As Leis de Marca
Por Fred Tavares
22/08/2007
O poder de uma marca reside em sua capacidade de influenciar o comportamento de
compra do consumidor. Um programa bem sucedido de branding se baseia no conceito
de singularidade. Ele cria na mente do cliente em potencial a percepção de que
não há outro produto no mercado como o seu. Para tanto, a escolha da estratégia
representa um direcionamento para assegurar que a posição seja exclusiva e deva
estar apoiada na diferenciação. Idéias com as quais concordam Al Ries e Michael
Porter. A única diferença é que Al Ries observa que a mente é o objetivo e o
mercado é a conseqüência. Para que a estratégia seja eficaz, o marketing deve
estar atrelado para cristalizar a marca na mente do cliente em perspectiva. A
estratégia deve ser excludente (trade-off); isto quer dizer, não dá para querer
tudo. Os esforços devem ser concentrados no alvo pretendido, teoria muito bem
defendida por Porter, com a qual corrobora Al Ries: “alargar a base, ampliar o
apelo e estender a linha são tendências populares em marketing. As mesmas forças
que tentam aumentar a participação de uma empresa no mercado são as forças que
minam o poder de marca”.1
Estratégia e marketing são questões básicas para o sucesso da marca. Agora vamos
apresentar leis que ajudam a realizar este objetivo. Estabelecemos os aforismos
de cada lei e faremos as correlações com a marca Coca-Cola, que serve de objeto
de análise para demonstrar os conceitos apresentados aqui.
O princípio axiomático das leis de Al Ries aponta para uma conclusão bem
objetiva. As leis de marca são úteis para as decisões acerca da estratégia e do
marketing da empresa e de suas marcas. Quem possui uma marca forte e de
confiança (trustmark) tem o maior ativo de uma empresa nas mãos. Não é por acaso
que Coca-Cola é a marca nominal individual mais valiosa do planeta, como já
vimos anteriormente.
Da Antigüidade para a época atual, as marcas avançaram significativamente. De
simples selos a produtos, até a transformação final em marcas. A evolução foi
generosa, trouxe consigo benefícios e vantagens para o mercado, abertura de
novas oportunidades, aquecimento da economia e a saudável competição entre as
empresas, pela jornada da liderança na mente do consumidor.
Marcas fortes, negócios lucrativos. A marca virou um ativo valioso e objeto de
desejo; passou a ser considerada um diferencial nas transações envolvendo fusões
e aquisições pelo mundo afora. A vantagem em se ter uma marca forte foi — e é —
o grande objetivo estratégico de qualquer companhia no planeta. As pessoas não
compram produtos, escolhem marcas. Decidem sobre aquelas que têm os valores com
os quais se identificam em termos de conceito de produto, características
lingüísticas e aspectos psicológicos — estes principalmente, por conduzirem ao
viés da emoção. Nesse sentido, a emoção desbancou a razão. A marca é a
“necessidade” que faltava à vida do ser humano. É uma necessidade tão real que
chega a ser fisiológica, e isto se deve ao bombardeio incessante da
comunicação de massa, através, por exemplo, do esforço de marketing
publicitário. Qual a razão de um consumidor pagar 300% a mais sobre um produto,
que é “igual” ao outro? A resposta é simples: a marca e a emoção que ela
proporciona.
As marcas têm funcionalidade, mas de nada adiantaria se elas não existissem
enquanto símbolos, e que pudessem — e o fazem bem — transmitir a diferença e a
singularidade para que os indivíduos na sociedade de consumo encontrassem os
seus pares para trocas simbólicas, econômicas, sociais, e afirmar a sua
identidade enquanto indivíduos — e não só como consumidores — dentro de um
coletivo, conforme captamos através do pensamento de Bourdieu e de outras
correntes ideológicas, que estão na mesma linha de reflexão: Canclini e Durkheim,
para o entendimento da contemplação, do endeusamento e da condição emblemática
das marcas no simbolismo social da vida humana.
Racionalmente falando, a marca é pura emoção e “instrumento de socialização”. O
ideal das marcas é conquistar a máxima estatura e vitalidade no mercado. Para
conseguir isso, é indispensável uma estratégia que dimensione adequadamente a
composição da marca (brand strategy), as políticas, os tipos e as abordagens que
sejam capazes de produzir a diferença, a exclusividade e a singularidade. Sem
esquecer, é claro, de saber se estão respeitando as leis (pelo menos uma boa
parte delas), procurando manter-se no foco contínuo e administrar recursos de
marketing que permitam gerir a estratégia com coerência de propósito.
Vivemos sob o imaginário das marcas, o simulacro da vida, onde tudo é perfeito e
belo e as marcas funcionam como a catarse do desejo coletivo. As marcas
estabelecem e reforçam a identidade e amor próprio dos consumidores, que nelas
procuram âncoras racionais, emocionais — principalmente — e respostas para a sua
afirmação e existência na sociedade moderna.
A marca proporciona prestígio, reconhecimento social e até um certo status. A
era das marcas chegou com todos os seus valores e predicados; é um fenômeno de
estratégia e de marketing. As marcas passaram a ser adoradas por todas as
classes, raças, credos e religiões, em qualquer lugar onde exista vida, consumo
e socialização, conforme Schweriner, no artigo “A religião das marcas”,
publicado na revista ESPM, de maio/junho deste ano. Se os fiéis são os
consumidores, o Papa é a estratégia, o padre é o marketing e as marcas, a
própria religião. Segundo Schweriner, em reportagem publicada pelo jornal
Financial Times, de Londres, acerca da Young & Rubicam (agência já mencionada,
que é um dos maiores conglomerados de comunicação do planeta), que divulgou sua
mais recente lista das marcas mais reconhecidas por consumidores, resultado de
uma pesquisa efetuada em 19 países, comparando-as com “uma nova religião”. No
estudo realizado pela Y&R, as “10 mais” são, por ordem: Coca-Cola, Disney, Nike,
BMW, Porsche, Mercedes-Benz, Adidas, Rolls Royce, Calvin Klein e Rolex. São os
“novos 10 mandamentos”, que nos dizem: você deve beber Coca-Cola, levar o seu
filho para brincar na Disney, usar o tênis Nike, guiar um BMW, dirigir na
máquina do Porsche, ou se você tiver estrela é melhor ir de Mercedes. Assim
enfatiza Schweriner:
As marcas constituem a nova religião. As pessoas que se voltam para elas em
busca de sentido possuem paixão e dinamismo necessários para transformar o mundo
e converter as pessoas em sua maneira de pensar. Tais marcas propõem-se a
resolver necessidades humanas, assim como propiciar gratificação.2
Das marcas apontadas no estudo da Y&R, a Coca-Cola também lidera a pesquisa
realizada no ano de 2000, pelo Instituto Interbrand, em matéria publicada no
jornal Valor Econômico sob o título “Microsoft encosta no valor da líder
Coca-Cola”:
O valor da marca Coca-Cola é de US$ 72,5 bilhões. É calculado segundo
estimativas de seu potencial de rendimentos futuros baseado na demonstração
financeira contábil e no relatório de analistas. A pesquisa anual é realizada
pela Interbrand com a ajuda do Citibank. Já em seu segundo ano, é a única
análise mundial abrangente sobre o valor das marcas globais. Ela demonstra que,
logo depois da Coca-Cola, as empresas de tecnologia representam 4 das 5 maiores
marcas mundiais.3
AS MARCAS BILIONÁRIAS
Ranking Marca País Valor da marca 2000 1999 em US$ bilhões
1 1 Coca-Cola EUA 72,5
2 2 Microsoft EUA 70,2
3 3 IBM EUA 53,2
4 4 Intel EUA 39,0
5 5 Nokia Finlândia 38,5
6 6 General Electric EUA 38,1
7 7 Ford EUA 36,4
8 8 Disney EUA 33,6
9 9 McDonald’s EUA 27,9
10 10 AT&T EUA 25,5
Fonte: Interbrand apud Jornal Valor Econômico, 19 de julho de 2000: B3.
Para a Interbrand, a marca Coca-Cola lidera o ranking de 2000, porém a avaliação
do seu valor é diferente da feita pela Digital Darwinism. Contudo, a gigante do
mercado de refrigerantes é a única marca do seu setor a figurar entre as 10
marcas mais valiosas do mundo. O mesmo ocorre com a pesquisa da Y&R.
2 Schweriner, A religião das Marcas 2001: 22.
3 Valor Econômico, 19 de julho de 2000.
“Deixe a estratégia da marca introduzir a estratégia empresarial”,4 afirmam
Aaker e Joachimsthaler, em trabalho publicado no livro Administração de marcas:
on brand management, da Harvard Business Review. A estratégia de marca e os seus
componentes de produto, lingüísticos e psicológicos constroem e fortalecem a
imagem e o posicionamento da marca bem como a eqüidade da marca.
4 Aaker; Joachimsthaler, Construindo marcas líderes, 2001: 12.