Rede de Pessoas ou de Coisas?
Por Marcelo Miyashita
10/02/2006
Muito cuidado ao aplicar as técnicas de networking. Mais importante que uma rede
de contatos é uma rede de pessoas movida à base de empatia, reconhecimento e
reputação. E não a base de interesses
Networking é mais um neologismo do universo empresarial que vem se transformando
em palavra comum no vocabulário de qualquer empresário. Mais do que isso, para
alguns, é mais que uma palavra, é uma competência. Seguindo o raciocínio,
trata-se de algo necessário para estabelecer boas relações de negócios e
trabalho.
Mas a questão é que o networking não pode ser visto apenas como ferramenta de
negócio. Infelizmente, há muita gente praticando rede de contatos, seguindo a
risca a cartilha do networking e todas as suas recomendações. Tudo muito
planejado. Um excesso. Recentemente, estive num evento como convidado. Cheguei
sem ser apresentado, sentei-me ao fundo e, após algum tempo, fomos para o
coffe-break. Ou melhor, a hora do “networking”. Neste momento, aconteceu uma
situação interessante: algumas pessoas não olhavam para as pessoas. Olhavam para
os seus crachás! Até quando se apresentavam, até no aperto de mão.
Na hora pensei, o que é isso? Tudo bem, é importante termos bons contatos,
sermos conhecidos, nos apresentarmos, mas daí colocar o relacionamento como
causa é desespero. Ou falta de bom senso, ou excesso de valorização da
'competência' de estabelecer e manter contatos.
Relacionamento é conseqüência. É resultado de empatia e reconhecimento, não
apenas profissional, mas pessoal. Relacionamento 'de verdade' existe entre
pessoas de verdade e não entre crachás e interesses comerciais. Por isso mesmo,
um contato não é um relacionamento. É simplesmente isso, um contato sem
reconhecimento. Ou seja, quase nada.
E é esse “quase nada” que, infelizmente, muita gente se preocupa em conseguir.
Nada contra o ato, desde que não pensem que estão estabelecendo relacionamentos,
que é outra história. Relacionamentos são resultados, envolvem emoção,
proximidade e tamanha profundidade que conseguem gerar até novos contatos. Quem
gosta e admira alguém, fala bem, dá o seu aval, e até recomenda. Isso é
relacionamento, que, pode sim, começar com um contato comercial. Mas é muito
difícil surgir empatia e proximidade quando duas pessoas são levadas a se
conhecerem apenas, e somente, por interesses comerciais.
Talvez por esta razão, nossos melhores contatos surgem quando não estamos tão
“interesseiros”, quando deixamos a casualidade cumprir o seu papel, a simpatia
encontrar o seu espaço e os olhos olharem nos olhos.
Martin Buber, filósofo judeu que escreveu o clássico Eu e Tu na primeira parte
do século passado, pregava que a excessiva vontade de extrair troca em todos os
contatos criava uma relação baseada em “eu e isso”, em outras palavras, uma
relação onde o outro é visto como coisa e não pessoa.
Isso me faz lembrar Robin Williams no filme O Homem Bicentenário, baseado num
conto de Isaac Asimov, onde interpretava Andrew - um robô-mordomo que se
auto-intitulava “Isso”, pois tinha consciência que não era pessoa, era uma
coisa. Buber defendia que nós precisamos nos relacionar não esperando algo em
troca, mas por simples respeito, amor, amizade e consideração pela pessoa. Este
relacionamento Buber denominou de “eu e tu”.
Portanto, muito cuidado com o exagero do networking. Estabelecer contato é
importante, mas olhar nos olhos é fundamental. Tratar pessoas como pessoas,
independentemente das letras pequenas do crachá ou do cartão de visita. Isso sim
é o início de um bom contato, com a empatia, que ao longo do tempo pode criar
laços de relacionamento, com espaço para o surgimento do reconhecimento e, logo
depois, a reputação.
Assim podemos agir nos coffee-breaks, sem a ambição da recompensa e com o gosto
de uma nova amizade.
Marcelo Miyashita é consultor líder e palestrante da MIYASHITA CONSULTING. É
professor de marketing em cursos de MBA e pós-graduação. Atualmente leciona na
Cásper Líbero, FGV-EAESP GVpec, Trevisan, PUC-SP COGEAE, Madia Marketing School,
IMES e IBModa. Foi colunista do Comercial & Cia, na rádio BandNews FM. Em 2006
recebeu o Prêmio Marketing Best e em 2007 o título de Marketing Expert,
concedido pela Editora Referência (Jornal Prop&Mkt), pela FGV-EAESP e pela
MadiaMundoMarketing. É mestrando em Administração pela PUC-SP, pós-graduado pela
ESPM e publicitário pela Cásper Líbero. Conheça seu trabalho:
www.miyashita.com.br