Marca, Signo e Mito Por Fred Tavares 22/08/2007
Será feita aqui uma outra reflexão, breve, mas relevante: a marca é um signo de
linguagem, e quando é estabelecida na mente do público, torna-se pouco provável
a sua mudança em termos de percepção e valor. Valente (1997) apresenta uma ampla
visão do signo.
Chama-se semiologia ou semiótica, a ciência geral dos signos. O primeiro termo
foi utilizado por Ferdinand de Saussure, lingüista genebrino; o segundo pelo
norte-amercano Charles Sanders Peirce. Saussure e Peirce foram contemporâneos e
desenvolveram seus estudos no final do século XIX e início do século XX, sem que
um tomasse conhecimento da obra do outro. (Valente, 1997: 14)
A obra de Saussure privilegia o signo verbal (signo, significante e significado)
enquanto Peirce valoriza os signos não-verbais (índice, ícone e símbolo),
segundo o próprio Valente (1997), em seu livro A linguagem nossa de cada dia .
Comecemos, pela idéia da marca como um signo; tomaremos como base a teoria
semiológica apontada por Saussure (1973), que apresenta a natureza do signo
lingüístico como a associação entre significante e significado.
Propomo-nos a considerar o termo signo para designar o total, e a substituir o
conceito e imagem acústica respectivamente por significado e significante. (...)
Quanto a signo, se nos contentarmos com ele, é porque não sabemos por que
substituí-lo, visto não nos sugerir a língua usual nenhum outro. (Saussure,
1973: 81)
Para Valente (1997), “o mestre genebrino Saussure descreve que o signo
lingüístico é arbitrário e convencional. (...) É óbvio que, depois de atribuído
ao objeto, o nome passa a ter um valor na língua” (Valente, 1997: 38). Isto é, o
signo lingüístico é arbitrário a priori , e deixa de sê-lo a posteriori .
Barthes (1985), em Elementos de semiologia , define que “o signo é, pois,
composto de um significante e um significado. O plano dos significantes
constitui o plano de expressão e o dos significados o plano de conteúdo”
(Barthes, 1985: 43).
Em perspectivas semiológicas, Barthes sublima que a noção saussuriana foi de
grande densidade para o desenvolvimento da área de antropologia; “a referência a
Saussure é demasiado explícita na obra de Claude Lévi-Strauss” (Barthes, 1985:
27). Destaca-se, portanto, a fecunda posição de Lévi-Strauss quanto ao caráter
de função simbólica do signo para efeito de um sistema de significação e do
imaginário coletivo ( ibid .: 27-28).
A idéia de conceito simbólico é defendida por Eco ( apud Valente, 1997: 14), da
seguinte maneira: “Propomos, destarte, definir como signo tudo aquilo quanto, à
base de uma convenção social previamente aceita, possa ser entendido como algo
que está no lugar de outra coisa”.
Na análise de Bordenave (1983), o pensamento estruturalista deu origem à ciência
dos signos. Dessa forma, em 1916, Saussure criou a semiologia, mais tarde
chamada também de semiótica por Peirce, como a ciência que estuda a teoria dos
signos e sua influência na vida individual e social (Bordenave, 1983: 52).
Já Pignatari (1973) aponta Charles Sanders Peirce como o criador da idéia do
signo como um representamen , isto é, toda coisa que substitui outra,
representando-a para alguém, sob certos aspectos e em certa medida (Pignatari,
1973: 26-27). Para Pignatari (1973), foi Peirce o primeiro a tentar “uma
sistematização científica do estudo dos signos”, com o trabalho publicado sob o
título Logic as semiotic: the theory of signs (“Lógica enquanto semiótica: a
teoria dos signos”), composto de artigos escritos entre 1893 e 1910 ( ibid .:
27).
Valente (1997) é simples e preciso ao afirmar: “Se Peirce construiu uma teoria
geral dos signos, foi Saussure que desenvolveu cientificamente o estudo do signo
lingüístico ou signo verbal: a palavra” (Valente, 1997: 36).
Valente (1997), como expusemos no início, faz um relato histórico a respeito dos
dois principais artífices da lingüística. Evita (e o faz muito bem) cair na
“armadilha da paternidade” e da selva semântica dos termos – semiologia e
semiótica. É elegante e perspicaz para perceber que ambos tiveram (e têm)
importância no conjunto da obra. Afinal, o signo tem componentes verbais e
não-verbais. E estão de certa forma associados (principalmente se considerarmos
o nosso objeto de estudo que é a marca). A seguir serão introduzidas as
principais idéias de Peirce.
Com base nas diferenças existentes na relação significante / significado, Peirce
apresenta três tipos de signos ( representamen , na sua terminologia): ícone,
índice e símbolo (Valente, 1997: 14). Que se aplicam à marca e o seu caráter
icônico, indicial e simbólico.
Se alguma coisa pode ser utilizada para comunicar, é porque ela pode representar
a outra coisa. A relação triádica porposta por Peirce motiva algumas
considerações (Valente, 1997: 14-32):
• Ícone – apresenta uma relação de semelhança entre significantes e significado.
Icon , elemento grego, significa imagem. Uma relação metafórica segundo
Vestergaard (2000: 33).
• Índice – apresenta uma relação direta entre significante e significado. O
índice tem como um traço principal a contigüidade (proximidade). Exemplo de
signo indicial: a fumaça (indica que algo está ou esteve pegando fogo). O índice
é visto como metonímia, velha figura de retórica e muito utilizada nas mensagens
publicitárias, de acordo com Vestergaard (2000: 33-34).
• Símbolo – apresenta uma relação convencional entre significante e significado.
Ele não é gratuito. Existe uma ligação entre o significante e o significado.
Possui caráter conotativo, sendo uma forma de convenção (Valente, 1997: 32-34).
É uma convenção iconográfica, que estabelece com os outros dois, um trinômio
perfeito (Vestergaard, 2000: 35).
“Os signos mais perfeitos são aqueles em que o caráter icônico, indicativo e
simbólico estão amalgamados em proporções tão iguais quanto possível” (Peirce
apud Sandmann, 1993: 16-17). Endossado, também, por Jakobson, em Lingüística e
Comunicação (1995).
O símbolo pode ser metáfora e metonímia ao mesmo tempo. Desde que, a comunicação
(propaganda / publicidade) construa esta noção. “O processo da construção da
mensagem com figuração de sentido é que explica a presença de símbolos”
(Valente, 1997: 34).
O caráter de representatividade é simbólico. Contudo, a idéia não é uma mera
convenção. As idéias simbolizam, porque encontram um campo dos sentidos, para a
sua decodificação, conforme explica Pinker (1998: 35-36).
A simbolização tem força quando utiliza-se de algo que existe na mente para
ajudar a fortalecer a idéia / conceito.
É necessário um empenho publicitário sistemático para que se estabeleça um elo
entre uma imagem arbitrária e determinado produto. No entanto, os exemplos não
faltam, como os símbolos de fábricas de automóveis. Em outros casos, o nome do
produto vem escrito em tipos característicos, que acabam por simbolizar o
produto (por exemplo, Coca-Cola). (Vestergaard, 2000: 38)
O logotipo Coca-Cola tem uma força sígnica muito grande. O fato de sua
representação iconográfica (letras, cores e a “onda”) ser reconhecida
mundialmente, é porque a idéia dependeu não só de muita propaganda para criar o
vínculo. Mas, a escolha da cor (vermelho), por exemplo, procurou criar uma
relação (predisposição) com o objeto, a partir de algo já definido no
inconsciente coletivo.
A garrafa da Coca-Cola também. Quando falamos da associação com a “Garota
Coca-Cola”, o seu arquétipo feminino junguiano, a marca buscou produzir uma
expressão de comunicação mito-simbólica para facilitar o entendimento e o
reconhecimento de forma mais contundente.
Para encerrarmos a incursão teórica (e exemplificarmos, posteriormente, as
teorias apresentadas), vamos recorrer a Eco, em sua primorosa obra: A estrutura
ausente: introdução à pesquisa semiológica :
O significado deve surgir para nós como aquilo que o código coloca em relação
semasiológica com o significante. Em outras palavras: o código estabelece que um
dado significante denota um determinado significado. O fato de que depois esse
significado se cristaliza na mente do falante sob forma de conceito, ou na
sociedade, sob forma de média dos usos concretos. (Eco, 1971: 24-25)
Para construirmos um exemplo, aglutinando os conceitos relatados e a visão de
marketing , estratégia e marca, vamos retratar uma estrutura do signo (marca), e
analisá-la através da marca Coca-Cola e fazer, em seguida, as ilações
pertinentes.
A marca é um signo (Carvalho, 1996). O significado é a estratégia. O
significante é a tática. O significado não muda.
Para Lévi-Strauss o signo lingüístico é arbitrário a priori, mas deixa de ser a
posteriori; uma nova abordagem poderá levar a uma dissonância cognitiva, visto
que a sua significação já está incorporada ao repertório e à mente do
consumidor. (Tavares, 2001: 92)
Quando posicionamos uma marca na mente do mercado, não dá para mudar pelo fato
da marca ser um signo cognoscível já arbitrado (convenção) com um valor na mente
(Foucault, 1999: 85), conforme a teoria estruturalista de Lévi-Strauss.
Se olharmos o pensamento formulado por Lévi-Strauss, a partir da teoria de
Saussure, nota-se que vai ao encontro do que defendem Porter, Ries e Kotler, em
estratégia e marketing , sobre a idéia do posicionamento (mercado / mente).
A marca é o signo. O posicionamento é o cerne da estratégia (cristalização). As
táticas atualizam e rejuvenescem a marca, mas não modificam a sua posição, ao
contrário, ratificam-na.
A estrutura pressupõe harmonia entre as partes: signo, significante,
significado, ícone, índice e símbolo. É vital para a marca (e o posicionamento,
é óbvio) que a relação seja integrada e perfeita. Por exemplo, as campanhas de
comunicação devem reforçar a estratégia já cristalizada, e não querer mudar o
que já está fixado na mente (percepção), pois os elementos icônicos, indéxicos e
simbólicos já fazem parte do campanário mental. Destarte, a marca torna-se uma
estrutura mito-simbólica. Experimente mudar a marca Coca-Cola da mente das
pessoas. Simplesmente, não funciona.
Roland Barthes, no capítulo “O mito hoje”, postula que o mito é “uma forma de
discurso”, “um sistema semiológico” e “uma modalidade de significação” (Barthes,
1975: 129-178).
O mito (a marca) é um sistema de comunicação, que se apropria de algo que já
existe enquanto percepção e comunicação, para revelar-se (a visão bottom - up ,
a qual se refere Al Ries, em Marketing de Guerra II: a ação , 1989).
O mito (a marca) é um sistema semiológico, porque aglutina o significado e o
significante, e a própria relação entre os dois: signo, na forma de entidade
concreta. E a comunicação consegue fazer do mito (marca) “um signo lingüístico
perfeito” (o cartaz de ponto-de-venda criado pela Coca-Cola reforça essa teoria.
A empresa nem precisa ter o seu logotipo aparecendo totalmente. A marca é tão
forte, que uma parte representa o todo (metonímia). Isso é criatividade; a arte
da simplicidade.
O mito é um sistema de significação, pois, além de designar e notificar, faz-se
compreender e, acima de tudo, impor-se na mente das pessoas.
Na perspectiva de Barthes (1975), em Mitologias , conhecer as profundezas do
conceito mítico é descortinar um olhar semiológico sobre ele. Para
compreendê-lo, é preciso vê-lo como um sistema particular construído a partir de
uma cadeia semiológica existente já antes dele: como um sistema semiológico
seguro. O que nos leva frontalmente à proposição do conceito mítico formulado
por Freud, como sendo uma repetição histórica (Távola, 1985: 11-33). Portanto, o
mito (a marca) tem uma massa ilimitada de significantes e a alteração
comportamental da sociedade faz com que ele seja reapresentado inúmeras vezes,
funcionando como uma verdade profunda da mente mergulhada no inconsciente
(Tavares, 2000: 37).
Um bom exemplo sobre a marca (mito) como sistema de significação é o que falamos
a respeito dos primeiros anúncios da marca, que foram feitos pelo astro de
beisebol americano, Ty Cobb. Em seguida, a Coca-Cola passou a retratar Papai
Noel (criado pela própria Coca-Cola) como o seu mais novo garoto-propaganda (Dearlove;
Crainer, 2000: 21). E hoje, no Brasil, podemos verificar a parceria entre a
marca Coca-Cola e Pelé , o atleta-símbolo do século XX.
A comunicação vitriniza os arquétipos. A magia da marca está associada ao fato
de se ligar a ídolos, que grande parte do mundo venera (Rocha, 1995). Ontem,
hoje e sempre. Mudam-se os significantes, mas o significado continua o mesmo.
A questão da globalização (Fiori, 1998) também merece destaque. Coca-Cola é uma
marca mundial. Está em quase todos os lugares do mundo. Entretanto, deve estar
atenta aos valores culturais, políticos, religiosos e ideológicos de cada lugar
e, até mesmo, adaptar-se às culturas em função das idiossincrasias locais,
quando for o caso. A marca pode fazer isso apenas pelo significante (tática). O
esforço de “glocalização” deve ser realizado através, por exemplo, de troca de
modelos nas campanhas (países como Japão, Egito, Zâmbia etc), anúncios e ações
que valorizem as culturas locais, entre outros. Isto é, a marca deve considerar
as nuances de segmentação em cada mercado trabalhado. O significado (estratégia
/ posicionamento) não é alterado. A essência da marca deve ser a mesma em
qualquer lugar do mundo.
Após longo e detalhado estudo, Nasr Farid Wessel, suprema autoridade religiosa
do Egito, concluiu que não há difamação à religião do Islã no logotipo da
Coca-Cola. Um site muçulmano passou a divulgar que se o logo fosse lido de trás
para frente ou refletido num espelho apareceriam insultos ao islamismo, como “No
Mohammed, no Mecca”. A iniciativa de colocar o líder analisando a marca foi da
própria Coca-Cola, de olho no maior mercado consumidor do mundo. ( Valor
Econômico , 24 de maio de 2000, Empresas for B2)
“Pensar globalmente, atuar localmente”, afirma Kotler em entrevista à revista
HSM Management (2 maio-junho 1997: 8). Ou considerando que a marca é um signo,
deve-se pensar globalmente o significado e agir localmente os significantes.
Se você tivesse a opção de comprar pelo mesmo preço todas as fábricas da
Coca-Cola ou a marca, o que escolheria? Philip Kotler não tem dúvida: a marca.
‘Não consumimos produtos, mas sim a imagem que temos deles', salienta a maior
autoridade em marketing no mundo. ( HSM Management , 7 março-abril 1998: 94)
Kotler é categórico, a marca é um “ativo” mais valioso que a própria empresa.
A imagem da marca e o seu brand equity são resultados obtidos graças à gestão da
brand strategy e os componentes da cadeia de valor da marca (principalmente a
comunicação), com objetivo de assegurar o melhor desempenho e rentabilidade no
mercado.
O sucesso da marca depende de como ela se comunica com o seu público. Para
entrar na mente do consumidor (e tornar-se um mito), é necessário saber primeiro
como ele pensa, sente e fala. O êxito para alcançar um bom posicionamento de
marca deve ter isso como regra número um. Parafraseando Artur da Távola, “o mito
(a marca) nos sabe” (Távola, 1985: 14).
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