O Luxo no tarô : a carta XVII
Por Rosângela Maluf
04/02/2009


Desde muitos anos atrás, quando comecei a me interessar pelo tarô(curiosidade que continua até hoje), sempre achei a carta XVII , TheStar, um luxo!

Tratava-sede um ser humano, do sexo feminino, nu, despojado de toda e qualquer identificação. Despido de suas pretensões, expunha seus elementos essenciais sem nenhum pudor, sem máscaras, nenhuma persona que pudesse impedir a revelação de sua natureza básica. Ajoelhada à beira de um rio, equilibrando duas jarras com água, cuidando igualmente das duas com aquele olhar perdido, e ao mesmo tempo tão concentrado, aquela mulher tinha um que de contemporaneidade que me intrigava. Daquela jarra que se derramava sobre a terra e da outra que retornava ao rio ela mantinha seu equilíbrio entre o terreno e o divino, o céu e a terra, a presença e a fuga.

Atrás e acima dessa mulher ajoelhada, sete estrelas preenchiam o céu girando em torno de uma estrela dupla, central. Todas elas pareciam possuir identidades próprias, nenhuma se parecendo com a outra, não existindo duas iguais.

A mulher estrela, que eu costumava ver nas cartas, era serena,calma,introspectiva, silenciosa. Me parecia um pouco triste. Faltavam-lhe acessórios, roupas, um banho de loja, um trato especial, uma semana num spa, pensava com meus botões. Leio Sallie Nichols e aprendo com ela que na associação livre de Jung usa-se a imagem original apenas como trampolim para vôos fantasiosos que nos afastam da idéia central.

Será isso então? Essa mulher estrela assume ante meus olhos, sua imagem de star, mulher cinema, diva, loura, linda platinada,hollywoodiana, cabelos longos, pintados, brilhantes , ballayage,caindo em cascatas pelos ombros nus. Seu rosto assume cores do alabastro, pele perfeita, maquiada, olhos delineados, traços fortes ressaltados por pincéis de muitas cores. Maçãs do rosto,coloridas, boquitas pintadas, frida kahlo e suas cores,

Que ela se ponha de pé, se alongue, barriga pra dentro, bumbum pra fora,se vista de tules e rendas, troque as ânforas por braceletes, jóias,grandes brincos, pedrarias...flores, ouse tudo, misture tudo,metamorfoseando-se, como um casulo em borboleta, pirilampo, libélula. Conte uma história, invente uma epopéia, nos encante mulher estrela, seja um luxo só.

Saia desse baralho, deixe de lado esse tarô, venha ser feliz conosco:bem-vinda ao mundinho top do consumo. Estenda seu braço, mostre seu patek philippe em ouro branco, exiba seus anéis bvlgari,suas correntes cartier. Seus brincos tiffany são lindos, imensos, longos, quase lhe chegam aos ombros aveludados,hidratados por cremes shiseido.

Olha,mulher estrela, existem absurdos nesse novo mundo que quero lhe apresentar.

Comecemos então com um coquetel de boas vindas - um anel de brilhante no lugar da azeitona. Ficará lindo em sua mãozinha de fada mas lhe custará US$55.000, a taça - por isso nada de exageros. Beba socialmente,apenas isso. O barman Jay Malik, do bar inglês da Harvey Nichols, Manchester, poderá ainda lhe oferecer outros coquetéis mais simples e "mais em conta", a partir de 27 mil dólares. Ah, não se preocupe, seu drink será acompanhado até a mesa por guardas de segurança.

Como qualquer mulher, normal, você deve adorar um sapatinho- todas nós carregamos conosco a síndrome de cinderela, não é mesmo? Vou lhe contar um segredo: por 2 milhões de dólares seus delicados pezinhos poderão entrar, confortavelmente numa sandália inspirada nas pantufas de rubi do Mágico de Oz. Para tornar esse sonho realidade,o designer Stuart Weitzman usou metros e metros de fios de platina e sabe quantos rubis? 642 !!! Seiscentos e quarenta e dois rubis, veja só!

Um perfuminho básico antes de colocar aquele vestido des-lum-bran-te...

Cuidado ao abrir a caixinha embalada em platina pois só foram fabricadas173 unidades dessa maravilha, que dentro dos seus 10 cm de altura,comporta ouro 24 quilates, rubis e diamantes produto de uma feliz inspiração do perfumista Arthur Burnham: o vidrinho do Six custa apenas US$96.500, mas deve ser inebriante, ah, deve mesmo!

Se a ocasião exigir um modelito mais discreto, você pode pagar US$807mil e ter o pretinho básico, aquele, o original, criado por Givenchy para Audrey Hepburn no filme Bonequinha de Luxo (1961).Básico, básico, básico mas foi leiloado pela Christie's de Londres e é considerado o vestido mais caro da história do cinema,nada mal, hein?

Olha,para convidar para esse jantar chiquérrimo que você programou,coloque sua vozinha rouca e sensual num celular Goldvish LeMillino, criado por Emanuel Gueit.

Todo confeccionado em ouro branco, amarelo e vermelho, cravejado de brilhantes da mais absoluta pureza e ainda revestido, parcialmente,com couro de crocodilo, é um verdadeiro luxo! E o precinho bem raisonable : 2,5 milhões de dólares.

Agora,querida estrela, se nada disso der certo, se você estiver num daqueles dias em que nada funciona, renda-se ao luxo: chore suas lágrimas cristalinas, abraçadinha ao ursinho de pelúcia feito com fios de ouro, cujos olhinhos de safira e brilhantes o tornam ainda mais feiozinho: nem vale os 2,5 milhões de reais que a empresa alemã Steiff pede por cada um desses mimos.

Volto à minha carta do tarô! Em sua vertente cíclica, a mulher estrela compreende que a jornada para a consciência é um processo contínuo e circular; assim ela se re-descobre, se reconhece e integra um lado escondido nas sombras, até então, não reconhecido e que,finalmente, salta à luz. Se despe de todo o luxo e volta para asmargens do seu rio já conhecido, concentrada em equilibrar suas ânforas, livre, solta, serena e linda a ver estrelas.

Conclusão

O que são valores?

Valor pode ser definido como o potencial que um produto possui para satisfazer as necessidades e os desejos dos clientes ou dos consumidores. Existiriam então dois amplos grupos de valoresd esignados : valores universais e valores pessoais.

Na abordagem que fizermos sobre o exagero dos produtos de alto(altíssimo) luxo, os valores podem ser universais, pessoais ou ambos. Segundo Sheth (2001), chamamos de valores universais àqueles que, em qualquer nação ou cultura do mundo, visam satisfazer as necessidades do consumidor ou do cliente; já os valores pessoais estariam relacionados aos desejos dos clientes e por isso mesmo diferem tanto de uma pessoa para outra.

Os valores pessoais extrapolariam a razão básica e universal que leva uma pessoa a consumir um produto ou um serviço, sendo mais individualizados, interiorizados, basicamente relacionados ao prazer, ao conforto pessoal, ao status que o bem transmite a quem o consome.

Ainda segundo Sheth (2001), cada grupo teria três valores , um para cada papel do cliente. Cada classe de valores corresponde a uma ação diferenciada de marketing:

* assim, os valores universais seriam baseados na diferenciação dos produtos (o produto "x" como diferente de tudo que a concorrência pensa fazer);
* os valores pessoais, específicos do grupo, seriam a base das estratégias de segmentação, que focam os sub grupos dentro de um grande mercado;
* e finalmente os valores pessoais, específicos do indivíduo que formariam a base do marketing de relacionamento e do marketing one to one.

Para o consumidor, o valor universal poderia ser traduzido pelo desempenho, o valor pessoal seria social para o grupo como um todo e emocional ao nível do indivíduo; para o consumidor pagante o valor universal centralizaria no preço; ao nível do grupo o valor pessoal seria o crédito enquanto que para o indivíduo seria o financiamento; para o comprador, o valor universal seria o serviço,o valor pessoal referente ao grupo seria a conveniência e o valor pessoal, ao nível do indivíduo, o valor da personalização.

O consumo dos mercados de luxo, em seus mais distintos segmentos,continua em franca expansão em todos os países do mundo: dos mais ricos aos mais pobres e miseráveis . Não importa se o produto é verdadeiro, se é uma cópia, réplica ou uma simples imitação barata. O que importa é o sentimento de felicidade/recompensa que cada produto ou serviço oferece ao seu usuário e esse valor é único e intransferível. Se antes apenas uma mínima parcela da população mundial poderia realizar esses sonhos, hoje os mercados populares, os shoppings, as compras on line colocam no mesmo cesto os sonhadores x seus objetos de desejo x suas marcas de delírio.

Rosângela Maluf é mestre em administração de empresas, pós graduada em marketing, professora universitária, consultora empresarial do segmento de moda feminina, palestrante, autora de artigos sobre consumo em mercado de luxo.
rmconsulting.bh@gmail.com