O Marketing Cria Necessidades? Por Carlos Alberto de Faria 27/08/2007
Hoje a conversa é sobre um assunto recorrente e importante: o marketing cria
necessidades ou desejos?
Esta pergunta vem acompanhada, em muitos casos, de uma frase que diz:
"O marketing vive empurrando 'coisas' que as pessoas não necessitam."
Ou ainda:
"O marketing é responsável pelo consumismo que paira sobre a nossa sociedade."
Vamos começar com uma pergunta:
- "Por que alguém compra um relógio que suporta até 100m de profundidade?"
Somente mergulhadores profissionais podem chegar a esta profundidade. O mergulho
recreacional chega ao máximo de 40m. E, com certeza, o número de pessoas que
possuem relógios que agüentam profundidades maiores do que 40m é maior, muito
maior do que o número de profissionais de mergulho que necessitam de tal
relógio.
Vamos fazer uma distinção, aqui neste texto, não muito usual, mas perfeitamente
possível, pelo significado destas palavras:
1. Necessidades: tudo o que é necessário para a manutenção da nossa vida:
comida, bebida, sexo, abrigo, sono, etc.
2. Desejos: tudo aquilo que queremos, mas não é necessário à manutenção da nossa
vida.
Portanto, o relógio que suporta profundidades de 150m, para os que não são
mergulhadores profissionais, é um desejo, não uma necessidade. Esse desejo,
dentro da hierarquia das necessidades de Maslow, estaria nas necessidades de
"status" ou auto-estima.
Devemos nos lembrar que o que move este mundo, esta nossa sociedade, são as
necessidades e os desejos. Todos, e cada um de nós estamos atrás da satisfação
de nossas necessidades e de nossos desejos, não é mesmo?
Um fato importante é que não devemos julgar ou valorar as necessidades e desejos
dos outros, baseados em nossas necessidades, desejos ou valores. Cada um de nós
é juiz de nossas próprias e únicas necessidades, desejos e valores.
Indo adiante neste raciocínio podemos dizer que matar a sede com água é uma
necessidade, já substituir a água por um refrigerante é um desejo.
Qual caneta você usa? BIC, Lamy ou MontBlanc?
Você pode falar que estamos em uma cultura de consumo, etc. e tal. Concordo. As
pessoas compram coisas que não necessitam, para satisfazer desejos. O ser
humano, você e eu, somos assim!
Por que alguém compra um automóvel Mercedes? Quando saímos dos fatores
higiênicos do Maslow (necessidades do corpo e necessidades de segurança) começa
o império do desejo (necessidades sociais, de "status" e de auto-realização).
As diversas escolhas que cada um de nós fazemos, ao longo do dia, é extremamente
dependente do nosso estado de espírito e de nosso posicionamento dentro da
hierarquia das necessidades de Maslow.
Um dos meus gurus, Alan Weiss, tem uma frase importantíssima para consultores,
profissionais liberais, empreendedores, e profissionais do conhecimento em
geral:
"A lógica serve para pensar, a emoção serve para agir."
Toda escolha que fazemos é, necessariamente, uma escolha emocional.
Se você está lendo este texto até aqui, com certeza, você está situado na parte
superior da pirâmide de Maslow.
Quando o fabricante de relógios ficou apto a confeccionar relógios que funcionam
a 150m de profundidade, ao invés de vendê-los somente para o segmento restrito
dos mergulhadores profissionais, lançou no mercado esse relógio para aqueles que
querem ter certeza de que, ao lavar as mãos, o relógio não danifica. Este
diferencial foi buscado por diversos segmentos do mercado, diferente do segmento
dos mergulhadores profissionais.
O marketing não criou a necessidade, pois a maioria das pessoas não necessita de
um relógio que funcione a 150m.
O marketing explora o desejo atávico do ser humano. Desejo de auto-realização,
desejo de se diferenciar, desejo de se identificar, desejo de pertencer a esta
ou aquela "tribo".
O marketing disponibiliza no mercado, já o desejo é característica de cada
indivíduo.
O ser humano, cada um de nós, escolhe: comprar ou não. A decisão é individual e
solitária!
Talvez em uma sociedade diferente, ou na evolução desta, ou por formação
diferente, quando grande parte da população tiver informação, o consumismo
diminua, mas vemos impossível terminar com as escolhas que cada um de nós
fazemos para satisfazer os nossos desejos.
O que nos realiza, o que nos faz pertencer a esta ou aquela "tribo", o que nos
identifica, o que nos diferencia, o desejo de cada um de nós rege e determina a
nossa individualidade, as nossas infinitas escolhas.
Você mata a fome com arroz, feijão e ovo frito, mas o que você vai comer, hoje,
no almoço?
Carlos Alberto de Faria é sócio diretor da Merkatus - Fonte: Merkatus