes, analisar o valor do seu ciclo de vida,
segmentar o mercado especificando com quem a empresa quer interagir; desenvolver
contínuos programas de satisfação para o cliente, monitorá-los por meio de
pesquisas e manter um banco de dados o mais atualizado possível , é investir em
programas e em tecnologias que permitam estreitar os laços com esses clientes.
Ainda são eles, na verdade, a razão de existir das organizações, e nada seria
possível sem eles; pensando nisso vale a pena investir em sua felicidade
proporcionada pela nossa empresa: mais feliz, mais fiéis...até quando ?.
Satisfação é a resposta ao atendimento
que se presta ao consumidor; é a avaliação
de uma característica de um produto ou
serviço indicando que por meio deles se
atinge um nível de prazer e satisfação,
proporcionado pelo seu uso ou consumo. (Oliver)
Bibliografia
COPULSKY, JR. & WOLF,MJ. Marketing de Relacionamento, Jornal de Estratégias em
Negócios, Nova Iorque, 1990
KOTLER, P. Administração em Marketing, Prentice hall, São Paulo, 2006
ZEITHALM, V. & BITNER J. Gerenciamento de Serviços, Bookman, São Paulo, 2003
STONE M.& WOODCOCK, N. Marketing de Relacionamento. São Paulo, Littera Mundi,
1998.
Rosângela Maluf é mestre em administração de empresas, pós graduada em
marketing, professora universitária, consultora empresarial do segmento de moda
feminina, palestrante, autora de artigos sobre consumo em mercado de luxo.
rmconsulting.bh@gmail.com