O Mito dos Preços Altos
Por Roberto Brizola
22/07/2002
Como é de amplo conhecimento, os preços praticados no Brasil são, em boa parte,
superiores àqueles observados nos países desenvolvidos, onde os salários são bem
maiores do que os nossos.
As explicações para o fato, embora variadas, geralmente são relacionadas a
fatores externos à empresa e, portanto, fora de seu controle direto. A
justificativa mais usual é que temos uma carga tributária elevada e um nível
estratosférico de juros.
Uma análise mais acurada da questão mostra que embora a carga tributária e os
juros altos contribuam para o alto nível de alguns preços no País, esses fatores
não são os únicos responsáveis pelo problema.
Outras causas dos preços altos estão no âmbito da própria empresa. Entre elas
merecem destaque a prática de altas margens de lucro unitário e custos de
operação e produção elevados.
Uma política de preços centrada em altas margens de lucro unitário tem duas
falhas importantes: ignora o retorno sobre o investimento como medida de
avaliação de desempenho e contribui para distorcer a apuração dos custos.
Os altos preços decorrentes da opção por altas margens de lucro unitário causam
diminuição do volume de vendas e, em conseqüência, uma menor utilização da
capacidade de produção. Habitualmente as empresas consideram o volume
efetivamente produzido - e não a capacidade instalada - como base para apuração
dos custos. Assim, um menor volume de vendas acarreta um aumento no custo fixo
unitário apurado que por sua vez influenciará o preço de venda, formando um
ciclo vicioso.
Portanto, quando a empresa adota altas margens de lucro unitário na fixação de
seus preços, obtém, na melhor das hipóteses, um retorno normal, às custas de um
maior preço e menor volume de vendas .
Muitos anos de inflação alta, controle de preços e economia fechada contribuíram
para que a administração de custos das empresas não fosse uma tarefa
prioritária.
As altas taxas de inflação impediam que os consumidores fizessem uma adequada
avaliação dos preços. Num determinado mês, um preço já não era comparável
diretamente com o do mês anterior. Era necessário atualizar monetariamente o
preço mais antigo para poder fazer a comparação. Este processo praticamente
impedia que o consumidor tivesse uma memória de preços.
Enquanto a economia esteve fechada ao exterior, o mercado doméstico estava
protegido da concorrência internacional. Então, diante de um mercado cativo, era
possível para muitas empresas fixar seus preços com base no custo de produção
(nem sempre corretamente apurado) acrescido de uma margem de lucro. Se os custos
estavam altos, o problema era do comprador. Onde existe competição, a equação de
preço e custo tem outra forma: o custo precisa ser igual ao preço de mercado
menos a margem de lucro.
Os fatores assinalados tornaram a maior parte dos preços no Brasil
excessivamente altos. Algumas empresas costumam justificar essa situação com um
argumento falacioso: cobram um sobrepreço pela qualidade de seus produtos. Por
causa dessa prática, muitas empresas, algumas quase centenárias, outrora líderes
absolutas em seus mercados, ruíram. Outras caminham a passos largos para o mesmo
destino.
O mercado brasileiro está ávido por empresários com o ideário que desde Henry
Ford tem acompanhado os vencedores permanentes: vender mais por menos. Reduzir
preços - estejam eles inflados por impostos, juros, custos altos ou miopia
gerencial - tem sido uma questão de sobrevivência para as empresas.