É preferível avermelhar uma vez a amarelar sempre
Por Evaldo Costa
13/11/2007
“O vôo até a lua não é tão longo. As distâncias maiores que devemos
percorrer estão dentro de nós mesmos.”
Charles de Gaulle
Você já teve problemas de relacionamento que tenham lhe causado transtornos?
Como você costuma agir quando se depara com desentendimentos? Você já se
aborreceu com alguém e acabou se arrependendo? Saiba que o terreno do campo
de jogo do consultor de vendas é o relacionamento. Portanto, as
possibilidades dele se deparar com situações que o coloque em confronto com
o cliente sempre existem e as chances do clima azedar são enormes.
Considera-se o cliente mais exigente do que Deus, pois o Senhor perdoa, mas
ele nem sempre.
O consultor de vendas deve saber que boa parte do seu sucesso depende de sua
capacidade de cultivar boas amizades. O cliente gosta de comprar de amigo e
não de vendedor. No entanto, ele não pode se iludir achando que saberá lidar
com os inúmeros conflitos que terá de enfrentar na profissão. O cliente,
quase sempre, espera um tratamento sublime do profissional de vendas,
exaltado pela concorrência que está a cada dia mais acirrada. Atualmente,
considera-se o cliente mais exigente do que Deus, pois o Senhor perdoa, mas
ele nem sempre.
A questão do relacionamento torna-se mais complexa à medida que o consultor
de vendas acredita na amizade do cliente. É bom lembrar que o cliente pode
ter comportamento ambíguo demonstrando amizade, porém se perceber algo
contrário aos seus interesses, ele mudará de posição em fração de segundos,
deixando-o em uma sinuca de bico. Vou lhe contar um fato ocorrido comigo que
poderá lhe ajudar muito. As mais de três décadas de know-how em vendas me
ensinaram a não confundir amizade real com “amizade de cliente”. Em nossa
empresa, mantínhamos em carteira um cliente com excelente grau de
relacionamento. Nos conhecíamos há muito tempo e nunca houve conflito de
interesses que não tenha sido superado.
Conquistei muito mais clientes e realizei muito mais negócios por confiar e
não por desconfiar dos meus clientes.
Existia confiança plena entre as partes. Um belo dia nós apresentamos a ele
um novo projeto. O interesse foi instantâneo e ele nos pediu mais
informações que, a rigor, só poderiam ser fornecidas se existisse um
contrato assinado pelas partes. Como não havia, tive de negociar com
veemência para convencer aos meus pares que seria seguro fornecer os dados.
O desconforto, por parte da nossa equipe com aquele episódio, era grande.
Porém, eu tinha munição de sobra para gastar por se tratar de cliente antigo
e de ilibada reputação.
Para não me alongar, depois de fornecidos todos os detalhes, o cliente nos
mandou uma correspondência dizendo que havia optado por uma proposta do
concorrente. Claro que foi um terrível golpe - em especial para mim que não
havia poupado esforços para defender os interesses dele. E você quer saber o
que foi mais cruel? Pode parecer incrível, mas como se não bastasse, depois
de tantos anos de relacionamento, o cliente não só não levou esse aspecto em
consideração, como também, apoderou-se na íntegra o conteúdo da nossa
proposta. Ótimo para o concorrente que ganhou sem investir tanto. Agora,
como você acha que ficou a minha situação na empresa? É isso mesmo que você
deve estar imaginando: extremamente desgastada!
“Fracasso não será fracasso, se dele tirarmos uma lição.”
Dr. Ronald Niednagel
Questionado por minha equipe sobre o episódio, eu os lembrei de que a
traição é algo que acontece há séculos. Em 44 a.C. Júlio César estava no
prédio do senado romano preste a ser golpeado até a morte por seu carrasco
que seria, justamente, o amigo em que ele mais confiava: Marco Júnio Brutus.
Daí a famosa frase “até tu Brutus?” Disse a minha equipe que mantinha a
crença de que as verdadeiras amizades são construídas pela confiança,
transparência e vulnerabilidade. E que eu não deixaria o medo da traição
pesar mais que a minha disposição de me arriscar a confiar nas pessoas. E
conclui: conquistei muito mais clientes e realizei muito mais negócios por
confiar e não por desconfiar dos meus clientes. Admito que perdemos sim um
negócio de forma iníqua, mas não perdemos a esperança, disposição e a
confiança para conquistar novos clientes e realizar outros negócios.
Agora, você pode estar se perguntando: acontecimentos assim são normais?
Esse é o risco do negócio? Ganha o mais esperto? Cuidado: pode não ser bem
assim. Como você acha que esse cliente se comporta quando se encontra
conosco? Acertou se você respondeu amarelado, sem graça, envergonhado. A
vida parece planejar os acontecimentos nos mínimos detalhes. Antes
deparávamos em ocasiões de negócio, porém agora os encontros são rotineiros.
Então eu lhe pergunto: não seria melhor se ele nos tivesse explicado a
situação e resolvido a questão de forma pragmática? Afinal de contas, se
isso tivesse ocorrido ele teria avermelhado uma única vez e não precisaria
amarelar o resto da vida.
Evaldo Costa
Escritor, Consultor, Conferencista e Professor.
Autor dos livros: “Alavancando resultados através da gestão da qualidade”,
“Como Garantir Três Vendas Extras Por Dia” e co-autor do livro “Gigantes das
Vendas”
Site: www.evaldocosta.com.br - E-mail: evaldocosta@evaldocosta.com.br