Segurança X Independência
Por Jerônimo Mendes
06/04/2009
De acordo com o Emmanuel Mounier, filósofo francês, considerado por muitos o pai
do personalismo, filosofia que considera a pessoa como o centro da discussão,
geralmente, “os homens preferem a escravidão na segurança ao risco na
independência”. De fato, eu já explorei muito essa máxima e não mudei em nada o
entendimento quanto ao raciocínio expressado por ele.
A discussão inicial pode ser elaborada da seguinte forma: por que será que as
pessoas procuram segurança no emprego? Para responder a essa questão será
necessário formular uma nova: você conhece algum emprego estável, seguro e
tranqüilo nos dias de hoje?
Muito bem! Ainda que você possa crer que algumas atividades do serviço público
oferecem essa vantagem, lembre-se de que muitas pessoas nessa condição odeiam o
que fazem, portanto, a única que coisa que pode segurá-las é o bendito salário
pago regularmente e aquela falsa condição de segurança. Entretanto, na sua
grande maioria, não dão a mínima para o que fazem e estão sempre com a cabeça
noutro lugar procurando alguma forma de garantir a falsa estabilidade. Caso não
concorde comigo, deixo aqui uma nova questão: quantas pessoas que você conhece
estão contentes com o que fazem no serviço público?
A segunda questão é que mais de 90% dos brasileiros, de alguma forma, estão
presos às dividas, de qualquer natureza: cartão de crédito, cheque especial,
empréstimos junto a amigos, parentes e agiotas, financiamentos para compra de
casas, carros, brinquedos eletrônicos etc., exceto eu e você que fazemos parte
dos 10% que tem um pouco de juízo.
Nesse sentido, lembre-se de que as nossas necessidades são ilimitadas, portanto,
se não houver o mínimo de disciplina, você viverá um círculo vicioso de
endividamento e sua vida será uma eterna transferência de valores para quem sabe
administrar melhor o seu dinheiro: o banco onde você tem conta. Basta lembrar o
que acontece no dia em que você recebe o salário ou o pró-labore; depois de
pagar os credores, você ainda deve para o banco e nada sobra para o único que
deu o sangue para merecê-lo.
A terceira questão é que, segundo Robert Kyosaki, autor de Pai Rico, Pai Pobre,
seu chefe não poderá torná-lo rico, a menos que ele lhe mande embora e você se
torne um empreendedor por natureza. Lamentavelmente, isso acontece com poucas
pessoas. A maioria acaba procurando outro emprego imaginando que, ao trocar de
empresa, todos os problemas serão resolvidos. Depois elas descobrem que todas as
empresas são iguais, o que muda mesmo é o endereço. Então, se você não tiver a
mente no lugar, a frustração voltará a assombrá-lo com força maior ainda.
O fato é que seu chefe precisa do emprego tanto quanto você e, ainda que ele não
queira, dificilmente vai sacrificar o emprego dele para salvar o seu. É a lei da
sobrevivência, portanto, ele precisa extrair o máximo dos seus liderados para
atingir as metas da empresa e você pode ter certeza de que alguém vai ter que
trabalhar duro para cumpri-las.
A última questão diz respeito ao número de credores na sua vida. Quanto mais
credores você tem, mais pobre você é. Digo isso para chocá-lo, com a maior das
boas intenções. Esta é apenas uma das razões pela qual os traficantes vendem a
prazo, os bancos emprestam dinheiro, os agiotas preferem vê-lo endividado e as
administradoras de cartão de crédito estão sempre correndo atrás do seu número
de celular.
A história do trabalho, e também a do dinheiro, é uma longa sucessão de poder e
concentração na mão de poucos. Qualquer dia eu conto isso com mais detalhes.
Para alguém ficar mais rico, alguém acaba necessariamente ficando um pouco mais
pobre. Quando isso não é controlado mediante disciplina rígida e um propósito de
vida bem definido, a tendência é o endividamento, a dependência e uma eterna
sensação de impotência do lado mais fraco da corrente.
Assim sendo, de nada adianta culpar o governo, o patrão, o chefe, os ricos e o
capitalismo pelas coisas ruins que acontecem. O que você precisa mesmo é fugir
da escravidão salarial imposta pelo consumo desenfreado, traçar um plano de vida
consistente e adotar definitivamente a disciplina para realizar o que você
deseja na vida e, acima de tudo, colocar o plano em ação.
Por fim, lembre-se: independência financeira não significa propósito de vida.
Quantas pessoas financeiramente bem-sucedidas que você conhece e que são
completamente ocas na sua existência? Quanto mais distante você estiver do seu
objetivo e da sua vocação, mais dependente do dinheiro você será, portanto,
lembre-se das palavras de Sócrates, o grande filósofo ateniense, ao caminhar por
uma feira de especiarias e supérfluos na Antiguidade: “quantas coisas sem as
quais posso viver tranquilamente”. Pense nisso e seja feliz!
Jerônimo Mendes é Administrador, Consultor e Palestrante
Autor de Oh, Mundo Cãoporativo! (Qualitymark) e Benditas Muletas (Vozes)
Mestre em Organizações e Desenvolvimento Local pela UNIFAE