Marketing em Profusão
Por Marcelo Miyashita
20/09/2006
Qualquer departamento tem ações e responsabilidades operacionais mais evidentes
— formam as atividades aparentes, aquelas que todos percebem. Em marketing são
as ações de comunicação que fazem transparecer o trabalho da área. Só que, como
sabemos, atividades de comunicação formam a ponta do iceberg, a parte visível e
operacional do departamento. E, como é muito praticada, seus processos e rotinas
são mais definidos e cada integrante do marketing sabe seu papel e função dentro
deste escopo. Quando o marketing atua no operacional, controle e eficácia são
importantes e têm-se como parâmetros de decisão os resultados, o histórico de
atuações passadas e a experiência proporcionada. O budget (o orçamento anual do
departamento) é comumente assim definido onde marketing resume-se ao
gerenciamento de ações de comunicação.
Isto é um equívoco e, infelizmente, fato presente nos departamentos de
marketing. Primeiro porque, para habilitá-la como área estratégica da companhia,
é necessária a prática estruturada das outras funções de marketing: pesquisa,
análise e gestão. Segundo, os melhores parâmetros vêm do mercado e suas mudanças
vêm do planejamento estratégico da organização e suas visões. O marketing deve
assumir funções importantes no desenvolvimento das estratégias e táticas de
mercado — e não só cumprir ações operacionais orçadas como se o cenário
mercadológico fosse imutável e sem novidades. Apesar disso, ainda reina nas
empresas a prática do marketing como função operacional de comunicação. Muitas,
por exemplo, quando têm operações de pesquisa e feedback dos clientes acumulam
dados que nunca serão utilizados em planejamento e propostas de marketing, pois,
verdadeiramente, não realizam atividades de planejamento. Esse é o “elo perdido”
em muitas áreas de marketing. É preciso definir novas rotinas e práticas para
que a departamentalização esteja a serviço de funções mercadológicas e
propositoras de negócios.
Rotinas De Planejamento
Assim como existe uma rotina para ações de comunicação — com processos,
responsabilidades, tempo determinado e até budget definido — é necessário buscar
o desenvolvimento de rotinas de planejamento. Implementar hábitos e práticas que
tornem o ato uma atividade sempre presente dentro do departamento, com processos
de trabalho estabelecidos e rotinas orquestradas que tornem o planejamento de
marketing uma atividade contínua e central dos profissionais da área. Para ficar
claro, apesar de todos numa organização deverem pensar e praticar marketing,
pela sua importância este pensamento mercadológico precisa também ser atividade
de profissionais específicos capazes de alimentar a alta gestão com informações,
análises conclusivas e propostas geradoras de negócios. Ou seja, alguém precisa
efetivamente colocar a mão “na massa”, assumir essa responsabilidade, passar
para o papel, gerar projetos e relatórios, abrir discussões, promover novas
bandeiras e mensurar seus resultados. Esse alguém são os profissionais de
marketing.
Criando as Práticas
Planejamento de marketing é praticar pensamentos em marketing. Exige
informações, análises e implementações. Num marketing estruturado são
responsabilidades dos profissionais de, respectivamente: pesquisa de marketing;
análise de marketing; e gestão das ferramentas de marketing. A questão é que não
basta só nomear funções. Planejamento numa organização precisa de planos. Como é
um ato, é necessário documentar, registrar, materializar o pensamento para que
sua disseminação estimule o envolvimento e promova a ativação de seus projetos e
idéias pela empresa. Se o anúncio é a parte física da propaganda da empresa, o
projeto de marketing é a documentação visível e registrada do planejamento.
Portanto, é preciso que os profissionais de marketing saibam gerar conteúdo na
forma que facilitem a divulgação de seu trabalho, afinal, de que adianta
realizar planejamento se esse estudo estruturado no seu gerenciamento, não é
estruturado na sua disseminação?
É neste ponto que muitos gestores de marketing bem intencionados falham: não
estruturam as rotinas para a disseminação do planejamento praticado. Talvez
porque escrever e produzir relatórios e projetos sejam vistos como maçantes e
tediosos, mas a pura verdade é que demanda tempo. É preciso parar para escrever
e registrar, mesmo que sejam projetos esquemáticos visuais baseados em mapas
mentais ou simples relatórios concebidos em gráficos auto-explicativos. Tempo é
um elemento valioso e na ausência desse, entre o planejar e o plano, é natural
ficar com o ato e dar pouco tempo ao seu registro. Por isso é preciso, na
estruturação da equipe e suas atividades, definir também como função de cada
profissional a apresentação de seu trabalho. E, claro, oferecer no dia-a-dia
espaço e tempo para seu desenvolvimento, sob pena de ter bons estudos mal
compreendidos e desvalorizados. Há muitos bons pensamentos idealizados dentro do
marketing jogados fora, pois, numa organização, não basta só tê-las. É preciso
comunicá-las com clareza e objetividade, porque a implementação - a parte
decisória do planejamento - depende da companhia inteira.
Marketing quando estruturado e estratégico gera informações e conhecimentos
transformadores, mas sozinhas estas informações não implementam nada. Então, na
hora de estruturar, preveja a importância dessa rotina no dia-a-dia dos
profissionais da área. A questão é que para fornecer mais tempo para essa
prática é preciso fornecer mais estrutura e ter mais pessoas trabalhando dentro
do marketing — o que certamente significa maior custo departamental, indo contra
a corrente vigente no mercado de equipes otimizadas e enxugadas. Só que como
defendido, não há como planejar e, principalmente, documentar para disseminar
quando não há tempo nem equipe disponível. Com pouca gente o marketing só
pratica as atividades iminentes, reativas e básicas.
Manter um departamento de marketing estruturado tem seus custos, mas estes podem
tornar-se irrisórios frente às vantagens de uma área inteira pensando,
produzindo e disseminando estratégias e táticas de mercado com qualidade e
quantidade. Esse sim, o verdadeiro papel da área de marketing.
Marcelo Miyashita é consultor líder e palestrante da MIYASHITA CONSULTING. É
professor de marketing em cursos de MBA e pós-graduação. Atualmente leciona na
Cásper Líbero, FGV-EAESP GVpec, Trevisan, PUC-SP COGEAE, Madia Marketing School,
IMES e IBModa. Foi colunista do Comercial & Cia, na rádio BandNews FM. Em 2006
recebeu o Prêmio Marketing Best e em 2007 o título de Marketing Expert,
concedido pela Editora Referência (Jornal Prop&Mkt), pela FGV-EAESP e pela
MadiaMundoMarketing. É mestrando em Administração pela PUC-SP, pós-graduado pela
ESPM e publicitário pela Cásper Líbero. Conheça seu trabalho:
www.miyashita.com.br