Teoria Lógica dos Signos
Por Nelson Valente
02/05/2007
1. CHARLES SANDERS PEIRCE (1839-1914), pensador norte-americano, instituidor
do pragmatismo como método de conhecimento, manteve relações intelectuais com
todos os filósofos importantes de seu momento histórico - dentre eles: William
James, Henry James, John Dewey, Gottlob Frege, Bertrand Russell.
Não realizou carreira universitária, e seus textos foram publicados
esparsamente, reunidos pós-morte.
2. A posição pragmática (espécie de versão neopositivista mais avançada)
consiste no método para a determinação de significados, concebidos como produtos
factíveis.
O pragmatismo não se propõe, com Peirce, como filosofia. Seu estamento é de
recurso para o pensamento filosófico, instrumento para o que-fazer filosofante.
3. Algumas constantes na metodologia peirceana.
Sua estrutura de raciocínio e demonstração apoia-se sempre em relações triádicas.
Nisso, deriva direta sugestão da dialética hegeliana (tese, antítese, síntese).
Todo significado parte de uma hipótese, a que se segue uma operação - que vai
até uma experimentação (ou mesmo um resultado).
O objeto é conhecido e diferenciado pelas conseqüências práticas que acarreta e
pelos fatos em que resulta.
A concepção de um objeto eqüivale à concepção de como funciona ou do que pode
realizar. Tal a proposição pragmática, da metodologia de C. S. Peirce.
4. Três são os elementos lógicos que permitem a decifração dos fenômenos, ou sua
conceituação: PRIMEIRIDADE, SEGUNDIDADE e TERCEIRIDADE.
Esse sistema triádico identifica as categorias lógicas para C. S. Peirce.
PRIMEIRIDADE é uma qualidade sensitiva, ou sensação percebida (um orgasmo, um
soluço, por exemplo). Resume-se na idéia daquilo que independe de algo mais. A
primeiridade caracteriza os fenômenos singulares, idiossincráticos, excludentes.
Os sentimentos ou as qualidades puras incluem-se na categoria das primeiridades.
SEGUNDIDADE é reação, resposta. Existindo um duplo termo, nas quais uma coisa
acontece à outra. O nome de uma coisa ou fato é uma relação de duplo termo.
Assim, a percepção sensível que permite conhecer os eventos ou sua mudança
(troca de estado, troca de posição, referencial) - constitui-se na categoria
lógica da segundidade.
TERCEIRIDADE é representação. A idéia que se faz de um terceiro, entre um
segundo e um primeiro; uma ponte entre dois termos ou elementos. A terceiridade
predomina na generalidade, na continuidade que permite, por exemplo, a
elaboração de leis. Toda lei depende de um referencial (primeiro e segundo), de
que ela é o terceiro. O signo, segundo Peirce, é a idéia mais simples da
terceiridade.
5. SIGNO - segundo Charles Sanders Peirce, é aquilo que representa alguma coisa
para alguém, sob determinado prisma. A coisa representada denomina-a objeto.
O primeiro signo denomina-se REPRESENTAMEN. Cria na mente da pessoa, o qual é
direcionado como emissão, um signo equivalente a si próprio.
A flor que existe no mundo independe de minha vontade. A palavra flor (ou flower,
ou fleur, ou fiore) é um signo gerado pelo primeiro signo que é a flor.
Esse outro signo, mais desenvolvido que o representamen, denomina-o Peirce
interpretante.
Decorre nova relação triádica - signo / objeto / interpretante, como abaixo:
INTERPRETANTE |
||
. |
||
| . | ||
| . | ||
SIGNO |
OBJETO |
Entre signo-interpretante e interpretante-objeto, as relações são causais. Já
entre signo e objeto não há relação de pertinência, porque arbitrária. O signo
não pertence ao objeto, o objeto não pertence ao signo.
Decorre que o interpretante passa a funcionar como a chave da relação
(inexistente) signo e objeto.
As três entidades formam a relação triádica do signo.
Peirce configura a palavra signo numa acepção muito larga e elástica. Pode ser
uma palavra, uma ação, um pensamento ou qualquer coisa que admita um
interpretante, com o qual mantém uma relação de duplo termo.
A partir de um interpretante, e por causa dele, torna-se possível um signo.
Nem interpretante, nem signo, estão contidos na primeiridade ou na segundidade.
Como categoria lógica, ambos incluem-se na terceiridade.
6. Peirce concebe os signos em três divisões amplas: ÍCONE, ÍNDICE e SÍMBOLO.
A partir da exemplificação abaixo, a indução dos conceitos.
Assim: a impressão digital na carteira de identidade (ÍCONE), a impressão
digital do ladrão (ÍNDICE) ou a impressão digital, como símbolo de campanha a
favor da alfabetização (SÍMBOLO).
ÍCONE é um signo que é uma imagem. Caracteriza-se por uma associação de
semelhança, independe do objeto que lhe deu origem, quer se trata de coisa real
ou inexistente.
ÍNDICE é um signo que é um indicador. Relaciona-se efetivamente com o objeto,
por contigüidade. Aquilo que desperta a atenção num objeto, num fato, é seu
índice. Permite, por via de conseqüência, a contigüidade entre duas experiências
ou duas porções de uma mesma experiência.
SÍMBOLO é o signo que é uma abstração de um concreto. Refere-se ao objeto que
denota em virtude de uma lei, e portanto, é arbitrário e convencionado. A
possível conexão entre significado e significante não depende da presença (ou
ausência) de alguma similitude. Enquanto o índice define contigüidade, o
símbolo, não. Fundamental no signo que é um símbolo incide em seu caráter
definitivamente convencional.
Essa é a divisão triádica dos signos, segundo Peirce.
7. O signo apresenta, ainda três sub-categorias básicas. A partir dessa nova
proposição triádica, C. S. Peirce concebe que todo o signo, em si próprio, pode
ser 1) mera qualidade; 2) existência concreta; ou 3) lei geral.
QUALI-SIGNO é todo signo que é uma qualidade. Como tal, semanticamente, um
determinante. O azul é um determinante (qualidade) de cor.
SIN-SIGNO é todo o signo que é uma coisa existente, um acontecimento real. Em
princípio, envolve vários quali-signos (ou permite vários determinantes). O
vermelho é soma dos quali-signos de vermelho (que é uma cor, que é sinal de
proibição, que é sinal de alerta, que é sinal de perigo). O vermelho é o signo
de si próprio (sin-signo), somatório de todos os quali-signos de vermelho). Uma
palavra, como tal é seu sin-signo.
LEGI-SIGNO é o signo que é uma lei. O vermelho como pare, na codificação visual
das leis de trânsito, é um legi-signo. Contudo, inexiste legi-signo sem
sin-signos prévios. O vermelho existe antes como sin-signo, antes de ser uma lei
de trânsito.
8. LUDWIG WITTGENSTEIN (1889-1951), pensador alemão, graduado em Lógica e
Filosofia pela Universidade Britânica de Cambridge, era também engenheiro pela
Universidade de Berlim. Envolveu-se em todos os procedimentos da lógica
matemática e da lógica simbólica (Bertrand Russel) e sempre se dedicou a
pesquisas de lógica semântica.
Seu texto básico é o Tractatus Logico-Philosophicus, publicado em 1921. o livro
pretende estabelecer como próprio limite do pensar a língua.
9. Wittgenstein ponderou o valor de seus conceitos no Tractatus, numerando-os de
acordo com seu peso lógico. Dessa ponderação resultam sete conceitos básicos no
Tractatus:
a) O MUNDO É TUDO QUE OCORRE (1);
b) O QUE OCORRE, O FATO, É O SUBSISTIR DOS ESTADOS DAS COISAS (2);
c) O PENSAMENTO É A FIGURAÇÃO LÓGICA DOS FATOS (3);
d) O PENSAMENTO É A PROPOSIÇÃO SIGNIFICATIVA (4);
e) A PROPOSIÇÃO É UMA FUNÇÃO DE VERDADE DAS PROPOSIÇÕES ELEMENTARES (5);
f) A FORMA GERAL DA FUNÇÃO DE VERDADE É
ESTA É A FORMA GERAL DA PROPOSIÇÃO (6); e
g) O QUE NÃO SE PODE FALAR, DEVE-SE CALAR (7).
Os números indicados à direita dos conceitos acima referidos correspondem, no
Tractatus, ao algarismo ponderado como valor de verdade.
10. É na proposição (3) que Wittgenstein desenvolve seu tema relacionado com o
signo. Isso ocorre a partir do número ponderado (3.1) "Na proposição, o
pensamento se exprime sensível e perceptivelmente". Para Wittgenstein, a
situação possível nada mais é que o signo sensível e perceptível (3.11).
SIGNOS SIMPLES empregam-se nas proposições, e são chamados nomes (3.202). A
função de cada nome é denotar um objeto (3.203). Por isso, na proposição, o nome
substitui o objeto.
NOME é um signo primitivo, e portanto não tem denotação. Só em conexão com a
proposição o nome (ou signo primitivo) tem denotação. O nome denota um objeto,
apenas porque o substitui.
SENTIDO PROPOSICIONAL constitui o enunciado mais significativo desse universo
conceitual. Wittgenstein denomina assim, o signo pelo qual se expressa o
pensamento (3.12). "O signo proposicional consiste em que seus elementos, as
palavras, estão relacionados uns aos outros de maneira determinada." E conclui:
"O signo proposicional é um fato" (3.14).
11. VERDADE é uma possibilidade que resulta da relação de dois conceitos: V
(para verdadeiro) e F (para falso). As possibilidades da verdade, em suma,
resultam das relações entre esses conceitos (4.31). assim, tomadas as
proposições p, q e r, as hipóteses de relação aduzidas por Wittgenstein são as
seguintes:
p q r p q r
V V V V V V .1
F V V F V F .2
V F V V F .3
V V F F F .4
.5
F F V .6
F V F .7
V F F .8
F F F .9
12. Para Wittgenstein (como para os pragmáticos) todo signo é arbitrário, o que
deflagra a subseqüência dos elementos arbitrários que dele derivam. Daí, duas
asserções importantes:
A) "Os limites de minha linguagem denotam os limites de meu mundo" (5.6). De que
decorre: "Para uma resposta inexprimível é inexprimível a pergunta" (6.5).
B) "O que não se pode falar, deve-se calar" (7).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
PEIRCE, Charles Sanders. Estudos Coligidos. Col. Os pensadores, trad. bras.,
São
Paulo: abril, 1980 (ant.).
PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica e Filosofia. 2ª ed., trad. bras., São Paulo:
Cultrix / EDUSP, 1975 (ant.).
WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. trad. bras., São Paulo:
C.E.N.,
1968 (1921).
VALENTE, Nelson. BROSSO, Rubens. Elementos de Semiótica - comunicação verbal e
alfabeto visual.São Paulo: Panorama, 2001.
Nelson Valente é professor universitário, jornalista e escritor
(escadanova@aol.com).
Fonte: http://www.absbsemiotica.cjb.net/nvalente.htm