O Lado Bom da Tragédia
Por Sidney Coldibelli
21/04/2002

Acho que são raros os casos de pessoas que não ficaram, no mínimo, surpresas (para não falar chocadas) com o que aconteceu nos Estados Unidos no último dia 11 de Agosto. Eu particularmente fiquei chocado com estes acontecimentos, não apenas pela violência, mas pela agressão gratuita a pessoas inocentes. Tudo em nome de uma crença, de um ideal político ou de qualquer outra coisa. Nada no mundo é tão importante do que a preservação da vida.

Mas o fato é que isto aconteceu e não há lamentação no mundo que faça o tempo voltar atrás.

Como praticante de AIKIDO (uma arte marcial), sempre fui ensinado pelo meu Sensei (professor) Wagner Bull a, não importa o tamanho da catástrofe, olhar o lado bom das coisas.

Depois de passado a hora do espanto, comecei a tentar buscar alguma coisa de bom em meio aos escombros das Twin Towers.

Confesso que foi necessário um alto grau de imaginação e concentração para tirar alguma coisa de proveitoso de um acontecimento tão trágico. Mas afinal este lado bom apareceu.

Pensar neste atentado traz uma reflexão em cima de fatores que determinaram o sucesso deste acontecimento. E que com certeza todas as empresas teriam como obrigação implantar. Quais são eles ?

1) OUSADIA;

2) PLANEJAMENTO

3) TREINAMENTO;

4) MOTIVAÇÃO;

5) INVESTIMENTO;

Com estes 5 ingredientes, a organização que promoveu tão nefasto episódio, atingiu o sucesso. Mas vamos entender cada um deles:

1) OUSADIA - Diz uma frase que conheço que "insanidade é tentar obter resultados diferentes, fazendo sempre as mesmas coisas." E no marketing nenhuma frase cabe tão bem quanto esta.

Um grande diferencial está, sem sombra de dúvida, em conseguir surpreender o mercado com ações corajosas e inusitadas. Quer um exemplo: quando a MAGGI entrou no mercado de caldos concentrados, criou um personagem, "A Galinha Azul", e este personagem inundou os mercados e a mídia. Me lembro de uma ação de uma galinha gigante colocado no saguão de entrada do supermercado Eldorado. Foi então que a MAGGI conseguiu dividir o mercado com a Knorr. No caso específico a ação foi tão ousada que ficou registrada, não apenas na memória das pessoas, mas na própria história.

2) PLANEJAMENTO - Num passado não muito distante, quando o então Ministro Delfim Neto disse que era impossível fazer planejamento no Brasil, este absurdo virou uma verdade. E, a partir daí, empresas pararam de planejar acreditando na frase que diz que "a longo prazo, todos estaremos mortos" e queremos tudo para agora.

Isto é uma grande bobagem. Pois, como diz um outro ditado "para um navio que não tem rumo, nenhum vento ajuda". É inegável que, para uma ação desta envergadura, foi feito um planejamento minucioso, onde os mínimos detalhes devem ter sido previstos e analisados. E o resultado aí está.

3) TREINAMENTO - As empresas brasileiras relutam (ainda na sua grande maioria) em treinar funcionários. Haja vista o número de horas que os executivos brasileiros recebem de treinamento, comparado aos nossos companheiros norte-americanos.

Imagine, então, o total de horas empreendido em treinamento pelos terroristas particioantes deste nefasto incidente. O que cada um teve que aprender, tenho quase certeza de que não levou alguns dias, e sim meses.

4) MOTIVAÇÃO - Conheço pessoalmente, mais de uma dezena de gerentes de vendas ou diretores comerciais que dariam tudo para que seus vendedores fossem capazes de entrar (não com um Boeing), mas com pasta e coragem na sala do cliente e fechar a venda, não é mesmo?

Enquanto muitos de nós ainda se questiona sobre o grau de motivação que leva uma pessoa a praticar um ato suicida como este em New York. A resposta, a primeiro vista, é óbvia: "fanatismo religioso."

Ora, se existem fanáticos religiosos, foi porque alguém vendeu para eles a idéia de abraçar esta causa. Ninguém nasce um fanático religioso. Eles são formados e motivados a se envolver. E muitos deles perdem a vida por esta causa.

Mas a grande pergunta é: Como eles conseguiram este grau de motivação? Uma resposta eu tenho. Com dinheiro não é, pois, mesmo que os terroristas tivessem ganho bastante, não poderiam gastar, já que estão mortos.

5) INVESTIMENTO - Ainda que o principal suspeito seja um milionário. Devemos lembrar que o dinheiro investido, pelos resultados obtidos, foi muito pequeno. Principalmente se atentarmos pelo fato de que ele usou distribuição terceirizada (aviões de carreira) para mandar seus suicidas aos alvos. O grande investimento foi em treinamento e criatividade. Mas não se iluda, houve investimento, nem que seja de tempo.

Assim, fica evidente, pelo menos para mim, que uma ação bem sucedida deve conter estes ingredientes. Dosados e na proporção certa. E este é o nosso grande desafio. Medir criteriosamente as ações e o investimento, pois nem tudo que é ousado tem que ser caro. Nem tudo que é planejado deve ser burocrático. Nem toda motivação é positiva. Enfim, tudo deve ser feito com uma boa dose de INTELIGÊNCIA.

Sidney Coldibelli é presidente da Inteligência de Marketing