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Projeto de Criação da Identidade da Banda de Rock Radiofônica

Por Diogo Jeber Demétrio
Orientador: Professor Luiz Gonçalves

01/04/2008

Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-MG
Instituto de Educação Continuada
Curso de Pós-Graduação em Gestão de Marcas e Identidade Corporativa


Belo Horizonte, Março de 2008.

 

SUMÁRIO

1- Introdução 3
2- A História do Rock and Roll 3
2.1 - O Rock Nacional 4
3- A Banda Radiofônica, objeto do estudo 18
4- Uma proposta de identidade para a Banda Radiofônica 19
4.1 – Estudo de Capas de Discos Internacionais 19
4.2 – Estudo de Capas de Discos Nacionais 21
4.3 – A Marca Radiofônica 23
5- Conclusão 25
6- Bibliografia 25
7- Webliografia 26


1- Introdução

Criada em meados de Julho de 2007, a banda de Rock mineira Radiofônica tem realizado shows em diversas boates, casas de shows e festas particulares nos últimos meses. Apesar de seu sucesso instantâneo com o público de Belo Horizonte, existe certa dúvida em relação à verdadeira identidade da banda, que é composta por músicos de influências diversas e produzem um tipo de música diferente do Pop Rock nacional explorado nas rádios atualmente.

Muitos de seus fãs e inclusive seus músicos não sabem definir o estilo de Rock executado pela Radiofônica, e a banda está gravando um CD que será lançado em Maio de 2008, o qual ainda não possui título e nem identidade visual. Este CD será composto por músicas próprias e releituras de sucessos que marcaram o Rock nacional dos anos 80 e 90.

Este projeto tem como objetivo definir a identidade visual da Banda Radiofônica em sintonia com seu público alvo e que ajude a definir as raízes da banda de acordo com a identidade pretendida.

2- A História do Rock and Roll

Para contextualizar o cenário em que se encontra a Radiofônica é necessário traçar uma breve historiografia do estilo musical da banda a fim de determinar suas raízes.

O Rock and roll (também escrito Rock 'n' Roll) é um gênero de música que emergiu e se definiu no sul dos Estados Unidos durante a década de 50 e rapidamente se espalhou pelo resto do mundo. Evoluiu mais tarde para diversos subgêneros, no que hoje é definido simplesmente como "Rock". Atualmente, o termo "Rock and Roll" tem diversos significados, seja para definir o Rock tradicional ao estilo dos anos 50, ou para definir o Rock desenvolvido posteriormente, e até mesmo certas vertentes da música pop.

Os instrumentos mais comuns no Rock and Roll são a bateria, guitarra elétrica, o baixo e muitas vezes um piano ou teclado, embora no início o principal instrumento tenha sido o saxofone, posteriormente foi substituído pela guitarra no final dos anos 50.

Desde seu nascimento o Rock gerou polêmica, seja por causa da simplicidade de suas estruturas musicais, da atitude transgressiva de seus executores ou da pretensa rebeldia de seus fãs. Os primeiros roqueiros, Bill Haley, Chuck Berry, Little Richard e alguns outros, tornaram-se artistas de sucesso instantâneo justamente por causa dessas características, o que os fez amados pelos jovens e odiados por seus pais conservadores. Com o tempo, porém, o Rock foi se modificando e pulverizando numa série de sub-estilos (Rockabilly, Punk, Hard Rock, Heavy Metal, entre outros) e foi assimilado pela mídia e pela cultura ocidental como um todo, transformando-se num produto de consumo cuidadosamente articulado para ser lucrativo. Apesar disso, ainda existe em seu âmago as marcas que o acompanham desde sua concepção: rebeldia, atitude, transgressão, anti-sociabilidade e muito dinheiro envolvido (como ficou provado com o surgimento dos Beatles, Rolling Stones, Slade, The Who, Led Zeppelin, Kiss, Sex Pistols e de todos os grandes nomes do gênero).

2.1 - O Rock Nacional

A história do rock no Brasil deu muitas voltas desde o seu começo oficial, no dia 24 de outubro de 1955, quando foi lançada, na voz de Nora Ney, a música Ronda das Horas. Era uma versão da música Rock Around the Clock, um dos primeiro sucessos do Rock’n’Roll, escrito por Max C. Freedman e Jimmy Knight e gravado por Bill Haley & His Comets. Depois desse inusitado disco inaugural os brasileiros viram aquela subversiva novidade americana ser assimilada pelos compositores nacionais (em 1957, Cauby Peixoto gravou o primeiro exemplar nacional, Rock and Roll em Copacabana, de Miguel Gustavo) gerar seus primeiros ídolos tupiniquins (Cely Campello, de Estúpido Cupido e Banho de Lua, e Sérgio Murilo, de Broto Legal), ensaiar suas primeiras apologias ao mau comportamento e inspirar o primeiro movimento de afirmação da cultura jovem brasileira – a Jovem Guarda de Roberto e Erasmo Carlos, com sua rebeldia cuidadosamente calculada. Com este impulso, as guitarras elétricas passaram a dar o tom para a farra da garotada, misturando-se sem problemas, a partir da Tropicália (1967), com os mais tradicionais gêneros da música brasileira.

Passada a revolução promovida por Caetano, Gil e os Mutantes, o Rock adquiriu uma posição marginal no cenário da música brasileira. A emergência da MPB, o clima pesado da repressão política, tudo isso colaborou nos anos 70 para que, como bem observou Rita Lee certa vez, o roqueiro brasileiro tivesse cara de bandido. Mas apesar de nenhum movimento ter se configurado a partir do Rock nessa época, os valores individuais garantiram que a década estivesse longe de ser perdida. Um dos maiores ídolos roqueiros surgiu nesta época: o baiano Raul Seixas, misturando Elvis, Luiz Gonzaga, esoterismo e pura provocação (com ou sem o parceiro Paulo Coelho) em músicas como Gita, Ouro de Tolo, Metamorfose Ambulante e Maluco Beleza. Em 1975, Rita Lee “turbinou” seu som com a banda Tutti Frutti e virou a grande dama do Rock brasileiro a partir do disco Fruto Proibido.

Os Novos Baianos (de Moraes Moreira, Pepeu Gomes e Baby Consuelo) levaram adiante as idéias de fusão da Tropicália, assim como o pernambucano Alceu Valença, pai do Forrock. Já os Secos & Molhados adaptaram o Glitter Rock de David Bowie à música folclórica de diversas procedências, criando um sucesso nunca antes, ainda revelando um dos grandes intérpretes da MPB: o camaleônico vocalista Ney Matogrosso.

Na segunda metade da década de 70, as obstinadas bandas que insistiam em fazer Rock no Brasil geralmente tendiam para o Hard Rock (O Peso, Made In Brazil, a Patrulha do Espaço de Arnaldo Baptista, Bixo da Seda, A Bolha), ou para o Rock Progressivo (O Terço, Som Nosso de Cada Dia, Mutantes, Moto Perpétuo, Casa das Máquinas, Módulo, Som Imaginário, Veludo Elétrico, Vímana, Terreno Baldio). Mas ainda havia o Rock rural de Sá, Rodrix & Guarabira, o pré-punk do Joelho de Porco e as experimentações inclassificáveis de Tom Zé e Walter Franco. Era toda uma força roqueira que seria dizimada a partir de 1977, com a massificação nas rádios brasileiras do fenômeno da discoteque, que acabou influenciando o Rock daquela época. Rita Lee foi um dos que embarcaram na onda disco, dando início à sua fase Banho de Espuma.

O começo da década de 80 não foi nada propício para o Rock. Reinava a MPB de FM e, apesar da relativa abertura política, a sombra da repressão e a censura ainda desanimavam os músicos que tentavam ser tematicamente ousados. O "som jovem" possível na época era o Pop-Rock de artistas como Guilherme Arantes (ex-Moto Perpétuo), Marina, Ney Matogrosso, Angela Rô Rô, 14 Bis (de Flávio Venturini e Magrão), Beto Guedes, Eduardo Dusek, Baby Consuelo, Pepeu Gomes, A Cor do Som e Rádio Táxi. O público jovem, porém, exigia uma nova linguagem musical, em que os seus temas básicos (amor, diversão, trabalho, família) fossem tratados de forma mais clara e despojada.

Com o rock básico e os cabelos curtos e espetados da New Wave a renovação do Rock Brasil começa a se processar logo no início da década. “Antenado” com aquelas novas tendências, o jornalista e discotecário Júlio Barroso fundou a banda Gang 90, que trazia no seu bojo as Absurdetes (ou seja, as vocalistas Alice Pink Pank, May East, Lonita Renaux e Luísa Maria). O estouro se deu no Festival MPB Shell de 1981, quando apresentaram o Reggae Perdidos na Selva, cuja letra falava de um improvável acidente de avião com final feliz e reproduzia a linguagem e as referências dos “filmes B” e das histórias em quadrinhos. Era apenas uma mostra do que estaria por vir no ano seguinte, aquele em que o Rock enfim configuraria um movimento cultural no Brasil.

Assim como a Gang 90, os atores do grupo teatral carioca Asdrúbal Trouxe o Trombone experimentavam um enfado com a caduquice e o excesso de seriedade da música brasileira. Numa temporada dividida com Marina no Teatro Ipanema, em idos de 1981, o asbrúbal Evandro Mesquita e o baterista Lobão (ex-Vímana) tiveram a idéia de montar uma banda de rock teatral. Deste último veio o nome: Blitz, já que eles estavam sempre sendo parados nas batidas policiais. Juntando a irreverência praieira do Asdrúbal a um Rock direto, cantado por uma dupla de meninas bonitas (Márcia Bulcão e Fernanda Abreu), a banda “caiu como uma luva” no espaço para shows que abriu em pleno verão de 1982 na praia do Arpoador: o Circo Voador. Com Ricardo Barreto (guitarra), Antônio Pedro (ex-Mutantes, baixo) e William Forghieri (ex-Gang 90, teclados), a Blitz causou tanto “burburinho” na noite carioca que conseguiu um contrato para gravar um compacto – Você Não Soube Me Amar, história de um desencontro amoroso, cantada na linguagem malandra dos jovens da Zona Sul carioca.

Lançado em junho, o compacto (que no lado B, trazia apenas Evandro dizendo "Nada, nada, nada...") vendeu 100 mil cópias em três meses. Lançado em setembro, o primeiro Long Play da banda, As Aventuras da Blitz, que trazia ainda as músicas Mais Uma de Amor (Geme, Geme) e De Manhã (Aventuras Submarinas), transformou a banda num fenômeno nacional. Mais dois discos (Radioatividade, 1983, e Blitz 3, 1984), centenas de shows, vários sucessos (Weekend, Bete Frígida, Egotrip) e a banda terminava em 1986. Voltaria, anos mais tarde, sem Fernanda Abreu, para repetir os sucessos.

Pouco depois do lançamento de As Aventuras da Blitz, Lobão saltou do barco e conseguiu uma gravadora para lançar seu disco solo, Cena de Cinema, que havia sido feito um ano antes, com seus amigos. Começava aí uma carreira das mais importantes do Rock Brasil, de um artista sempre inconformista, que gravou discos clássicos como Ronaldo Foi Pra Guerra, O Rock Errou, Vida Bandida (que refletiu suas experiências no mês em que esteve preso na Polinter por porte de droga) e músicas como Me Chama (regravada por Marina e ninguém menos que João Gilberto), Corações Psicodélicos, Revanche, Vida Bandida, Chorando no Campo e Essa Noite Não.

Em 1982, ainda apareceriam mais autores de alta relevância no Rock Brasil. Passada a fase Nostradamus, Eduardo Dusek embarcou em uma viagem Rock, no disco Cantando no Banheiro, gravado com uma banda carioca que seguia o estilo de rock dos anos 50, com muito bom humor: João Penca & Seus Miquinhos Amestrados. Entre seus integrantes havia um irreverente goiano com uma habilidade muito boa para a composição: Léo Jaime, que escreveu o grande sucesso de Cantando, o Rock da Cachorra. Os Miquinhos seguiriam depois sem Dusek e sem Léo, que iniciou uma carreira solo repleta de sucessos como Sônia, O Pobre e As Sete Vampiras. No mesmo ano ainda se viu a estréia em LPs do ex-Vímana Lulu Santos (com a faixa Tempos Modernos) e do Barão Vermelho (que “passou em branco”), além do nascimento, em Niterói, da Rádio Fluminense, grande divulgadora das fitas demo e discos das novas bandas de Rock. Paralelamente, explodia em São Paulo o movimento Punk, no festival O Começo do Fim do Mundo, com bandas furiosas como Inocentes, Ratos de Porão, Cólera e Olho Seco.

Em 1983, o Rock não era mais um estranho no ninho da música brasileira, conquistando generosos espaços na imprensa e levando as gravadoras a perder seu medo de contratar. A gravação de Ney Matogrosso para Pro Dia Nascer Feliz apresentaria ao país o Barão Vermelho e sua promissora dupla de compositores: Roberto Frejat e Cazuza, o poeta exagerado. O LP Rock Voador (resultado da dobradinha Circo Voador e Rádio Fluminese) revelou o Kid Abelha e Suas Abóboras Selvagens e o guitarrista de Blues-Rock Celso Blues Boy. Uma das bandas que tinha sua fita demo executadas na Fluminense, o Paralamas do Sucesso, gravou seu primeiro compacto: Vital e Sua Moto/Patrulha Noturna, cujo relativo sucesso levou, no fim do ano, ao primeiro LP, Patrulha Noturna.

Mas quem se destacaria naquele ano seria um outro ex-Vímana, também acostumado a fazer discos-solo: o inglês Richard Court, o Ritchie. Sua música, Menina Veneno, um elegante Tecno-Pop carregado de modernos teclados, vendeu mais de 800 mil cópias, um sucesso sem precedentes para o Rock Brasil. Em pouco tempo, esta espécie de Bryan Ferry em português chegaria ao LP (Vôo de Coração) que, impulsionado por sucessos como Casanova e A Vida Tem Dessas Coisas, chegou ao milhão de cópias vendidas, batendo até o grande vendedor de discos da gravadora, Roberto Carlos. O Rock Brasil conquistava o respeito comercial e gerava, como contrapeso, uma série de produtos descartáveis, hoje objeto de culto por colecionadores mais fanáticos, como o Absyntho (do Ursinho Blau Blau), Grafite (Mamma Maria) e Bom Bom (Vamos A La Playa).

Fenômeno até então predominantemente carioca (afinal, era no Rio que estavam as sedes das grandes gravadoras e a atenção da mídia nacional), o Rock começa a fervilhar também em São Paulo em 1983. A cidade que era “sacudida” simultaneamente pelos punks e pelo movimento de vanguarda musical (de Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Rumo, Premeditando o Breque e Língua de Trapo), revelou mais uma das grandes bandas do Rock Brasil: Os Titãs (ex-Titãs do Iê-Iê), um octeto que tinha uma aproximação New Wave-tropicalista do Rock e ganhava cada vez mais popularidade com seus shows escalafobéticos. Era a ponta-de-lança de um Rock paulistano, de nomes como o Magazine (do sucesso Eu Sou Boy), o pós-punk Ira! e o irreverente Ultraje a Rigor.

Gravado num estúdio de jingles, o primeiro e homônimo LP dos Titãs, com as músicas Sonífera Ilha, Babi Índio, Marvin e Go Back (música sobre poema do tropicalista Torquato Neto) saiu em 1984, um ano repleto de grandes lançamentos do Rock Brasil. A começar por Seu Espião, estréia do Kid Abelha (da vocalista e Sex Symbol Paula Toller), que trazia Pintura Íntima estourada em compacto, junto a Como Eu Quero, Fixação, Alice (Não Me Escreva Aquela Carta de Amor) e Nada Tanto Assim – este LP vendeu mais de 150 mil cópias.

Outro LP lançado em 1984 que arrebentou as portas da mídia foi O Passo do Lui, segundo dos Paralamas do Sucesso, que trouxe uma série de músicas que virariam hits, como Óculos, Meu Erro, Ska, Me Liga e Mensagem de Amor. Paralamas e Kid “surfaram a crista das ondas de rádio” naquele ano, que ainda teve discos como Tudo Azul (Lulu Santos), Ronaldo Foi Pra Guerra (Lobão e Os Ronaldos), Maior Abandonado (último disco do Barão Vermelho com Cazuza) e Phodas "C" (Léo Jaime). As bandas e artistas cada vez mais se tornavam íntimos dos programas televisivos de auditório. Ao mesmo tempo, o cinema detectava e esquadrinhava o fenômeno do Rock Brasil com o filme Bete Balanço, de Lael Rodrigues, com música tema do Barão Vermelho. Na década de 1990, fazem sucesso no cenário do Rock nacional: Raimundos, Charlie Brown Jr., Jota Quest, Pato Fu e Skank, entre outros.

Se o Rock Brasil transmitia uma imagem romântica e idealista, tudo iria mudar a partir de janeiro de 1985, graças a um acontecimento crucial: o Rock In Rio Festival: dez dias de som e luz em um terreno de 300 mil metros quadrados na Barra da Tijuca, no que acabou por ser o maior concerto de Rock de todos os tempos, com um público estimado em um milhão e meio de pessoas. Ao lado de quatorze dos mais importantes astros internacionais da época (Queen, Iron Maiden, Rod Stewart, Ozzy Osbourne, AC/DC, Yes, Scorpions, entre outros), estavam os valorosos veteranos da MPB e a nova rapaziada: Blitz, Barão Vermelho, Lulu Santos, Paralamas do Sucesso e Kid Abelha.

No maior palco de suas iniciantes carreiras, as bandas não titubearam. O resultado foi que o Rock ganhou espaço na mídia e nas gravadoras, e o Brasil foi incluído na rota das turnês das bandas internacionais. Nossos roqueiros tiveram noções de profissionalismo e de espetáculo muito úteis para quando fossem percorrer o país com seus shows. Com a auto-estima em alta, a juventude que viu as novas bandas brasileiras fazerem bonito ao lado dos ídolos estrangeiros, ainda presenciou, em meio ao festival, a eleição de Tancredo Neves como o primeiro presidente civil no Brasil desde o golpe militar de 1964. Seria o fim de uma Era.

O Rock Brasil que emergiu naquele ano de 1985 apresentou-se ousado, contestador, multifacetado e geograficamente disperso. De São Paulo vieram dois dos maiores êxitos comerciais do ano. Um deles foi álbum Nós Vamos Invadir Sua Praia, do Ultraje a Rigor, banda que havia causado reações com a música Inútil, tocada pelos Paralamas no Rock In Rio e citada pelo presidente do PMDB, o Senhor Diretas Ulysses Guimarães. No disco estavam as músicas Ciúme, Eu Me Amo, Rebelde Sem Causa e Mim Quer Tocar, todas sucessos de rádio. O outro nome foi o RPM que, embalado pelo estouro da música Louras Geladas, lançou seu LP de estréia Revoluções Por Minuto. Com Louras e as músicas Olhar 43, Rádio Pirata e Revoluções Por Minuto obtendo excelentes taxas de execução nas rádios, a banda liderada pelo vocalista e baixista Paulo Ricardo (o primeiro sex symbol masculino do Rock Brasil dos 80) e orientada pelo empresário Manoel Poladian resolveu partir para uma superprodução: o show Rádio Pirata, dirigido por Ney Matogrosso.

Nunca havia sido visto algo como aquilo no Brasil: efeitos de raio laser, gelo seco, sofisticado equipamento de som e a explosão de sensualidade de Paulo Ricardo. O show percorreu todo o Brasil, aumentando brutalmente a popularidade do grupo, que se viu forçado pela gravadora a lançar um disco ao vivo, com a versão de London, London (Caetano Veloso) que já começava a ser tocada nas rádios. Lançado em 1986, Rádio Pirata Ao Vivo, um disco do Rock Nacional, tornou-se o recordista de vendas – de qualquer gênero – no Brasil: 2,2 milhões de cópias. Em pouco tempo, vergado pela pressão de ser uma sensação nacional, pelas disputas internas e pelo abuso no consumo de drogas, o RPM ainda gravou mais um LP (RPM, 1987, de vendagem decepcionante em relação ao do disco anterior) e acabou, sem muito barulho, em 1989.

No mesmo mês do Rock In Rio, uma banda de Brasília estaria lançando seu primeiro disco – um disco que marcaria a história do Rock Brasil. Legião Urbana apresentava ao país a poética de Renato Russo (oriundo da banda punk Aborto Elétrico), em letras como "Filhos da Revolução" (termo empregado na música Geração Coca-Cola), na qual estavam expressos seus anseios, medos e reivindicações. Conhecida anteriormente pela música Química (gravada pelos amigos Paralamas em Cinema Mudo), a Legião ganhou o público com aquele disco de músicas cheias de energia roqueira e sentimento à flor da pele, como Será, Ainda É Cedo e Soldados. Era a primeira das bandas de Brasília influenciadas pelo Punk Rock. Outras como Capital Inicial, Plebe Rude, Finis Africae e Detrito Federal logo chegariam. Também de origem Punk e também deslocada do eixo Rio - São Paulo, o Camisa de Vênus, cáustica turma de baianos liderada pelo vocalista Marcelo Nova, apareceria em 1985. Depois de um LP sem grande repercussão nacional, eles conseguiram enfim estourar naquele ano com Eu Não Matei Joana D’Arc, do LP Batalhões de Estranhos.

Em São Paulo, os ecos do Punk seriam responsáveis por uma outra banda de relevância a vir à tona em 1985, com o disco de estréia Mudança de Comportamento: o Ira!, do guitarrista Edgard Scandurra e o vocalista Nasi.

O Rio de Janeiro ficaria famoso em 1985 por mais um álbum de grande rotação nas rádios, com músicas que remetiam ao Rock dos anos 50 e à Jovem Guarda: Sessão da Tarde, de Léo Jaime. O Kid Abelha lançaria seu segundo LP, Educação Sentimental e, no fim do ano, o ex-Barão Vermelho Cazuza, publicou o seu primeiro álbum solo: Exagerado.

Para o Rock Brasil, 1986 foi um ano de consolidação artística e fartura de lançamentos: a explosão de consumo proporcionada pelo Plano Cruzado foi propícia às gravadoras, que começaram a contratar qualquer banda que tocasse Rock. Uma coletânea – Rock Grande do Sul, só de bandas de Porto Alegre – revelou, com as músicas Sopa de Letrinhas e Segurança, uma banda que teria grande repercussão na mídia: os Engenheiros do Hawaii, que no mesmo ano lançariam o seu primeiro LP, ironicamente intitulado Longe Demais das Capitais. Também estrearam naquele ano em álbum (ou Mini LP) os cariocas do Biquini Cavadão (Cidades em Torrente), a Plebe Rude (com o demolidor O Concreto Já Rachou), o Capital Inicial (Capital Inicial) e os Inocentes (com Pânico em SP, primeiro disco do Punk brasileiro a ser lançado por uma grande gravadora).

Três, porém, seriam os discos do Rock Brasil a arrebatar a atenção de público e crítica por sua força e novidade. Com Selvagem, os Paralamas do Sucesso fizeram uma ambiciosa conexão Brasil-Jamaica-Inglaterra-África via música negra. As músicas Alagados, A Novidade (letra de Gilberto Gil) e Melô do Marinheiro apresentaram uma banda madura e decidida a fazer carreira. Já em Dois, a Legião Urbana revelou-se mais lírica e acústica, em faixas que fizeram a história da banda: Tempo Perdido, Índios, Eduardo e Mônica, Quase Sem Querer e Andrea Doria. Por fim, com Cabeça Dinossauro, os Titãs deram sua guinada Punk, num lance que parecia arriscado, mas que lhes garantiu credibilidade roqueira e grande retorno comercial. Músicas como Polícia, Igreja, Bichos Escrotos, Homem Primata e AA UU foram grandes sucessos.

A boa fase do Rock Brasil entraria por 1987, com a explosão de Lobão (no LP Vida Bandida) e mais uma variedade de LPs que entrariam para a história do movimento, como A Revolta dos Dândis (a obra-prima dos Engenheiros do Hawaii), Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas (Titãs), Que País É Este – 1978/1987 (Legião Urbana) e Sexo! (Ultraje a Rigor). Uma surpresa foi o aparecimento do carioca Fausto Fawcett e seus Robôs Efêmeros com o Rap Kátia Flávia (a Godiva do Irajá, da "calcinha exocet"), sucesso nos rádios, que levou à gravação de um álbum naquele mesmo ano.

Outra surpresa foi o selo Plug, da gravadora RCA, que apostou em LPs de novos nomes do Rock Brasil que não estivessem fazendo nada parecido com as outras bandas. Estrearam na etiqueta os cariocas do Picassos Falsos (de Carne e Osso) e Hojerizah (de Pros que Estão em Casa), os gaúchos Defalla e TNT e o paulistano Violeta de Outono. Apesar da qualidade e inovação reconhecidas, poucas bandas do Plug passaram do segundo LP. Das raras exceções podemos citar a banda gaúcha Nenhum de Nós, que virou sensação por causa da música Camila, Camila, e que em 1989 seria responsável por um dos grandes hits do ano: O Astronauta de Mármore, versão de Starman, música de David Bowie.

De 1988 em diante, o Rock Brasil experimenta um refluxo, com uma dificuldade cada vez maior das bandas em recuperar os níveis de vendagem e execução. Apesar disso, discos clássicos continuam a ser lançados: Ideologia, em que Cazuza, já infectado pela Aids, começa a refletir sobre sua própria condição (Ideologia, Boas Novas) e Brasil (críticas fervorosas sobre o país). Também em 1988, aos dezesseis anos de idade, Ed Motta chegou com “pinta” de veterano, injetando funk e soul no Rock Brasil, no disco de estréia com a banda Conexão Japeri. A Legião Urbana, que experimentou um sucesso estrondoso aquele ano com a música Faroeste Caboclo, viu o reverso da moeda no dia 18 de junho, em show no Estádio Mané Garrincha, na cidade onde a banda surgiu, Brasília: confusão total, com Renato Russo sendo atacado no palco por um doente mental e a polícia agredindo a platéia, que saiu do show (interrompido) fazendo balbúrdia pela cidade. O resultado do episódio: 385 feridos, 60 presos e 64 ônibus depredados.

O incidente abalou a banda Legião Urbana. Sem o baixista Negrete, que pediu demissão, a banda finalizou seu quarto e mais bem-sucedido LP: As Quatro Estações, início de uma fase onde se misturam nas letras de Renato Russo a busca da afirmação da homossexualidade e as preocupações religiosas. Pais e Filhos, Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto, Meninos e Meninas e Monte Castelo fizeram deste disco o último grande sucesso de vendagens do Rock Brasil por muitos anos seguintes. No show carioca de As Quatro Estações, que acabou com guerra de areia da platéia, em 7 de julho de 1989, o clima foi de luto: Cazuza, a quem Renato havia dedicado Feedback Song For a Dying Friend, havia morrido. Meses depois, morreria Raul Seixas – pobre, doente e sem reconhecimento. O Rock Nacional encerrava mais uma era.

No começo da década de 90, ao mesmo tempo em que a crise econômica levava Paralamas e Titãs a vendagens de discos decepcionantes, uma banda de Minas Gerais, criada no circuito subterrâneo do Rock Nacional, tornava-se uma potência mundial do Heavy Metal: o Sepultura, que assinou com a gravadora holandesa Roadrunner e lançou os bem-sucedidos discos Beneath The Remains (1989) e Arise (1991). Pouco antes de lançar Arise, a banda foi atração do segundo Rock In Rio, realizado no Maracanã, que teve como grande estrelas Prince, Guns’n’Roses, George Michael, Faith No More e Judas Priest, e um palco nacional do qual também fizeram parte Titãs, Engenheiros, Lobão, Paulo Ricardo, Hanoi Hanoi, o folclórico roqueiro Sergei, Vid & Sangue Azul, Nenhum de Nós, Capital Inicial, Ed Motta e astros da MPB. No mesmo ano, surgiram, com a música Falar a Verdade, os cariocas do Cidade Negra: uma banda de Reggae, o ritmo antecipado por Gil e pelos Paralamas, que daria o tom do Pop na década.

No inicio anos 90, aumentava significativamente a circulação de informações sobre música (em 1990, o canal de televisão MTV estreava no Brasil com fartura de videoclipes internacionais), mas não a vontade do Rock Brasil de inovar. O começo da década coincide com a febre dos grupos cover e dos que, em busca de uma chance no exterior (a exemplo do Sepultura), se limitam a cantar em inglês músicas de gêneros cristalizados no exterior, como o Heavy Metal (Viper, Dorsal Atlântica, Korzus), o Rock ruidoso e melódico de inspiração inglesa (Beach Lizards, Second Come, Dash, Killing Chainsaw) e o Punk (Anarchy Solid Sound). Exceção deste grupo foram os Ratos de Porão, cada vez mais populares no mercado underground cantando em (incompreensível) português. Mas nem mesmo eles resistiram à tentação, gravando em 1994 o LP Another Crime In Massacreland, recheado de músicas em inglês, mas com o clássico Suposicollor, que versa sobre as vias nada convencionais que certo ex-presidente era acusado de ter usado para consumir cocaína. As coisas começaram a mudar, porém em 1992, num processo que coincide com a renúncia de Collor em meio a denúncias de corrupção que levaram os estudantes a pintar os rostos e ir para as ruas em protestos.

Formado em Belo Horizonte em 1991, a banda de Reggae Skank (que fazia bailes pela cidade, cantando algumas de suas músicas, todas em português), resolveu deixar de esperar por uma grande gravadora e entrou em estúdio para gravar, às próprias custas, o seu primeiro disco. Numa época em que essas produções independentes primavam pelo amadorismo ou pelo diletantismo, saiu em 1992 Skank, disco com alto grau de profissionalismo e grande apelo Pop, que logo chamou a atenção da gravadora Sony, a qual o relançou sem mexer em nada o original gravado anteriormente. As músicas Indignação e O Homem Que Sabia Demais tiveram relativo sucesso nas rádios em 1993, abrindo as portas para uma nova geração. Enquanto isso, em Recife, começava a se destacar uma cena chamada de Mangue Beat, de bandas como Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, que pegavam ritmos tradicionais como o maracatu e o misturavam com a música Pop de vanguarda. Ainda em 1993, aparecia no Rio de Janeiro, com a música Tô Feliz, Matei o Presidente (dirigida a Collor), Gabriel o Pensador, garoto que transformaria o Rap brasileiro em um gênero comercial.

Na mesma época, os Titãs vieram com a idéia de um selo, dentro da gravadora WEA, para gravar discos de bandas novas. Era o Banguela, que lançou o primeiro disco do Mundo Livre e o de uma banda de Brasília, que parecia a mistura do Punk-Rock dos americanos Ramones com o baião de duplo sentido, no estilo Genival Lacerda. Graças a um exaustivo trabalho de shows, Raimundos (que saiu em 1994) furou o bloqueio das rádios com as músicas Puteiro em João Pessoa e Selim, bateu respeitáveis níveis de vendagem (mais de 100 mil cópias) e abriu o caminho para aquela que seria a mais popular banda de Rock brasileiro dos anos 90. Outro peso-pesado do Rock que apareceu na metade dos anos 90 foi a banda carioca Planet Hemp, liderada por dois rappers (Marcelo D2 e BNegão), com o disco Usuário, polêmico por sua defesa da maconha. Junto com os Raimundos, eles forçaram a abertura das rádios para o Rock mais pesado, com letras sobre sexo e drogas repletas de palavrões.

Na área do Pop, porém, quem mostrou sua força comercial foi o Skank, que entrou 1995 com seu segundo disco, Calango, batendo a marca de 1,2 milhão de cópias vendidas, puxadas por uma fileira de sucessos: Te Ver, Jackie Tequila, Pacato Cidadão, Esmola, Amolação e a versão do sucesso de Roberto Carlos na Jovem Guarda É Proibido Fumar. Melhor ainda fez o disco O Samba Poconé, de 1996. Com o estrondoso sucesso da faixa Garota Nacional (que se estendeu para outros países do Mercosul) e É Uma Partida de Futebol, ele selou seu sucesso com 1,8 milhão de cópias vendidas.

O recorde comercial dessa fase do Rock Nacional, porém, foi a do disco de estréia de uma banda formada por irreverentes e humildes jovens da cidade de Guarulhos, em São Paulo. Eram os Mamonas Assassinas, que conseguiram chamar a atenção de uma grande gravadora com músicas debochadas como Vira, Vira, Pelados em Santos, Chopis Centis, Robocop Gay, Bois Don’t Cry, Sabão Crá Crá, que lembravam as sátiras de bandas como o Língua de Trapo e o cantor Falcão, e cresciam no palco e na TV graças ao carisma do vocalista Dinho. Lançado em maio de 1995, Mamonas Assassinas logo ganhou o amor do público infantil (e o ódio dos pais), terminando por vender a impressionante quantidade de 2,6 milhões de discos. Mas os Mamonas também se tornaram recordistas em brevidade de carreira: em 2 de março de 1996, os cinco integrantes da banda morreram quando o avião onde viajavam se chocou com a Serra da Cantareira, em São Paulo.

Não seriam as únicas perdas que se abateriam sobre o Rock Nacional nos anos 90: em 1994, a persistente rádio rock Fluminense, mãe de boa parte das bandas dos 80, encerraria suas atividades. Em outubro de 1996, Renato Russo morreria de Aids, dias após a Legião lançar o triste álbum A Tempestade. Em novembro, o Circo Voador seria fechado, após a discussão de João Gordo, dos Ratos de Porão, com a comitiva do prefeito eleito do Rio de Janeiro, que chegava ao local para comemorar o resultado nas urnas. Em dezembro, o vocalista e guitarrista do Sepultura, Max Cavalera, deixaria a banda em seu auge, com o mundialmente aclamado disco Roots (1995), que misturou o Trash Metal com as percussões baiana (de Carlinhos Brown) e indígena (dos Xavantes). A banda seguiu sem Max, que montou o projeto Soulfly – mas nenhum dos dois repetiu o êxito do Sepultura nos bons tempos. Por fim, no Carnaval de 1997, chegaria a vez de Chico Science morrer num acidente de carro, em Recife. Meses antes, a Nação Zumbi havia lançado sua obra-prima (o disco Afrociberdelia) e tinha feito até uma turnê européia ao lado dos Paralamas do Sucesso.

Veteranos nomes do Rock Brasil também brilharam ao longo dos anos 90. Lulu Santos voltou ao grande sucesso, na fase dance dos LPs Assim Caminha a Humanidade (94) e Eu e Memê, Memê e Eu (1995, com o produtor Marcelo Memê Mansur). Mais bem-sucedido dos ex-integrantes da Blitz, Fernanda Abreu ressurgiu como uma espécie de primeira dama do funk-disco com os discos SLA Radical Dance Disco Club (1990), SLA – Be Sample (1992, do sucesso Rio 40 Graus) e Da Lata (1995, de sucessos como Veneno da Lata e Garota Sangue Bom). Quem também engatilhou uma bem-sucedida carreira solo foi o ex-Titãs Arnaldo Antunes, que estreou com o LP Nomes (1994).

Depois de um disco de propostas mais experimentais, Severino (1994), os Paralamas retomaram o sucesso com o disco ao vivo Vamo Batê Lata (1995). As vendagens também cresceram com outro disco ao vivo, o Acústico (1999). A revisão acústica dos sucessos de carreira foi um expediente também rendeu aos Titãs uma grande surpresa, em 1997: Acústico MTV foi o seu disco de melhor resultado comercial, vendendo mais de um milhão de cópias. A seqüência, Volume 2 (1998) e As Dez Mais (1999, só de versões) repetiram em parte o sucesso. Kid Abelha e Barão Vermelho também experimentaram uma volta às boas vendagens, respectivamente com os discos Meu Mundo Gira em Torno de Você e Álbum (este de versões), lançados em 1996.

A aproximação feita por Chico Science e Raimundos com a música brasileira mais tradicional deu margem para que uma série de artistas na fronteira entre o Pop-Rock - a novidade sonora - e a MPB chegassem à mídia: vieram os cariocas Paulinho Moska (ex-Inimigos do Rei, banda de Rock que apareceu em 1989 e teve apenas dois sucessos: Uma Barata Chamada Kafka e Adelaide) e Pedro Luís (com sua banda de percussões, A Parede), o pernambucano Lenine, o paraibano Chico César e o maranhense Zeca Baleiro (do disco Vô Imbolá, de 1999). Minas Gerais, por sua vez, reforçava o Pop com duas bandas de sucesso no fim dos 90: o Jota Quest (da música Fácil) e o Pato Fu, da doce vocalista Fernanda Takai, que só estourou a partir do quarto LP, Televisão de Cachorro (1998). A banda carioca Rappa (de fusão rock-reggae-funk-samba) também experimentou um grande crescimento, a partir do seu segundo disco, Rappa Mundi (1996), tornando-se sucesso de rádio e palcos graças a músicas como A Feira e a versão de Hey Joe. Uma grande surpresa, porém, veio de São Paulo: o Rap de denúncia social dos Racionais MCs conquistou o país com a música Diário de um Detento e levou o LP Sobrevivendo no Inferno (1998) a vender mais de um milhão de cópias.

Os anos 90 terminaram com o renascimento do Rock na mídia, provocado pelo sucesso de bandas como a santista Charlie Brown Jr. e os Raimundos, dois dos maiores sucessos de vendagem de 1999, respectivamente com Preço Curto... Prazo Longo e Só No Forévis (uma inspirada crítica aos grupos de samba que vinham obtendo grande sucesso comercial com trabalhos artisticamente pífios). Outras bandas seguiram nesse vácuo, caso dos novatos Los Hermanos (que não saíram das rádios em 1999 com a música Anna Júlia), Penélope e Autoramas, e dos veteranos Ultraje a Rigor, Capital Inicial e Plebe Rude, que inesperadamente voltaram ao circo da mídia. Enquanto isso, Lobão “corria por fora”, lançando por seu próprio selo, Universo Paralelo, o elogiado disco A Vida é Doce, em um esquema inédito de venda em bancas e na Internet.

3- A Banda Radiofônica, objeto do estudo

A Banda Radiofônica, formada em 2007, é composta por Allê Marques nas guitarras e back vocals , André Souza no baixo, Beto Carrusca na bateria, Diogo Jeber nos violões e back vocals e, nos vocais, Tomás Grandchamp.

As principais influências da Radiofônica vêm do Rock and Roll, principalmente sua versão mais original e purista dos anos 50 e 60, com elementos de Jazz, Blues e Folk, o que traz à sonoridade da banda uma mistura que é ao mesmo tempo eclética e inconfundível, sintetizada em suas canções próprias e, na execução das releituras que integram seu show.

Os músicos da Banda Radiofônica já possuem experiências anteriores no ramo musical, fazendo parte de outras bandas e participando de importantes eventos musicais nos cenários mineiro e nacional, como o Festival Coração de Estudante (promovido pela Rede Globo de televisão), Artistas Mineiros In Concert no Palácio das Artes, Prêmio Mineiro da Música Independente – PMMI, DEMO HITS - promovido pela empresa Claro Telefonia, entre outros.

Baseando no estudo da historiografia do Rock realizada anteriormente a melhor classificação do estilo executado pela Radiofônica é o Hard Rock que, por definição, foi estilo que marcou os anos 70, combinando perfeitamente a modernidade alcançada com o Rock e o Clássico, além de estilos como Blues e Jazz.

4- Uma proposta de identidade para a Banda Radiofônica

Propomos uma identidade para a banda Radiofônica em acordo com seu estilo musical, uma identidade visual eclética, condizente com as principais características do Hard Rock internacional dos anos 70 e do Rock Nacional dos anos 80. Apresentaremos, portanto, um breve estudo das capas de discos das principais bandas da época, conhecidas como a tríade que deu início ao movimento Hard Rock. Foram elas: Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple. No cenário nacional apresentaremos capas de alguns dos nomes que influenciaram a Banda Radiofônica, tais como Ultraje a Rigor, Barão Vermelho, e Legião Urbana.

4.1 – Estudo de Capas de Discos Internacionais


Para analisar os discos de Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple, iremos apresentar um exemplo de cada uma das bandas que representa suas principais características.

O primeiro álbum da banda Led Zeppelin (figura 1), lançado em 1969 com o mesmo nome da banda, vendeu incríveis 11 milhões de cópias. Sua capa apresentava uma fotografia em preto e branco do desastre do dirigível Hindenburg, o qual pegou fogo quando manobrava para pousar em 1937, em Nova Jersey, nos Estados Unidos. O acidente teve um saldo de 36 mortos e marcou como uma das derrotas de Adolf Hitler, que havia encomendado a construção do Hindenburg na tentativa de demonstrar a superioridade tecnológica alemã na iminência da Segunda Guerra Mundial. Esta imagem no disco do Led Zeppelin é uma prova da utilização da música como instrumento de contestação política, uma das características do Rock. A tipografia utilizada para o nome do disco é grotesca e condensada, na cor Laranja, mesma cor do selo da gravadora Atlantic, que realça a marca sobre o fundo monocromático.

Fig.1: Led Zeppelin (1969)

Entre os diversos discos lançados pela banda Black Sabbath desde 1969, podemos destacar seu segundo álbum, Paranoid (figura 2), lançado em 1970, considerado o pioneiro do Heavy Metal sob o comando do vocalista Ozzy Osbourne. A capa do disco possui predominância do preto e vermelho, cores-símbolo do Rock que evoluiu para Heavy Metal. Na foto utilizada pode-se perceber a presença de um “guerreiro” em movimento, com escudo e espada em punho, uma imagem que faz alusão aos efeitos do uso de drogas, que podem resultar na “paranóia” de seus usuários. A tipografia utilizada em vermelho (representa o sangue) é mais trabalhada que a tipografia aplicada no primeiro disco do Led Zeppelin. Tal recurso de desenvolvimento da tipografia para criação de nomes de bandas de Rock seria constantemente utilizado durante a evolução dos estilos musicais. Podemos perceber ao estudar os demais discos da banda Black Sabbath que não foi desenvolvida uma tipologia que representasse a logomarca da banda. Para cada momento de sua carreira seria lançado um álbum diferente, com tipografia diferente.

Fig.2: Álbum Paranoid (1970)

O albúm mais famoso do Deep Purple, Machine Head (figura 3), contém diversos sucessos da banda e, entre eles, a música que os consagrou mundialmente: Smoke On The Water. A capa deste álbum foi criada a partir de uma fotografia da imagem refletida dos músicos em uma superfície metálica, com a aplicação de uma tipografia que representa letras gravadas no metal através de prensa e clichê. Machine Head representa uma nova fase da banda (que estava junta a apenas três anos e meio e já havia gravado seis discos) como também uma nova fase do próprio Rock and Roll.


Fig.3: Álbum Machine Head (1972)


Tomemos o disco Rapture of the Deep, também do Deep Purple, lançado em 2005, como exemplo da evolução gráfica e musical da banda (figura 4). Em 1984, dezoito anos após ruptura da banda (1976), é anunciada a volta do Deep Purple com a sua formação de maior sucesso, com Gillan, Blackmore, Paice, Glover e Lord. A banda se revitaliza com lançamento do álbum Perpendicular (1996) e Abandon (1998), Bananas (2003) e Rapture of the Deep (2005). Este último apresenta uma tipografia simplificada que representa letras de uma máquina de escrever. As cores utilizadas fazem parte de uma mesma paleta de cores, do Purple (roxo). O desenho utilizado possui estilo moderno, em contraposição às fotos dos próprios músicos utilizadas nas décadas de 1970 a 1990.


Fig.4: Rapture of the Deep (2005)


4.2 – Estudo de Capas de Discos Nacionais

O segundo disco da banda Ultraje a Rigor (figura 5), Sexo (1987), repetiu o sucesso do primeiro álbum com a música Pelado, utilizada na abertura de uma novela da Rede Globo de Televisão. A capa do disco apresenta elementos gráficos comuns da década de 1950. A utilização de desenhos realistas de maneira cômica é a marca registrada deste álbum. A tipografia utilizada foi baseada na própria logomarca da banda, que se manteve a mesma desde a criação da banda em 1982. Podemos perceber que a comunicação da banda com seu público é direta e engraçada, característica peculiar do Ultraje a Rigor.


Fig.5: Sexo – Ultraje a Rigor (1987)

O álbum As Quatro Estações (figura 6) é considerado por muitos fãs e críticos o melhor trabalho da banda Legião Urbana, além de conter o maior número de músicas: são onze canções, das quais pelo menos nove foram tocadas incessantemente nas rádios. É o álbum mais vendido da Legião, com mais de 1,7 milhões de cópias. Sua capa apresenta fotos dos principais músicos em preto em branco, sobre um fundo cinza, propiciando um ar de sobriedade ao disco. A tipografia utilizada, serifada e em azul marinho, completa a composição da capa do disco com simplicidade e leveza. Podemos perceber a utilização de um terceiro elemento na capa: o desenho de um violão estilizado. Estes tipos de desenhos seriam utilizados em discos futuros, fazendo alusão à simplicidade das melodias (eram compostas de poucos acordes, fáceis de tocar) as quais poderiam ser tocadas por músicos iniciantes em festas e rodas de amigos.


Fig.6: As Quatro Estações (1989)

Em 1982, o som da banda Barão Vermelho despertou a atenção do produtor Ezequiel Neves e do diretor da gravadora Som Livre, Guto Graça. Juntos, eles lançaram a banda e, com uma produção de baixo custo, foi gravado, em apenas dois dias, o primeiro álbum do Barão, que recebeu o nome da banda (figura 7). Das músicas mais importantes, destacam-se "Bilhetinho Azul", "Ponto Fraco" e "Down Em Mim". A capa de seu primeiro disco é caracterizada pela predominância da cor vermelha, como fundo de uma foto dos músicos da banda de braços cruzados e feições sérias, transmitindo a insatisfação dos “roqueiros” em relação à política e situação social do país. As cores e o alto contraste utilizado no tratamento da imagem se refere à Pop Art dos anos 60, a qual pregava comunicação direta e em massa com o público consumidor. A tipografia utilizada é forte e irregular, propondo a atitude pretendida pela banda.


Fig.7: Barão Vermelho (1982)


Em 1985 Cazuza saiu do Barão Vermelho e decidiu seguir carreira solo, vindo a falecer por conseqüências da AIDS, em 1990. A banda passou por várias mudanças e lançou diversos discos, muitos deles premiados como melhor disco de Rock brasileiro. Em 2004, a banda voltou a lançar um novo disco, após ficar parada por três anos (figura 8). Este disco traz elementos gráficos similares ao primeiro álbum da banda (figura 7), com a predominância do vermelho e fotografia dos músicos com tratamento similar à imagem de 1982 (alto nível de contraste). A utilização de elementos gráficos no fundo da imagem e a criação de uma nova logomarca contextualizam a banda no século XXI.


Fig.8: Barão Vermelho (2004)


4.3 – A Marca Radiofônica


Conforme Tavares (1998), nos tempos modernos onde há excesso de informações visuais, auditivas, olfativas, e demais informações que podem ser percebidas pelo organismo humano, segundo o autor:


As marcas são os principais recursos que podem ser utilizados para combater a tendência natural à “commoditização” que existe para alguns produtos. Na ausência de marcas fortes, os consumidores em geral percebem os produtos como sendo semelhantes. [...] Nessa perspectiva pode-se considerar que o principal propósito da marca é distinguir o produto, de modo que ele possa ser facilmente identificado e preferido.
(TAVARES, 1998, p.17-19)

Assim, a necessidade de diferenciação em relação aos concorrentes é iminente. A Banda Radiofônica surgiu com a proposta de uma musicalidade diferente do Pop Rock “desnatado” que toca nas rádios atualmente, onde o ouvinte não consegue diferenciar qual música pertencem a qual banda.

Na tentativa de representar graficamente o conceito do “novo” Rock da Radiofônica foi desenvolvida uma logomarca que pudesse resgatar a origem do Rock dos anos 60 e 70, adequando-se aos tempos atuais. Utilizando elementos característicos dos discos estudados anteriormente (tipografia forte e de fácil leitura, interferências gráficas) a logomarca proposta pode ser vista na figura 9.


Fig.9: Logomarca da Banda Radiofônica sobre fundo preto e branco, respectivamente.


Os elementos gráficos posicionados acima e abaixo da letra “O” representam a propagação das ondas de rádio e também das próprias ondas sonoras. A logomarca proposta é simples e direta, assim como o Rock and Roll original do meio do século passado. Tais elementos fazem da identidade gráfica da Radiofônica algo fácil de ser distinguido pelo público consumidor de Rock Nacional.

5- Conclusão

Podemos concluir com este trabalho que a pesquisa da História do Rock desde suas primeiras manifestações na década de 1950, sua evolução no Brasil e no mundo foram fundamentais para determinar o estilo da Banda Radiofônica, criando uma identidade única, assim como seu jeito próprio de compor e tocar Rock and Roll. Baseado no estudo de referências gráficas das bandas nas décadas de 70 até a atualidade, através de capas de discos, foi possível determinar uma linha de estilo gráfico condizente ao estilo musical da Radiofônica e criar uma logomarca coerente e de fácil assimilação, possibilitando um elo emocional entre a banda e seu público consumidor.

6- Bibliografia

AAKER, David A. Marcas: Brand Equity gerenciando o valor das marcas. 6.ed. São Paulo: Negócio Editora, 1998.

KAPFERER, Jean-Noël. As marcas, capital da empresa: criar e desenvolver marcas fortes / Jean-Noël Kapferer; trad. Arnaldo Ryngelblum. 3.ed. Porto Alegre: Bookman, 2003.

KELLER, Kevin Lane. Gestão Estratégica de Marcas / Kevin Lane Keller, Marcos Machado; tradução Arlete Simille Marques. São Paulo: Prentice Hall, 2006.

MARTINS, José. A natureza emocional da marca: como escolher a imagem que fortalece a sua marca. São Paulo: Negócio Editora, 1999.

PINHO, José Benedito. O poder das marcas. 2.ed. São Paulo: Summus, 1996.

TAVARES. Mauro Calixta. A Força da Marca. São Paulo: Editora Harbra, 1998.

7- Webliografia

Websites acessados entre Novembro de 2007 e Março de 2008.
http://www.wikipedia.com
http://www.ledzeppelin.com
http://www.led-zeppelin.com
http://www.blacksabbath.com
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http://www.deep-purple.com
http://www.deeppurple.com
http://www.deep-purple.net
http://whiplash.net/bandas.html
http://www.autobahn.com.br/ultraje/
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http://roxmo.sites.uol.com.br/index.htm
http://www.raulrockclub.com.br/
http://www.legiao.com.br
http://www.urbanalegiao.blogger.com.br
http://www.legiao.org/
http://www.barao.com.br
 

Diogo Jeber Demétrio, Desenhista Industrial com Habilitação em Programação Visual
jeberazara@hotmail.com
2 Luiz Gonçalves, Mestre em Comunicação Social, luiz@alias.com.br