Quem Comanda as decisões de consumo?
Por Paulo Vieira de Castro
02/07/2007
Alguns mecanismos de tomada de decisão em ambientes de comportamento motivado
estão já catalogados pelas neurociências, sendo muitas empresas que se debruçam
sobre o mais complexo paradigma do comportamento humano; o consumo. Esta
investigação é suportada, desde há vários anos, por modernas tecnologias
psicológicas e por máquinas de uso convencional na medicina, como a tomografia
ou a ressonância magnética. Ligar indivíduos a máquinas de scanner cerebral, ao
mesmo tempo que observam marcas, videoclips publicitários, discursos políticos,
traillers cinematográficos, etc., é um procedimento que permite aos
pesquisadores observar a excitação que ocorre ao nível dos circuitos cerebrais.
Um dos objetivos destas experiências passa pela tentativa de descodificar os
mecanismos de fidelização de grupos de consumidores alvo.
Grande parte das motivações que levam à compra partem do inconsciente humano,
assim, num futuro próximo, os métodos tradicionais de estudo do comportamento do
consumidor serão substituídos pelo scanner da mente, permitindo, do ponto de
vista da aplicação neuroeconómica, investigar questões como a satisfação, a
ganância, o altruísmo, a raiva ou o medo.
No futuro, muitas das maiores organizações terão um departamento de
neurociências, cuja importância será determinante na investigação mercadológica,
tornando-se uma importante ferramenta de suporte do processo de decisão
estratégica, destacando-se como uma potente técnica de inquérito. Compreender
parte das emoções vividas durante as experiências de consumo, só foi possível
colocando a neurociência ao serviço de organizações multinacionais, surgindo
deste encontro o neuromarketing, que nada mais é do que o estudo neurológico do
estado mental dos indivíduos, quando expostos a mensagens relacionadas com
experiências de consumo.
Desde o ano de 2001 que o scanner da mente tem vindo a ser utilizado um pouco
por todo o mundo. O processo, na prática, é muito simples de entender,
pretendendo-se que os investigadores possam identificar as partes do cérebro que
são estimuladas durante as experiências de consumo, descodificando padrões de
comportamento inconscientes. Observar os campos elétricos do cérebro torna-se
mais credível que o processamento estatístico, realizado em torno de
questionários tipo ou de entrevistas de grupo.
A razão que fundamenta esta moderna e potente ferramenta de análise relaciona-se
com a idéia que a linguagem se desenvolve a partir de si mesma, ou seja, o que
eu falo funciona, tantas vezes, ao revés do que penso. As dúvidas que se
levantam para os analistas de marketing prendem-se com a possibilidade de as
respostas aos questionários não serem sinceras, ou mesmo, com a hipótese de em
sessões de grupo existir a probabilidade de um, ou mais, de entre os
entrevistados, tentarem influenciar a restante amostra.
Vários estudos da área das neurociências confirmam o que há muito se desconfiava
relativamente à relação que estabelecemos com o consumo. Este é, segundo
Montagne, do Baylor College of Medicine (EUA), tudo menos racional. As
experiências de Montagne tornaram-se clássicos do neuromarketing, apontando as
decisões de consumo como ligadas ao comportamento meramente emotivo. Ao realizar
os já clássicos testes cegos com os populares refrigerantes Coca-Cola e Pepsi,
foi possível evidenciar as zonas do cérebro que são responsáveis pela influência
inconsciente durante experiências de consumo. Quando os voluntários sabiam que
estavam bebendo Coca-Cola, independentemente da sua preferência pela marca,
acendiam-se as zonas do cérebro onde se movimentam as emoções e o afeto. Se este
mesmo grupo de indivíduos bebia Coca-Cola por copos não identificados, as zonas
do cérebro, anteriormente identificadas, não se iluminavam.
Concluiu-se que neste caso a preferência da amostra estava relacionada com a
identificação da marca e não com o sabor. A relação psicológica, emocional,
cultural, etc., que temos com os produtos, suplanta os valores que nos são
transmitidos através do gosto ou do aroma. Não é o paladar que conta, mas a
marca, ou a construção inconsciente que dela temos. Um outro exemplo clássico
são as experiências realizadas nos EUA a propósito do 11 de Setembro.
Analisaram-se os impulsos elétricos cerebrais de republicanos e democratas
quando confrontados com imagens de terror relacionadas com os atentados deste
fatídico acontecimento.
A área do cérebro associada ao medo acendia-se mais vivamente nos democratas
convictos que nos republicanos. O neuromarketing permite, igualmente, analisar
decisões de investimento. Clássicos são, igualmente, os estudos que mediram a
atividade cerebral de homens e mulheres enquanto jogavam o Investiment Game.
Curioso é observar que a atividade cerebral dos homens é substancialmente
reduzida a partir do momento em que tomam a decisão, ao contrário das mulheres,
que demonstram uma atividade cerebral contínua em três áreas distintas: uma, que
concentra a recompensa, outra que tem a ver com o planejamento e a organização,
e uma última área onde se calcula e monitoriza as desordens
obsessivas-compulsivas.
O reconhecimento de tais diferenças em pouco ajudam ao entendimento a propósito
do impulso primordial que comanda homens e mulheres em momentos de consumo. As
limitações do neurobusiness são evidentes, já que este não consegue prever as
mudanças de comportamento, assim como não lhe é possível mudar as convicções dos
consumidores. Dado que se trata de uma técnica descritiva, não destrutiva,
pensada para analisar o comportamento do cérebro, não pode induzir
comportamentos nos consumidores. O neuromarketing mapeia o processo mental em
torno dos benefícios que poderão levar o cliente a comprar uma determinada
marca; todavia, não o pode obrigar a consumir.
O neurobusiness é freqüentemente confundido com outras aplicações tecnológicas
ao nível cerebral. Referimo-nos, em especial, à e-terapy. Trata-se de técnicas
psicológicas, associadas a software especializado, cujo principal objetivo passa
por reprogramar o cérebro humano de forma a fazê-lo esquecer traumas, medos,
dores crônicas, iludindo alguns dos estados de espírito mais indesejáveis.
Alguns críticos estimam que, no futuro, estas tecnologias poderão ser usadas
para estimular a atividade em zonas do córtex associadas a emoções ou, ainda,
para aumentar ou diminuir a tensão ao nível do impulso racional, envolvendo o
consumidor em estados emocionais propícios a determinados hábitos de consumo.
Uma outra possibilidade de influência tecnicamente assistida do comportamento
humano, salientada pelos críticos do neurobusiness, prende-se com os chips que
são já aplicados de forma promissora em cérebros de doentes com Parkinson, ou
com traumas ao nível obsessivo-compulsivo. Seria eticamente reprovável que estas
tecnologias fossem utilizadas com outros propósitos que não os médicos.
Há muitos anos que algumas empresas de comunicação começaram a desenvolver
esforços no sentido de atingir a mente dos consumidores através de programação
dedicada ao subconsciente. Talvez este motivo seja suficiente para refletirmos a
propósito das intenções que estão por detrás de algumas mensagens publicitárias.
Atualmente, existe uma corrente de opinião que dá conta de um novo horizonte da
decisão humana, levantando-se a possibilidade dos segredos das decisões de
consumo poderem estar associados ao sistema primário da motivação inconsciente.
Assim, longe da expressão do exclusivo interesse racional do ser humano, ou do
campo emocional, torna-se prioritário o estudo da emancipação das regiões mais
primitivas do cérebro.
Os mecanismos humanos de decisão poderão genericamente estar relacionados com
três áreas distintas do cérebro com funções diferenciadas. Resumidamente
poderemos referir a existência de um cérebro novo, de um cérebro do meio e de um
velho cérebro. O cérebro novo será responsável pelas áreas da investigação, da
lógica e da dedução. Logicamente, qualquer um será capaz de deduzir que não é
prudente viajar de automóvel ao dobro da velocidade aconselhada por lei
(exercício projetado no novo cérebro); contudo, há muita gente a fazê-lo sob
pena de colocar várias vidas em perigo. O mesmo poderemos dizer quanto às
decisões de consumo. Quantas são tomadas de forma inexplicável? Estes exemplos
remetem-nos para a necessária existência de outros campos cerebrais para além do
racional.
Assim, para além do novo cérebro, reconhece-se o cérebro do meio, onde vamos
encontrar as emoções e os sentimentos. Aqui são ainda partilhadas as suas
descobertas com os outros dois cérebros. Existe, igualmente, o velho cérebro, o
mais profundo, o responsável por nos mantermos vivos. Aqui poderemos encontrar o
que Jung relacionou com a herança histórica de todas as civilizações. O cérebro
reptilário, o dos nossos antepassados, poderá ser grandemente responsável pelas
decisões de consumo. Assim, chegar ao cérebro primitivo permitir-nos-á
compreender os próprios mecanismos de sobrevivência humana e conseqüentemente
avançar no conhecimento sobre a evolução da humanidade.
Será que é ao nível do velho cérebro que vamos encontrar a mais antiga
mistificação dos publicitários, aquilo a que estes chamam de buy botton? Talvez
o ser humano não tenha nascido para consumir; no entanto, será interessante
estudar a possibilidade de existir no Homem um impulso natural de poder, que o
empurre, em direção ao consumo, isto como forma manifesta de disputa do poder
pela compra.
Paulo Vieira de Castro é mentor do modelo “Marketing de Proximidade Real”, consultor de empresas, Diretor do Centro de Estudos Aplicados em Marketing do Instituto Superior de Administração e Gestão do Porto – Portugal. E-mail geral@paulovieiradecastro.com