O Segredo para cobrar certo
Por Marcelo Miyashita
12/05/2006
Mesmo que uma organização comercial não tenha uma área de marketing ou que seus
gestores não pratiquem as ferramentas mercadológicas, pelo menos uma das táticas
é aplicada: a precificação, o clássico 'P' de preço dentro da matriz do composto
de marketing dos 4Ps proposta por Jerome McCarthy na década de 60. Em outras
palavras, o empresário pode não utilizar com excelência as técnicas de gerência
de: produto (estudo de marca, conceito, percepção, ciclo de vida e portfólio);
ponto (desenvolvimento de canais de venda e distribuição, varejo e logística de
entrega); e promoção (uso das diversas ferramentas de comunicação - propaganda,
promoção, merchandising, marketing direto, relações públicas e internet), mas
obrigatoriamente é necessário se preocupar com a precificação. Claro, a política
comercial é a espinha dorsal do lucro, do fluxo de caixa e da saúde financeira
do negócio. Saber cobrar o quanto vale e conseguir vender pelo preço equivalente
ao que é entregue é uma das competências dos empreendedores de sucesso.
Porém, nem todos fazem bom trabalho nessa área, isto é, estabelecem uma política
de preço que consiga extrair o máximo de eficiência na relação preço versus
demanda. Pois, em tese, há uma relação entre o preço praticado e a demanda de
vendas: quanto mais alto, menos pessoas irão comprar - a exceção à regra são os
produtos posicionados como premium, os quais quanto maior o preço, mais
exclusividade, status e valor seu público-alvo percebe. Porém são estratégias
para nichos de mercado.
O trabalho do gestor de negócios é, portanto, conseguir definir e praticar
preços no limite máximo que não afetem a curva de demanda de vendas - onde a
partir deste ponto, há uma sensível queda no volume comercial. Estabelecer esse
limite é crucial para a lucratividade da organização e pela sua importância é
necessário prestar atenção, realizar estudos e, principalmente, testar preços.
Apesar do empresariado praticar o 'P' de preço, nem sempre a decisão é fruto de
estudo de marketing. Normalmente, preços são definidos com base em análise
contabilista simples (custos e despesas, mais margem, mark-up desejado) ou
puramente em função do preço médio praticado pelas empresas concorrentes. Mas
nem sempre seu cliente está disposto a pagar a margem que você propõe e nem
sempre ao praticar o preço de mercado seu negócio terá a mesma margem dos
concorrentes.
É preciso praticar o que chamamos de preço mercadológico. Ou seja, descobrir por
meio de pesquisas e testes o preço limite que seu cliente está disposto a pagar
pelo que você oferece. Como tratamos da oferta de valores subjetivos também como
marca, conveniência e significados pessoais; cada produto possui uma percepção
de valor individual. O quanto custa é o que se paga, mas o quanto vale é o que
se recebe de material e intangível. Mesmo que produtos concorrentes sejam
tecnicamente iguais, o intangível faz a diferença e dá valor particular a cada
produto. Por isso que muitas empresas investem em design, atendimento e ações de
comunicação - para aumentar sua percepção de valor e poder 'cobrar mais',
chegando no limite da curva de demanda.
Por outro lado, quando não se constroem valores agregados significativos, a
companhia é obrigada a praticar o preço dos concorrentes - ou menos, provocando
a popular 'guerra' de preços, que sacrifica lucros, obriga o empresário a adotar
novas posturas frente as suas despesas, provoca uma menor entrega da qualidade,
e faz o cliente perceber menos valor na aquisição e aí exigir mais negociação
para comprar.
É necessário praticar o preço mercadológico e todo empresário poderia estudá-lo
melhor. Como exemplo, vamos pensar num bar: a maior parte de seu faturamento vem
da venda de bebidas. Imaginemos que este bar pratica o preço de mercado de R$
3,00 para a tulipa de chopp. Será que se o bar estipulasse R$ 3,30 haveria queda
no volume de vendas do produto? E essas vendas menores não compensariam a margem
maior resultando numa lucratividade melhor? Só há um jeito de descobrir:
testando.
Recomendo, faça um teste na sua empresa. Estude o comportamento passado das
vendas em determinado período, no exemplo, as vendas históricas de chopps numa
determinada hora, num dia da semana. Pelo histórico pode-se prever quanto
venderemos no futuro naquele período. No teste, sem fazer alarde, nem avisar e
chamar atenção, mude o preço timidamente - em mais 2%, 5% ou 10% - durante este
período e analise as variações nas vendas. Além disso, faça uma rápida pesquisa
com alguns clientes que compraram, talvez muitos compradores nem tenham
percebido o aumento que pode significar que seu produto é muito mais valorizado
do que você imagina e cobra.
Como consumidores somos testados a toda hora, redes de supermercado fazem isso
com maestria. Repare, os preços nas gôndolas flutuam sempre, não só em épocas de
promoções anunciadas. Os profissionais de marketing buscam encontrar o preço
mercadológico ideal para uma operação lucrativa, pois mesmo sendo uma rede, cada
loja deve buscar pequenas variações de preço, pois, cada região possui
diferentes consumidores com perfis específicos. No entanto, uma rede não deve
praticar preços muito variáveis, deve haver uma política comercial com
flutuações que não afetem a percepção de valor do produto, da loja e da marca.
Esse é o trabalho de precificação em marketing e todo empresário deveria buscar
com exatidão os preços mercadológicos de seus produtos e serviços. Com técnicas
de marketing é possível um ajuste fino e calibrado nos preços. Pode ser pouco,
mas no exemplo do bar, pode significar um ganho de 10% adicionais no faturamento
sem nenhuma mudança ou investimento. Faça o teste.
Marcelo Miyashita é consultor líder e palestrante da MIYASHITA CONSULTING. É
professor de marketing em cursos de MBA e pós-graduação. Atualmente leciona na
Cásper Líbero, FGV-EAESP GVpec, Trevisan, PUC-SP COGEAE, Madia Marketing School,
IMES e IBModa. Foi colunista do Comercial & Cia, na rádio BandNews FM. Em 2006
recebeu o Prêmio Marketing Best e em 2007 o título de Marketing Expert,
concedido pela Editora Referência (Jornal Prop&Mkt), pela FGV-EAESP e pela
MadiaMundoMarketing. É mestrando em Administração pela PUC-SP, pós-graduado pela
ESPM e publicitário pela Cásper Líbero. Conheça seu trabalho:
www.miyashita.com.br