Onde estão os líderes
Por Rogerio Martins
14/08/2008
Há muito tempo tenho pesquisado e desenvolvido trabalhos sobre liderança e
gestão de pessoas. Neste período presenciei muitas coisas intrigantes sobre o
tema. Uma delas é o fato de haver tanto investimento na formação e
desenvolvimento de lideranças, mas pouco resultado prático.
Dave Ulrich afirma em Liderança Orientada para Resultados: o trabalho do líder
exige mais do que caráter, conhecimento e ação; ele também demanda resultados.
Segundo minhas observações e experiência no assunto um fator tem sido primordial
para esta falta de resultados e eficácia dos programas de treinamento e
desenvolvimento de lideranças: a falta de coragem dos líderes em assumir seu
papel.
Um dos pressupostos básicos da liderança é a capacidade de tomar a iniciativa e
assumir os riscos. Em outras palavras, o líder é aquele que diante do conflito,
da dificuldade ou dos problemas toma a frente e assume a responsabilidade,
promovendo as ações necessárias ou dirigindo os esforços dos subordinados para
tal feito. Para Kouzes e Posner, as oportunidades de liderança são na verdade
aventuras de uma existência e requerem espírito pioneiro. Começar uma nova
empresa, reverter uma operação perdida, melhorar intensamente a condição social,
aumentar a qualidade de vida todos são nobres esforços humanos. Esperar uma
permissão para começá-los não é uma característica dos líderes. Agir com senso
de urgência, sim.
O que vemos é um tanto de gente em papel de liderança sem coragem para tomar as
decisões necessárias para o bem das empresas, dos funcionários, da sociedade e
deles próprios. Efetivamente sem este senso de urgência, de realização.
Escondem-se atrás do manto sagrado do trabalho em equipe.
Nos estudos que tenho realizado junto a empresas de pequeno e médio portes, em
grande parte, o medo das pessoas em assumir o risco da liderança está
relacionada com a auto-estima. Geralmente rebaixada por motivos individuais e
coletivos.
Desde criança, em nossa cultura, os pais educam os filhos para não correr
riscos. Frases como: não corra, vá devagar para não se machucar, não faça isso,
não faça aquilo e assim por diante, são constantemente proferidas pelos pais,
educadores e outras pessoas próximas. Cria-se um verdadeiro time de covardes.
As atividades coletivas são mais estimuladas que as individuais. As pessoas são
estimuladas a não se destacarem individualmente, mas coletivamente. Vemos este
tipo de representação nos esportes, nas empresas e em várias atividades sociais.
Os que se destacam por seus próprios méritos são rapidamente invejados ou
depreciados por não saberem atuar em equipe.
Durante o período escolar são incentivadas a trabalhar em grupo, mas poucas
vezes valorizadas por realizações individuais. Quando isso acontece há a
desconfiança de privilégios.
Obviamente que é cômodo colocar a culpa somente na família, na sociedade, na
escola e em tudo que é externo. Há a parte que cabe a cada um. O fato de ter
sido educado para preferir ficar na zona de conforto não significa que devemos
nos acomodar a isso. Romper esta barreira emocional criada na infância e na
adolescência é o grande desafio. Para isso é preciso conhecer as limitações e
qualidades que cada um tem. Quem deseja ser um líder precisa ficar atento a isto
e sair do paradigma do sempre foi assim. Em resumo, assumir o risco.
Assumir o risco significa, em parte, não ser aceito, não ser compreendido, não
agradar a todos, não abaixar a cabeça, não aceitar a mediocridade, o erro e o
despreparo. Tudo isso tem um preço a ser pago. Para muitos este preço é muito
alto. Pode custar o emprego, a aceitação do grupo, a imagem de boa pessoa e tudo
mais.
Lembrando que um dos valores arraigados em nossa sociedade é o de viver bem na
coletividade, ser um verdadeiro líder conflita com este estereótipo. Afinal,
quem está preparado e predisposto para ir contra este padrão de comportamento?
O verdadeiro líder sabe disso e ainda assim segue em frente. Ele tem a certeza
de que seu papel é exatamente o de conduzir aqueles, que por diversos motivos,
não tiveram coragem de estar a frente.
Portanto, para ser um verdadeiro líder é necessário conhecer melhor a si mesmo,
suas qualidades e fraquezas; transpor as barreiras do medo e da insegurança,
trabalhando na sua auto-estima; ter propósitos firmes, porém, com humildade para
saber mudar e se adaptar sempre que necessário. Vai encarar? Sucesso!
Rogerio Martins é Psicólogo, Consultor de Empresas e Palestrante. Especialista
em Liderança e Motivação. Sócio-Diretor da Persona Consultoria e Eventos. Autor
do livro Reflexões do Mundo Corporativo. Membro do Rotary Club de SP Santana
(Distrito 4.430).