O Segredo da Fofoca
Por Jerônimo Mendes
16/03/2009
A fofoca é tão antiga quanto a mais antiga das profissões. Ela sobreviveu aos
antigos babilônicos, ao Império Romano, à Inquisição e ao comunismo. Ao longo do
tempo, atravessou o Atlântico, dobrou o Cabo da Boa Esperança, chegou à lua e
continua provocando discórdias nos mais diferentes níveis de agrupamento da
sociedade moderna. Salvo engano, não há perspectivas de que possa desaparecer da
face da Terra nos próximos dez mil anos.
Na vida pessoal, a base da fofoca é a inveja e a falta de objetivos. Ao
estabelecer um plano de crescimento pessoal consistente, baseado em valores e
princípios sólidos, sobra pouco tempo para se preocupar com os problemas alheios
e outras coisas que não agregam valor algum ao espírito. Quando isso não ocorre,
resta apenas o dom da crítica em vez do reconhecimento das virtudes alheias.
Na vida profissional, a base da fofoca é a inveja e a insegurança. Assim como na
vida pessoal, a falta de objetivos profissionais consistentes, alinhados com
valores e princípios universais, faz da fofoca a principal preocupação das
pessoas no mundo corporativo. Quando não há objetivos, não há horizonte a ser
alcançado, portanto, a insegurança toma conta do ser humano e fragiliza o
espírito.
De acordo com o Professor José Antonio Rosa, a fofoca é um dos sete pecados
capitais do ser humano. E para que a fofoca ganhe força e consistência, ela
precisa apenas de um ouvido ou de um ombro supostamente amigo. Na prática, de um
interlocutor que se predisponha a ouvir lamúrias e pensamentos maldosos a
qualquer hora do dia, sem a mínima predisposição para contestá-los.
Em todos os lugares existem pessoas especialistas em semear a discórdia mediante
comentários aparentemente simples, porém, na essência, carregados de más
intenções. São aquelas que não perdem a oportunidade de abordar o chefe no
banheiro ou de carregar um amigo para o cafezinho a fim de destilar um pouco de
veneno enquanto os demais colegas se desdobram para manter o trabalho em dia e
atingir as metas da organização.
De maneira geral, as organizações não quebram por falta de estratégia, de
qualidade ou de clientes. Aparentemente, isto é fácil de resolver. Elas quebram
porque as pessoas que deveriam estar pensando na solução de problemas
concentram-se na disseminação de problemas através das fofocas, o que, por sua
vez, provoca o enfraquecimento da sinergia entre as equipes e a perda de foco
nas coisas que realmente interessam à empresa.
Lamentavelmente, não podemos acabar com elas, assim, num estalar de dedos, mas
podemos contribuir para inibi-las, pelo menos na nossa presença, quando
identificadas rapidamente. As fofocas ganham espaço somente quando encontram o
interlocutor correto, pessoas se dispõem a fomentar a discórdia.
De fato, quando não alimentamos esse mal, fica mais difícil alguém se aproximar
para compartilhar o veneno. Aquilo que os outros pensam maldosamente a seu
respeito não me interessa. Aliás, interessa apenas se houver a possibilidade
mínima de reverter o processo e mostrar as virtudes que a fofoca não consegue
identificar. Não existe segredo quando se trata de fofoca. Ela foi criada
justamente para revelar qualquer segredo.
Quando alguém se aproximar para destilar o veneno e tentar conduzi-lo a juízos
pessoais negativos, seja prudente e lembre-se das palavras geniais de Mário
Quintana: “não diga nada para o seu amigo, que ele, um outro amigo tem, e o
amigo do seu amigo, possui amigos também. Pense nisso e seja feliz!
Jerônimo Mendes é Administrador, Consultor e Palestrante
Autor de Oh, Mundo Cãoporativo! (Qualitymark) e Benditas Muletas (Vozes)
Mestre em Organizações e Desenvolvimento Local pela UNIFAE