O Lamento das Coisas
Por Jerônimo Mendes
06/07/2009
“Triste a escutar, pancada por pancada, a sucessividade dos segundos, ouço, em
sons subterrâneos, do orbe oriundos, o choro da energia abandonada; é a dor da
força desaproveitada, o cantochão dos dínamos profundos, que, podendo mover
milhões de mundos, jazem ainda na estática do nada.”
Esses versos compõem os quartetos do primoroso soneto Lamento das Coisas,
escrito pelo inconfundível poeta paraibano Augusto dos Anjos no início do século
passado, uma obra-prima sem precedentes. Na primeira oportunidade que tiverem,
leiam-no por inteiro e sentirão na alma o que eu digo.
Como admirador incondicional da sua obra, tomo a liberdade de recorrer ao poder
de penetração quase enigmático do grande poeta para discorrer um pouco sobre os
efeitos negativos provocados pelo simples lamento das coisas, sob um ponto de
vista diferente, quando nossa postura acaba priorizando coisas e fatos que não
agregam o mínimo valor ao nosso desenvolvimento pessoal e profissional.
O lamento constante está arraigado na natureza humana e deve-se, em parte, aos
modelos mentais previamente estabelecidos em nossa mente desde a mais tenra
infância. Segundo Daniel Goleman, autor de Inteligência Emocional, nossa
biologia, cultura, experiência e história pessoal são determinantes em nossa
formação moral e intelectual, portanto, na maneira de enfrentar as dificuldades
e de julgar o mundo ao nosso redor.
Existem pessoas que vivem a maior parte da vida lamentando aquilo que não
possuem e até mesmo aquilo que possuem em excesso. Acordam cedo, passam o dia e
dormem se lamentando ao imaginar que o dia seguinte será novamente uma corrente
de má sorte. Lamentam quando estão sem emprego e quando empregados lamentam o
fato de não estarem no emprego correto. Lamentam quando o salário é baixo e
quando ganham aumento continuam lamentando por não ser suficiente para as
despesas. Reclamam quando o marido chega tarde do trabalho e quando chega cedo
reclamam que não devia nem ter vindo. Reclamam quando a esposa não está bem
arrumada e reclamam ainda mais quando o cartão de crédito registra um pequeno
investimento no salão de beleza. Lamentam quando os filhos estão em casa fazendo
bagunça e choram quando os filhos vão embora. Lamentam pelo carro que ainda não
compraram, a casa que ainda não moram, os filhos que não existem, os cargos que
ainda não conseguiram, o chefe maravilhoso que ainda não nasceu. O mundo é para
elas uma fonte inesgotável de problemas.
Para muitas pessoas, o lamento, a reclamação, o pessimismo, a inveja e,
consequentemente, o pré-julgamento, são um mal necessário. Em sua pobreza de
espírito, ótimos locais de trabalho, excelentes salários, roupas de grife,
natureza, carros, clubes, teatros ou mesmo uma bela mansão nunca serão
suficientes para aplacar o mal que elas insistem em alimentar dentro de si.
Realmente, o mundo não é tão fácil quanto poderia ser, porém fica mais difícil
mediante a facilidade humana para tornar as coisas simples por vezes complexas.
Levantar cedo todos os dias mal-humorado, triste ou desanimado da vida é mais
fácil, afinal, reclamar, invejar, julgar, falar mal dos outros, aparentemente,
não requer muito esforço. Ao contrário, o ser humano consegue fazê-lo com boa
desenvoltura mesmo porque o faz quase que de maneira inconsciente. O meio em que
vivemos e os amigos que escolhemos acabam apoiando o nosso pré-julgamento e
este, por sua vez, transforma-se num hábito. Quantas vezes você já discordou de
um julgamento emitido por um amigo sobre determinada pessoa ou circunstância? É
preferível concordar a perder o amigo.
Difícil mesmo é levantar da cama, diariamente, pronto para uma jornada de
felicidade, de produtividade, de otimismo, de boas ações, independentemente da
empresa que nos acolhe, do salário insuficiente, do chefe mal-humorado ou do
colega de trabalho que vive puxando o nosso tapete. Nossas ações são geralmente
contraditórias e nosso discurso não se consolida na prática. Estamos sempre nos
apoiando em muletas que nunca mudarão a nossa forma de pensar e agir a menos que
nos livremos delas definitivamente.
A vida é relativamente curta para ser desperdiçada e razoavelmente longa para
ser bem aproveitada. Podemos realizar muito mais coisas em 30 ou 40 anos de
otimismo e força de vontade do que em 80 ou 90 anos de pessimismo e lamentação.
Que o lamento seja apenas a alavanca necessária para a reflexão e o crescimento
pessoal e profissional, um sopro temporário nas idéias que, por vezes, se
desarranjam, um passo derradeiro para trás na certeza de que o próximo será mais
firme e promissor em direção aos nossos sonhos e realizações. Pense nisso e seja
feliz!
Jerônimo Mendes é Administrador, Consultor e Palestrante
Autor de Oh, Mundo Cãoporativo! (Qualitymark) e Benditas Muletas (Vozes)
Mestre em Organizações e Desenvolvimento Local pela UNIFAE