Projeto de Criação da Identidade da Banda de Rock Radiofônica
Por Diogo Jeber Demétrio
Orientador: Professor Luiz Gonçalves
01/04/2008
SUMÁRIO
1- Introdução 3
2- A História do Rock and Roll 3
2.1 - O Rock Nacional 4
3- A Banda Radiofônica, objeto do estudo 18
4- Uma proposta de identidade para a Banda Radiofônica 19
4.1 – Estudo de Capas de Discos Internacionais 19
4.2 – Estudo de Capas de Discos Nacionais 21
4.3 – A Marca Radiofônica 23
5- Conclusão 25
6- Bibliografia 25
7- Webliografia 26
1- Introdução
Criada em meados de Julho de 2007, a banda de Rock mineira Radiofônica tem
realizado shows em diversas boates, casas de shows e festas particulares nos
últimos meses. Apesar de seu sucesso instantâneo com o público de Belo
Horizonte, existe certa dúvida em relação à verdadeira identidade da banda, que
é composta por músicos de influências diversas e produzem um tipo de música
diferente do Pop Rock nacional explorado nas rádios atualmente.
Muitos de seus fãs e inclusive seus músicos não sabem definir o estilo de Rock
executado pela Radiofônica, e a banda está gravando um CD que será lançado em
Maio de 2008, o qual ainda não possui título e nem identidade visual. Este CD
será composto por músicas próprias e releituras de sucessos que marcaram o Rock
nacional dos anos 80 e 90.
Este projeto tem como objetivo definir a identidade visual da Banda Radiofônica
em sintonia com seu público alvo e que ajude a definir as raízes da banda de
acordo com a identidade pretendida.
2- A História do Rock and Roll
Para contextualizar o cenário em que se encontra a Radiofônica é necessário
traçar uma breve historiografia do estilo musical da banda a fim de determinar
suas raízes.
O Rock and roll (também escrito Rock 'n' Roll) é um gênero de música que emergiu
e se definiu no sul dos Estados Unidos durante a década de 50 e rapidamente se
espalhou pelo resto do mundo. Evoluiu mais tarde para diversos subgêneros, no
que hoje é definido simplesmente como "Rock". Atualmente, o termo "Rock and Roll"
tem diversos significados, seja para definir o Rock tradicional ao estilo dos
anos 50, ou para definir o Rock desenvolvido posteriormente, e até mesmo certas
vertentes da música pop.
Os instrumentos mais comuns no Rock and Roll são a bateria, guitarra elétrica, o
baixo e muitas vezes um piano ou teclado, embora no início o principal
instrumento tenha sido o saxofone, posteriormente foi substituído pela guitarra
no final dos anos 50.
Desde seu nascimento o Rock gerou polêmica, seja por causa da simplicidade de
suas estruturas musicais, da atitude transgressiva de seus executores ou da
pretensa rebeldia de seus fãs. Os primeiros roqueiros, Bill Haley, Chuck Berry,
Little Richard e alguns outros, tornaram-se artistas de sucesso instantâneo
justamente por causa dessas características, o que os fez amados pelos jovens e
odiados por seus pais conservadores. Com o tempo, porém, o Rock foi se
modificando e pulverizando numa série de sub-estilos (Rockabilly, Punk, Hard
Rock, Heavy Metal, entre outros) e foi assimilado pela mídia e pela cultura
ocidental como um todo, transformando-se num produto de consumo cuidadosamente
articulado para ser lucrativo. Apesar disso, ainda existe em seu âmago as marcas
que o acompanham desde sua concepção: rebeldia, atitude, transgressão,
anti-sociabilidade e muito dinheiro envolvido (como ficou provado com o
surgimento dos Beatles, Rolling Stones, Slade, The Who, Led Zeppelin, Kiss, Sex
Pistols e de todos os grandes nomes do gênero).
2.1 - O Rock Nacional
A história do rock no Brasil deu muitas voltas desde o seu começo oficial, no
dia 24 de outubro de 1955, quando foi lançada, na voz de Nora Ney, a música
Ronda das Horas. Era uma versão da música Rock Around the Clock, um dos primeiro
sucessos do Rock’n’Roll, escrito por Max C. Freedman e Jimmy Knight e gravado
por Bill Haley & His Comets. Depois desse inusitado disco inaugural os
brasileiros viram aquela subversiva novidade americana ser assimilada pelos
compositores nacionais (em 1957, Cauby Peixoto gravou o primeiro exemplar
nacional, Rock and Roll em Copacabana, de Miguel Gustavo) gerar seus primeiros
ídolos tupiniquins (Cely Campello, de Estúpido Cupido e Banho de Lua, e Sérgio
Murilo, de Broto Legal), ensaiar suas primeiras apologias ao mau comportamento e
inspirar o primeiro movimento de afirmação da cultura jovem brasileira – a Jovem
Guarda de Roberto e Erasmo Carlos, com sua rebeldia cuidadosamente calculada.
Com este impulso, as guitarras elétricas passaram a dar o tom para a farra da
garotada, misturando-se sem problemas, a partir da Tropicália (1967), com os
mais tradicionais gêneros da música brasileira.
Passada a revolução promovida por Caetano, Gil e os Mutantes, o Rock adquiriu
uma posição marginal no cenário da música brasileira. A emergência da MPB, o
clima pesado da repressão política, tudo isso colaborou nos anos 70 para que,
como bem observou Rita Lee certa vez, o roqueiro brasileiro tivesse cara de
bandido. Mas apesar de nenhum movimento ter se configurado a partir do Rock
nessa época, os valores individuais garantiram que a década estivesse longe de
ser perdida. Um dos maiores ídolos roqueiros surgiu nesta época: o baiano Raul
Seixas, misturando Elvis, Luiz Gonzaga, esoterismo e pura provocação (com ou sem
o parceiro Paulo Coelho) em músicas como Gita, Ouro de Tolo, Metamorfose
Ambulante e Maluco Beleza. Em 1975, Rita Lee “turbinou” seu som com a banda
Tutti Frutti e virou a grande dama do Rock brasileiro a partir do disco Fruto
Proibido.
Os Novos Baianos (de Moraes Moreira, Pepeu Gomes e Baby Consuelo) levaram
adiante as idéias de fusão da Tropicália, assim como o pernambucano Alceu
Valença, pai do Forrock. Já os Secos & Molhados adaptaram o Glitter Rock de
David Bowie à música folclórica de diversas procedências, criando um sucesso
nunca antes, ainda revelando um dos grandes intérpretes da MPB: o camaleônico
vocalista Ney Matogrosso.
Na segunda metade da década de 70, as obstinadas bandas que insistiam em fazer
Rock no Brasil geralmente tendiam para o Hard Rock (O Peso, Made In Brazil, a
Patrulha do Espaço de Arnaldo Baptista, Bixo da Seda, A Bolha), ou para o Rock
Progressivo (O Terço, Som Nosso de Cada Dia, Mutantes, Moto Perpétuo, Casa das
Máquinas, Módulo, Som Imaginário, Veludo Elétrico, Vímana, Terreno Baldio). Mas
ainda havia o Rock rural de Sá, Rodrix & Guarabira, o pré-punk do Joelho de
Porco e as experimentações inclassificáveis de Tom Zé e Walter Franco. Era toda
uma força roqueira que seria dizimada a partir de 1977, com a massificação nas
rádios brasileiras do fenômeno da discoteque, que acabou influenciando o Rock
daquela época. Rita Lee foi um dos que embarcaram na onda disco, dando início à
sua fase Banho de Espuma.
O começo da década de 80 não foi nada propício para o Rock. Reinava a MPB de FM
e, apesar da relativa abertura política, a sombra da repressão e a censura ainda
desanimavam os músicos que tentavam ser tematicamente ousados. O "som jovem"
possível na época era o Pop-Rock de artistas como Guilherme Arantes (ex-Moto
Perpétuo), Marina, Ney Matogrosso, Angela Rô Rô, 14 Bis (de Flávio Venturini e
Magrão), Beto Guedes, Eduardo Dusek, Baby Consuelo, Pepeu Gomes, A Cor do Som e
Rádio Táxi. O público jovem, porém, exigia uma nova linguagem musical, em que os
seus temas básicos (amor, diversão, trabalho, família) fossem tratados de forma
mais clara e despojada.
Com o rock básico e os cabelos curtos e espetados da New Wave a renovação do
Rock Brasil começa a se processar logo no início da década. “Antenado” com
aquelas novas tendências, o jornalista e discotecário Júlio Barroso fundou a
banda Gang 90, que trazia no seu bojo as Absurdetes (ou seja, as vocalistas
Alice Pink Pank, May East, Lonita Renaux e Luísa Maria). O estouro se deu no
Festival MPB Shell de 1981, quando apresentaram o Reggae Perdidos na Selva, cuja
letra falava de um improvável acidente de avião com final feliz e reproduzia a
linguagem e as referências dos “filmes B” e das histórias em quadrinhos. Era
apenas uma mostra do que estaria por vir no ano seguinte, aquele em que o Rock
enfim configuraria um movimento cultural no Brasil.
Assim como a Gang 90, os atores do grupo teatral carioca Asdrúbal Trouxe o
Trombone experimentavam um enfado com a caduquice e o excesso de seriedade da
música brasileira. Numa temporada dividida com Marina no Teatro Ipanema, em idos
de 1981, o asbrúbal Evandro Mesquita e o baterista Lobão (ex-Vímana) tiveram a
idéia de montar uma banda de rock teatral. Deste último veio o nome: Blitz, já
que eles estavam sempre sendo parados nas batidas policiais. Juntando a
irreverência praieira do Asdrúbal a um Rock direto, cantado por uma dupla de
meninas bonitas (Márcia Bulcão e Fernanda Abreu), a banda “caiu como uma luva”
no espaço para shows que abriu em pleno verão de 1982 na praia do Arpoador: o
Circo Voador. Com Ricardo Barreto (guitarra), Antônio Pedro (ex-Mutantes, baixo)
e William Forghieri (ex-Gang 90, teclados), a Blitz causou tanto “burburinho” na
noite carioca que conseguiu um contrato para gravar um compacto – Você Não Soube
Me Amar, história de um desencontro amoroso, cantada na linguagem malandra dos
jovens da Zona Sul carioca.
Lançado em junho, o compacto (que no lado B, trazia apenas Evandro dizendo
"Nada, nada, nada...") vendeu 100 mil cópias em três meses. Lançado em setembro,
o primeiro Long Play da banda, As Aventuras da Blitz, que trazia ainda as
músicas Mais Uma de Amor (Geme, Geme) e De Manhã (Aventuras Submarinas),
transformou a banda num fenômeno nacional. Mais dois discos (Radioatividade,
1983, e Blitz 3, 1984), centenas de shows, vários sucessos (Weekend, Bete
Frígida, Egotrip) e a banda terminava em 1986. Voltaria, anos mais tarde, sem
Fernanda Abreu, para repetir os sucessos.
Pouco depois do lançamento de As Aventuras da Blitz, Lobão saltou do barco e
conseguiu uma gravadora para lançar seu disco solo, Cena de Cinema, que havia
sido feito um ano antes, com seus amigos. Começava aí uma carreira das mais
importantes do Rock Brasil, de um artista sempre inconformista, que gravou
discos clássicos como Ronaldo Foi Pra Guerra, O Rock Errou, Vida Bandida (que
refletiu suas experiências no mês em que esteve preso na Polinter por porte de
droga) e músicas como Me Chama (regravada por Marina e ninguém menos que João
Gilberto), Corações Psicodélicos, Revanche, Vida Bandida, Chorando no Campo e
Essa Noite Não.
Em 1982, ainda apareceriam mais autores de alta relevância no Rock Brasil.
Passada a fase Nostradamus, Eduardo Dusek embarcou em uma viagem Rock, no disco
Cantando no Banheiro, gravado com uma banda carioca que seguia o estilo de rock
dos anos 50, com muito bom humor: João Penca & Seus Miquinhos Amestrados. Entre
seus integrantes havia um irreverente goiano com uma habilidade muito boa para a
composição: Léo Jaime, que escreveu o grande sucesso de Cantando, o Rock da
Cachorra. Os Miquinhos seguiriam depois sem Dusek e sem Léo, que iniciou uma
carreira solo repleta de sucessos como Sônia, O Pobre e As Sete Vampiras. No
mesmo ano ainda se viu a estréia em LPs do ex-Vímana Lulu Santos (com a faixa
Tempos Modernos) e do Barão Vermelho (que “passou em branco”), além do
nascimento, em Niterói, da Rádio Fluminense, grande divulgadora das fitas demo e
discos das novas bandas de Rock. Paralelamente, explodia em São Paulo o
movimento Punk, no festival O Começo do Fim do Mundo, com bandas furiosas como
Inocentes, Ratos de Porão, Cólera e Olho Seco.
Em 1983, o Rock não era mais um estranho no ninho da música brasileira,
conquistando generosos espaços na imprensa e levando as gravadoras a perder seu
medo de contratar. A gravação de Ney Matogrosso para Pro Dia Nascer Feliz
apresentaria ao país o Barão Vermelho e sua promissora dupla de compositores:
Roberto Frejat e Cazuza, o poeta exagerado. O LP Rock Voador (resultado da
dobradinha Circo Voador e Rádio Fluminese) revelou o Kid Abelha e Suas Abóboras
Selvagens e o guitarrista de Blues-Rock Celso Blues Boy. Uma das bandas que
tinha sua fita demo executadas na Fluminense, o Paralamas do Sucesso, gravou seu
primeiro compacto: Vital e Sua Moto/Patrulha Noturna, cujo relativo sucesso
levou, no fim do ano, ao primeiro LP, Patrulha Noturna.
Mas quem se destacaria naquele ano seria um outro ex-Vímana, também acostumado a
fazer discos-solo: o inglês Richard Court, o Ritchie. Sua música, Menina Veneno,
um elegante Tecno-Pop carregado de modernos teclados, vendeu mais de 800 mil
cópias, um sucesso sem precedentes para o Rock Brasil. Em pouco tempo, esta
espécie de Bryan Ferry em português chegaria ao LP (Vôo de Coração) que,
impulsionado por sucessos como Casanova e A Vida Tem Dessas Coisas, chegou ao
milhão de cópias vendidas, batendo até o grande vendedor de discos da gravadora,
Roberto Carlos. O Rock Brasil conquistava o respeito comercial e gerava, como
contrapeso, uma série de produtos descartáveis, hoje objeto de culto por
colecionadores mais fanáticos, como o Absyntho (do Ursinho Blau Blau), Grafite (Mamma
Maria) e Bom Bom (Vamos A La Playa).
Fenômeno até então predominantemente carioca (afinal, era no Rio que estavam as
sedes das grandes gravadoras e a atenção da mídia nacional), o Rock começa a
fervilhar também em São Paulo em 1983. A cidade que era “sacudida”
simultaneamente pelos punks e pelo movimento de vanguarda musical (de Arrigo
Barnabé, Itamar Assumpção, Rumo, Premeditando o Breque e Língua de Trapo),
revelou mais uma das grandes bandas do Rock Brasil: Os Titãs (ex-Titãs do Iê-Iê),
um octeto que tinha uma aproximação New Wave-tropicalista do Rock e ganhava cada
vez mais popularidade com seus shows escalafobéticos. Era a ponta-de-lança de um
Rock paulistano, de nomes como o Magazine (do sucesso Eu Sou Boy), o pós-punk
Ira! e o irreverente Ultraje a Rigor.
Gravado num estúdio de jingles, o primeiro e homônimo LP dos Titãs, com as
músicas Sonífera Ilha, Babi Índio, Marvin e Go Back (música sobre poema do
tropicalista Torquato Neto) saiu em 1984, um ano repleto de grandes lançamentos
do Rock Brasil. A começar por Seu Espião, estréia do Kid Abelha (da vocalista e
Sex Symbol Paula Toller), que trazia Pintura Íntima estourada em compacto, junto
a Como Eu Quero, Fixação, Alice (Não Me Escreva Aquela Carta de Amor) e Nada
Tanto Assim – este LP vendeu mais de 150 mil cópias.
Outro LP lançado em 1984 que arrebentou as portas da mídia foi O Passo do Lui,
segundo dos Paralamas do Sucesso, que trouxe uma série de músicas que virariam
hits, como Óculos, Meu Erro, Ska, Me Liga e Mensagem de Amor. Paralamas e Kid
“surfaram a crista das ondas de rádio” naquele ano, que ainda teve discos como
Tudo Azul (Lulu Santos), Ronaldo Foi Pra Guerra (Lobão e Os Ronaldos), Maior
Abandonado (último disco do Barão Vermelho com Cazuza) e Phodas "C" (Léo Jaime).
As bandas e artistas cada vez mais se tornavam íntimos dos programas televisivos
de auditório. Ao mesmo tempo, o cinema detectava e esquadrinhava o fenômeno do
Rock Brasil com o filme Bete Balanço, de Lael Rodrigues, com música tema do
Barão Vermelho. Na década de 1990, fazem sucesso no cenário do Rock nacional:
Raimundos, Charlie Brown Jr., Jota Quest, Pato Fu e Skank, entre outros.
Se o Rock Brasil transmitia uma imagem romântica e idealista, tudo iria mudar a
partir de janeiro de 1985, graças a um acontecimento crucial: o Rock In Rio
Festival: dez dias de som e luz em um terreno de 300 mil metros quadrados na
Barra da Tijuca, no que acabou por ser o maior concerto de Rock de todos os
tempos, com um público estimado em um milhão e meio de pessoas. Ao lado de
quatorze dos mais importantes astros internacionais da época (Queen, Iron Maiden,
Rod Stewart, Ozzy Osbourne, AC/DC, Yes, Scorpions, entre outros), estavam os
valorosos veteranos da MPB e a nova rapaziada: Blitz, Barão Vermelho, Lulu
Santos, Paralamas do Sucesso e Kid Abelha.
No maior palco de suas iniciantes carreiras, as bandas não titubearam. O
resultado foi que o Rock ganhou espaço na mídia e nas gravadoras, e o Brasil foi
incluído na rota das turnês das bandas internacionais. Nossos roqueiros tiveram
noções de profissionalismo e de espetáculo muito úteis para quando fossem
percorrer o país com seus shows. Com a auto-estima em alta, a juventude que viu
as novas bandas brasileiras fazerem bonito ao lado dos ídolos estrangeiros,
ainda presenciou, em meio ao festival, a eleição de Tancredo Neves como o
primeiro presidente civil no Brasil desde o golpe militar de 1964. Seria o fim
de uma Era.
O Rock Brasil que emergiu naquele ano de 1985 apresentou-se ousado, contestador,
multifacetado e geograficamente disperso. De São Paulo vieram dois dos maiores
êxitos comerciais do ano. Um deles foi álbum Nós Vamos Invadir Sua Praia, do
Ultraje a Rigor, banda que havia causado reações com a música Inútil, tocada
pelos Paralamas no Rock In Rio e citada pelo presidente do PMDB, o Senhor
Diretas Ulysses Guimarães. No disco estavam as músicas Ciúme, Eu Me Amo, Rebelde
Sem Causa e Mim Quer Tocar, todas sucessos de rádio. O outro nome foi o RPM que,
embalado pelo estouro da música Louras Geladas, lançou seu LP de estréia
Revoluções Por Minuto. Com Louras e as músicas Olhar 43, Rádio Pirata e
Revoluções Por Minuto obtendo excelentes taxas de execução nas rádios, a banda
liderada pelo vocalista e baixista Paulo Ricardo (o primeiro sex symbol
masculino do Rock Brasil dos 80) e orientada pelo empresário Manoel Poladian
resolveu partir para uma superprodução: o show Rádio Pirata, dirigido por Ney
Matogrosso.
Nunca havia sido visto algo como aquilo no Brasil: efeitos de raio laser, gelo
seco, sofisticado equipamento de som e a explosão de sensualidade de Paulo
Ricardo. O show percorreu todo o Brasil, aumentando brutalmente a popularidade
do grupo, que se viu forçado pela gravadora a lançar um disco ao vivo, com a
versão de London, London (Caetano Veloso) que já começava a ser tocada nas
rádios. Lançado em 1986, Rádio Pirata Ao Vivo, um disco do Rock Nacional,
tornou-se o recordista de vendas – de qualquer gênero – no Brasil: 2,2 milhões
de cópias. Em pouco tempo, vergado pela pressão de ser uma sensação nacional,
pelas disputas internas e pelo abuso no consumo de drogas, o RPM ainda gravou
mais um LP (RPM, 1987, de vendagem decepcionante em relação ao do disco
anterior) e acabou, sem muito barulho, em 1989.
No mesmo mês do Rock In Rio, uma banda de Brasília estaria lançando seu primeiro
disco – um disco que marcaria a história do Rock Brasil. Legião Urbana
apresentava ao país a poética de Renato Russo (oriundo da banda punk Aborto
Elétrico), em letras como "Filhos da Revolução" (termo empregado na música
Geração Coca-Cola), na qual estavam expressos seus anseios, medos e
reivindicações. Conhecida anteriormente pela música Química (gravada pelos
amigos Paralamas em Cinema Mudo), a Legião ganhou o público com aquele disco de
músicas cheias de energia roqueira e sentimento à flor da pele, como Será, Ainda
É Cedo e Soldados. Era a primeira das bandas de Brasília influenciadas pelo Punk
Rock. Outras como Capital Inicial, Plebe Rude, Finis Africae e Detrito Federal
logo chegariam. Também de origem Punk e também deslocada do eixo Rio - São
Paulo, o Camisa de Vênus, cáustica turma de baianos liderada pelo vocalista
Marcelo Nova, apareceria em 1985. Depois de um LP sem grande repercussão
nacional, eles conseguiram enfim estourar naquele ano com Eu Não Matei Joana D’Arc,
do LP Batalhões de Estranhos.
Em São Paulo, os ecos do Punk seriam responsáveis por uma outra banda de
relevância a vir à tona em 1985, com o disco de estréia Mudança de
Comportamento: o Ira!, do guitarrista Edgard Scandurra e o vocalista Nasi.
O Rio de Janeiro ficaria famoso em 1985 por mais um álbum de grande rotação nas
rádios, com músicas que remetiam ao Rock dos anos 50 e à Jovem Guarda: Sessão da
Tarde, de Léo Jaime. O Kid Abelha lançaria seu segundo LP, Educação Sentimental
e, no fim do ano, o ex-Barão Vermelho Cazuza, publicou o seu primeiro álbum
solo: Exagerado.
Para o Rock Brasil, 1986 foi um ano de consolidação artística e fartura de
lançamentos: a explosão de consumo proporcionada pelo Plano Cruzado foi propícia
às gravadoras, que começaram a contratar qualquer banda que tocasse Rock. Uma
coletânea – Rock Grande do Sul, só de bandas de Porto Alegre – revelou, com as
músicas Sopa de Letrinhas e Segurança, uma banda que teria grande repercussão na
mídia: os Engenheiros do Hawaii, que no mesmo ano lançariam o seu primeiro LP,
ironicamente intitulado Longe Demais das Capitais. Também estrearam naquele ano
em álbum (ou Mini LP) os cariocas do Biquini Cavadão (Cidades em Torrente), a
Plebe Rude (com o demolidor O Concreto Já Rachou), o Capital Inicial (Capital
Inicial) e os Inocentes (com Pânico em SP, primeiro disco do Punk brasileiro a
ser lançado por uma grande gravadora).
Três, porém, seriam os discos do Rock Brasil a arrebatar a atenção de público e
crítica por sua força e novidade. Com Selvagem, os Paralamas do Sucesso fizeram
uma ambiciosa conexão Brasil-Jamaica-Inglaterra-África via música negra. As
músicas Alagados, A Novidade (letra de Gilberto Gil) e Melô do Marinheiro
apresentaram uma banda madura e decidida a fazer carreira. Já em Dois, a Legião
Urbana revelou-se mais lírica e acústica, em faixas que fizeram a história da
banda: Tempo Perdido, Índios, Eduardo e Mônica, Quase Sem Querer e Andrea Doria.
Por fim, com Cabeça Dinossauro, os Titãs deram sua guinada Punk, num lance que
parecia arriscado, mas que lhes garantiu credibilidade roqueira e grande retorno
comercial. Músicas como Polícia, Igreja, Bichos Escrotos, Homem Primata e AA UU
foram grandes sucessos.
A boa fase do Rock Brasil entraria por 1987, com a explosão de Lobão (no LP Vida
Bandida) e mais uma variedade de LPs que entrariam para a história do movimento,
como A Revolta dos Dândis (a obra-prima dos Engenheiros do Hawaii), Jesus Não
Tem Dentes no País dos Banguelas (Titãs), Que País É Este – 1978/1987 (Legião
Urbana) e Sexo! (Ultraje a Rigor). Uma surpresa foi o aparecimento do carioca
Fausto Fawcett e seus Robôs Efêmeros com o Rap Kátia Flávia (a Godiva do Irajá,
da "calcinha exocet"), sucesso nos rádios, que levou à gravação de um álbum
naquele mesmo ano.
Outra surpresa foi o selo Plug, da gravadora RCA, que apostou em LPs de novos
nomes do Rock Brasil que não estivessem fazendo nada parecido com as outras
bandas. Estrearam na etiqueta os cariocas do Picassos Falsos (de Carne e Osso) e
Hojerizah (de Pros que Estão em Casa), os gaúchos Defalla e TNT e o paulistano
Violeta de Outono. Apesar da qualidade e inovação reconhecidas, poucas bandas do
Plug passaram do segundo LP. Das raras exceções podemos citar a banda gaúcha
Nenhum de Nós, que virou sensação por causa da música Camila, Camila, e que em
1989 seria responsável por um dos grandes hits do ano: O Astronauta de Mármore,
versão de Starman, música de David Bowie.
De 1988 em diante, o Rock Brasil experimenta um refluxo, com uma dificuldade
cada vez maior das bandas em recuperar os níveis de vendagem e execução. Apesar
disso, discos clássicos continuam a ser lançados: Ideologia, em que Cazuza, já
infectado pela Aids, começa a refletir sobre sua própria condição (Ideologia,
Boas Novas) e Brasil (críticas fervorosas sobre o país). Também em 1988, aos
dezesseis anos de idade, Ed Motta chegou com “pinta” de veterano, injetando funk
e soul no Rock Brasil, no disco de estréia com a banda Conexão Japeri. A Legião
Urbana, que experimentou um sucesso estrondoso aquele ano com a música Faroeste
Caboclo, viu o reverso da moeda no dia 18 de junho, em show no Estádio Mané
Garrincha, na cidade onde a banda surgiu, Brasília: confusão total, com Renato
Russo sendo atacado no palco por um doente mental e a polícia agredindo a
platéia, que saiu do show (interrompido) fazendo balbúrdia pela cidade. O
resultado do episódio: 385 feridos, 60 presos e 64 ônibus depredados.
O incidente abalou a banda Legião Urbana. Sem o baixista Negrete, que pediu
demissão, a banda finalizou seu quarto e mais bem-sucedido LP: As Quatro
Estações, início de uma fase onde se misturam nas letras de Renato Russo a busca
da afirmação da homossexualidade e as preocupações religiosas. Pais e Filhos,
Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto, Meninos e Meninas e Monte Castelo
fizeram deste disco o último grande sucesso de vendagens do Rock Brasil por
muitos anos seguintes. No show carioca de As Quatro Estações, que acabou com
guerra de areia da platéia, em 7 de julho de 1989, o clima foi de luto: Cazuza,
a quem Renato havia dedicado Feedback Song For a Dying Friend, havia morrido.
Meses depois, morreria Raul Seixas – pobre, doente e sem reconhecimento. O Rock
Nacional encerrava mais uma era.
No começo da década de 90, ao mesmo tempo em que a crise econômica levava
Paralamas e Titãs a vendagens de discos decepcionantes, uma banda de Minas
Gerais, criada no circuito subterrâneo do Rock Nacional, tornava-se uma potência
mundial do Heavy Metal: o Sepultura, que assinou com a gravadora holandesa
Roadrunner e lançou os bem-sucedidos discos Beneath The Remains (1989) e Arise
(1991). Pouco antes de lançar Arise, a banda foi atração do segundo Rock In Rio,
realizado no Maracanã, que teve como grande estrelas Prince, Guns’n’Roses,
George Michael, Faith No More e Judas Priest, e um palco nacional do qual também
fizeram parte Titãs, Engenheiros, Lobão, Paulo Ricardo, Hanoi Hanoi, o
folclórico roqueiro Sergei, Vid & Sangue Azul, Nenhum de Nós, Capital Inicial,
Ed Motta e astros da MPB. No mesmo ano, surgiram, com a música Falar a Verdade,
os cariocas do Cidade Negra: uma banda de Reggae, o ritmo antecipado por Gil e
pelos Paralamas, que daria o tom do Pop na década.
No inicio anos 90, aumentava significativamente a circulação de informações
sobre música (em 1990, o canal de televisão MTV estreava no Brasil com fartura
de videoclipes internacionais), mas não a vontade do Rock Brasil de inovar. O
começo da década coincide com a febre dos grupos cover e dos que, em busca de
uma chance no exterior (a exemplo do Sepultura), se limitam a cantar em inglês
músicas de gêneros cristalizados no exterior, como o Heavy Metal (Viper, Dorsal
Atlântica, Korzus), o Rock ruidoso e melódico de inspiração inglesa (Beach
Lizards, Second Come, Dash, Killing Chainsaw) e o Punk (Anarchy Solid Sound).
Exceção deste grupo foram os Ratos de Porão, cada vez mais populares no mercado
underground cantando em (incompreensível) português. Mas nem mesmo eles
resistiram à tentação, gravando em 1994 o LP Another Crime In Massacreland,
recheado de músicas em inglês, mas com o clássico Suposicollor, que versa sobre
as vias nada convencionais que certo ex-presidente era acusado de ter usado para
consumir cocaína. As coisas começaram a mudar, porém em 1992, num processo que
coincide com a renúncia de Collor em meio a denúncias de corrupção que levaram
os estudantes a pintar os rostos e ir para as ruas em protestos.
Formado em Belo Horizonte em 1991, a banda de Reggae Skank (que fazia bailes
pela cidade, cantando algumas de suas músicas, todas em português), resolveu
deixar de esperar por uma grande gravadora e entrou em estúdio para gravar, às
próprias custas, o seu primeiro disco. Numa época em que essas produções
independentes primavam pelo amadorismo ou pelo diletantismo, saiu em 1992 Skank,
disco com alto grau de profissionalismo e grande apelo Pop, que logo chamou a
atenção da gravadora Sony, a qual o relançou sem mexer em nada o original
gravado anteriormente. As músicas Indignação e O Homem Que Sabia Demais tiveram
relativo sucesso nas rádios em 1993, abrindo as portas para uma nova geração.
Enquanto isso, em Recife, começava a se destacar uma cena chamada de Mangue Beat,
de bandas como Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, que pegavam ritmos
tradicionais como o maracatu e o misturavam com a música Pop de vanguarda. Ainda
em 1993, aparecia no Rio de Janeiro, com a música Tô Feliz, Matei o Presidente
(dirigida a Collor), Gabriel o Pensador, garoto que transformaria o Rap
brasileiro em um gênero comercial.
Na mesma época, os Titãs vieram com a idéia de um selo, dentro da gravadora WEA,
para gravar discos de bandas novas. Era o Banguela, que lançou o primeiro disco
do Mundo Livre e o de uma banda de Brasília, que parecia a mistura do Punk-Rock
dos americanos Ramones com o baião de duplo sentido, no estilo Genival Lacerda.
Graças a um exaustivo trabalho de shows, Raimundos (que saiu em 1994) furou o
bloqueio das rádios com as músicas Puteiro em João Pessoa e Selim, bateu
respeitáveis níveis de vendagem (mais de 100 mil cópias) e abriu o caminho para
aquela que seria a mais popular banda de Rock brasileiro dos anos 90. Outro
peso-pesado do Rock que apareceu na metade dos anos 90 foi a banda carioca
Planet Hemp, liderada por dois rappers (Marcelo D2 e BNegão), com o disco
Usuário, polêmico por sua defesa da maconha. Junto com os Raimundos, eles
forçaram a abertura das rádios para o Rock mais pesado, com letras sobre sexo e
drogas repletas de palavrões.
Na área do Pop, porém, quem mostrou sua força comercial foi o Skank, que entrou
1995 com seu segundo disco, Calango, batendo a marca de 1,2 milhão de cópias
vendidas, puxadas por uma fileira de sucessos: Te Ver, Jackie Tequila, Pacato
Cidadão, Esmola, Amolação e a versão do sucesso de Roberto Carlos na Jovem
Guarda É Proibido Fumar. Melhor ainda fez o disco O Samba Poconé, de 1996. Com o
estrondoso sucesso da faixa Garota Nacional (que se estendeu para outros países
do Mercosul) e É Uma Partida de Futebol, ele selou seu sucesso com 1,8 milhão de
cópias vendidas.
O recorde comercial dessa fase do Rock Nacional, porém, foi a do disco de
estréia de uma banda formada por irreverentes e humildes jovens da cidade de
Guarulhos, em São Paulo. Eram os Mamonas Assassinas, que conseguiram chamar a
atenção de uma grande gravadora com músicas debochadas como Vira, Vira, Pelados
em Santos, Chopis Centis, Robocop Gay, Bois Don’t Cry, Sabão Crá Crá, que
lembravam as sátiras de bandas como o Língua de Trapo e o cantor Falcão, e
cresciam no palco e na TV graças ao carisma do vocalista Dinho. Lançado em maio
de 1995, Mamonas Assassinas logo ganhou o amor do público infantil (e o ódio dos
pais), terminando por vender a impressionante quantidade de 2,6 milhões de
discos. Mas os Mamonas também se tornaram recordistas em brevidade de carreira:
em 2 de março de 1996, os cinco integrantes da banda morreram quando o avião
onde viajavam se chocou com a Serra da Cantareira, em São Paulo.
Não seriam as únicas perdas que se abateriam sobre o Rock Nacional nos anos 90:
em 1994, a persistente rádio rock Fluminense, mãe de boa parte das bandas dos
80, encerraria suas atividades. Em outubro de 1996, Renato Russo morreria de
Aids, dias após a Legião lançar o triste álbum A Tempestade. Em novembro, o
Circo Voador seria fechado, após a discussão de João Gordo, dos Ratos de Porão,
com a comitiva do prefeito eleito do Rio de Janeiro, que chegava ao local para
comemorar o resultado nas urnas. Em dezembro, o vocalista e guitarrista do
Sepultura, Max Cavalera, deixaria a banda em seu auge, com o mundialmente
aclamado disco Roots (1995), que misturou o Trash Metal com as percussões baiana
(de Carlinhos Brown) e indígena (dos Xavantes). A banda seguiu sem Max, que
montou o projeto Soulfly – mas nenhum dos dois repetiu o êxito do Sepultura nos
bons tempos. Por fim, no Carnaval de 1997, chegaria a vez de Chico Science
morrer num acidente de carro, em Recife. Meses antes, a Nação Zumbi havia
lançado sua obra-prima (o disco Afrociberdelia) e tinha feito até uma turnê
européia ao lado dos Paralamas do Sucesso.
Veteranos nomes do Rock Brasil também brilharam ao longo dos anos 90. Lulu
Santos voltou ao grande sucesso, na fase dance dos LPs Assim Caminha a
Humanidade (94) e Eu e Memê, Memê e Eu (1995, com o produtor Marcelo Memê Mansur).
Mais bem-sucedido dos ex-integrantes da Blitz, Fernanda Abreu ressurgiu como uma
espécie de primeira dama do funk-disco com os discos SLA Radical Dance Disco
Club (1990), SLA – Be Sample (1992, do sucesso Rio 40 Graus) e Da Lata (1995, de
sucessos como Veneno da Lata e Garota Sangue Bom). Quem também engatilhou uma
bem-sucedida carreira solo foi o ex-Titãs Arnaldo Antunes, que estreou com o LP
Nomes (1994).
Depois de um disco de propostas mais experimentais, Severino (1994), os
Paralamas retomaram o sucesso com o disco ao vivo Vamo Batê Lata (1995). As
vendagens também cresceram com outro disco ao vivo, o Acústico (1999). A revisão
acústica dos sucessos de carreira foi um expediente também rendeu aos Titãs uma
grande surpresa, em 1997: Acústico MTV foi o seu disco de melhor resultado
comercial, vendendo mais de um milhão de cópias. A seqüência, Volume 2 (1998) e
As Dez Mais (1999, só de versões) repetiram em parte o sucesso. Kid Abelha e
Barão Vermelho também experimentaram uma volta às boas vendagens,
respectivamente com os discos Meu Mundo Gira em Torno de Você e Álbum (este de
versões), lançados em 1996.
A aproximação feita por Chico Science e Raimundos com a música brasileira mais
tradicional deu margem para que uma série de artistas na fronteira entre o
Pop-Rock - a novidade sonora - e a MPB chegassem à mídia: vieram os cariocas
Paulinho Moska (ex-Inimigos do Rei, banda de Rock que apareceu em 1989 e teve
apenas dois sucessos: Uma Barata Chamada Kafka e Adelaide) e Pedro Luís (com sua
banda de percussões, A Parede), o pernambucano Lenine, o paraibano Chico César e
o maranhense Zeca Baleiro (do disco Vô Imbolá, de 1999). Minas Gerais, por sua
vez, reforçava o Pop com duas bandas de sucesso no fim dos 90: o Jota Quest (da
música Fácil) e o Pato Fu, da doce vocalista Fernanda Takai, que só estourou a
partir do quarto LP, Televisão de Cachorro (1998). A banda carioca Rappa (de
fusão rock-reggae-funk-samba) também experimentou um grande crescimento, a
partir do seu segundo disco, Rappa Mundi (1996), tornando-se sucesso de rádio e
palcos graças a músicas como A Feira e a versão de Hey Joe. Uma grande surpresa,
porém, veio de São Paulo: o Rap de denúncia social dos Racionais MCs conquistou
o país com a música Diário de um Detento e levou o LP Sobrevivendo no Inferno
(1998) a vender mais de um milhão de cópias.
Os anos 90 terminaram com o renascimento do Rock na mídia, provocado pelo
sucesso de bandas como a santista Charlie Brown Jr. e os Raimundos, dois dos
maiores sucessos de vendagem de 1999, respectivamente com Preço Curto... Prazo
Longo e Só No Forévis (uma inspirada crítica aos grupos de samba que vinham
obtendo grande sucesso comercial com trabalhos artisticamente pífios). Outras
bandas seguiram nesse vácuo, caso dos novatos Los Hermanos (que não saíram das
rádios em 1999 com a música Anna Júlia), Penélope e Autoramas, e dos veteranos
Ultraje a Rigor, Capital Inicial e Plebe Rude, que inesperadamente voltaram ao
circo da mídia. Enquanto isso, Lobão “corria por fora”, lançando por seu próprio
selo, Universo Paralelo, o elogiado disco A Vida é Doce, em um esquema inédito
de venda em bancas e na Internet.
3- A Banda Radiofônica, objeto do estudo
A Banda Radiofônica, formada em 2007, é composta por Allê Marques nas guitarras
e back vocals , André Souza no baixo, Beto Carrusca na bateria, Diogo Jeber nos
violões e back vocals e, nos vocais, Tomás Grandchamp.
As principais influências da Radiofônica vêm do Rock and Roll, principalmente
sua versão mais original e purista dos anos 50 e 60, com elementos de Jazz,
Blues e Folk, o que traz à sonoridade da banda uma mistura que é ao mesmo tempo
eclética e inconfundível, sintetizada em suas canções próprias e, na execução
das releituras que integram seu show.
Os músicos da Banda Radiofônica já possuem experiências anteriores no ramo
musical, fazendo parte de outras bandas e participando de importantes eventos
musicais nos cenários mineiro e nacional, como o Festival Coração de Estudante
(promovido pela Rede Globo de televisão), Artistas Mineiros In Concert no
Palácio das Artes, Prêmio Mineiro da Música Independente – PMMI, DEMO HITS -
promovido pela empresa Claro Telefonia, entre outros.
Baseando no estudo da historiografia do Rock realizada anteriormente a melhor
classificação do estilo executado pela Radiofônica é o Hard Rock que, por
definição, foi estilo que marcou os anos 70, combinando perfeitamente a
modernidade alcançada com o Rock e o Clássico, além de estilos como Blues e
Jazz.
4- Uma proposta de identidade para a Banda Radiofônica
Propomos uma identidade para a banda Radiofônica em acordo com seu estilo
musical, uma identidade visual eclética, condizente com as principais
características do Hard Rock internacional dos anos 70 e do Rock Nacional dos
anos 80. Apresentaremos, portanto, um breve estudo das capas de discos das
principais bandas da época, conhecidas como a tríade que deu início ao movimento
Hard Rock. Foram elas: Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple. No cenário
nacional apresentaremos capas de alguns dos nomes que influenciaram a Banda
Radiofônica, tais como Ultraje a Rigor, Barão Vermelho, e Legião Urbana.
4.1 – Estudo de Capas de Discos Internacionais
Para analisar os discos de Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple, iremos
apresentar um exemplo de cada uma das bandas que representa suas principais
características.
O primeiro álbum da banda Led Zeppelin (figura 1), lançado em 1969 com o mesmo
nome da banda, vendeu incríveis 11 milhões de cópias. Sua capa apresentava uma
fotografia em preto e branco do desastre do dirigível Hindenburg, o qual pegou
fogo quando manobrava para pousar em 1937, em Nova Jersey, nos Estados Unidos. O
acidente teve um saldo de 36 mortos e marcou como uma das derrotas de Adolf
Hitler, que havia encomendado a construção do Hindenburg na tentativa de
demonstrar a superioridade tecnológica alemã na iminência da Segunda Guerra
Mundial. Esta imagem no disco do Led Zeppelin é uma prova da utilização da
música como instrumento de contestação política, uma das características do
Rock. A tipografia utilizada para o nome do disco é grotesca e condensada, na
cor Laranja, mesma cor do selo da gravadora Atlantic, que realça a marca sobre o
fundo monocromático.

Fig.1: Led Zeppelin (1969)
Entre os diversos discos lançados pela banda Black Sabbath desde 1969, podemos
destacar seu segundo álbum, Paranoid (figura 2), lançado em 1970, considerado o
pioneiro do Heavy Metal sob o comando do vocalista Ozzy Osbourne. A capa do
disco possui predominância do preto e vermelho, cores-símbolo do Rock que
evoluiu para Heavy Metal. Na foto utilizada pode-se perceber a presença de um
“guerreiro” em movimento, com escudo e espada em punho, uma imagem que faz
alusão aos efeitos do uso de drogas, que podem resultar na “paranóia” de seus
usuários. A tipografia utilizada em vermelho (representa o sangue) é mais
trabalhada que a tipografia aplicada no primeiro disco do Led Zeppelin. Tal
recurso de desenvolvimento da tipografia para criação de nomes de bandas de Rock
seria constantemente utilizado durante a evolução dos estilos musicais. Podemos
perceber ao estudar os demais discos da banda Black Sabbath que não foi
desenvolvida uma tipologia que representasse a logomarca da banda. Para cada
momento de sua carreira seria lançado um álbum diferente, com tipografia
diferente.

Fig.2: Álbum Paranoid (1970)
O albúm mais famoso do Deep Purple, Machine Head (figura 3), contém diversos
sucessos da banda e, entre eles, a música que os consagrou mundialmente: Smoke
On The Water. A capa deste álbum foi criada a partir de uma fotografia da imagem
refletida dos músicos em uma superfície metálica, com a aplicação de uma
tipografia que representa letras gravadas no metal através de prensa e clichê.
Machine Head representa uma nova fase da banda (que estava junta a apenas três
anos e meio e já havia gravado seis discos) como também uma nova fase do próprio
Rock and Roll.

Fig.3: Álbum Machine Head (1972)
Tomemos o disco Rapture of the Deep, também do Deep Purple, lançado em 2005,
como exemplo da evolução gráfica e musical da banda (figura 4). Em 1984, dezoito
anos após ruptura da banda (1976), é anunciada a volta do Deep Purple com a sua
formação de maior sucesso, com Gillan, Blackmore, Paice, Glover e Lord. A banda
se revitaliza com lançamento do álbum Perpendicular (1996) e Abandon (1998),
Bananas (2003) e Rapture of the Deep (2005). Este último apresenta uma
tipografia simplificada que representa letras de uma máquina de escrever. As
cores utilizadas fazem parte de uma mesma paleta de cores, do Purple (roxo). O
desenho utilizado possui estilo moderno, em contraposição às fotos dos próprios
músicos utilizadas nas décadas de 1970 a 1990.

Fig.4: Rapture of the Deep (2005)
4.2 – Estudo de Capas de Discos Nacionais
O segundo disco da banda Ultraje a Rigor (figura 5), Sexo (1987), repetiu o
sucesso do primeiro álbum com a música Pelado, utilizada na abertura de uma
novela da Rede Globo de Televisão. A capa do disco apresenta elementos gráficos
comuns da década de 1950. A utilização de desenhos realistas de maneira cômica é
a marca registrada deste álbum. A tipografia utilizada foi baseada na própria
logomarca da banda, que se manteve a mesma desde a criação da banda em 1982.
Podemos perceber que a comunicação da banda com seu público é direta e
engraçada, característica peculiar do Ultraje a Rigor.

Fig.5: Sexo – Ultraje a Rigor (1987)
O álbum As Quatro Estações (figura 6) é considerado por muitos fãs e críticos o melhor trabalho da banda Legião Urbana, além de conter o maior número de músicas: são onze canções, das quais pelo menos nove foram tocadas incessantemente nas rádios. É o álbum mais vendido da Legião, com mais de 1,7 milhões de cópias. Sua capa apresenta fotos dos principais músicos em preto em branco, sobre um fundo cinza, propiciando um ar de sobriedade ao disco. A tipografia utilizada, serifada e em azul marinho, completa a composição da capa do disco com simplicidade e leveza. Podemos perceber a utilização de um terceiro elemento na capa: o desenho de um violão estilizado. Estes tipos de desenhos seriam utilizados em discos futuros, fazendo alusão à simplicidade das melodias (eram compostas de poucos acordes, fáceis de tocar) as quais poderiam ser tocadas por músicos iniciantes em festas e rodas de amigos.

Fig.6: As Quatro Estações (1989)
Em 1982, o som da banda Barão Vermelho despertou a atenção do produtor Ezequiel Neves e do diretor da gravadora Som Livre, Guto Graça. Juntos, eles lançaram a banda e, com uma produção de baixo custo, foi gravado, em apenas dois dias, o primeiro álbum do Barão, que recebeu o nome da banda (figura 7). Das músicas mais importantes, destacam-se "Bilhetinho Azul", "Ponto Fraco" e "Down Em Mim". A capa de seu primeiro disco é caracterizada pela predominância da cor vermelha, como fundo de uma foto dos músicos da banda de braços cruzados e feições sérias, transmitindo a insatisfação dos “roqueiros” em relação à política e situação social do país. As cores e o alto contraste utilizado no tratamento da imagem se refere à Pop Art dos anos 60, a qual pregava comunicação direta e em massa com o público consumidor. A tipografia utilizada é forte e irregular, propondo a atitude pretendida pela banda.

Fig.7: Barão Vermelho (1982)
Em 1985 Cazuza saiu do Barão Vermelho e decidiu seguir carreira solo, vindo a
falecer por conseqüências da AIDS, em 1990. A banda passou por várias mudanças e
lançou diversos discos, muitos deles premiados como melhor disco de Rock
brasileiro. Em 2004, a banda voltou a lançar um novo disco, após ficar parada
por três anos (figura 8). Este disco traz elementos gráficos similares ao
primeiro álbum da banda (figura 7), com a predominância do vermelho e fotografia
dos músicos com tratamento similar à imagem de 1982 (alto nível de contraste). A
utilização de elementos gráficos no fundo da imagem e a criação de uma nova
logomarca contextualizam a banda no século XXI.

Fig.8: Barão Vermelho (2004)
4.3 – A Marca Radiofônica
Conforme Tavares (1998), nos tempos modernos onde há excesso de informações
visuais, auditivas, olfativas, e demais informações que podem ser percebidas
pelo organismo humano, segundo o autor:
As marcas são os principais recursos que podem ser utilizados para combater a
tendência natural à “commoditização” que existe para alguns produtos. Na
ausência de marcas fortes, os consumidores em geral percebem os produtos como
sendo semelhantes. [...] Nessa perspectiva pode-se considerar que o principal
propósito da marca é distinguir o produto, de modo que ele possa ser facilmente
identificado e preferido.
(TAVARES, 1998, p.17-19)
Assim, a necessidade de diferenciação em relação aos concorrentes é iminente. A
Banda Radiofônica surgiu com a proposta de uma musicalidade diferente do Pop
Rock “desnatado” que toca nas rádios atualmente, onde o ouvinte não consegue
diferenciar qual música pertencem a qual banda.
Na tentativa de representar graficamente o conceito do “novo” Rock da
Radiofônica foi desenvolvida uma logomarca que pudesse resgatar a origem do Rock
dos anos 60 e 70, adequando-se aos tempos atuais. Utilizando elementos
característicos dos discos estudados anteriormente (tipografia forte e de fácil
leitura, interferências gráficas) a logomarca proposta pode ser vista na figura
9.

Fig.9: Logomarca da Banda Radiofônica sobre fundo preto e branco, respectivamente.
Os elementos gráficos posicionados acima e abaixo da letra “O” representam a
propagação das ondas de rádio e também das próprias ondas sonoras. A logomarca
proposta é simples e direta, assim como o Rock and Roll original do meio do
século passado. Tais elementos fazem da identidade gráfica da Radiofônica algo
fácil de ser distinguido pelo público consumidor de Rock Nacional.
5- Conclusão
Podemos concluir com este trabalho que a pesquisa da História do Rock desde suas
primeiras manifestações na década de 1950, sua evolução no Brasil e no mundo
foram fundamentais para determinar o estilo da Banda Radiofônica, criando uma
identidade única, assim como seu jeito próprio de compor e tocar Rock and Roll.
Baseado no estudo de referências gráficas das bandas nas décadas de 70 até a
atualidade, através de capas de discos, foi possível determinar uma linha de
estilo gráfico condizente ao estilo musical da Radiofônica e criar uma logomarca
coerente e de fácil assimilação, possibilitando um elo emocional entre a banda e
seu público consumidor.
6- Bibliografia
AAKER, David A. Marcas: Brand Equity gerenciando o valor das marcas. 6.ed. São
Paulo: Negócio Editora, 1998.
KAPFERER, Jean-Noël. As marcas, capital da empresa: criar e desenvolver marcas
fortes / Jean-Noël Kapferer; trad. Arnaldo Ryngelblum. 3.ed. Porto Alegre:
Bookman, 2003.
KELLER, Kevin Lane. Gestão Estratégica de Marcas / Kevin Lane Keller, Marcos
Machado; tradução Arlete Simille Marques. São Paulo: Prentice Hall, 2006.
MARTINS, José. A natureza emocional da marca: como escolher a imagem que
fortalece a sua marca. São Paulo: Negócio Editora, 1999.
PINHO, José Benedito. O poder das marcas. 2.ed. São Paulo: Summus, 1996.
TAVARES. Mauro Calixta. A Força da Marca. São Paulo: Editora Harbra, 1998.
7- Webliografia
Websites acessados entre Novembro de 2007 e Março de 2008.
http://www.wikipedia.com
http://www.ledzeppelin.com
http://www.led-zeppelin.com
http://www.blacksabbath.com
http://www.blacksabbath.com.br
http://www.deep-purple.com
http://www.deeppurple.com
http://www.deep-purple.net
http://whiplash.net/bandas.html
http://www.autobahn.com.br/ultraje/
http://www.ultraje.com.br/
http://roxmo.sites.uol.com.br/index.htm
http://www.raulrockclub.com.br/
http://www.legiao.com.br
http://www.urbanalegiao.blogger.com.br
http://www.legiao.org/
http://www.barao.com.br
Diogo Jeber Demétrio, Desenhista Industrial
com Habilitação em Programação Visual
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2 Luiz Gonçalves, Mestre em Comunicação Social, luiz@alias.com.br