Marketing na Ponta do Lápis
Por Marcelo Miyashita
17/03/2006
Em um artigo anterior “Ponto de Virada. Investir em marketing é exigência para
crescer”, tratei da necessidade da aplicação correta, planejada e ponderada de
ações de marketing e vendas. Argumentei que o domínio deste conhecimento pode
ser fator decisivo para o crescimento de um negócio. Sim, uma empresa pode
surgir e crescer sem marketing estruturado – mas até certo ponto. A partir daí,
o empreendedor precisará tratá-lo de modo menos intuitivo e mais técnico.
Precisará aprender, conhecer, assimilar e contratar atividades de marketing com
mais controle, para conseguir bons resultados pelo menor custo e com o mínimo de
desperdício de ações e verba.
Aí começa o segundo passo do empresário rumo ao marketing e à criação de
vantagens competitivas frente aos concorrentes. Neste segundo ato, três novos
desafios: o que mudar necessariamente, que ações desenvolver prioritariamente e
onde investir adequadamente. Os dois primeiros são cumpridos com uma boa
análise, com visão estratégica e conhecimento do mix de marketing (formada
basicamente por: marca e imagem; produto e serviço; precificação e política
comercial; distribuição e canais de venda; comunicação e relacionamento). Desde
que este estudo seja feito mesclando experiência com conhecimento mercadológico
- que pode ser contratado e desenvolvido por profissionais - as conclusões do
que mudar e de que ações desenvolver não costumam ser difíceis. O que vai
definir realmente uma aplicação eficaz das técnicas de marketing é o terceiro
desafio: onde investir de modo adequado, possível e, principalmente, mensurável.
Afinal, investir em marketing é como qualquer outro investimento financeiro -
estamos falando de aplicação de dinheiro para a geração de lucro. Marketing deve
sempre ser visto sob esta ótica. Nos tempos de alta competitividade e baixas
margens, empresário que se dá ao luxo de aplicar sem medir eficácia certamente
não obterá retorno e nem critérios para decisões futuras. Portanto, perderá
dinheiro, vendas adicionais e, o pior, a possibilidade de aprender a decidir
onde investir.
Neste artigo quero me concentrar neste lado da moeda: o aporte financeiro e sua
mensurabilidade, para o aprendizado de como investir em marketing de modo
rentável, criando métricas, medidas e métodos de investimento.
Faça as contas por cliente.
Quando tratamos de mensurar investimentos, abordamos a gestão financeira da
organização, o controle da lucratividade nas vendas e também nos clientes. As
duas primeiras áreas já são trabalhadas em qualquer empresa - ou deveriam ser.
Um bom acompanhamento contábil com controles organizados de fluxo de caixa dá
uma perspectiva ao empresário da situação real do seu negócio e sua
lucratividade detalhada, por linha de produto e canal de venda, com descrição de
cada custo e sua origem. No geral, a contabilidade influencia muito o
empreendedor na sua tomada de decisão. E quando tratamos de decisões de
marketing essa influência deveria ser maior, pois o terceiro desafio é mais
crítico que os dois primeiros.
Como consultor e trabalhando para várias empresas em diversos mercados, tenho
observado que muitas decisões de marketing sobre quanto, quando e onde investir,
se dão por uma conta simples que determina um percentual chamado, por vezes,
custo ou contribuição de marketing. Extraído das vendas ou da previsão de
vendas, alimenta-se um fundo de caixa denominado budget, que por fim define os
investimentos num tempo determinado.
Há dois furos neste raciocínio. Primeiro porque considera toda a venda e seus
compradores pelo número geral. Nesta linha não importa se há clientes que
compram muito e outros que quase não oferecem lucro; a verba é definida pela
média, o que provoca uma distorção sobre valor e importância de cada cliente.
Aliás, essa visão pela “média” faz parte do pensamento tradicional que enxerga
tudo deste modo: perfil médio de público, média de audiência, média de retorno,
média de satisfação...
O segundo furo é conseqüência. A mensuração também é realizada pela média,
cruzando investimentos com resultados gerais. É por isso que muitos empresários
só sabem se deu ou não resultado, mas não onde ganhou ou perdeu. Esse “onde” não
se refere à linha de produtos ou canal de vendas - isso a contabilidade
apresenta – a questão é saber com quais clientes se obteve mais resultados e por
quais meios de marketing.
Quando observamos investimentos em marketing pela média, corremos o risco de
tirar conclusões gerais sobre tudo, ou seja, se investimos R$ 1.000 e
conseguimos R$ 10.000 de resultado com 100 clientes, então cada cliente comprou
em média R$ 100 e o investimento médio por cliente foi de R$ 10. Só que se
olharmos com mais cuidado podemos descobrir que dos 100 clientes, 20 compraram
R$ 8.000 e os outros 80, R$ 2.000. Se conseguirmos identificar estes 20 maiores
compradores, ao invés de investir R$ 1000, poderemos investir apenas R$ 200. Por
que gastar R$ 800 com quem só dá R$ 2.000 de resultados? Indo além, com os
melhores clientes podemos investir até mais, porque eles representam muito do
resultado da companhia. Proporcionalmente, podemos investir até R$ 800 neles.
Quatro vezes mais do que o cálculo pela “média”! Óbvio que esses cálculos são
suposições, mas ilustram o perigo de se enxergar os investimentos em marketing
pela média.
Evitando isso o empresário orienta melhor o uso do budget e constrói uma base
contábil em que o cliente não é visto só pela sua compra, mas pelo seu histórico
e seus hábitos, como, por exemplo, freqüência, época de compra, combinação de
produtos adquiridos e forma de pagamento. São estas realidades que muitas
planilhas montadas pela “média” escondem.
Portanto, deve-se saber fazer a conta por cliente. Enxergar que não existem
consumidores e compras médias, existem consumidores com perfis de consumo
diversos onde, dentro de uma carteira, podemos segmentá-los em grupos menores e
assim analisá-los separadamente. Esta visão por segmento, se localizada, evita a
distorção provocada pela média e traz uma realidade mais lógica sobre o
investimento em marketing.
Tendo em mãos o real valor de cada cliente, temos o chamado LTV (Lifetime Value)
que dará a verdadeira importância de cada cliente e apresentará onde
efetivamente está o lucro na carteira – quem é a nata que deve receber mais
atenção, pois apresenta os maiores resultados e efetivamente garante melhor
retorno. Então, nada de gastar dinheiro com o consumidor pela média do público,
isso faz uma companhia aplicar esforços em quem oferece poucas possibilidades
estatísticas de retorno. Contabilmente, um péssimo negócio.
Monitoração de clientes e mensuração de investimentos.
Muitas redes de varejo oferecem aos seus clientes cartões de financiamento com
benefícios de crédito e parcelamento, buscando uma receita adicional via ganhos
financeiros, mas também com objetivo de conseguir monitorá-los. Saber quem são e
como consomem garante uma visão localizada e customizada e pode orientar
melhores decisões de marketing.
O cartão para a loja traz essa visão estratégica, com isso supermercados
escolhem melhor que produtos colocar nas suas prateleiras e onde lançar novas
lojas; bancos e empresas de crédito criam serviços, atendimentos e até novas
bandeiras para clientes valiosos; livrarias criam programas de relacionamento
com benefícios exclusivos; e mais recentemente, postos de gasolina aproximam-se
de seus clientes numa tentativa de gerar relevância e diferenciação para sua
marca.
Quando temos à disposição informações sobre nossos clientes - seu perfil,
atitude e consumo – temos a chance de fazer marketing na ponta do lápis, mais
dirigido, e com ações mensuráveis. E, o melhor de tudo, aprendemos a investir
pela observação de resultados anteriores, criando métricas, modelos e
estratégias de investimento com mais previsibilidade. Faça as contas.
Marcelo Miyashita é consultor líder e palestrante da MIYASHITA CONSULTING. É
professor de marketing em cursos de MBA e pós-graduação. Atualmente leciona na
Cásper Líbero, FGV-EAESP GVpec, Trevisan, PUC-SP COGEAE, Madia Marketing School,
IMES e IBModa. Foi colunista do Comercial & Cia, na rádio BandNews FM. Em 2006
recebeu o Prêmio Marketing Best e em 2007 o título de Marketing Expert,
concedido pela Editora Referência (Jornal Prop&Mkt), pela FGV-EAESP e pela
MadiaMundoMarketing. É mestrando em Administração pela PUC-SP, pós-graduado pela
ESPM e publicitário pela Cásper Líbero. Conheça seu trabalho:
www.miyashita.com.br