A Marca: Uma Breve Análise de seus Conceitos e suas Reflexões
Por Fred Tavares
22/08/2007
(...) pelo fato de que nada é
por natureza um nome, mas somente
quando ele se torna símbolo,
pois nem mesmo quando sons
articulados como o dos animais
significam alguma coisa qualquer
um deles constitui um nome.
Aristóteles
Muitas empresas estão reconhecendo cada vez mais a relevância estratégica da
marca em seus negócios. As marcas são um componente fundamental do marketing há
mais de cem anos, mas só começaram a ser discutidas seriamente em meados do
século XX.
A Revista HSM Management (1998) publicou uma reportagem intitulada “O poder da
marca”, conferindo a David Ogilvy - o lendário publicitário e um dos fundadores
de uma das mais importantes agências de publicidade do mundo, Standard Ogilvy &
Mather - o título de pioneiro na discussão da marca como ativo principal das
organizações e, portanto, de extremo valor para ser explorada e diferenciada
através de uma imagem única e singular. Ogilvy, uma marca no meio publicitário
mundial, iniciava em 1951 a era das marcas.
Ainda segundo a reportagem (HSM Management, março-abril, 1998), somente a partir
dos anos 80 é que o tema branding começou a ser considerado, interpretado e
analisado pelos profissionais, e desenvolvido epistemologicamente por teóricos
da área. O que em muito se deve ao grande número de fusões e aquisições de
empresas, que propiciariam uma evidência irrefutável da substancialidade das
marcas quando do fechamento do valor dos contratos; isto é, as marcas eram a
explicação definitiva que justificavam a diferença entre o patrimônio declarado
num balanço e os valores bem maiores pago pelos compradores - o que hoje é
chamado de brand equity, ou seja, valor patrimonial da marca. A marca era tão
valiosa, que chegava a ser no mínimo 5 vezes mais representativa que o valor
contábil da própria empresa, retratado pelo dossiê “O poder da marca” (HSM
Management, março-abril, 1998). Um aspecto visto como intangível antes, hoje
percebido como “bem” tangível, e economicamente considerado uma questão da
estratégia empresarial.
Um bom exemplo é esse: segundo a Interbrand estima que a marca Coca-Cola valha
35 bilhões de dólares, muito mais que todas as suas fábricas. Enfim, a marca
vale mais que o produto e até a empresa, pois a ela é dado um papel de
representar uma identidade comercial e de significação que constrói a imagem da
empresa junto ao mercado e à mente dos compradores e stakeholders (interessados
na força da marca; por exemplo, os acionistas).
A marca é a mina de ouro do negócio, pois, quando bem construída, oferece
diferenciação e valor; é uma entidade com personalidade independente, e está
além do produto. Aaker considera a marca um componente estratégico tão
fundamental, que para ela ter sucesso é necessário uma eqüidade de marca
consistente e diferenciada, concebida através de elementos que vão desde a sua
conscientização ao campo das associações exclusivas e singulares.
Então, como conceituar a marca? Parece-nos que a definição é tão vasta quanto a
busca de significados para os conceitos de estratégia e marketing. Contudo, o
seu conceito é mais condensado, se analisarmos a marca como entidade física e
perceptual; isto é, ela possui componentes de produto e de imagem, que podem ser
revelados de forma tangível e intangível.
O conceito de marca é um termo utilizado para abarcar um certo número de
elementos básicos diferenciados, que coletivamente definem a marca. Ele se
divide em componentes de produto - atributos e benefícios do produto -,
componentes lingüísticos, componentes perceptuais / benefícios emocionais -
conceito, alma, identidade, imagem, espírito, personalidade, posicionamento -,
que geram valor patrimonial de marca, funcionalidade e simbolismo, estatura e
vitalidade à marca, e acabam por parasitar a mente como memes, replicando e
infectando as cabeças dos clientes e consumidores, graças a uma tática
fundamental: a comunicação de marketing. Além disso, a marca é signo ou
representamen, que designa e faz-se representar, seja por símbolo, por índice ou
por ícone, ou por todos ao mesmo tempo. A marca pode ser estruturada da
lingüística à ciência cognitiva; pensada sociológica e antropologicamente como
um sinal de comunicação entre indivíduos na sociedade. Enfim, é um campo
vastíssimo, e procuraremos delimitá-lo de forma cirúrgica e concisa sem nenhuma
heresia epistemológica.
De acordo com Martins e Blecher (1997: 15):
Uma marca é um produto ou serviço ao qual foram dados uma identidade, um nome e
valor adicional de uma imagem de marca. A imagem é desenvolvida pela propaganda
ou em todas as outras comunicações associadas ao produto, incluindo a sua
embalagem.
Em seu livro, Grandes marcas, grandes negócios, Martins e Blecher falam que os
componentes que formam uma marca são: identidade, nome, design, proteção legal,
comunicação, reputação e gerenciamento. Para Kotler, a marca deve ter um nome
singular, uma palavra ou idéia principal (conceito), um slogan, cores que a
identifiquem e a diferenciem, símbolos e logotipos e um campo de associações,
que dêem a marca um valor mitológico e também ideológico. Na mesma linha de
Kotler, embarca Randazzo, que nos diz que a marca é constituída, a partir de uma
mitologia latente de um produto, que “abarca a totalidade das percepções,
crenças, experiências e sentimentos associados com o produto” (Randazzo, 1997:
25); isto é, que o conteúdo psíquico da marca e a sua esfera mítica (mitologia
da marca) está diretamente conectado aos aspectos dos símbolos, dos arquétipos,
dos mitos, dos sonhos, das fantasias e dos desejos e que funcionam como um
espelho psicológico, capaz de moldar o comportamento do consumidor. As marcas
são projeções do inconsciente coletivo (segundo o autor que se utiliza da teoria
junguiana) e funcionam melhor se já exploraram algo que já está na mente do
público e, portanto, facilmente cognoscíveis; o que é habilmente captado pela
comunicação que para posicionar a marca na mente das pessoas trabalha de forma
bottom-up.
Mito, psique, desejo, linguagem e mente e muitas outras questões estarão sendo
conduzidas mais à frente. Portanto, continuando a nossa base de conceitos, vamos
a outras linhas do entendimento sobre a marca: o comitê de definições da
American Marketing Association (AMA) estabeleceu, em 1960, os conceitos de
marca, nome de marca e marca registrada. A definição de marca é mais abrangente:
Marca é um nome, termo, sinal, símbolo ou desenho, ou uma combinação dos mesmos,
que pretende identificar os bens e serviços de um vendedor ou grupo de
vendedores e diferenciá-los daqueles dos concorrentes.
Nome da marca é aquela parte da marca que pode ser pronunciada, ou pronunciável.
Marca registrada é uma marca ou parte de uma marca à qual é dada proteção legal,
porque é capaz de apropriação exclusiva. (AMA apud Pinho, 1996: 14)
Al Ries e Laura Ries, em As 22 consagradas leis de marcas, são categóricos
quanto ao aspecto da marca, no que tange à relação mente, percepção e
singularidade:
A essência do processo de marketing é construir uma marca na mente dos
consumidores (...) um bem sucedido programa de branding se baseia no conceito da
singularidade. Ele cria na mente do cliente em potencial a percepção de que não
há outro produto no mercado como o seu. ( Ries; Ries, 2000: 3-4)
As idéias relativas à marca que estão sendo expostas, sincronizam-se através do
seguinte eixo epistemológico: identidade / singularidade; mente; desejo; emoção;
e imagem. Acessórios como nome, slogan, logomarca ou logotipo, entre outros,
fazem parte da constelação da marca; são importantes e devem estar presentes ao
eixo, que é a estrutura formadora do conceito e da personalidade da marca.
Na década de 60, o publicitário e pesquisador David Ogilvy descobriu, através de
pequisas de mercado, que as marcas eram percebidas com traços de personalidade
próprios e que o consumidor dava identidade a elas. Segundo Martins, Ogilvy
criou o termo brand personality para descrever essas características emocionais
da marca que estão além das características do produto e de seu conceito
funcional. Uma marca tem uma identidade tão bem posicionada, que em poucas
palavras já a definimos . Contudo, as marcas nem sempre foram reconhecidas como
marcas, já foram chamadas de sinetas, selos, siglas e símbolos, há tempos atrás.
Entretanto, os aspectos emocionais sempre existiram, e vão continuar presentes.
Assim é o mundo fascinante das marcas , principalmente, o seu valor enquanto o
principal ativo de uma empresa, que se deve segundo a escolha de uma boa
estratégia e de uma visão de marketing competente.