O Modelo das Cinco Forças de Michael Porter
Francisco Velez Roxo
16/05/2007
Um dos aspectos essenciais na
formulação da estratégia das empresas em particular da sua dimensão marketing,
consiste na relação entre a empresa e o seu contexto ou ambiente.
Embora este seja bastante vasto, abrangendo o mais variado tipo de forças desde
as de natureza econômica, social, tecnológica, política e legal, o aspecto
determinante desse contexto é o conjunto das características mais relevantes do
setor ou setores, também chamados de indústrias, nas quais a empresa desenvolve
as suas atividades.
A estrutura de um setor influencia e determina as “regras do jogo concorrencial”
de uma forma fundamental, bem como delimita as estratégias potenciais que a
empresa pode vir a adotar e implementar. A intensidade concorrencial num setor
não é um fator do acaso.
A concorrência numa indústria baseia-se na respectiva estrutura econômica e
ultrapassa o comportamento das empresas que nela operam.
A intensidade concorrencial de um setor depende de cinco forças básicas:
· O número de concorrentes e a sua rivalidade em determinado momento
· A entrada de novos concorrentes
· O poder de negociação dos clientes
· O poder de negociação dos fornecedores
· O aparecimento de produtos substitutos
É a partir da conjugação do impacto relativo de cada uma destas forças que é
determinada a rentabilidade potencial do setor.
O objetivo estratégico de cada empresa, será o de encontrar uma posição nessa
indústria que permita defender-se das cinco forças referidas ou influenciá-las a
seu favor. Como todos os concorrentes conhecem, pelo menos superficialmente, a
existência dessas forças, o importante, para a formulação da estratégia
empresarial consiste numa análise profunda das raízes dessas forças. O
conhecimento dessas raízes permite uma melhor utilização dos pontos fortes e a
correção dos pontos fracos da empresa, permite identificar as alterações
estratégicas mais aconselháveis e as áreas mais atraentes ou mais arriscadas
resultantes da evolução da indústria.
Vejamos, de uma forma mais detalhada, os principais aspectos a considerar neste
tipo de análise:
· Número de concorrentes atuais e a sua rivalidade em determinado momento
A rivalidade num setor existe porque um ou mais concorrentes se sentem
pressionados, ou vêem oportunidades, para melhorar a sua posição. Em muitos
setores “manobras” efetuadas por uma empresa têm efeitos significativos nas
outras e, portanto, originam retaliação ou esforços para anular essas “jogadas”.
Este conjunto de ações e reações podem não deixar a empresa que iniciou o
processo e a própria indústria/setor numa situação mais favorável.
Muitas formas de concorrência, principalmente as guerras de preços, são bastante
instáveis e muito possivelmente deixam o setor em pior situação sob o ponto de
vista de rentabilidade. Guerras de publicidade, por outro lado, podem expandir a
procura e elevar o nível de diferenciação dos produtos da indústria,
beneficiando todas as empresas. Uma rivalidade intensa é fruto de um certo
número de fatores: Numerosos concorrentes ou com equilíbrio de forças - quando o
número de empresas é elevado cada uma delas acredita que pode realizar
determinadas jogadas sem serem notadas.
Mesmo quando o número de empresas é reduzido, se existir equilíbrio de forças,
estas podem estar dispostas a lutar entre si. Quando a indústria é concentrada,
dominada por um reduzido número de empresas, estas podem impor a sua disciplina
ou desempenhar um papel coordenador na indústria; Crescimento lento do setor -
numa indústria/setor com uma taxa de crescimento reduzida, a concorrência
transforma-se numa batalha pela conquista de quota de mercado para as empresas
que procuram crescer; Elevados custos fixos ou de armazenagem - a existência de
custos fixos elevados coloca pressão nas empresas para utilizarem a sua
capacidade ao máximo o que conduz muitas vezes a reduções de preços quando
existe capacidade em excesso.
Uma situação relacionada com elevados custos fixos é a de um produto que uma vez
produzido é dificilmente armazenado ou em que a sua armazenagem é dispendiosa.
Neste caso as empresas são tentadas a cortar os preços a fim de assegurarem as
vendas; Inexistência de diferenciação ou custos de mudança - nos casos em que
não existe diferenciação entre os produtos oferecidos numa indústria, a escolha
por parte do cliente é feita na base do preço e serviço.
A diferenciação de produtos, por outro lado, evita uma guerra concorrencial pois
os compradores têm preferências e são leais a determinados produtores;
Aumentos bruscos de capacidade - em indústrias em que as economias de escala
obrigam a grandes incrementos da capacidade instalada, a adição de nova
capacidade perturba periodicamente o equilíbrio entre a procura e a oferta nessa
indústria. Verificam-se então períodos de sobrecapacidade e redução de preços;
Diversidade de concorrentes - os concorrentes que atuam numa indústria podem
diferir entre si nas estratégias, origens, personalidades e ter objetivos
diferentes e modos distintos de concorrer. Dificilmente interpretam as intenções
dos outros concorrentes não chegando a acordo quanto à definição das regras de
jogo na indústria;
Importância estratégica do negócio - a rivalidade numa indústria torna-se mais
intensa se um certo número de empresas consideram muito importante a sua
atividade nessa indústria. Nestas condições os seus objetivos podem ser, não só
diferentes, mas também desestabilizadores pois têm um caráter expansionista e
estão dispostos a sacrificar a sua rentabilidade;
Elevadas barreiras de saída - barreiras de saída são fatores de ordem econômica,
estratégica e até emocional, que fazem com que determinadas empresas permaneçam
numa indústria, mesmo que obtenham uma baixa ou até negativa rentabilidade. As
principais causas de barreiras de saída são: Ativos especializados - com baixo
valor de liquidação ou elevados custos de conversão ou transferência;
Custos fixos de saída - incluem indenizações, manutenção de peças de
substituição,.Relações estratégicas - com outros negócios da empresa, em termos
de imagem, marketing, acesso ao mercado de capitais,.Barreiras emocionais - a
recusa por parte dos gestores em tomar decisões de saída, economicamente
justificáveis, por razões de identificação com o negócio, lealdade, medo,
orgulho,.Restrições de ordem social ou governamental Barreiras de entrada e de
saída - o efeito conjunto das barreiras de entrada e saída constitui um aspecto
importante da análise de um setor:
· Entradas de novos concorrentes
A entrada de novas empresas concorrentes num setor conduz ao aumento da
capacidade instalada, ao desejo de ganhar quota de mercado e à aplicação de
recursos, por vezes substanciais, nesse setor. A ameaça de entrada num setor
depende das chamadas “barreiras à entrada” existentes e da reação dos
concorrentes atuais. Se as barreiras forem elevadas e a reação esperada das
empresas existentes for vigorosa a ameaça de entrada é reduzida, no caso
contrário ela é elevada.
Entre as principais barreiras de entrada destacam-se:
Economias de Escala - as economias de escala traduzem-se na redução dos custos
unitários de um produto (ou operação) com o aumento do volume produzido num
determinado período de tempo. As economias de escala dificultam a entrada na
medida em que força o novo concorrente ou a instalar uma maior capacidade de
produção e a sustentar uma forte reação por parte das empresas já existentes, ou
então a entrar na indústria numa escala inferior e colocar-se numa situação
desvantajosa em termos de custos. As economias de escala podem existir em,
praticamente, todas as funções da empresa: marketing, produção, abastecimentos,
investigação e desenvolvimento, rede de prestação de serviços, etc.;
Diferenciação de Produto - a diferenciação de produto significa que as empresas
existentes têm uma imagem de marca e uma lealdade por parte dos clientes finais,
resultantes de publicidade feita no passado, do serviço prestado ou simplesmente
por terem sido as primeiras no setor. A diferenciação cria uma barreira na
medida em que força os recém chegados a despender elevadas quantias para vencer
a atual lealdade dos consumidores. Este esforço pode envolver investimentos
importantes durante a fase de arranque e perdurar por um prolongado período de
tempo;
Necessidades de capital - a necessidade de investir elevados recursos
financeiros para entrar no setor cria barreiras de entrada, particularmente se o
capital for necessário para financiar publicidade inicial ou investigação e
desenvolvimento;
Custos da Mudança - os custos que um comprador tem de suportar ao mudar de um
fornecedor para outro, constituem uma barreira à entrada. Estes custos podem
incluir o treino de trabalhadores, novo equipamento, tempo despendido em testes
de qualificação do novo fornecedor e até custos de ordem psicológica ao
abandonar as relações com os anteriores fornecedores;
Acesso a Canais de Distribuição - uma barreira de entrada pode ser constituída
pela necessidade que a empresa recém chegada tem em assegurar a distribuição dos
seus produtos. Na medida em que esses canais estão já a ser utilizados pela sua
concorrência já instalada, a nova empresa tem de convencer aqueles a aceitar o
seu produto através de maiores descontos, publicidade conjunta, que acabam por
reduzir as margens possíveis;
Desvantagens econômicas independentes do efeito de escala - as empresas já
instaladas podem ter vantagens em termos de custos independentemente da sua
dimensão. Por exemplo: · Know-how protegido através de patentes ou segredo; ·
Acesso privilegiado a matérias primas; · Localização favorável; · Subsídios do
Governo. Curva de Experiência - em alguns setores existe a tendência para que os
custos unitários do produto diminuam à medida que a empresa acumula experiência
na sua produção. Os custos devido à melhoria dos métodos utilizados pelos
trabalhadores (curva de aprendizagem, equipamento especializado, alterações no
produto,.).
A experiência pode reduzir os custos na produção, marketing, distribuição e em
todas as outras áreas e operações da empresa. Por vezes atribui-se às economias
de escala a redução de custos motivada pela experiência. Aquelas dependem, no
entanto, do volume de produção por unidade de tempo e não da produção acumulada
ao longo do tempo como a segunda. Se os custos diminuem com a experiência e se a
empresa consegue manter como sua propriedade os efeitos da experiência, então
estes constituirão uma barreira à entrada; Política do Governo - Um Governo pode
limitar (ou até impedir) a entrada em muitas indústrias utilizando medidas de
controle como licenças, acesso a matérias primas, combate à poluição,.;
As expectativas no que diz respeito à reação das empresas existentes no setor
face a uma empresa recém-chegada, influenciam a ameaça de entradas no setor. As
seguintes condições permitem prever forte retaliação e mesmo o impedimento de
entrada: Um passado de forte retaliação relativamente às empresas que pretendem
entrar na indústria. As empresas instaladas possuem recursos substanciais para
reagir (ativos líquidos em excesso, capacidade de endividamento não utilizada,
capacidade produtiva em excesso, domínio dos canais de distribuição). As
empresas instaladas estão fortemente comprometidas com a indústria, tendo
elevados ativos fixos nela envolvidos.
O crescimento da indústria é lento, limitando assim a sua possibilidade de
“absorver” uma nova empresa sem afetar negativamente as vendas e rentabilidade
das empresas instaladas.
· Poder de negociação dos clientes
Os clientes influenciam a concorrência na indústria na medida em que podem
provocar a diminuição dos preços, exigem maior qualidade e nível de serviço e
jogam os concorrentes uns contra os outros, à custa da rentabilidade da
indústria/setor.
Um grupo de clientes é poderoso se:
· É concentrado ou compra grandes quantidades relativamente às vendas do
produtor;
· Os produtos comprados à indústria representam uma fração importante dos custos
e compras do cliente;
· Os produtos adquiridos são indiferenciáveis;
· Depara com baixos custos de mudança;
· A sua rentabilidade é baixa;
· Constituem uma ameaça de integração a montante;
· A qualidade do produto adquirido não é importante para a qualidade dos
produtos fabricados pelos clientes;
· Possuem informação completa (procura, preços, custos, rendimentos,.);
A seleção, por parte da empresa, do tipo de clientes a quem vender é uma decisão
estratégica da maior importância. Uma empresa pode, por exemplo, melhorar a sua
posição estratégica selecionando, para seus clientes, aqueles que tiverem menor
poder.
· Poder de negociação dos fornecedores
Os fornecedores podem exercer o seu poder sobre um setor ameaçando elevar os
preços ou reduzir a qualidade dos seus produtos ou serviços.
Um grupo de fornecedores é poderoso nas seguintes condições:
· É dominado por um número reduzido de empresas e está mais concentrado do que a
indústria que fornece;
· Não depara com produtos substitutos;
· A indústria abastecida não constitui um cliente importante para os
fornecedores;
· Os produtos fornecidos são diferenciáveis ou apresentam elevados custos de
mudança.
· Constituem uma ameaça de integração a jusante;
Geralmente apenas se consideram como fornecedores outras empresas, no entanto, a
mão de obra deve ser reconhecida, também, como um fornecedor que pode deter
grande poder sobre os setores. O governo influencia diretamente muitos, senão
todos, dos aspectos do setor de um modo direto e/ou indireto. Em muitos setores
o governo é o cliente ou fornecedor e, muitas vezes, o seu papel é determinado
mais por razões políticas do que por razões econômicas.
A legislação governamental coloca também limites ao comportamento das empresas
como clientes ou fornecedores. Assim, uma análise estrutural só está completa
com a inclusão do diagnóstico da política atual e futura dos governos de uma
nação ou de um bloco econômico.
· Aparecimento de produtos substitutos
Todas as empresas num setor estão em concorrência com empresas de outros setores
que produzem produtos substitutos. Estes limitam a rentabilidade potencial de um
setor colocando um teto nos preços que as empresas podem praticar. A
identificação de produtos de substituição resulta da pesquisa de outros produtos
que podem desempenhar a mesma função. Os produtos substitutos que merecem
atenção especial são aqueles cuja relação preço/rendimento tem tendência a ser
superior à dos produtos do setor, ou são produzidos em setores altamente
rentáveis.
Fonte: Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e ao Investimento, IAPMEI de Portugal