A Síndrome do Eu Também Quero
Por Rogerio Martins
23/10/2007
Anos atrás conversava com uma consultora amiga sobre a mania que algumas pessoas
tinham de pedir as coisas nos grupos de discussão pela internet. Na época
participávamos de alguns grupos de discussão e era comum mensagens do tipo:
“Alguém tem um formulário para entrevista?”, ou “Amanhã vou dar um treinamento e
preciso urgente de uma dinâmica para desenvolver aspectos de liderança”, ou
ainda “Preciso de um texto que trate de comportamento no trabalho, mas nada
muito teórico,,,”. De certo que estas pessoas não cresceram em suas carreiras
profissionais. Afinal, aqueles que só copiam, sugam ou simplesmente imitam o
trabalho dos outros não tem futuro em um mercado cada vez mais competitivo e que
busca diferenciais.
Recentemente visitando algumas comunidades no orkut, pois não participo mais
daqueles grupos de discussão pelas razões acima apresentadas, percebi a mesma
situação. E pior: desenvolveu-se a síndrome do eu também quero. Não bastasse o
bando de chupins pedindo, pedindo, pedindo, agora têm em maior número aqueles
que simplesmente vão na cola e escrevem: “eu também quero!”. O que será que está
havendo? Será que estamos vivendo uma era de pura ignorância produtiva? Será que
ler num livro o assunto que necessita ou pesquisar o material é muito para uma
cabeça limitada? Talvez seja isso, mas o que mais incomoda é que não há troca.
Não há debate de idéias, troca de informações. Como meio de disseminação de
cultura e informação a internet é fantástica, mas seu uso está aquém de suas
possibilidades.
Analisando estas comunidades do orkut vi que os comentários onde alguém abre uma
discussão ou debate chega a ter três a seis respostas. Isso com uma análise
otimista. Enquanto isso, naqueles onde alguém escreve que está oferecendo um
e-book ou vídeo de treinamento, certamente pirateados, há mais de cinqüenta
respostas com a famigerada frase: “eu também quero”. Acredito que o velho
guerreiro Chacrinha estava certo: “aqui nada se cria, tudo se copia”.
Já tive artigo clonado, copiado, inserido em sites e revistas sem autorização.
Tudo isso faz parte do mundo moderno, não que eu ache certo. O fato é que uma
grande parcela das pessoas que circulam pela internet tem assumido uma postura
passiva de criação. Preferem copiar, clonar, “chupar” e distribuir
aleatoriamente, algumas vezes autointitulando-se autoras da obra. É um crime!
Muitas universidades e faculdades vêm desenvolvendo em seus quadros de alunos um
número maior destes aprendizes de clonagem do conhecimento. A direção e os
professores tem sido coniventes na “deformação” destes alunos. Cada vez mais
vemos surgir instituições que valorizam quanto seus alunos poderão produzir de
dinheiro para a própria instituição, ao invés de pesquisa, artigos ou pensamento
acadêmico. Óbvio que temos fantásticas instituições de ensino, onde se estimula
a produção científica e o pensamento analítico, mas o crescimento destes
estabelecimentos focados no retorno financeiro é preocupante.
Com tudo isso, estamos criando uma nova cultura, típica de países
subdesenvolvidos, a cultura da cópia. Quantos ganhadores de prêmio Nobel temos
na história de nosso país? Agora, quantos “hackers de sucesso” temos em nosso
país? Essa conta está semelhante à desigualdade sócio-econômica do Brasil. Se
continuarmos nesta toada seremos eternamente o país do futuro e nunca do
presente. Estaremos constantemente “correndo atrás do prejuízo”, invés de
criarmos o próprio lucro.
Para mudar é preciso começar com uma atitude pessoal. Sair da acomodação natural
de quem se acostumou a pedir tudo. É preciso fugir da tentação da “coisa fácil”.
Não é das tarefas mais fáceis, pois toda mudança implica em perdas e ganhos.
Talvez a sensação de perda seja maior no início, mas com o tempo todos ganham. A
medida que somos agentes ativos do conhecimento nos tornamos independentes, nos
tornamos fortes, nos tornamos ricos. Vale a pena tentar!
Importante ressaltar que sou a favor da disseminação do conhecimento, mas contra
a síndrome do eu também quero. Trocar, debater e compartilhar é fundamental para
nosso desenvolvimento pessoal, profissional e cultural. Mas, simplesmente,
copiar, clonar e piratear só nos faz estagnar e até regredir como pessoas e
sociedade.
Ah, se for utilizar este artigo informe a fonte e repasse essa idéia.
Rogerio Martins é Psicólogo, Consultor de Empresas e Palestrante. Especialista em Liderança e Motivação. Sócio-Diretor da Persona Consultoria e Eventos. Autor do livro Reflexões do Mundo Corporativo. Membro do Rotary Club de SP Santana (Distrito 4.430).