A Necessidade de Sobreviver Requer Adaptações Rápidas
Por Admir Borges
14/12/2006

Não há como ignorar que estamos vivendo tempos de lufada turbulência, onde as mudanças do ambiente competitivo tornaram-se um verdadeiro front de batalha. Entre tantos fenômenos, os distúrbios políticos, as incertezas da economia, os avanços tecnológicos, todos afetando diretamente as organizações e provocando transformações de âmbito social que, por sua vez, influenciam o comportamento do indivíduo, tanto na sociedade como no contexto organizacional.

Sabe-se que o fator mudança é fundamental para o ser humano, além de ser importante também para o clima e a cultura das empresas. A situação atual estabelece que a sobrevivência das organizações não depende apenas de simples e corriqueiras mudanças frente às pressões do ambiente competitivo, mas da capacidade de antecipar os fenômenos e as respostas ao ambiente, para garantir o crescimento em meio as mudanças.

No entanto, defende-se que esses tempos radicais podem requerer tratamentos radicais, ou seja, nos momentos em que crise aperta as empresas precisam mudar e se adaptarem a uma grande velocidade. Contudo, sempre se procura fazer alguma associação entre distúrbios ambientais e períodos de decisivas mudanças, porém não é tão adequado assim estabelecer uma relação entre crise nos negócios e uma mudança estratégica. Por outro lado, não se deve esquecer que geralmente uma crise é capaz acelerar o processo de mudança.

As mudanças radicais não são as ideais, pois, por mais que necessite, uma organização de grande porte não consegue alterar suas estratégias e estruturas no momento exato em que ocorrem as pressões e instabilidades ambientais, como afirma Tom Peters em “Rompendo as Barreiras da Administração”. É que as mudanças, em cenários de relevada competição, costumam ser demasiadamente velozes e a capacidade de resposta das organizações, por sua vez, costuma ser bastante lenta. Assim, a maioria das organizações consegue apenas fazer pequenas alterações, que se tornam ineficientes para garantir a sobrevivência no ambiente. Segundo Henry Mintzberg, enquanto algumas dimensões ambientais estão sempre mudando, outras permanecem estáveis. No entanto, cada vez mais o meio ambiente organizacional estará sujeito a chuvas e trovoadas, mudando rapidamente, forçando as organizações para a busca de adaptações às circunstâncias da transformação. Uma das formas que a organização tem de lidar com o ambiente é tentando criar o seu próprio ambiente.

Esta discussão é necessária porque, além de contribuir para um aprofundamento mais teórico da mudança e adaptação estratégica, pode ajudar no sentido de uma reflexão do tema, na medida em que as organizações sofrem crescentes influências de variáveis do ambiente externo, tendo que implementar redirecionamentos estratégicos para adaptação às novas condições impostas pela competição, garantindo a sobrevivência num contexto ambiental que se apresenta cada vez mais adverso.

O contexto das mudanças decorrentes de panoramas político, tecnológico, cultural, econômico, demográfico, social e ecológico têm se mostrado como motivos de inspiração para grandes transformações ocorridas nas estratégias empresariais. No enfrentamento de tal conjuntura, o novo formato organizacional precisa ser flexível, adaptável e responsável, afeito às necessidades e requisitos do mercado, uma vez que as empresas também estão em constante transformação.

Podemos caracterizar o processo de mudança em uma série de fatores, entre os quais, alterações nos espaços organizacionais, nos níveis de responsabilidade e autoridade, nas relações de trabalho, bem como nos níveis de decisão e nas relações de poder. A mudança organizacional é um processo que ocorre nos diversos níveis, e seus resultados vão sendo moldados na medida dos interesses e compromissos, tanto ao nível do indivíduo como ao nível dos grupos de dentro da empresa.

Não se conhece uma organização que possua o controle de todas as condições necessárias para sua própria sobrevivência, uma vez que elas não são totalmente autônomas e independentes do ambiente e dos recursos externos. E esse ambiente consiste precisamente dos elementos que a organização não pode controlar. Muito embora, ela possa ser capaz de influenciá-lo de alguma maneira.

Assim, para J. Pfeffer “Controle externo das organizações”, a sobrevivência organizacional depende não apenas de ajustes internos, mas principalmente, de ajustes e lutas com o contexto de fora da companhia. A mudança se origina com a identificação de uma ameaça ou uma oportunidade, possíveis de ocorrer tanto no âmbito interno quanto externo à organização ou em ambos.

Quanto à questão da adaptação estratégica, autores diversos a definem como simplesmente o caminho percorrido em direção a um novo cenário, incluindo tanto o comportamento proativo quanto o reativo. Uma empresa com capacidade de adaptação precisa ser flexível e de rápida recuperação, além de ser aberta a idéias, com atenção tanto no presente quanto nas mudanças ambientais previstas para o futuro; garantir um aprendizado através das próprias experiências e responder rapidamente ao mercado. A chamada organização adaptativa, num ambiente turbulento, precisa ter uma avançada capacidade de antecipar as reconfigurações organizacionais e ambientais; solucionar problemas e gerenciar dificuldades e crises.

Em muitas dessas organizações ocorre a interpretação das turbulências ambientais como sendo oportunidades para a criatividade e a inovação. A maioria delas introduz, pelo menos pequenas mudanças adaptativas, pois a necessidade de sobreviver requer adaptações rápidas. É possível, também, que turbulências ambientais externas produzam mudanças indesejadas nas organizações.

É no reconhecimento da pressão ambiental e no prematuro senso de disparidade entre a organização do presente e seus desejos futuros de relacionamento com seus ambientes competitivo, social, político e econômico, ou seja, seu contexto externo, que a energia para a mudança estratégica se fundamenta.

Se no passado o ritmo das transformações seguia um curso lento, em que podia-se tomar as experiências presentes e passadas para se ter uma perspectiva do futuro, atualmente as mudanças acontecem cada vez mais rápidas devido às agitações ambientais originadas de sistemas complexos. A premissa de épocas passadas não vale mais para o presente e nem mesmo podem compor referências consistentes e confiáveis. As organizações complexas não se comportarão no futuro como se comportavam no passado ou como se comportam agora.

Nessa situação, entendemos a função do líder como a de um timoneiro, capaz de nortear os rumos do barco organizacional para um destino menos ameaçador. Com isso, o seu papel, para alavancar o processo de mudança estratégica, é muito relevante e, entre outras coisas, ele deve criar um clima para as transformações a serem realizadas. Líderes estabelecem novos objetivos e criam novas estratégias à luz do entendimento da empresa e de seu meio ambiente. Em tempo de absoluta incerteza os indivíduos em posição de liderança são chamados a fazer a diferença e, quanto mais se olha para as ocorrências de hoje em dia, mais fácil de se identificar a mudança e verificar uma visível interferência da liderança.

O estudo realizado por Bert Spector “Inspirando a mudança organizacional” sugere que o descontentamento das altas lideranças da organização pode ser necessário para iniciar um processo de mudança, entretanto apenas isto não é suficiente para ocasionar e sustentar uma mudança concreta. Dessa forma, o líder além de influenciar a mudança através do poder exercido, é capaz de acelerar o processo de mudança.

Em outro sentido, há um problema que afeta os líderes e compromete o desempenho das empresas em processos de transformação. Numa administração efetiva, para os líderes da organização administrarem eficazmente os processos de renovação precisam não apenas de uma boa capacidade de diagnóstico, mas devem também ser capazes de adotar um estilo de liderança adequado às exigências do ambiente, tentando desenvolver meios para efetivar a mudança. Portanto, a capacidade do líder em reconhecer, interpretar e implementar as exigências do produto, dos processos e dos modelos organizacionais no seu setor é crucial para a sobrevivência em condições competitivas.

No modelo elaborado por Child & Smith “O contexto e o processo da transformação organizacional” a figura da liderança não é tão relevante, e a questão central passa a ser a coalizão dominante. Há no modelo a possibilidade de existir um espaço de decisão, definido e exercido por essa coalizão. É um modelo que derruba a visão causal e apresenta uma visão política como sendo a mais ideal, mais subjetiva, ou seja, o ambiente percebido passa a ser considerado um importante elemento para o estudo do processo de mudança.

Esse modelo, denominado Firm-in-Sector, relaciona três elementos como cruciais para a transformação organizacional: o setor constitui um conjunto de condições objetivas, o qual pode criar pressões para transformações; o setor é uma arena cognitiva com o qual seus membros identificam-se; o setor não consiste apenas em produtos competitivos, mas também em uma rede de colaboradores atuais e potenciais.

Sobre coalizão dominante, Miles & Snow, em “Estratégia organizacional” afirmam ser um elemento que existe em toda e qualquer organização e é caracterizada por um grupo de tomadores de decisões que influenciam o sistema de forma muito acentuada. Este grupo de executivos tem responsabilidade tanto de identificar quanto de resolver os problemas, e através das percepções a coalizão dominante decreta ou cria o meio ambiente relevante da organização.

Cabe aos administradores uma formulação de rumos que permitam alcançar as mudanças por todos aqueles que participam da organização e, além disso, mover as pessoas pelo sentido, pelo valor que reconhecem na sua contribuição pela busca da adaptação ao novo cenário. A racionalidade econômica terá que ser subordinada ao desenvolvimento dos próprios colaboradores. O mais racional é investir na informação e no conhecimento. É possível observar que as empresas sob o enfoque do aprendizado constante é, acima de tudo, uma proposta de mudança de atitude para uma concreta mudança de rumos.

Em suma devemos dizer que no cenário atual onde instabilidade, imprevisibilidade, incerteza e total complexidade diante dos acontecimentos continuarão sendo a única e perceptível constante. Assim, como de uma maneira ou de outra, toda organização depende de seu ambiente, cabendo aos detentores do poder e do processo decisório das organizações tentar de alguma maneira ler com alguma antecedência o novo ambiente que se aproxima, ou seja, antecipar o futuro, em termos de oportunidades e ameaças para que elas não surpreendam as organizações totalmente despreparadas. Lembrando Charles Darvim “Não é o mais forte da espécie que sobrevive, nem o mais inteligente; é o que melhor se adapta à mudança”.

Admir Borges, consultor empresarial na área de atendimento ao cliente e Coordenador e Professor de Pós-graduação de Marketing e Comunicação da Uni-bh, Universidade Fumec. e IEC-PUC.