Marketing de proximidade real: Dharma Marketing
Por Paulo Vieira de Castro
09/05/2008
No início da presente década Zohar e Marshall, dois professores da Universidade
de Oxford (GB), completam o quadro geral da inteligência humana com o QEs
(Quociente Espiritual), revelando a inteligência suprema do ser humano, o poder
transformador do homem. O processo que deriva da Inteligência Espiritual une,
integra e potencializa o diálogo entre razão e emoção, indo mais longe,
fornecendo um centro ativo e outorgador de sentido, suportando a transformação
ligada à sabedoria para lá da mente consciente, permitindo-nos mais do que a
habilidade de seguir valores – a de criar a possibilidade de os ter.
Igualmente, cento e noventa e nove países ratificaram durante o ano de 2005 a
Declaração Universal de Bioética e Direitos Humanos (UNESCO), afirmando que “a
identidade de um indivíduo inclui dimensões biológicas, psicológicas, sociais,
culturais e espirituais”. Como poderiam os marketeers ser indiferentes à mais
intensa das dimensões humanas: a espiritualidade?
Referimo-nos à dimensão que está além da racionalidade ou da lógica que permite
ao homem seguir regras e estratégias (Quociente de Inteligência), estando,
igualmente, além da emoção que reconhece padrões e constrói hábitos (Quociente
Emocional). A dimensão espiritual possibilita o pensamento unificador, onde
reside o potencial do princípio animador ou vital do ser humano (Quociente
Espiritual).
As questões sociais, culturais e psicológicas, assim como as questões ambientais
têm merecido a atenção por parte de algumas das organizações mais responsáveis.
Contudo, a dimensão espiritual do Homem, vista como o mais alto patamar da
prosperidade integral, vem sendo esquecida, porque é muitas vezes confundida com
a perspectiva religiosa. Desta forma se verifica o distanciamento da questão do
auto-conhecimento em ambiente empresarial. O auto-conhecimento permite o
despertar da consciência, tornando-nos capazes de escolhas mais assertivas e
conseqüentemente mais satisfatórias e significativas.
Do ponto de vista conceitual, o Marketing espiritual tem perdido sentido desde o
tempo em que ágeis facilitadores espirituais como Joe Vidal ou mesmo Bob Proctor
(O Segredo) confundiram Marketing espiritual com terapias de auto-ajuda,
programação neuro-linguística, ou mesmo com o Marketing pessoal. Apesar destas
abordagens serem muito desejáveis, não podemos deixar de referir um certo abuso
em volta do termo Marketing, no que às questões espirituais diz respeito.
Ainda que de uma forma superficial, também o neuromarketing nos revelou um mundo
demasiado complexo, trazendo de volta a necessidade de uma abordagem mais íntima
às questões relacionais, ante a constante tensão entre impulsos elétricos
cerebrais, necessidades e desejos humanos. Aliás, muitos anos antes Schopenhauer
já teria lançado o aviso ao afirmar que o homem pode, é certo, fazer o que quer,
mas não pode querer o que quer. Estas circunstâncias, ao se afigurarem como não
exclusivas da área comportamental, radicam-se, necessariamente, ao nível das
mais sutis competências, ou seja, para além da simples condição físico-química
do ser humano.
Mesmo o fator atitude, ponto crucial da competência organizacional, não depende
exclusivamente de um conjunto de impulsos elétricos cerebrais, de formalidades
ou regras. Existe um grupo alargado de padrões não convencionais que
constantemente interferem nas decisões humanas, tornando-se necessário agir a um
nível mais íntimo. Contudo, tal não quererá dizer que devemos subalternizar a
dimensão técnica, pelo contrário, pretendemos assegurar o seu fortalecimento.
Os computadores têm um elevado Quociente de Inteligência, conhecem as regras e
conseguem segui-las sem erro. Mas, só o homem é capaz de questionar as referidas
regras. Uma máquina, assim como um animal, trabalha dentro de uma lógica de
“jogo finito”. A dimensão espiritual permite alargar as fronteiras de um “jogo
infinito”, dando aos homens a capacidade de colocar em causa regras que eles
próprios criaram. Esta é uma realidade que coloca um desafio inacabável à
extensão tecnológica. Triste para os homens não será nunca que os computadores
pensem como as pessoas, lamentável será que os homens pensem como os
computadores.
Ao imaginarmos um Marketing para a responsabilidade espiritual nas empresas
propomos um conceito que se inscreve dentro da linha de entendimento do
Marketing relacional, não esquecendo que as organizações deverão estar focadas
em valores, em estratégias, etc, dependentes de hábeis negociadores, criativos,
empreendedores, que saibam trabalhar sob pressão. Mas, será isso possível na
ausência da consciência de si mesmo?
Partindo desta questão surge um novo conceito de marketing que se propõe chegar
à mais íntima dimensão do psiquismo humano, antecipando o caminho para um
marketing de proximidade real.
Proximidade real: o Marketing para além da percepção
Na atualidade, o indivíduo sente-se no mundo – não do mundo. Isto é, igualmente,
o que acontece com aqueles que constituem o tecido relacional das empresas. O
marketing de proximidade real enaltece a sustentabilidade das condições de
reciprocidade, de aceitação e das transformações em si próprias, projetando-as
em todos os seus públicos relacionais.
Dharma é para os budistas o que guia a mente, ou por outras palavras, o que a
precede. Pretende-se, no caso em mãos, estabelecer condições propícias para o
homem que procura, em todas as relações, uma dimensão exclusiva/interior. Cabe
ao Dharma Marketing aumentar a atração, removendo os obstáculos mais íntimos,
facilitando a interdependência aos que procuram o nexo que assiste à experiência
empresarial.
Apesar da riqueza material e do desenvolvimento tecnológico das organizações,
falta algo estruturante à gestão atual. Para nós, isso será a capacidade de
alterar um mero trabalho numa vocação. Só este pensamento poderá unificar a
experiência humana, de forma contextualizada e transformadora nas empresas.
Infelizmente, a vocação não se encontra dentro da atual estrutura de valores da
comunidade dos negócios.
O Marketing tem vindo a evoluir na sua orientação, indo para além do produto, da
venda, do mercado, do cliente. Assim, depois do Marketing massificado, do
Marketing de segmentação, do Marketing one to one,.., surge igualmente o
Marketing orientado para o Ser, onde o compromisso entre as empresas e todos
aqueles com quem estas se relacionam é conseguido através de parcerias
inclusivas.
Procura-se um impacto significativo nos negócios, ou, pelo menos, dar às suas
competências conotações mais amplas, no que respeita à empatia que leva à
fidelização, através de benefícios (espirituais), transformadores de quem os
produz, e conseqüentemente dos seus públicos relacionais. Este efeito
introduz-nos num ambiente de elevada proximidade e confiança, garantindo
relações mais transparentes, e conseqüentemente de maior prazo, aumentando o QEs
(Quociente Espiritual) dos parceiros implicados.
No marketing de proximidade real a espiritualidade facilita a criação de uma
imperceptível teia no entorno organizacional, pelo que o mundo das empresas
deverá ser visto como um todo, polarizando positivamente as referidas relações.
Esta procura só poderá existir como resultado de uma permanente e efetiva
dinâmica integrada e reciprocamente complementar, da evolução econômica, humana,
social, se obviamente acompanhada de mudanças ao nível espiritual.
Estamos perante uma forma sustentada de revolução organizacional, já que
passamos a perceber a realidade empresarial, do ponto de vista do paradigma
quântico, tendo em conta a capacidade da consciência de todos os implicados
interferir na criação da realidade. Já anteriormente Jung teria dado a sua
contribuição para este entendimento ao apresentar a sua teoria da sincronicidade
e do inconsciente coletivo. Contudo, é na verdadeira origem destas idéias que
vamos buscar a influência decisiva para o marketing de proximidade real.
Referimo-nos ao budismo primordial e ao milenar conceito de interdependência.
A influência oriental
A cultura atomista separa-nos uns dos outros, isolando os que são diferentes por
alguma razão, os critérios inclusivos dizem respeito à coerência entre o
discurso e a prática em todos os seus detalhes. Do ponto de vista organizacional
isto acontece a partir da visão do homem, enquanto sujeito de relações, que pode
mudar a sua própria vida, bem como contribuir para a mudança das demais, sem
colocar em causa a sustentabilidade da organização representada.
Aqueles que procuram compreender o budismo aprendem que a principal
responsabilidade do ser humano passa pela libertação de todo o sofrimento
(nirvana). Para o Zen esta possibilidade depende, em grande parte, da forma como
se compreende o espaço que é deixado para a não mente, o wu-nien que permite a
compreensão do subconsciente; ou daquilo que para outros, como é o caso da
filosofia de Hui-neng, traduz a idéia de natureza-própria. A isto as
neurociências chamam a realidade para além da física e da química do ser humano,
no nosso entender a Inteligência Espiritual.
O budismo e o Marketing, encontram-se na sua intenção, numa mesma linha de
propósito, onde o primeiro procura patrocinar a cessação do sofrimento e o
segundo elevar a satisfação de todos os seus públicos relacionais. Claro que do
ponto de vista dos modelos de ação existe uma enorme dispersão de métodos.
No Dharma Marketing aprofundamos a aproximação à sabedoria humana (a prajna dos
budistas) no que respeita o espaço da não-mente, a fase “inconsciente” da mente.
Assim, no nosso modelo de trabalho agimos ao nível do conflito psicológico
anterior à vontade humana, concentrando-nos, deste modo, no que é precedente à
intencionalidade no homem, ou seja, anterior às necessidades, aos desejos e às
motivações.
A sintonia com o princípio transcendente e transpessoal proporcionado pelo
Dharma Marketing é um diferencial não espontâneo, a ser conquistado e
desenvolvido tendo por base formação desenhada exclusivamente para as empresas,
visando o desenvolvimento da Inteligência Espiritual. O primeiro passo a dar
neste sentido será o de contratar recursos humanos com base em critérios
inclusivos. Igualmente, cumpre às empresas apostar numa formação complementar em
mind-sets, ou seja, em técnicas (adaptadas à realidade empresarial) que vão para
além do discurso, visando a introdução da atenção plena na consciência
organizacional, bem como no auto-conhecimento.
Exemplos dessas técnicas são a Meditação Therevada e a Zen-budista de Thich Nhât
Hanh, na busca de um estado de consciência que propicia a auto-compreensão e a
paz interior; as práticas de refinamento espiritual do Seishin no Jutsu, que
literalmente constituem a arte do espírito; a união com o todo do Ketsugo; a
arte da concentração do Mokuso no Jutsu; a arte da estratégia do Heiho; a arte
da liderança do Doshu no Jutsu. Não poderíamos deixar de referir a importância
de alguns dos ensinamentos da arte do Arco Zen e do Raja Yoga.
A espiritualidade é anterior a todos os valores e a qualquer cultura, portanto
tão antiga como a humanidade, assim sempre que pretendermos agir a este nível
teremos de nos recorrer a práticas ancestrais como a meditação e todas as
anteriormente referidas técnicas de refinamento espiritual.
A realidade a que nos referimos não poderá ser confundida com o simples
exercício moral, ético, regimentar. De igual modo, as mudanças de que temos
vindo a falar não poderão ser periféricas. Se assim for, no essencial, tudo
permanecerá na mesma. Esta mudança não poderá ser em si mesma um fim, mas sim
mais uma possibilidade de caminho, onde o Dharma Marketing se afirma como uma
das ferramentas do marketing relacional.
Para o Dharma Marketing a mudança de que falamos não depende de questões
formais. Modificar a atitude dos outros só será possível pelo exemplo. Então,
deveremos pugnar por ser o exemplo da atitude que queremos ver nos nossos
públicos relacionais.
Estas mudanças refletem-se na busca do entendimento pacificador e profundo de
sentido na transformação pessoal. Alguns exemplos práticos serão a liderança ao
serviço – o gestor servidor inspirado pela gratidão, a humildade, o servir como
a verdadeira natureza do ser; um elevado grau de consciência de si mesmo; a
reação ao Eu mais profundo; o uso e a transcendência das dificuldades; o ser
espiritualmente inteligente; o aceitar a incerteza como princípio da inspiração
criadora; a espontaneidade profunda e responsável; o ativismo comunitário, etc.
Em jeito de conclusão repetimos a chamada de atenção para o fato destas
propostas não significarem a perda do rigor intelectual ou a reverência crédula,
despojada de sentido crítico, infelizmente tão comuns nos nossos dias, em
especial quando falamos em espiritualidade.
Paulo Vieira de Castro é mentor do modelo “Marketing de Proximidade Real”, consultor de empresas, Diretor do Centro de Estudos Aplicados em Marketing do Instituto Superior de Administração e Gestão do Porto – Portugal. E-mail geral@paulovieiradecastro.com