Semiótica
Por Eufrásio Prates
29/03/2007
A pretensão de apresentar a Semiótica em poucas linhas pode ter resultado em
reprováveis simplificações. Um campo de conhecimento tão amplo e complexo exige
certamente um espaço-tempo maior que o presente, motivo pelo qual este alerta
introdutório faz-se necessário. Isto posto, nada mais adequado que procurar
partir de questões centrais, indispensáveis para delinear um mapa hipertextual
que permita uma orientação de novos navegantes pelos mares da assim definida
ciência dos signos ou processos de significação.
Segundo Winfried Nöth (1995:19)"a semiótica é a ciência dos signos e dos
processos significativos (semiose) na natureza e na cultura". A investigação
semiótica abrange virtualmente todas as áreas do conhecimento envolvidas com as
linguagens ou sistemas de significação, tais como a lingüística (linguagem
verbal), a matemática (linguagem dos números), a biologia (linguagem da vida), o
direito (linguagem das leis), as artes (linguagem estética) etc. Para Lúcia
Santaella, ela "é a ciência que tem por objeto de investigação todas as
linguagens possíveis" (1983:15).
Sua principal utilidade é possibilitar a descrição e análise da dimensão
representativa (estruturação sígnica) de objetos, processos ou fenômenos em
categorias ou classes organizadas. Como ela faz isso? De formas tão diversas
que, neste momento, vale a pena um rápido passeio pelas ...
Origens da Semiótica
Muito antes que o termo "semiótica" fosse utilizado, já encontramos
investigações a respeito dos signos. Tais origens se confundem com as da própria
filosofia: Platão já se preocupou em definir o signo em seus diálogos sobre a
linguagem. No séc. XVII, John Locke "postulou uma ‘doutrina dos signos’ com o
nome de Semeiotiké" e, em 1764, Johann H. Lambert escreveu "um tratado
específico intitulado Semiotik" (Nöth, 1995:20). O termo deriva etimologicamente
do grego semeîon (signo) e sema (sinal), tendo originado diversos termos tais
como semeiotica, semeiologia, sematologia, semologia etc. No entanto, só em 1964
é que Thomas Sebeok publicou uma coletânea chamada Approaches to semiotics,
dando à palavra a forma plural que, no inglês, caracteriza a denominação de uma
ciência.
Tal preocupação etimológica visa, além de elucidar o processo diacrônico sofrido
pelo termo, abrir espaço para discutir duas grandes correntes do Século XX no
campo do estudo dos signos: a semiologia e a semiótica. Embora ao final dos anos
60 tenha sido adotada a palavra "semiótica como termo geral do território de
investigações nas tradições da semiologia e da semiótica geral" (Nöth, 1995:26),
ainda hoje encontramos inclinações determinadas pelo que podemos chamar de ...
A Disputa do Século
Em paralelo com o desenvolvimento da "corrente semiótica" – inspirada na obra de
Charles Sanders Peirce (1839-1914) – nasce no esteio do Curso de Lingüística
Geral (1916) de Ferdinand de Saussure a semiologia como ciência geral dos
signos. Para ser mais preciso, surgirão realmente duas correntes de estudos
semióticos cuja preocupação com o signo é inferior à dos textos propriamente
ditos e das estruturas menores dos signos verbais (semas, sememas, lexemas
etc.): são elas a Semiótica Narrativa do Discurso (francesa) e a Semiótica da
Cultura (russa). O que essas linhagens apresentam em comum são o enraizamento
lingüístico e o caráter diádico de suas categorizações e classificações.
A semiótica peirceana apóia-se, como o semeîon platônico e o aristotélico, num
esquema triádico, ao passo que a semiologia pós-saussureana vê o signo de forma
dual. A posição da ciência do signo no conjunto com as demais ciências é outra
divergência entre as duas correntes: a semiótica surge como uma "filosofia
científica da linguagem" (Santaella, idem, 28) enquanto a semiologia é proposta
inicialmente por Saussure como um ramo da psicologia social – a englobar a
própria lingüística como um de seus ramos (Nöth, 1996:19)–, para a seguir sofrer
uma tentativa de inversão quando Barthes sugere que a semiologia é que deveria
ser um ramo da lingüística (Barthes, 1988:13).
Semioticistas e semiologistas entabulam uma disputa que leva cada lado a criar
suas próprias definições para os termos semiótica e semiologia. Para os
primeiros – majoritariamente de origem anglo-saxônica – a semiologia é tida como
a ciência dos signos especificamente criados pelos homens, menos abrangente,
portanto, que a semiótica. Para os semiologistas – geralmente oriundos de países
românicos – "a semiótica é um sistema de signos com estruturas hierárquicas
análogas à linguagem – tal como uma língua, um código de trânsito, arte, música
ou literatura – ao passo que semiologia é a teoria geral, a metalíngua (...),
que trata dos aspectos semióticos comuns a todos os sistemas semióticos" (Nöth,
1995:25-26).
A importância deste debate situa-se em explicitar ao leitor nossa opção pela
semiótica pós-estruturalista, de inspiração peirceana, de Umberto Eco e Thomas
Sebeok. As características que melhor diferenciam a corrente peirceana das
demais é sua preocupação central com o signo, seu conceito triádico de signo (e
não diádico, como as outras), sua fenomenologia supra-lingüística e a
dinamicidade radical do processo semiósico.
Falemos, portanto e finalmente, dos ...
Conceitos básicos de uma semiótica pós-estruturalista
Para iniciar uma possível resposta à nossa questão pendente – apenas lembrando:
como a semiótica pode ser útil para analisar os signos – impõe-se agora um maior
detalhamento dos seus conceitos fundantes na obra de Peirce, suporte básico da
semiótica pós-estruturalista.
Para este pensador, um signo é "algo que, sob certo aspecto ou de algum modo,
representa alguma coisa para alguém" (Peirce, 1972:94, grifo nosso). Essa
perspectiva triádica se multiplica profusamente na obra peirceana, motivo pelo
qual pode ser fruto de uma...
Triadomania
A eleição das "trindades" como suportes classificatórios e categorizadores, é
óbvio, antecede em milênios a obra peirceana, bastando lembrar Platão ou o
catolicismo. Seja uma obsessão sua ou não (como ele mesmo admite), devemos nos
lembrar que toda teoria procura reduzir, em maior ou menor grau, a
multiplicidade e complexidade universais em um todo ordenado, que faça sentido.
Neste sentido, a filosofia peirceana vai entender a realidade de forma
pansemiótica – isto é, tudo como semioticamente analisável – e classificável
fenomenologicamente segundo três categorias:
primeiridade – categoria do "desprevenido", da primeira impressão ou sentimento
(feeling) que recebemos das coisas;
secundidade – categoria do relacionamento direto, do embate (struggle) de um
fenômeno de primeiridade com outro, englobando a experiência analogística e
terceiridade – categoria de inter-relação de triplo termo; interconexão de dois
fenômenos em direção a uma síntese, lei, regularidade, convenção, continuidade
etc.
As qualidades puras, imediatamente sentidas, são típicas da primeiridade. As
relações diádicas, analítico-comparativas, são exemplos de secundidade. As
palavras, por se remeterem a algo para alguém, são fenômenos de terceiridade.
Para que passemos agora da filosofia à semiótica, detalhemos melhor ...
O Signo peirceano e as tricotomias
O signo – que nesse universo vai do desenho infantil até o mais rigoroso tratado
de lógica, incluindo o homem que os produz como um signo também – é concebido
como uma tríade formada pelo representamen – aquilo que funciona como signo para
quem o percebe –, pelo objeto – aquilo que é referido pelo signo – e pelo
interpretante – o efeito do signo naquele (ou naquilo, podendo-se aí incluir os
seres ou dispositivos comunicativos inumanos como os computadores) que o
interpreta. Vale lembrar com Merrell (1998:49) que não devemos pressupor que o
signo e seu objeto "são sempre entidades concretas - espaço-temporais - ou até
objetos físicos. Peirce sempre cuidava para evitar esse erro". Em muitos casos
podemos experimentar a concretude de signos, objetos e representamina embora em
outros eles careçam de qualquer materialidade. Exemplo disso pode ser o signo "Pégasus",
escrito nessa página. Embora ele esteja materialmente representado aqui, dele
derivará na mente do leitor (com certeza quase absoluta) um signo mental de
"cavalo alado" cujas partes e objeto referido carecem de concretude. Ainda
assim, é inegável que no exemplo dado algo representou alguma coisa para alguém,
o que atende plenamente à definição de signo. Passemos então a uma melhor
definição das partes que o compõem:
O representamen é o sustentáculo de um signo ou aquilo que funciona como signo,
remetendo a algo para um interpretante. É através dele que o signo se remete por
alguma causa (seja a semelhança, indicação ou convenção) a um objeto.
Este objeto exterior ao signo, chamado de objeto dinâmico, é "espelhado" no
interior do signo, "imagem" esta que se denomina objeto imediato.
Se encontramos duas facetas para o objeto (o objeto dinâmico e o imediato), para
o interpretante (que muita gente confunde com um indivíduo, quando na verdade
trata-se mais do resultado interpretativo em si mesmo) vamos encontrar três. A
capacidade de um signo produzir algo numa mente qualquer, isto é, seu total
potencial sígnico, é o interpretante imediato. Para que se dê um processo de
semiose é necessário que esse potencial se realize, sempre parcial e
singularmente, na mente de alguém ou de um dispositivo interpretativo, ou seja
que se realize um interpretante dinâmico. Quando esse interpretante dinâmico
atinge a terceiridade, isto é, quando engendra uma interpretação simbólica,
caracteriza-se um novo signo "de caráter lógico [...] que Peirce chama de
interpretante em si" (Santaella, 1983:82). Embora a composição de um signo não
seja linearizável, propomos o esquema abaixo para facilitar a sua compreensão:
REPRESENTAMEN
suporte ou fundamento (material ou mental) do signo
OBJETO IMEDIATO
objeto dentro do signo ("especular")
OBJETO DINÂMICO
objeto fora do signo (referido)
INTERPRETANTE IMEDIATO
potencial de interpretações
INTERPRETANTE DINÂMICO
singularização do interpretante
INTERPRETANTE EM SI
novo signo (representamen) na mente
O processo de apreensão de um signo é chamado de semiose. Ela envolve um
movimento espiralado, na medida em que toda apreensão sígnica pode tornar-se o
reinício de uma nova semiose.
Para melhor compreender os tipos de signo segundo suas características
referenciais e fenomenológicas, Peirce desenvolveu classes ou categorias,
organizadas em tricotomias (taxonomias tríadicas).
A primeira tricotomia organiza os signos segundo as características do próprio
signo, isto é, do representamen. O representamen foi dividido nas categorias de
quali-signo, sin-signo e legi-signo. O quali-signo é uma qualidade sígnica,
imediata, tal como a impressão causada por uma cor. É, na verdade, um pré-signo
ou uma ante-materialidade sígnica de um signo. Tal qualidade apresentada num
concreto qualquer, isto é singularizada ou individualizada, é já um sin-signo.
Um sin-signo, por sua vez, pode gerar uma idéia universalizada – uma convenção
substitutiva do conjunto que a singularidade representa – sendo assim um
legi-signo.
Da relação entre o representamen e o objeto advém a segunda e mais importante
tricotomia, no entender de Peirce: ícone, índice e símbolo. O ícone, de forma
semelhante ao quali-signo, representa apenas uma parte da semiose na qual o
representamen evidencia um ou mais aspectos qualitativos do objeto. Os retratos
ilustram bem essa categoria. A iconicidade de um signo funda-se no que Nöth
chama de "homologias estruturais", isto é, na semelhança entre representamen e
objeto.
Se há uma relação direta entre estas duas partes do signo sem no entanto
tratar-se de similaridade, falamos já da categoria dos índices. Uma nuvem escura
pode significar chuva, embora sejam muito diferentes uma da outra. As relações
orgânicas de causalidade são típicas dessa categoria, onde o representamen
indica (para) o objeto. Outra característica dos índices é sua singularidade, o
que na linguagem seria exemplificado pelos nomes próprios.
O nome de um objeto qualquer – "cadeira" por exemplo – refere-se não só a uma
cadeira em particular ("esta cadeira", por exemplo, seria um índice) mas a uma
idéia geral de "objeto composto de um assento sustentado a uma determinada
distância do solo através de um ou mais pés e um encosto fixado angularmente em
relação ao assento". Por este motivo, transcende a secundidade indiciática em
direção à categoria simbólica. Os símbolos são arbitrários, no sentido de que
são socialmente convencionados e mutáveis (cadeira no Brasil, chair na
Inglaterra e chaise na França), mas não absolutamente acidentais ou arbitrárias
– haja vista as homologias já descobertas entre as mais diversas línguas do
planeta e a impossibilidade de alteração individual desses signos. Os tipos,
generalidades e idéias são signos simbólicos pois não se restringem à
singularidade. Ao contrário, abrem-se à multiplicidade e universalidade por seu
alto grau de abstração. É claro que cada repetição da palavra cadeira neste
texto apresenta-se singularmente. No entanto, Peirce denomina cada
singularização de um símbolo como réplica do tipo original.
Analisemos, a título de exemplo dessas duas primeiras tricotomias, algumas
características do signo abaixo:
Quanto à primeira tricotomia: este, como todo e qualquer outro signo, é
qualissígnico na medida em que apresenta cores e formas a serem percebidas como
algo (representamen). A imagem produzida pelos pixels de luz de seu monitor (ou
da tinta no papel, no caso de versão impressa) é sinsígnica enquanto exemplar
único (no seu computador ou papel). Se esse representamen for capaz de
significar não apenas uma imagem específica de cruzes em cemitérios, mas todas
as cruzes de qualquer cemitério, torna-se então um legi-signo. Como se pode ver,
um signo pode acumular categorias dependendo da forma como ocorre o processo de
semiose.
Quanto à segunda: essa foto representa uma cruz num cemitério por semelhança. A
palavra "cruz", por exemplo, não se assemelha em nada ao objeto representado na
foto. Já a foto, certamente, é um ícone por essa relação de similaridade entre
representamen e objeto. Por outro lado, essa é uma imagem escaneada de uma foto
que foi revelada de um filme batido no cemitério de Carinhanha-BA (uma das
cidades mais importantes da região de Carinhanha-BA). Ainda que de forma
mediata, há uma relação física (indicial) entre o objeto e o representamen (já
que uma série de fótons foram refletidos pelo objeto representado no filme
(negativo), que sofreu o processo físico de revelação e ampliação (positivo)
que, por sua vez, foi escaneado também por meios físicos até se tornar essa
imagem que você vê). A imagem, assim, indica a existência material de um
cemitério em Carinhanha-BA (como você já deve estar desconfiando, eu nasci em
Carinhanha). Além de índice, essa imagem da cruz pode significar uma
característica da religião do morto: trata-se de um suposto cristão. A cruz da
foto pode representar para alguém a própria doutrina cristã, tornando-se nesse
caso específico um símbolo, isto é, uma representação abstrata, convencional, de
algo. De novo encontramos a riqueza combinatória e interpretativa das categorias
peirceanas.
A mais complexa e racional categorização dos signos – a terceira tricotomia –
refere-se à relação entre representamen e interpretante, donde emergem o rema, o
dicente e o argumento. A categoria remática engloba o que na lógica formal se
chama de termo, isto é, um enunciado impassível de averiguação de verdade,
descritivo como um nome ou palavra. A palavra "cruz", isolada e fora de qualquer
contexto, é certamente um rema.
Caso faça parte de uma assertiva qualquer, classifica-se como dicente (ou
dicissigno). Ao contrário do rema, o dicente parece pedir confirmação de
veracidade: "essa cruz representada na foto está colocada sobre o túmulo do meu
avô", "meu carro é azul-vandyke" ou "o nosso salário está alto demais". O
dicente, enquanto secundidade e dialogicidade, é altamente informativo – ainda
que exija averiguação, na medida em que não fornece os motivos pelos quais
afirma algo.
Se fornecesse, já não seria dicente, mas argumento. Enunciados encadeados de
forma a evidenciar a condição de verdade de uma conclusão, ou seja, discursos de
caráter persuasivo ou silogismos formais, são exemplos de argumentos. Por
exemplo: "a cruz da foto acima está colocada sobre o túmulo do meu avô porque a
probabilidade de haverem escrito o seu nome, Sebastião dos Santos Farias, sobre
um túmulo errado é deveras reduzida, especialmente considerando-se que o índice
de mortalidade em Carinhanha dificilmente ultrapassa o de um morto por dia (já
que a cidade conta com menos de 5000 habitantes) e, além disso, no dia do
enterro de meu avô ninguém mais foi enterrado, excluindo-se assim a
possibilidade de troca ou engano de túmulo". Esse foi um argumento (dedutivo e,
devo confessar, pouco elegante quando comparado aos exemplos de Aristóteles ou
Peirce).
Como lógico, Peirce se preocupa em classificar os argumentos e verificar sua
condição de verdade. Ao lado das já conhecidas dedução e indução, identifica uma
terceira operação lógica criativa (ainda que arriscada) chamada abdução. Se a
dedução parte do geral para o particular e a indução percorre o caminho oposto,
a abdução – também chamada, algumas vezes, de hipótese – afirma um caso a partir
de uma regra e de um resultado. Assim temos:
"Dedução
Regra: todos os feijões deste pacote são brancos.
Caso: estes feijões são deste pacote.
\ resultado: estes feijões são brancos.
Indução
Caso: estes feijões são deste pacote.
Resultado: estes feijões são brancos.
\ regra: todos os feijões deste pacote são brancos.
Hipótese
Regra: todos os feijões deste pacote são brancos.
Resultado: estes feijões são brancos.
\ caso: estes feijões são deste pacote." (Peirce, 1972, 149-150)
Os argumentos dedutivos exigem um alto grau de informação, e portanto de
esforço, para chegarem a pouco mais do que tautologias. E mesmo para esse pouco,
estão já a fazer uso da indução. O alto grau de risco da indução, por sua vez,
pede ao pesquisador criativo que o leve mais longe, que produza através da
abdução, novas possibilidades de conhecimento, especialmente através de um
resgate do uso de nossa capacidade intuitiva. Especialmente quando se trata de
seu uso nas ciências ditas "humanas". A preocupação obsessiva com o método pode
levar, como é bastante comum, a abordagens quantitativistas inadequadas para
determinados "objetos" de pesquisa. De nossa parte, alertamos para o fato de que
as propostas classificatórias semióticas exigem-nos o cotejo contextual, já que
nenhum signo tem existência per si ou a priori, mas sempre relativamente a tal
contexto.
Frente à complexidade de cada uma das tricotomias até aqui estudadas e tendo em
vista um processo inverso de remontagem pós-esquartejante, Peirce propõe que do
seu entrecruzamento combinatório resultariam não 27 (3 x 3 x 3 tricotomias), nem
45 (as 27 com os argumentos multiplicados por 3), mas 10 classes possíveis de
existência de signos (Peirce, 1972:110). Estas combinações excluem, por
insuficiência lógica/ontológica, categorias como quali-signos não icônicos,
sin-signos simbólicos etc. São elas as ...
Dez classes trilegais, tchê: as combinações tricotômicas
Ainda que não tenhamos certeza de que os gaúchos tenham se inspirado em Peirce
ao cunhar esta gíria, consideramos trilegais essas classes por permitirem que,
ao olharmos para um determinado objeto de investigação, consigamos verificar
como ele se compõe e articula. Uma inocente home-page internetiana pode
esconder, por trás de fontes iconicamente curvilíneas, uma apologia a símbolos
ciber-sensuais subliminares para o olho não conscientemente semiótico. Esse
exemplo pode ser aprofundado através do conhecimento e aplicação da
classificação combinatória dos três componentes básicos do signo, como segue (Nöth,
1995:93-94):
Quali-signo icônico remático: "é uma qualidade que é um signo". Ex.: sensação do
vermelho.
Sin-signo icônico remático: "é um objeto particular e real que, pelas suas
próprias qualidade, evoca a idéia de um outro objeto". Ex.: diagrama dos
circuitos numa máquina particular.
Sin-signo indicial remático: "dirige a atenção a um objeto determinado pela sua
própria presença" Ex.: grito de dor.
Sin-signo indicial dicente: além de ser diretamente afetado por seu objeto, "é
capaz de dar informações sobre esse objeto". Ex.: cata-vento.
Legi-signo icônico remático: "ícone interpretado como lei". Ex.: diagrama num
manual.
Legi-signo indicial remático: "lei geral ‘que requer que cada um de seus casos
seja realmente afetado por seu objeto, de tal modo que simplesmente atraia a
atenção para esse objeto’"(Peirce). Ex.: pronome demonstrativo.
Legi-signo indicial dicente: "lei geral afetada por um objeto real, de tal modo
que forneça informação definida a respeito desse objeto". Ex.: placa de
trânsito.
Legi-signo simbólico remático: "signo convencional que ainda não tem o caráter
de uma proposição". Ex.: dicionário.
Legi-signo simbólico dicente: "combina símbolos remáticos em uma proposição,
sendo, portanto, qualquer proposição completa". Ex.: qualquer proposição
completa.
Legi-signo simbólico argumento: "signo do discurso racional". Ex.: silogismo.
quali-signo ícone rema
sin-signo índice dicente
legi-signo símbolo argumento
É importante contextualizar todas essas classes e categorias no universo lógico
peirceano, diverso do formalista aristotélico e do positivista-mecanicista.
Ainda que para todos a lógica seja "a ciência formal das condições de verdade
das representações", em Peirce enfatiza-se a limitação científica do tratamento
do que deve ser e não do que é. Por este motivo, a semiótica não se confunde com
uma ontologia, sendo melhor definida como ciência que estuda o real semiótico,
isto é, o mundo das representações ou da linguagem. Mas, se como já sugerimos
anteriormente, a ciência dos signos é uma ferramenta de grande utilidade, será
que ela é disponibilizada com um ...
Manual de Instruções?
Por ter nascido num berço pragmaticista, muitos esperam que a semiótica venha
com um manual de aplicação – e, de quebra, garantia de um ano após a aquisição –
o que de fato não ocorre. As "ferramentas" da ciência dos signos se mostram
úteis nos mais diversos campos de investigação justamente por sua abertura e
amplitude. Mais do que descrever em quais classes ou categorias se inscrevem os
signos, a semiótica permite a compreensão do jogo complexo de relações que se
estabelecem numa semiose ou num sistema delas. Ao ordenar esse conjunto de
relações, podemos antever o seu significado e aplicabilidade no mundo da(s)
linguagem(ns). É nesse processo que os dados da realidade podem ganhar o status
de informação, conhecimento e, em alguns casos, sabedoria.
O máximo que podemos fazer, neste sentido, é sugerir a leitura das análises
apresentadas n’O Signo de Três, organizadas por Umberto Eco e Thomas Sebeok, no
capítulo IV do Panorama da Semiótica de Winfried Nöth, no Conceito de Texto de
Umberto Eco e em minha análise semiótica do filme "Couraçado Potemkin" (www.geocities.com/Eureka/8979/potemkin.htm).
Os "surfistas da Internet" que me perdoem, mas daqui por diante abre-se o
caminho para, abandonando a prancha até aqui utilizada, o mergulho dos
interessados por essa poderosa ciência de compreensão do real semiótico.
E está, para o que nos propomos, de bom tamanho!
Bibliografia
BARTHES, Roland. Elementos de Semiologia. São Paulo, Cultrix, 1988.
ECO, Umberto e SEBEOK, Thomas (org.). O Signo de Três. São Paulo, Perspectiva,
1991.
ECO, Umberto. Conceito de Texto.
MERRELL, Floyd. Introducción a la Semiótica de C. S. Peirce. Maracaibo-Venezuela,
Universidad del Zulia, 1998.
NÖTH, Winfried. A Semiótica no Século XX. São Paulo, Annablume, 1996.
NÖTH, Winfried. Panorama da Semiótica: De Platão a Peirce. São Paulo, Annablume,
1995.
PEIRCE, Charles S. Semiótica e Filosofia. São Paulo, Cultrix, 1972.
PEIRCE, Charles S. Semiótica. São Paulo, Perspectiva, 1987.
SANTAELLA, Lúcia. O que é Semiótica. São Paulo, Brasiliense, 1983.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Lingüística Geral. São Paulo, Cultrix, 1988.
O Prof. Eufrasio Prates é Compositor Musical pela FAAM-SP-Faculdade de Artes
Alcântara Machado e Mestre em Comunicação pela UnB, autor do livro
"Passeio-relâmpago pelas idéias estéticas ocidentais" e ministra as disciplinas
de "Teorias de Comunicação" e "Estética e Indústria Cultural" no IESB-Instituto
de Educação Superior de Brasília. É também Diretor-Administrativo da
ABSB-Associação Brasileira de Comunicação e Semiótica e Vice-Coordenador do
NTC-Brasília-Centro de Estudos e Pesquisas em Novas Tecnologias, Comunicação e
Cultura.
e-mail: eufrasioprates@usa.net