RELAÇÕES PÚBLICAS NA HUMANIZAÇÃO DO ATENDIMENTO HOSPITALAR
Por Natália Magda Silva e Flávio Tófani
18/01/2008
"Importante e urgente
como libertar criaturas humanas
de prisões inumanas
é ir em socorro de verdades
prisioneiras de sistemas, de idéias
que as retêm e as asfixiam."
Dom Hélder Câmara
APRESENTAÇÃO
Todo trabalho bem fundamentado é bom, desde que apresente soluções para
problemas práticos. O complexo, teorizado em eficiência administrativa, só é
inteligente se conciso e direto.
As ferramentas, utilizadas e apresentadas nesse trabalho, tornam possíveis a
coerência e racionalidade indispensáveis nas relações interpessoais do ambiente
hospitalar.
Como diz a autora, “a organização tem um papel fundamental no ambiente
hospitalar humanizado e é a guia de cultura para novas atitudes”.
Caminham juntos a criação e difusão da mesma no conjunto das Relações Públicas,
tornando possíveis e claras a harmonia entre prestadores e usuários. A chave é o
encantamento de todos os envolvidos, já que os objetivos, mesmo que diversos,
canalizam para a satisfação pessoal de doar e receber.
Trata-se, pois de excelente trabalho colocado pela competente autora, à
disposição de uma instituição vital em sua terra natal.
Anderson Martins Franco
Chefe Serviço de Pediatria da
Santa Casa de Caeté
RESUMO
Esta monografia busca identificar, através de pesquisas bibliográficas, de
observação e estudo de caso, como uma cultura de atendimento hospitalar
humanizado pode ser implantada, através de atividades de Relações Públicas. A
prática da humanização do atendimento hospitalar depende da atitude dos
profissionais que prestam atendimento aos pacientes. O comportamento destes
profissionais é influenciado pela cultura organizacional, na qual estão
inseridos e convivem com todos os públicos que lidam com a organização, em
níveis diferenciados de imersão. Por outro lado, a cultura organizacional pode
ser criada e implantada em uma organização através do marketing interno e da
comunicação interna, como parte integrante do amplo planejamento de Relações
Públicas.
Palavras-chave: Relações Públicas. Comunicação interna. Marketing interno.
Cultura organizacional. Humanização.
1 INTRODUÇÃO
A partir do século XX, o rumo das organizações passou a ser guiado pela força do
comportamento das pessoas. Deste momento em diante quem quis se manter no
mercado, não mais tomou suas decisões sem levar em consideração este grande
influenciador. As maneiras como as massas reagem ao seu meio ambiente social são
fatores de influência forte, que precisam ser conhecidos pelas organizações,
para que lidem corretamente com esta diferente realidade (LESLY, 1995).
As Relações Públicas surgem, neste contexto, para levarem à análise das
organizações fatores intangíveis e imensuráveis dos ambientes interno e externo,
para entenderem o espaço complexo onde as relações se estabelecem (FORTES,
2003). Para buscar a maneira de agir com o objetivo de manter um relacionamento
não prejudicial com os públicos.
O entendimento do campo dos relacionamentos é o diferencial para as empresas que
têm o interesse em aproveitar as oportunidades de convivência; porém, conforme o
ritmo das mudanças, em breve, deixará de ser um diferencial para ser comum. O
tempo para as organizações deixarem de administrar o negócio de maneira egoísta
está bem próximo do fim.
Às empresas não é mais permitido definirem seus objetivos sem perceber e levar
em consideração os dos diversos grupos que estão à sua volta. Com os avanços da
civilização tudo se tornou mais complexo, e todas as atitudes das organizações
precisam favorecer a ela e seus diversos públicos, principalmente o cliente (LESLY,
1995).
Conforme Toffter (apud Bekin, 1995), a reprodução em massa deixou de ser o foco
e o cliente passou a ser o centro das atenções dos administradores. Os
consumidores passaram a conhecer melhor os seus direitos e têm maior consciência
em relação à qualidade. O atendimento às necessidades do cliente passou a ser
objetivo básico de toda e qualquer organização.
Inclusive nos hospitais, mesmo com uma natureza tão específica, além de uma
assistência médica de qualidade, tecnologia de ponta, medicamentos avançados, é
necessário perceber o paciente como um cliente.
Segundo Serra (2000) , na avaliação dos usuários de hospitais conveniados com o
SUS – Sistema Único de Saúde, a forma do atendimento, a capacidade demonstrada
pelos profissionais de saúde para compreender suas demandas e suas expectativas
são fatores que chegam a ser mais valorizados que a falta de médicos, de espaço
nos hospitais ou de medicamentos.
Ainda de acordo com Serra (2000) , os bons resultados de um hospital dependem da
capacidade dos profissionais oferecerem um atendimento de qualidade ao usuário.
E, como a formação educacional dos profissionais é bem deficiente na questão da
humanização do atendimento, é necessário processar uma mudança de cultura, para
que os hospitais se adaptem a esse novo cenário.
Além do foco no cliente destacado pelo marketing, no sistema de assistência
hospitalar, o paciente também deve ser valorizado pela sua participação ativa no
próprio tratamento. Segundo Gadamer (apud Caprara e Franco, 1999) , o paciente é
um agente no tratamento da doença, pois o profissional da saúde (nesse caso o
médico) definirá o tratamento baseado nas informações oferecidas pelo paciente.
O ambiente hospitalar precisa se desenvolver para a adequação do trabalho da sua
equipe interna, com vista a atender os clientes externos valorizando-os na
produção de saúde. Os funcionários da organização precisam ter consciência do
valor de um atendimento hospitalar humanizado que satisfaça o cliente.
Para fazer acontecer essas mudanças é preciso que a alta administração dos
hospitais absorva essa necessidade em suas missões. Feito isso, é necessário
conhecer o real interesse e a capacidade da sua equipe interna em atender esta
demanda e, a partir deste diagnóstico, acionar a mudança de cultura para a
valorização do atendimento ao cliente. A comunicação pode ser utilizada como
instrumento para a imersão da equipe interna na orientação do trabalho
totalmente voltado para o cliente.
Para mostrar esta necessidade, o trabalho foi desenvolvido visando descobrir
como uma cultura de atendimento humanizado pode ser implantada em hospitais,
através das Relações Públicas.
Para tanto, foram pesquisados os conceitos e características de cultura
organizacional, sua relação com a atividade de Relações Públicas e os conceitos
de marketing interno e comunicação interna, aí relacionando os quatro conceitos.
O conceito de humanização no atendimento hospitalar foi analisado e discutido
com os funcionários e médicos da Santa Casa de Caeté.
A pesquisa bibliográfica e a pesquisa de observação in loco foram utilizadas
para que o caso da Santa Casa de Caeté fosse estudado e analisado para
identificar como uma cultura de atendimento hospitalar pode ser implantada.
2 RELAÇÕES PÚBLICAS
2.1 Comunicação Social e Relações Públicas: uma base conceitual
O equilíbrio de interesses é o ponto comum nas definições de Relações Públicas,
no entanto não existe um conceito único para o termo. Andrade (1983), explica
que as Relações Públicas podem ser uma filosofia, uma dinâmica, uma atitude e/ou
um processo, por isso a dificuldade na definição.
Andrade (1978) afirma que Relações Públicas é a preocupação em satisfazer o
interesse público . Sendo assim, devido à postura adotada pelas pessoas de maior
consciência dos impactos da empresa em seu presente e futuro, percebe-se que o
interesse público tem forte interferência nos rumos de uma organização.
Satisfazer os seus interesses é uma necessidade, para isso é fundamental que as
empresas tomem uma nova postura que é a de Relações Públicas.
Para as empresas, além de satisfazer o interesse público, gerar um clima de
confiança é uma necessidade. Portanto, segundo L. Salleron (apud Chaumely, 1964)
as Relações Públicas também servem para a geração desse clima entre o pessoal
interno e os públicos, a fim de manterem a atividade e favorecerem o
desenvolvimento da organização.
De acordo com Jorge Neto (apud Andrade, 1983), as Relações Públicas acontecem
quando uma empresa realiza as suas atividades de maneira sincera e as divulga,
com vista a um bom entendimento com as diversas categorias de público. Em outras
palavras, além de ser uma política da empresa, as Relações Públicas são
completas quando há comunicação. A empresa deve utilizar a comunicação e a
informação para o entendimento justo das suas atividades, pois:
A informação virá tornar pública as intenções, revelar claramente, para onde vai
a empresa, mostrar a cada um o que é coletividade no trabalho, permitindo a
todos a participação do esforço comum, fazendo-os solidários de um mesmo
ambiente de good-will, de boa vontade, num grande impulso coletivo. (CHAUMELY,
1964, p.35)
O equilíbrio de interesses não é suficiente para o entendimento do conceito. As
Relações Públicas também são fontes de compreensão mútua e desenvolvimento
recíproco. Tem-se então uma outra face da atividade que é o desenvolvimento
conjunto:
O exercício da profissão de Relações Públicas requer ação planejada, com apoio
da pesquisa, comunicação sistemática e participação programada, para elevar o
nível de entendimento, solidariedade e colaboração entre uma entidade, pública
ou privada, e os grupos sociais legítimos, para promover seu desenvolvimento
recíproco e da comunidade a que pertencem.
Lesly (1995) considera as Relações Públicas um trabalho de busca dos pontos de
equilíbrio entre os diversos pontos de vista e colocações. Em outras palavras,
as Relações Públicas tem como base o diálogo, a troca de informações.
A definição oficial da Associação Brasileira de Relações Públicas ABRP, segundo
Andrade (1983, p.45) destaca:
Entende-se por Relações Públicas o esforço deliberado, planificado, coeso e
contínuo da alta administração, para estabelecer e manter uma compreensão mútua
entre uma organização, pública ou privada, e seu pessoal, assim como entre essa
organização e todos os grupos aos quais está ligada direta ou indiretamente.
Por outro lado, já existem conceitos mais atualizados que dizem que as “Relações
Públicas modernas são processos voltados para a viabilização dos negócios, na
medida em que objetivam aproximar, conquistar e fidelizar também.” (NASSAR,
2005, p.17).
As definições pontuam claramente que Relações Públicas, através da comunicação,
buscam, além de equilíbrio de interesses, a satisfação do interesse público, um
clima de confiança, de bom entendimento, de compreensão mútua, de
desenvolvimento recíproco e de viabilização dos negócios.
2.2 Relações Públicas nas organizações
As organizações, segundo Wey (1983, p.44 e 45), “são um tipo de agrupamento
humano, criado para atingir fins específicos e preencher certas necessidades da
sociedade.” Nas organizações existem pessoas em integração, com objetivos e com
função social.
Empresa é “uma unidade econômica que se propõem a produzir bens ou serviços, com
o fito de lucro” (Andrade, 1978, p.32). Assim, é fácil perceber a diferença
entre organização e empresa, uma é um agrupamento criado para produzir bens ou
serviços com finalidade de obter lucro, a outra é criada para atingir fins
específicos que não precisa ser necessariamente produzir bens ou serviços e nem
com finalidade de lucro.
Ao partir da diferença de significados pode-se perceber que há diferença entre
comunicação organizacional e empresarial. Segundo Kunsch (1997), os dois termos
não são sinônimos, sendo a primeira mais abrangente. A comunicação
organizacional concentra-se muito mais no aspecto de relacionamento interno com
o meio ambiente, mas a autora propõe uma conceituação que englobe todas as
atividades comunicacionais: relações públicas, relações governamentais,
comunicação e marketing, comunicação corporativa e comunicação interna e externa
que podem ser aplicadas a qualquer tipo de organização e não somente àquilo que
se chama “empresa”. Para a autora a comunicação institucional, a mercadológica e
interna formam o composto da comunicação empresarial.
Segundo Hunt e Grunig (apud Kunsch, 1997) as Relações Públicas são as áreas da
comunicação organizacional que tem por obrigação avaliar e prognosticar o
pensamento e as reações dos públicos; é a comunicação da organização com todos
os seus públicos: governos ou grupos que afetam as políticas governamentais,
empregados, comunidade e com os veículos de comunicação.
A primeira área a ser trabalhada pela comunicação organizacional deve ser o
interior da empresa, porque com funcionários satisfeitos o nível de
produtividade tende a se elevar. Além de fatores primordiais para o trabalho de
qualidade dos empregados, como: boas condições de trabalho, salários justos,
ambiente salubre e agradável e mecanismos de incentivo à valorização pessoal,
tem ações específicas de Relações Públicas que contribuem para o aumento da
produtividade (VIEIRA, 2004). Relações Públicas dentro da comunicação interna
estabelecerá relacionamentos produtivos para o alcance do sucesso da
organização.
2.2.1 Relações com o público interno
O público interno recebe várias definições: o público que está mais próximo das
organizações, que está dentro, que tem contato mais direto, entre outras. De
acordo com Nassar (2000) , pensar no público interno apenas de maneira
geográfica ou cartesiana é perigoso. No entanto, Fortes (2003) caracteriza o
público interno como originário das pessoas e dos grupos ligados à empresa por
relações funcionais oficializadas, que caracterizem o “empregador” e
“empregado”, todo e qualquer contratado é enquadrado como público interno. Para
Marchesi (2005), o público interno é formado pelos empregados e seus familiares
e é o maior e mais consistente avalista da reputação da empresa, sendo,
portanto, além de estratégico, prioritário em termos de comunicação.
Segundo Brandão e Souza (2006), trata-se de um público exigente, para o qual é
necessário ter ferramentas de comunicação que repassem credibilidade,
respeitabilidade e que sejam tão hábeis quanto os veículos de comunicação para o
público externo. A organização precisa dirigir a comunicação para cada público
de maneira específica, o público interno, apesar de estar dentro dela, ou ligado
oficialmente precisa ser informado de maneira transparente sobre as suas
atitudes.
O indivíduo da organização constitui parte substancial da comunidade e é o
melhor porta-voz das suas políticas e filosofias, a maior riqueza de uma
organização (VIEIRA, 2004). A opinião pública terá maior base no público
interno, quanto mais os funcionários – empregados e terceirizados – e
prestadores de serviço acreditarem na organização e se sentirem satisfeitos com
ela, mais influenciarão a opinião pública positivamente.
2.2.1.1 A importância do relacionamento estratégico com o público interno
O relacionamento estratégico, que eficientemente equilibre os interesses com o
público interno é importante para o funcionamento de qualquer organização. O seu
sucesso depende fundamentalmente da atitude das pessoas que nela trabalham, no
ato e na disposição de se comunicar e se relacionar. Pessoas desacreditadas,
desinformadas e que desconhecem os objetivos organizacionais, agem com má
vontade e não investem no alcance do sucesso da organização (MARCHIORI, 2005).
Young e Post (apud Almeida et. al, 2006) afirmam que os empregados de uma
organização são um de seus stakeholders – ou grupos de interesse – primários
mais importantes e, como tais, precisam de informações para que possam
contribuir para que a organização alcance seus objetivos. Em outras palavras,
funcionários bem informados e satisfeitos no relacionamento com a empresa
contribuem melhor com a organização.
O relacionamento eficiente com os funcionários resulta em base positiva de
opinião pública, maior colaboração com a empresa para alcance dos objetivos e
vantagem competitiva. Segundo Bekin (1995), a chave para o sucesso japonês é a
ênfase no fator humano, no comprometimento dos funcionários, dos mais diversos
níveis, com os objetivos da empresa. Para ele, qualidade técnica não basta, tem
que ter qualidade humana do comprometimento, da iniciativa, para alcance da
liderança e vantagem competitiva.
Além de ser o reflexo da organização, os funcionários são parte importante no
sistema de seu funcionamento, sem eles ela não funciona. O público interno,
trabalhando com má vontade pode ser considerado como uma doença na organização.
São como um órgão do corpo humano, se não tiverem trabalhando bem, aos outros
órgãos são demandados mais esforços, que acaba deteriorando o todo e o corpo
pára de funcionar. O resultado positivo de um trabalho estratégico com este
público pode gerar maior produtividade, clientes mais bem atendidos,
fornecedores mais satisfeitos e, conseqüentemente, consumidores mais
interessados (BEKIN, 1995). É uma seqüência lógica, a equipe gosta da
organização onde trabalha, sabe qual é a sua missão e acredita nela, compartilha
com os valores da organização, tem informações reais da instituição, logo é o
grupo que pode representá-la da maneira mais justa.
3 RELAÇÕES PÚBLICAS E CULTURA ORGANIZACIONAL
3.1 Cultura Organizacional: conceitos e características
As organizações são movidas pelas atitudes das pessoas, pois são elas que fazem
as tarefas se concretizarem. Portanto, os seus objetivos, os meios para
atingi-los e o sucesso dependem delas. Cada organização acaba valorizando mais
umas atitudes do que outras, fazendo com que essas se tornem as mais corretas. A
cultura organizacional é composta pelas ações consideradas corretas,
compartilhadas pela maioria dos seus integrantes. (ROBBINS, 2002).
Segundo Melo , “atitude é uma predisposição aprendida para se comportar de um
modo coerentemente favorável ou desfavorável em relação a um dado objeto, por
exemplo, um produto, uma empresa.” De acordo com o autor, atitude relaciona-se
com o comportamento, é como as pessoas respondem às ações e necessidades da
organização.
“Toda organização tem um conjunto de comportamentos, saberes e saber-fazer
característicos de um grupo humano – entendidos por alguns autores, como cultura
organizacional.” (MARCHIORI, 1999) É através do entendimento sobre o que é
cultura organizacional que se compreende como as pessoas optam por uma maneira
ou outra de agir. O que influencia a escolha de atitude é um ponto importante na
análise do comportamento dos indivíduos e dos meios para uma organização atingir
seus objetivos.
Cultura organizacional é o conjunto de pressupostos básicos que um grupo
inventou, descobriu ou desenvolveu ao aprender como lidar com os problemas de
adaptação externa ou integração interna e que funcionaram bem o suficiente para
serem considerados válidos e ensinados a novos membros como a forma correta de
perceber, pensar e sentir, em relação a esses problemas. (SCHEIN, APUD MONTEIRO,
1999)
Mesmo que as pessoas escolham como agir, a cultura organizacional funciona com
um volante, não existe neutralidade nas posturas adotadas.
Para Alves (1997) os símbolos, os rituais, as crenças e os valores
compartilhados de uma organização representam a sua cultura e fundamentam um
conjunto de conhecimentos e práticas organizacionais. Esta orientação do seu
comportamento através da cultura auxilia a empresa a agir mais harmonicamente
para a realização dos seus fins.
“Ela comporta um conjunto de padrões que permitem a adaptação dos agentes
sociais à natureza e à sociedade a qual pertencem, e faculta o controle sobre o
meio ambiente” (SROUR, 1998, p.175). Assim, a cultura organizacional é uma
maneira de padronizar o comportamento dos membros da organização dando
identidade a ela.
A cultura organizacional dá sentido às atitudes de cada pessoa. É a partir do
que é valorizado pela organização que as pessoas vêem sentido no que fazem e
sentem-se importantes para o alcance do objetivo a que se propõem. (SCHERMERHORN,
1999).
Para Robbins (2002), algumas características comuns formam a cultura
organizacional e estimulam os comportamentos, como uma valorização a inovação ou
a assunção de riscos, a atenção aos detalhes, o foco maior nos resultados, a
preocupação com o efeito dos resultados nas pessoas de dentro da organização, a
valorização maior da equipe, a competitividade e agressividade ou o interesse na
estabilidade. Os seus membros se incorporam na característica da sua
organização.
Ziemer (1996) afirma que a cultura organizacional reflete as escolhas e
preferências da liderança e é compartilhada pelos demais membros, assim ela é o
volante das escolhas feitas e, enfim, ela dita o sucesso ou fracasso de uma
organização.
As organizações têm o seu perfil, têm as suas características próprias.
Conhecer-se dará condições de planejar, de saber qual a melhor forma de agir, de
acordo com o seu objetivo. Além de saber se o que mais valoriza está condizente
com suas metas.
3.1.1 A formação e difusão de uma cultura organizacional
É importante entender como uma cultura organizacional é formada para então
compreender como e se ela poderá ser modificada ou até criada.
O que dá certo para as pessoas da organização serve como modelo para os novos
membros, passa a ter valor e passa a ser a maneira certa de pensar e agir (SCHERMERHORN,
1999).
Quem define como a organização deve ser e em quê ela deve basear-se são os seus
fundadores, que orientam e direcionam as atitudes daqueles que fazem a
contratação das pessoas para fazer parte da organização, que doutrinam e
socializam os funcionários em sua forma de pensar e sentir que servem como
modelo inserindo seus valores, convicções e premissas (ROBBINS, 2002).
Essencialmente os dois autores afirmam que a cultura surge dos fundadores, que
servem como modelo para os outros componentes da organização. Porém, Alves
(1997) afirma que o decisor principal e os outros tomadores de decisão acabam
inserindo elementos de sua personalidade e elementos psicossociais diversos que
podem afetar consideravelmente o comportamento e o desempenho organizacional, no
entanto a cultura organizacional reflete as escolhas e preferências
desenvolvidas tanto pela liderança passada como pela atual, ou seja, os heróis
não precisam ser necessariamente (ou somente) os fundadores. A cultura é
resultado das respostas e soluções encontradas para os problemas,
questionamentos e demandas que a empresa enfrenta e que foram testadas,
avaliadas, selecionadas, assimiladas e memorizadas, coletivamente, pelos seus
membros.
A cultura organizacional é formada por experiências diversas, que vai cada vez
mais tomando força através do acúmulo dessas. A sua formação depende dos
acontecimentos que deram certo ou não e serviram de exemplo para todos.
Também é importante entender como uma cultura é transmitida. Segundo Robbins
(2002), a história oferece explicação e legitimidade para as práticas vigentes,
os rituais expressam e reforçam os valores e importâncias, os símbolos materiais
sinalizam os comportamentos mais valorizados e a linguagem forma os jargões
próprios da organização.
Marchiori (1999) afirma que a cultura organizacional é transmitida através de um
processo de aprendizagem, comunicação e relacionamento.
A cultura da empresa é difundida e propaga-se pela utilização dos sistemas de
comunicação (formais e informais), através dos heróis, mitos, estórias, rituais,
metáforas, sagas, mecanismos simbólicos diversos e processos de endoculturação (socilialização
organizacional).(ALVES, 1997, p. 9)
Os heróis são os modelos, mito é um esquema lógico criado para explicar questões
e esclarecer fenômenos, as estórias são narrativas baseadas em eventos reais,
muitas vezes misturados com ficção, que informam e enfatizam comportamentos
desejados, os ritos são atividades de natureza expressiva, desenvolvidas com o
propósito de tornar a cultura mais tangível e a endoculturação é o processo pelo
qual as pessoas aprendem o sistema de crenças e valores e as habilidades
necessárias para desempenhar papéis e facilitar a comunicação com os outros
membros do seu grupo de trabalho (ALVES, 1997).
Portanto, a difusão da cultura organizacional acontece através de elementos da
comunicação.
3.1.2 A influência da cultura organizacional no comportamento dos funcionários
Segundo Alves (1997), a cultura interfere nas percepções de cada pessoa da
organização, pois ela já pressupõe o que é certo e o que é errado. Ela age como
um padrão organizador do pensamento, como um quadro de referências.
Sendo assim, a cultura organizacional faz parte de todas as escolhas dos agentes
do grupo que compõe a organização. Ela dá significado às atitudes de cada um,
ela interfere no sentimento de utilidade do ser humano, portanto na sua
motivação.
Ziemer (1996) diz que os mitos explicam porque as práticas e procedimentos,
utilizados, constituem a “única maneira” de organizar pessoas, recursos e
tecnologias, de forma a atingir os objetivos propostos, ou seja, os mitos servem
para explicar porque as atitudes adotadas são as únicas corretas.
A intensidade da influência da cultura organizacional sobre o comportamento das
pessoas e sua força tem pontos considerados como positivos e como negativos.
Segundo Robbins (2002), quanto mais os valores essenciais são intensamente
compartilhados e acatados, mais forte é uma cultura. Ela pode tanto melhorar o
comprometimento e aumentar a consistência das ações como representar barreiras
às mudanças, à diversidade e às aquisições e fusões. Schermerhorn (1999), além
de considerar também que ela pode se tornar uma barreira a mudanças, afirma que
uma cultura organizacional forte melhora o comprometimento coletivo, gera um
sistema social estável e diminui a necessidade de controles formais e
burocráticos.
A cultura organizacional é o que faz as pessoas decidirem por um caminho ou
outro. É o que oferece segurança para que tomem as decisões.
3.2 As Relações Públicas participando da transformação de cultura
As Relações Públicas podem participar da mudança cultural das organizações, já
que esse trabalho exige uma eficiente comunicação estratégica, bem planejada e
centrada no interesse das organizações e dos seus públicos.
3.2.1 Cultura e Comunicação
“Se a cultura pode ser entendida como construção de significados, o círculo
entre comunicação e cultura se fecha.” (MARCHIORI, 2006)
A comunicação é o meio para que os significados sejam criados e compartilhados,
pois é o momento em que as pessoas trocam significados e formam novos. Para que
as pessoas entendam um acontecimento e decidam qual a postura adotar elas
consultam umas as outras, ou simplesmente observam a postura das outras ou se
baseiam na história da organização. Por outro lado, a cultura organizacional
influencia o processo de comunicação.
Um dos primeiros e mais significativos padrões culturais apresentados ao ser
humano é a linguagem. Esse arcabouço do pensamento fundamenta o processo de
comunicação e é a chave para a criação e sobrevivência de uma cultura. É pela
comunicação que as pessoas conseguem uma compreensão comum das coisas. (ALVES,
1997, p.109)
3.2.2 A transformação de uma cultura organizacional
Ao afirmar que cultura é uma construção de significados, através das
experiências vividas e da comunicação, entende-se que ela é dinâmica, ainda mais
no mundo de mutações constantes em que se vive. De acordo com Marchiori (2006,
p.97) “uma cultura nunca é completamente estática, ou seja, é sempre um
aprendizado gerado pela análise dos problemas internos e externos.” Se os
problemas internos e externos ocorrem sempre, novas experiências são sempre
vividas e são exigidas novas concepções.
Alves (1997) considera que a única coisa permanente em uma cultura
organizacional é justamente a mudança, pois ela faz parte de um processo de
aprendizagem. Por outro lado, o autor salienta que uma organização não pode
suportar passar por mudanças radicais, se a cultura existente atuar como uma
“poderosa força inercial”.
A intensidade de uma cultura pode ser positiva, ao passo que direciona ao
objetivo da organização, ou negativa se significar a necessidade de um esforço
maior para o crescimento. Todavia, Alves (1997) não diz que ela não pode ser
mudada, só que ela não deve ocorrer de maneira brusca.
A comunicação é tida para muitos autores como o meio mais eficaz de se criar,
transformar e reforçar uma cultura. Mas, primeiro é preciso entender quais os
motivos podem levar à necessidade de transformação.
Freitas (1999, p.97) entende que é através da cultura organizacional que “se
define e transmite o que é importante, qual a maneira apropriada de pensar e
agir em relação aos ambientes interno e externo, o que são condutas e
comportamentos aceitáveis, o que é realização pessoal etc.”
Corrado (1994) defende que os valores organizacionais mostram a característica
do comportamento desejado. Para ambos, a cultura organizacional tem o poder de
direcionar o comportamento das pessoas. E se a organização depende do
comportamento adequado para atingi-lo, a cultura deve ser trabalhada.
A cultura organizacional está diretamente ligada ao alcance dos objetivos da
organização. É como uma condição determinante do seu sucesso.
Segundo Alves (1997), a tentativa de revigorar uma cultura objetiva reduzir ou
eliminar a incoerência entre o que a empresa é e o que ela deseja ser. Assim,
revigorar, transformar, reforçar e até criar uma cultura podem ser vistas como
estratégias para que a organização alcance a posição almejada.
Portanto, “sem um adequado processo de comunicação, não poderá ocorrer uma
ligação entre os propósitos organizacionais e o comprometimento dos seus
membros”. (ALVES, 1997, p. 109) É aí que as Relações Públicas se tornam uma
atividade estratégica, na utilização da comunicação para o alinhamento de
objetivos.
3.2.3 As Relações Públicas estratégicas
As Relações Públicas estratégicas, para Marchiori (2006), efetivamente atuam
quando utiliza a comunicação para construir a história de uma organização. Para
a autora, a postura de que Relações Públicas produz peças para contar o que
aconteceu, precisa mudar para a postura de quem é responsável por construir
acontecimentos em uma organização.
Portanto, se a cultura é construída através de experiências vividas pelas
pessoas, as Relações Públicas podem influenciar a transformação da cultura
organizacional, quando se parte do pressuposto que ela deve estrategicamente
construir as experiências que as pessoas da organização irão passar.
De acordo com Marchiori (2006), é função fundamental do profissional de Relações
Públicas gerenciar os diferentes relacionamentos da organização. Relacionamentos
são fontes de significado, logo os relacionamentos impactam no desenvolvimento
da cultura organizacional e vice-versa, a cultura organizacional afeta os
relacionamentos. Assim, o gerenciamento dos relacionamentos não será eficaz se
não conhecer, monitorar e até transformar a cultura de uma organização.
É preciso retomar que as pessoas é que fazem uma organização acontecer, logo é
preciso conhecer em que acreditam, para se conseguir fazer entender. Leichty e
Warner (apud Marchiori, 2006, p.194) dizem que “A credibilidade de uma mensagem
depende de quanto ela está em consonância com a tendência cultual daquele que a
recebe.” Entender em que as pessoas acreditam é fundamental para que a
comunicação seja efetiva.
Assim, gerenciar os relacionamentos deve significar desenvolver, estimular e
gerar atitude para a organização (MARCHIORI, 2006). A atividade de Relações
Públicas, estrategicamente executa, tem o conhecimento e as técnicas para que as
coisas façam sentido para as pessoas da organização e para que elas entendam as
decisões tomadas e até tomem decisões para o alcance do objetivo de todos. O
gerenciamento proposto deve reduzir ao máximo o desnível de entendimento entre a
organização e os stakeholders, proporcionar diálogos no momento em que ambos
estejam abertos para escutar o outro e discutir sobre os rumos da organização.
Fazer com que todos os públicos e inclusive a organização entenda seu objetivo e
este seja aceito, diminuirá a desaceleração do crescimento de ambos.
Também precisa ficar claro que nem sempre são as pessoas que precisam mudar: as
mudanças têm que ser feita na organização como um todo. O mundo está mudando
numa velocidade cada vez maior, o que retira a decisão de mudar ou não; quem
define a necessidade é o mercado e a organização é comandada por ele.
A organização pode até definir o que quer alcançar, mas a chegada ao objetivo
depende da vontade das pessoas, e essas só terão vontade se acreditarem neste
objetivo.
As Relações Públicas entram neste processo para fazer com que (organização e
seus públicos) caminhem numa mesma direção, que não quer dizer que precisa ser
da mesma forma, mas que atinjam o crescimento juntos.
4 MARKETING INTERNO E RELAÇÕES PÚBLICAS
4.1. Marketing interno
O marketing interno, também chamado por alguns autores de endomarketing, é um
termo utilizado para definir a estratégia de vender a imagem da organização para
o público interno, com o fim de “tornar comum, entre os funcionários (...) os
objetivos metas e resultados.” (BRUM, 1994, p.23) Para a autora, o marketing
interno é como fazer com que todos trabalhem para alcançar os mesmos objetivos.
Grönroos (1993) é mais específico ao dizer que marketing interno é despertar nos
funcionários o interesse pelo cliente e por marketing. O autor diz que as
empresas dependem dos funcionários, principalmente os de linha de frente, pois
são eles que fazem os contatos. E estas pessoas têm mais condição de perceber os
desejos e as demandas dos clientes, além de acompanhar diretamente a qualidade
dos serviços prestados. Ele completa o conceito afirmando que a premissa do
marketing interno é: a troca entre a organização e os funcionários deve
funcionar eficazmente, antes que a empresa possa ter êxito; o papel dos
funcionários é vital para a empresa.
Brum (1994, p.21) defende o endomarketing ao afirmar que “o público interno
precisa ser trabalhado para que tenha condições de repassar ao público externo
tudo aquilo que a empresa possui de melhor e que está aprimorando em nível de
processos e de produtos.” Para vender os serviços e produtos e para conseguir
fazer parcerias, a equipe de funcionários deve ser uma das primeiras a acreditar
na organização.
Porém, de acordo com Inkotte (apud Tófani, 2007) , os dois termos tem diferença.
O marketing interno busca mobilizar toda a organização para atender às
necessidades do cliente externo, enquanto o endomarketing é forma opcional de
gestão para empresas que utilizam as estratégias de marketing, tendo o cliente
interno como um segmento de mercado.
“O marketing interno consiste em realizar ações de marketing voltadas para o
público interno, promovendo a informação e a capacitação para que esse público
interno atenda com eficiência e eficácia o público externo”. (SILVEIRA e TÓFANI,
2007)
O marketing interno exige um gerenciamento integrado das atitudes e da
comunicação. Pois, as informações compartilhadas têm efeitos nas atitudes. O
treinamento, por exemplo, junto com o suporte à comunicação interna, é uma
ferramenta predominante no gerenciamento de comunicação do marketing interno,
assim também é parte do gerenciamento de atitudes. (GRÖNROOS, 1993)
Logo, vê-se a interligação entre marketing interno, comunicação e cultura
organizacional. Pois, como afirma Grönroos (1993, p.310)
Esforços de endomarketing fracassam facilmente se não estiverem condizentes com
a cultura prevalecente ou se os objetivos dos esforços de endomarketing entrarem
em choque com a cultura. Por outro lado, um processo de endomarketing de longo
prazo é apenas um ingrediente dentro de um processo que se destine a mudar uma
cultura existente. Uma abordagem estratégica a mudanças internas faz-se
necessária.
Ou seja, as pessoas precisam acreditar na organização, para que se disponham a
ser o seu representante, também se a representarem de uma maneira que vai contra
a cultura organizacional, o trabalho deixará de acarretar resultados positivos.
A comunicação interna é uma ferramenta indispensável na utilização do marketing
interno.
4.2 Comunicação interna
Comunicação interna é assunto sempre debatido nas salas de aula, em palestras,
em revistas do setor e em trabalhos de conclusão de curso. Além disto, tem
sempre algum funcionário da organização tentando fazer diagnóstico e formar
opiniões sobre como solucionar o problema. Isto mostra, como o assunto é
importante e ainda tem muito a se fazer, para que as organizações consigam
satisfazer as necessidades de informação dos seus públicos internos.
Vários são os estudos de caso encontrados sobre o assunto e sempre se tem a
impressão de que aquilo já foi discutido em algum lugar, mas implantar um
trabalho de comunicação interna nas organizações não tem uma receita pronta,
cada caso é um caso, pois cada organização tem sua cultura organizacional.
Há diferença entre comunicação interna e marketing interno. A comunicação
interna envolve todo o processo de informação necessária para o dia-a-dia do
trabalho. O marketing interno é mais estratégico e amplo . A comunicação precisa
atender o funcionamento da organização, nos mais diversos aspectos e não só no
que diz respeito ao fluxo informacional.
Brum (1994), diz que os funcionários precisam estar inteirados do que acontece e
participem de algumas decisões para que se sintam inseridos no processo
produtivo e haja cooperação, a comunicação interna serve para influenciar
positivamente as pessoas.
Para Carvalho (2005, p. 72), a comunicação interna é
Um conjunto de meios, processos, funções, conteúdos e comportamentos que geram
oportunidades para que se estabeleça a convergência entre os valores e objetivos
da empresa e os de seus colaboradores, a comunicação interna é simultaneamente,
decorrente da cultura da organização e elemento que consolida os valores
próprios dessa cultura. Desempenha, portanto papel preponderante na formação do
clima organizacional e na construção da imagem institucional diante do público
interno.
Mais uma vez, chega-se a ligação entre comunicação e cultura organizacional, mas
agora mais especificamente chega-se à comunicação interna. Ou seja, a
comunicação interna ela acontece independente de ser gerenciada ou não, o
problema é que o gerenciamento e planejamento permitirá uma interação maior com
o público que atende os clientes, que traz notícias para organização e que faz a
organização funcionar. A interação com público interno permitirá um avanço na
realização de atividades para o alcance do objetivo de ambos.
Uma boa comunicação com o funcionário o faz perceber que ele é um diferencial
para o negócio . Assim ele entende sua função e torna-se mais participativo e
com mais iniciativa para fazer as coisas acontecerem.
Segundo Silveira e Tófani (2007),
Além do conhecido jornal empresarial, existem outros canais e instrumentos de
comunicação interna. Os mais conhecidos e utilizados são o manual e vídeo de
integração à empresa, revistas, encarte da área de recursos humanos, jornal de
parede, cartazes motivacionais e informativos, painéis motivacionais e
decorativos, painéis celulares, datas festivas, canais diretos entre direção e
funcionários, vídeos, palestras internas, intervenções teatrais, rádio interna,
videojornal, correio eletrônico, intranet, clipping eletrônico, entre outros.
Ou seja, tem-se vários canais e instrumentos de comunicação interna que não só
jornal empresarial muito utilizado e às vezes visto como o único meio de
comunicação interna.
Mas, mais importante que dar informações e criar uma relação de confiança, entre
quem fala e quem ouve, a informação precisa ter relevância para quem recebe e
não só para quem emite . Em outras palavras, comunicação interna não é só
produzir informação, mas, principalmente, interagir com o público interno.
4.3 Marketing interno e Relações Públicas
Ao aderir a uma postura de Relações Públicas com os funcionários, a organização
insere em suas estratégias o marketing interno e as atividades de comunicação
interna. Pois, deverá conhecer seu público interno, saber quais são os objetivos
e trabalhar para alinhá-los com os da organização.
Raigada (apud Marchiori, 2006) divide a comunicação interna em três tipos:
profissionais (ligadas ao negócio da empresa); de convivência (comunicação
informal, tem o sistema da empresa como pano de fundo) e as de identidade
(códigos que dão sentido às pessoas se sentirem parte da empresa). Ou seja,
comunicação interna, ao contrário do que muitos pensam, não está ligada somente
à motivação, mas também ao desenvolvimento do negócio da organização.
A comunicação interna é um meio para que os funcionários e organização se
conheçam, se entendam e trabalhem juntos para atingir o objetivo em comum. Para
isto é preciso primeiro identificar, qual é o objetivo comum e isto vai ser
feito através do trabalho de Relações Públicas, de fazer com que os públicos
dialoguem, um ouça o outro.
Se a atividade de Relações Públicas deve buscar construir os acontecimentos de
uma organização, através da comunicação social, e o marketing interno é a
estratégia para despertar nos funcionários, através da comunicação interna, as
ações espontâneas de marketing e de prestação de um bom serviço, consciente de
que ele é quem o produz, marketing interno e Relações Públicas não têm como se
separar. Daí surge a ligação entre Humanização do Atendimento Hospitalar e
Relações Públicas.
5 A HUMANIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA HOSPITALAR
O movimento da humanização se confunde com o próprio processo de criação do SUS,
nos anos de 1970 e 1980. Antes disso, a luta pela humanização das práticas de
saúde já estava colocada na pauta do movimento feminista na década de 60. Por
outro lado, mesmo estando em discussão há tanto tempo, segundo Benevides e
Passos, entender o seu conceito é um desafio.
O SUS foi aprovado em 1988 para produzir saúde para todo e qualquer cidadão
brasileiro. Ao passo que produzir saúde é: prevenir, cuidar, proteger, tratar,
recuperar e promover, ou seja, é muito mais do que dar acesso ao tratamento
médico a todos quando precisarem.
De acordo com Deslandes (2004) a humanização é um “modelo de produção de
cuidados centrado em comunicação que articula a troca de informações e saberes,
diálogo, escuta de expectativas/demandas e a partilha de decisões entre
profissionais, gestores e usuários”. Para praticar a humanização é necessário
utilizar as tecnologias relacionais como escuta, acolhimento, diálogo e
negociação na produção e gestão do cuidado.
Para Benevides e Passos , por humanização entende-se “a valorização dos
diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde: usuários,
trabalhadores e gestores”.
Segundo Campos (2005) , por relações desumanas entendem-se as relações em que há
um grande desequilíbrio de poder e o lado poderoso se aproveita desta vantagem
para desconsiderar interesses e desejos do outro, e o lado dominado se deixa ser
manipulado em função dos interesses e desejos do dominante, ou seja, a
humanização na saúde acontece quando os usuários, trabalhadores e gestores se
interagem para produzir saúde democraticamente.
Conforme estudos do PNHAH – Programa Nacional de Humanização da Assistência
Hospitalar , há um terreno fértil nas instituições de saúde para que se
desenvolva uma nova cultura de atendimento humanizado. Além disto, viu-se que os
bons resultados hospitalares dependem em grande medida da capacidade de o
hospital oferecer um atendimento humanizado à população. Pois a humanização da
assistência à saúde envolve sempre os usuários, os trabalhadores e os gestores .
Em outras palavras, com estes três segmentos envolvidos no planejamento, para
sua evolução, participando ativamente das decisões, se sentindo valorizados e
empenhados, o hospital consegue fazer a diferença na produção de saúde.
O que o programa propõe é uma gestão dos hospitais, de maneira que o ser humano
seja visto como ator principal, de forma que as pessoas sejam respeitadas nas
necessidades de se expressarem, de estarem informadas e participarem da tomada
de decisão.
Para o devido envolvimento dos usuários é necessário, prioritariamente, preparar
os profissionais do hospital. O PNHAH também defende que a evolução do
conhecimento técnico-científico não tem sido acompanhada por um correspondente
avanço na qualidade do contato humano, presente em toda intervenção de
atendimento à saúde; a qualidade em saúde é composta de competência técnica mais
competência para interagir; e o profissional que se sente respeitado pela
instituição à qual pertence está mais apto a atender com eficiência.
É fundamental a sensibilização dos dirigentes dos hospitais para a questão da
humanização e para o desenvolvimento de um modelo de gestão que reflita a lógica
do ideário deste processo: cultura organizacional pautada pelo respeito, pela
solidariedade, pelo desenvolvimento da autonomia e da cidadania, dos agentes
envolvidos e dos usuários .
Primeiramente, é preciso preparar os profissionais para que possam interagir de
fato com os usuários, para depois promover a participação destes. Antes de tudo
é preciso estar inserido em uma cultura organizacional de assistência à saúde
humanizada nos hospitais.
5.1 A influência da cultura organizacional e do marketing interno no processo de
atendimento hospitalar humanizado
A análise das propostas do PNHAH traz à tona algumas reflexões: para um
profissional atender com respeito um usuário, é necessário que ele se sinta
valorizado pela instituição para a qual trabalha? Para que o atendimento
humanizado seja implantado, é necessário o interesse da alta direção hospitalar?
Ou isto depende só dos profissionais? Mesmo que os trabalhadores estejam cientes
que estão no hospital para produzir saúde, se não tiverem estrutura física e
liderança, é possível atender de forma humanizada? Sabe-se que a gestão de um
hospital que tenha convênio com o SUS deve seguir algumas burocracias, estas
normas prejudicam o atendimento humanizado? Como enfrentar todos os obstáculos
para implantar um atendimento hospitalar humanizado?
Através do marketing interno, a organização pode despertar nos funcionários o
interesse por um atendimento hospitalar humanizado. A organização estabelece uma
troca de informações estratégicas, de forma que os funcionários desenvolvam uma
visão focada no atendimento e façam observações que servem de base para a
prática humanizada, principalmente os que têm contato direto com o cliente. São
eles que têm condições de perceber os desejos e as demandas dos clientes, além
de acompanhar diretamente a qualidade dos serviços prestados (GRÔNROOS, 1993).
Assim, os funcionários têm as suas percepções ouvidas e se sentem motivados a
manter esta postura e o hospital transforma estas informações em ações para a
melhoria do atendimento.
O marketing interno consiste em mobilizar toda a organização para atender as
necessidades do cliente externo . Enfim, o marketing interno é uma ferramenta
para que a humanização do atendimento hospitalar seja inserido no dia-a-dia da
organização e seja uma diretriz da atitude das pessoas.
Como, para implantação do marketing interno, é necessário que a cultura esteja
condizente com o que é almejado, o atendimento hospitalar humanizado é
dependente de uma cultura organizacional que contenha valores, que permitam a
valorização do ser humano.
E para que se valorize o outro, é preciso que o profissional se perceba como
agente que promove a interatividade com o usuário, de forma que o objetivo de
ambos seja alcançado, ou seja, a excelência na prestação de serviços ligados à
saúde. É essencial que o profissional tenha o direito e seja efetivamente ouvido
e que, portanto, tenha interação com a administração do hospital, de modo a se
dar condições de atender o usuário com qualidade. “A humanização da assistência
à saúde envolve necessariamente o trabalho conjunto de diferentes profissionais
em todos os níveis de atendimento (dos profissionais de primeiro contato à alta
direção do hospital)” .
Seguindo o raciocínio de marketing interno, com base em Gronroos (1993), os
valores são diretrizes para o comportamento dos trabalhadores em suas tarefas
diárias. E um atendimento hospitalar humanizado não se desenvolverá, se isto não
fizer parte da cultura organizacional, mas, por outro lado, inserir ações que
valorizem o atendimento hospitalar humanizado, utilizando a comunicação como
meio de valorizar a atitude e mostrar os resultados positivos contribuirá para a
mudança de cultura.
Brum (1994. p.19) diz que paralelamente ao desenvolvimento tecnológico “surge
também uma mudança radical no modo de pensar e de agir das pessoas. O homem
ocupa lugar de destaque como elemento principal de todo e qualquer processo de
modernização empresarial.” Para a autora, os funcionários de uma organização
precisam se sentir parte do processo, para que se empenhem e cooperem e isso é
possível através do marketing interno.
Pensar em humanização da saúde também exige a inclusão de profissionais
considerados administrativos, como recepcionistas e porteiros, por exemplo. São
pessoas que na maioria das vezes não têm formação para saber lidar com enfermos
e acompanhantes, por isto mesmo, precisam de uma cultura organizacional que
valorize o atendimento humanizado, quando eles precisam saber exercer o trabalho
burocrático, porém não deixar que isto enrijeça o relacionamento com o usuário.
Ainda mais que, na maioria das vezes, são os primeiros a estabelecer o contato
dentro dos hospitais.
Enfim, a cultura organizacional é a base para o desenvolvimento de uma
assistência que valorize todos os envolvidos na produção de saúde, pois é o que
contaminará positivamente a atitude das pessoas envolvidas, não deixando que os
obstáculos – como a falta de tecnologia, por exemplo – impeçam uma participação
que efetivamente mude a realidade da saúde pública no Brasil, hoje.
6 ESTUDO DE CASO
6.1 A Santa Casa de Caeté
Em 1903, idealizada pelos padres Delfino da Fonseca Lemos e Jacintho José de
Almeida, foi criada pelo Monsenhor Domingos Pinheiro de Carvalho, Dr. João
Pinheiro da Silva e José Nunes de Mello a Sociedade Civil de Beneficência
Caeteense, ganhando personalidade jurídica em 1905. Em 05 de agosto desse ano,
na região metropolitana de Belo Horizonte – Minas Gerais, essa instituição
fundou a Santa Casa de Caeté.
Depois de tantos obstáculos e ameaças de fechamento, o hospital mantém-se até
hoje lutando para conseguir cumprir o objetivo de prestar assistência médica às
pessoas sem qualquer distinção, em regime de internação ou em ambulatório.
Até 1911, não existem registros de seu funcionamento, mas foi neste ano que foi
celebrado um contrato de parceria com a Congregação das Irmãs auxiliares da
Piedade para que administrassem o hospital.
Em 1915, foi feita uma reunião em assembléia com o objetivo de tomar medidas
para não fechar o hospital, por falta de dinheiro e de manutenção. E em 1926,
foi registrada uma outra reunião para reorganização do hospital que estava
abandonado. Em 1933, foi eleita uma nova diretoria que em 1934 renunciou
coletivamente.
Em 1935, o estatuto é revisto, a assembléia é constituída e os sócios fazem as
doações. Ano em que as instalações do prédio são melhoradas através de reformas;
é conseguido o aparelho de Raio X e criada a sala de operações.
Entre 1953 e 1963, o hospital atendia somente urgências e pessoas carentes, sem
registrar os atendimentos, pois segundo consta, os recursos eram tão poucos que
eram mantidos profissionais só para o atendimento ao paciente.
Em 1964, Dr. Paulo Diogo Monteiro de Barros é eleito por unanimidade o novo
provedor. Período, em que fez de tudo, cedendo de fato seu nome, para reabrir a
Santa Casa, mobilizando a comunidade e o poder público, para colocar o hospital
em pleno funcionamento, como uma legítima instituição hospitalar. Na época, foi
feita uma campanha com os funcionários da Cerâmica João Pinheiro e da Companhia
Ferro Brasileiro, arrecadando dinheiro, equipamentos e enxoval.
Com o passar do tempo a Santa Casa foi crescendo e firmando convênios (Funrural
e INPS) que acabou trazendo para a cidade bons médicos de Belo Horizonte. Com
isso, a demanda aumentou, criando a necessidade de uma reforma estrutural.
Em 1975 foi aprovada a doação de um terreno para a construção de um novo prédio,
situado na Rua Barão do Rio Branco, para a transferência da Santa Casa. Com o
apoio dos prefeitos, do povo e do governo do Estado inaugura-se em 1979 a nova
sede, que se mantém até hoje.
No ano de transferência, a Santa Casa contratou por seis meses uma consultoria
de Organização & Métodos para modernizar a administração e se adequar à nova
estrutura, afinal de contas havia dobrado o número de funcionários. Dentre todos
os produtos, foi definido o organograma e as funções de cada cargo, criado o
regulamento interno da instituição, itens importantes que ajudaram o hospital a
se adequar.
Em 1983, o Dr. Anderson Martins Franco e o Dr. Virgílio Nunes Coelho coordenaram
a ampliação da pediatria da Santa Casa, para atender a demanda e atender os
pacientes com maior eficácia.
O convênio com SUS – Sistema Único de Saúde, deu condições, até hoje, do
hospital conseguir cumprir o seu objetivo inicial. Oitenta por cento dos
pacientes atendidos na Santa Casa de Caeté não pagam atendimento particular ou
não têm um plano de saúde, ou seja, é o dinheiro público que paga estes
atendimentos. Portanto, o SUS é um grande parceiro da instituição para que
consiga prestar atendimento à comunidade caeteense. Segundo o atual Gerente
Geral, Márcio Melo Franco, é o que deu condições para o hospital reduzir sua
dependência de doações, como no passado.
Além disto, é mantido um contrato de prestação de serviço com o governo
municipal para a prestação dos atendimentos de urgência/emergência. Este
contrato com a Santa Casa é um grande diferencial para o município, pois é
utilizada uma estrutura adequada, que já existe, para o atendimento das pessoas
que precisam contar com o SUS. Em outras palavras, a capacidade da Santa Casa
está sendo utilizada e valorizada; o poder público pode contar com uma estrutura
adequada; e a Santa Casa cumpre o seu objetivo.
O SUS paga os procedimentos realizados no dia-a-dia, mas a remuneração não cobre
todos os gastos. Para reduzir o déficit, a instituição conta com a ajuda do
Serviço Funerário e do Laboratório de Análises Clínicas, além de firmar
convênios com empresas de plano de saúde e atender pacientes que desejam pagar
atendimento particular.
Antes do SUS, só as pessoas que tinham carteira assinada ou faziam parte do
Funrural tinham o direito de ser atendidas no hospital. Para o responsável pela
Pediatria, Dr. Anderson Martins Franco , o SUS é o melhor sistema único de saúde
no mundo, pois é ele que cuida dos procedimentos de alto-custo, como a urgência
e emergência e transplantes, o que a maioria dos planos de saúde não faz e
universaliza verdadeiramente o atendimento. Porém, a operacionalização do SUS é
falha, pois, por exemplo, o investimento na rede primária de saúde ainda não é
suficiente.
Em 1991, a instituição marca sua entrada na era da informática, adquirindo seu
primeiro computador. No ano de 2007, a maioria dos setores tem um computador e o
hospital passa por uma fase de implantação de um sistema integrado de
informações, o que subsidiará a gerência em suas decisões e elimina retrabalhos.
Mas, até o ano de 2005, alguns setores, como, por exemplo, a tesouraria, ainda
utilizava máquinas de escrever.
O hospital também conta com as voluntárias da AVOSCAC – Associação das
Voluntárias da Santa Casa de Caeté, desde o ano de 1998, fundada pela D. Dulce
Maria de Melo Guimarães. A associação tem uma atuação bem aceita pela comunidade
e consegue grande captação de recursos para o hospital, além de promover ações
que ajudam outras instituições na produção de saúde, também.
Em 2003, os funcionários participam do Programa de Melhoria Contínua – PIMEC,
período em que foram elaboradas e implantadas algumas ações de melhoria.
Desde junho de 2005 os funcionários e os médicos estão envolvidos em um projeto
de gestão para resultados. O hospital está em mais um momento de busca de
equilíbrio financeiro e, conseqüentemente, passando por mudanças, mas agora
conta com a parceria da Fundação de Desenvolvimento Gerencial – FDG, para
implantação do sistema de gestão.
Em 2006, o hospital foi inserido no Programa de Fortalecimento da Rede
Hospitalar de Minas Gerais – Pro-Hosp, que tem como objetivo a melhoria de
gestão dos hospitais públicos. O programa oferece recursos financeiros, porém
pactua alguns compromissos com o hospital como, por exemplo, a implantação da
humanização do atendimento hospitalar.
O Ministério da Saúde criou o contrato com a rede de hospitais filantrópicos e
estabeleceu algumas mudanças em suas regras. Para manter o convênio, são
pactuados também compromissos. Desde 2006 a Santa Casa está envolvida com o
Ministério da Saúde para estabelecer a Contratualização com o SUS e melhorar sua
gestão.
6.1.1 Caracterização
A Santa Casa de Caeté tem uma forte cultura trazida da sua história, além do que
está sendo incorporado devido às circunstâncias, ou seja, não existe uma cultura
organizacional única, no entanto mais de uma sub-cultura.
O hospital passa, há dois anos, por uma tentativa de modernização da sua cultura
gerencial, que tem levado alguns grupos a agirem de forma diferente de antes,
mas existem alguns valores históricos que são fortes e que ainda não conseguiram
ser modernizados.
Segundo Robbins (2002), existem características chave que as organizações
valorizam como: inovação e assunção de riscos, atenção aos detalhes, orientação
para os resultados, orientação para as pessoas, orientação para a equipe,
agressividade e estabilidade.
Devido a algumas observações, percebe-se que dentro da Santa Casa, em alguns
grupos, é valorizada a estabilidade. Algumas pessoas preferem manter as coisas
como estão, por medo de assumir riscos, a se permitir uma nova maneira de
desenvolver o trabalho. Nos últimos meses percebe-se que este sentimento tem
enfraquecido, cada vez mais, todavia ainda existe um certo receio às mudanças
por parte de alguns grupos, demonstrando um sentimento derrotista, em que o
“isso não dará certo” está na ponta da língua de algumas pessoas.
Por outro lado, existe um grupo que valoriza a inovação. Entretanto, o resultado
imediato é altamente valorizado, o que deixa a desejar, às vezes, no
planejamento. Por serem tomadas ações imediatas e estas serem valorizadas,
muitas delas, não visam o alcance do objetivo do hospital como um todo, mas sim
de parte da organização. Mas, a partir do momento que não existe uma missão da
instituição definida, não há um objetivo geral claro a se alcançar.
Alguns grupos seguem a linha de orientação para as pessoas, ou seja, se
preocupam com o efeito que certas atitudes acarretam no pessoal interno, o que é
positivo até o momento em que não impede a tentativa de melhoria.
Não são agressivos em suas negociações e captação de clientes. Não têm o costume
de negociar com planos de saúde, por exemplo, os contratos estabelecidos. O que
está sendo incorporado na instituição aos poucos através das novas lideranças, é
uma visão de que são uma empresa que precisa de buscar novas alternativas para
se sustentar.
Enfim, não existe uma cultura organizacional única que direcione a atitude das
pessoas, mas existem sub-culturas que são fortes e outras que são mais
influenciáveis. O que é mais marcante na cultura organizacional da Santa Casa de
Caeté são as segmentações existentes, devido à forte mudança pela qual o
hospital vem passando.
6.1.2 As deficiências do processo de humanização do atendimento hospitalar na
Santa Casa de Caeté
Primeiramente é muito importante destacar alguns comportamentos que caracterizam
o atendimento hospitalar humanizado dentro da instituição: o corpo gerencial
está preocupado com a prestação de serviço hospitalar humanizado (liderança); a
supervisão de enfermagem prioriza o atendimento hospitalar humanizado
(liderança); a equipe da recepção / portaria do hospital, em auto-avaliação,
reconhece que precisam de ajuda para melhorar o atendimento ao cliente
(envolvimento); a equipe de enfermagem valoriza, além do cuidado técnico, o
carinho com a aparência do paciente internado; os médicos estão mais próximos da
administração do hospital; em algumas decisões. Também já estão sendo envolvidos
os funcionários e o corpo clínico, buscando a gestão participativa.
Além das ações citadas, foi criado o Grupo de Trabalho de Humanização – GTH – da
Santa Casa de Caeté. O grupo foi criado devido ao compromisso com o Pro-Hosp, no
entanto os participantes não se envolveram somente para constar, mas realmente
estão entusiasmados com a criação e com a visão da possibilidade de compartilhar
as idéias que têm durante a rotina e colocar as que forem pertinentes em
prática.
Contudo, devido a alguns pontos de sua cultura organizacional, a Santa Casa
precisa trabalhar a atitude do corpo de funcionários e de médicos, para que
todos busquem o atendimento das pessoas que cheguam ao hospital de maneira
humanizada e para que menos pessoas cheguam ao hospital, ou seja, que contribua
para a produção de saúde.
Por exemplo, as ações que servem de modelo para o atendimento hospitalar
humanizado não são divulgadas interna e externamente para que essas sejam
reforçadas; os funcionários não entendem claramente qual é o papel do hospital
na rede de saúde, isso contribui para que a orientação ao paciente não seja
completa; a comunicação visual do hospital não é clara, fazendo com que os
usuários se sintam perdidos; falta um meio de comunicação oficial e efetivo
entre os usuários e administração do hospital e entre os trabalhadores e
administração, de forma que, sejam ouvidos e recebam feed-back, fazendo com que
informações importantes para a melhoria do atendimento sejam perdidas. Existem
reclamações de que alguns médicos da urgência não avisam ao paciente que
procedimento será tomado e a equipe da enfermagem também não avisa o que está
sendo feito, deixando que o paciente e o acompanhante se sintam inseguros; mesmo
que parte da equipe diurna esteja envolvida no processo de decisão, a equipe
noturna é muito pouca informada e por isso participa menos, descaracterizando a
gestão compartilhada; falta a auto-avaliação dos funcionários e acompanhamento
de indicadores de qualidade; faltam ações de promoção de saúde, como prevenção
de doenças.
Estes foram apenas alguns exemplos, mas o mais importante é ter uma cultura
organizacional, que direcione a atitude das pessoas para este atendimento
humanizado, com tanta “naturalidade” que os funcionários sintam isto como um
resultado fundamental do seu trabalho.Para tanto, a Santa Casa ainda não tem uma
cultura organizacional que faça este valor se incorporar a todas as atitudes.
6.2 A implantação de uma cultura de atendimento hospitalar humanizado
A cultura organizacional é fruto das atitudes consideradas corretas, bem como é
conseqüência do que é valorizado pelas pessoas da organização, como sendo a
melhor maneira de atuar. As pessoas de uma organização se convencem do que é
correto através das experiências compartilhadas entre os membros pela
comunicação. É por meio da partilha de experiências que são formados os heróis,
os mitos, as estórias, os rituais e as metáforas que reforçam a importância dos
costumes corretos.
A organização tem o papel fundamental no atendimento hospitalar humanizado, a
partir do momento que a sua cultura funciona como um guia para atitudes
humanizadoras.
A sua criação e difusão se dá através da valorização dessas atitudes. Ao passo
que são levantadas as ações de humanização e essas são propagadas aos
funcionários, de maneira que eles vejam as vantagens desta postura.
Nesse sentido, além dos levantamentos das ações existentes, podem ser
implantadas novas formas de atender e melhorias na estrutura, sempre com o
envolvimento de todos os funcionários. Assim, eles se sentem realmente parte do
processo e a organização valoriza a sua participação. Por esse motivo, os
trabalhadores precisam se sentir responsáveis pelo atendimento, para que tomem
as iniciativas de melhoria.
Diante disso, os trabalhadores e gestores precisam saber qual a percepção que o
cliente tem do serviço que prestam, entender qual o seu papel na produção de
saúde e assim têm a oportunidade de atuar para atender realmente o cliente.
Desse modo, a humanização não fica só no desejo de uma cultura organizacional
que carrega esses valores, mas de fato, efetiva o atendimento humanizado. E
quando consegue efetivar, a endoculturação acontece de forma apropriada.
Cabe ressaltar que, a comunicação com os funcionários e médicos, através de
discussões e divulgação das ações, é fundamental, para a formação em cada um, do
que é o conceito de humanização. A comunicação não deve acontecer de forma
linear, mas sim de forma que haja interação, para a formação de atitudes e
comportamentos que, realmente concorram para o atendimento humanizado.
Pois, segundo Schall (apud Freitas, 2004, p.44), “a organização é um fenômeno de
comunicação e sua cultura se estabelece, se modifica e se cristaliza por meio da
comunicação”.
Desse modo, a cultura organizacional que direciona o comportamento dos
funcionários para o atendimento hospitalar humanizado será implantada através de
ações efetivas e do relacionamento estratégico, por meio da comunicação, com o
público interno.
7 CONCLUSÃO
A partir do estudo feito, percebe-se que uma cultura organizacional que não
valoriza um serviço de assistência à saúde humanizado, impede até mesmo que se
desenvolvam relações sinérgicas internas. É como se houvesse mais de uma
corrente dentro da empresa e mesmo que o funcionário ou o médico tente seguir
para um lado, as suas atitudes diárias, forçadas pelo processo de trabalho, o
levará para um outro tipo de comportamento.
Porém, a cultura organizacional pode ser implantada, mantida e sempre aprimorada
através de uma gestão efetiva e com o apoio dos processos de comunicação. A
comunicação estratégica é que conduzirá a gestos humanizadores.
As Relações Públicas são a atividade que planeja a execução de uma comunicação
customizada para cada público, ao passo que o resultado destes relacionamentos
deverá ser a adesão dos públicos ao objetivo da organização, que deve carregar
um objetivo de todos.
A melhor forma de implantar uma cultura organizacional de atendimento hospitalar
humanizado é através da comunicação interna e do marketing interno que são os
complementos das Relações Públicas, que é a atividade capaz de criar
relacionamentos que fixem comportamentos valorizados pela organização, caminho
legítimo para se atingir este objetivo. Sem este trabalho fica difícil pensar em
implantação de cultura de atendimento hospitalar humanizado.
REFERÊNCIAS
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