As passagens para o futuro
Por Ivan Postigo
09/04/2010
Sempre fui um grande defensor do olhar crítico e motivado em relação ao futuro.
É verdade que às vezes ele se apresenta com um belo portal e ao atravessá-lo nos
decepcionamos, mas logo à frente haverá outra passagem permitindo a mudança de
rumo.
Futuro? O que é e onde está o futuro?
Essa era uma pergunta que nos fazia um amigo quando ainda cursávamos o colégio
técnico em minha cidade.
Jovens, estávamos longe de atingir a maturidade. Sonhávamos com a faculdade,
carreira, aventuras e viagens.
A maioria trabalhava durante o dia e estudava a noite. Muitos concluíram, vários
passaram, se tornaram amigos, seguiram rumo a uma das passagens e deixaram
saudades.
Todos sem dinheiro, “duros”, como nos tratávamos. O que poderíamos aspirar?
Ah, o futuro reserva surpresas!
Um dia apareceu um representante da Petrobrás. Propôs a realização de uma série
de testes para a escolha de um grupo de pessoas, fariam treinamento em suas
instalações. Esses se tornariam funcionários com salários que nunca havíamos
imaginado.
Naquele momento lá se foi nosso amigo, feliz da vida rumo à Jacareí, em uma das
passagens para o futuro.
Terminado nosso curso nos espalhamos pela cidade de São Paulo, em empresas dos
mais diversos portes, em passagens diferentes que nos levariam às mais variadas
faculdades.
Uma de nossas amigas, na época não era comum mulheres frequentarem o curso
técnico em mecânica, depois de alguns anos trabalhando em empresas metalúrgicas,
nos surpreendeu com a carreira de pianista. Pianista?
Sim, pianista. Que passagem!
Disse que nunca teve coragem de nos contar porque tinha vergonha de não saber
explicar o que fazia no meio das pranchetas, tornos, furadeiras e fresas na
escola.
Bobagem. Teríamos adorado cantar completamente desafinados em volta do piano!
Já fazíamos isso com as cordas do violão, porque não com as teclas?
Havia um aventureiro que foi e voltou inúmeras vezes às terras árabes,
trabalhando em campos de petróleo. Nunca mais o vimos. Quero crer que está em
alguma passagem pelo Oriente.
Mais artistas? Sim, um deles teve um conjunto, hoje tratamos como banda de
baile. Foi famoso, quase gravou um disco. Quase!
Jogadores de futebol? Dois.
O primeiro infelizmente morreu em acidente da automóvel quando jogava em um
grande time do sul do país, outro depois que marcou o Rivelino e tomou um
“baile” achamos que a passagem para um futuro promissor não seria aquela. Pelo
visto acertamos, não o vimos mais na TV.
Atores? Só um, mas do teatro amador. A última vez que o vi estava negociando
franquia de sua rede de lanchonetes. Nesse caso a passagem foi do teatro para o
lanche!
Fora os colegas da escola têm os agregados, aqueles que irmãos, amigos e
desconhecidos nos apresentam nas nossas andanças, que em suas passagens se
tornarão advogados, médicos, jornalistas, empresários, caminhos indicados pela
vida que os conduzirão ao futuro escolhido.
Ah, então as passagens para o futuro são estradas longas?
Não, não são estradas. São portas, portais, postigos, passagens mesmo!
As passagens estão num telefonema para um ótimo emprego, num passeio no shopping
sob o olhar de um caça talentos, numa redação que se torna um livro de sucesso,
numa piada que o leva à um stand up, num concurso que abre as portas para uma
bela carreira, num bilhete de loteria...
Um grande amigo, gerente nacional de vendas de uma multinacional, foi delatado
num happy hour. Quando bastante jovem, para divulgar sua peça de teatro, saia
pela cidade de bicicleta, vestido de noiva!
Esse não foi seu futuro profissional, onde estava então? O futuro sempre está
alguns instantes à frente.
O presente sendo interessante o coloca em uma das passagens para um futuro
promissor.
Sentado na sala, em frente a um televisor, não há futuro?
Futuro sim, promissor provavelmente não! A não ser que você faça alguma coisa
com o que está ali aprendendo.
Cristovão Colombo, sentado na praia, imaginando o que havia além do horizonte,
tornava o presente a mola propulsora de seus projetos e futuro.
O presente você só pode vivê-lo, o passado jamais poderá mudá-lo, mas o futuro
poderá construir.
Cada pessoa tem sua religião e crenças. Alguns chamam essa força maior de Deus,
outros de natureza, enfim não vamos nos prender a isso, mas de uma coisa eu
desconfio: “Essa força é imparcial, conspira e torce a nosso favor”!
Nossa única obrigação é escolher as melhores passagens para o futuro!
Ivan Postigo é Economista, Bacharel em contabilidade, pós-graduado em
controladoria pela USP. Autor do livro: Por que não? Técnicas para estruturação
de carreira na área de vendas e diretor da Postigo Consultoria de Gestão
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