Tudo é Marketing?
Por Admir Borges
16/05/2007
O Brasil dos anos 60 viu surgir
uma disciplina que transformaria o ambiente das relações de troca estabelecidas
pelo mundo econômico: o marketing, uma nova disciplina em sua forma embrionária.
Ele foi ganhando seus primeiros simpatizantes num período em que a preocupação
das empresas estava focada nos processos produtivos e na força de vendas.
Nos meios de comunicação, o rádio, estava em pleno vigor - era o centro das
atenções - e a televisão, a novidade surpreendente do século XX, tinha o esboço
de uma arrancada definitiva rumo à preferência do público, buscando seu espaço e
garantindo destaque entre os meios de massa. Assim, rádio e tv se constituíram
nos aliados de primeira hora do marketing, um casamento perfeito para se
trabalhar as mensagens de maneira pertinente e multiplicadora, pela vantagem de
atingir rapidamente grande parcela da população, ajudando a vender quantidades
cada vez maiores de bens de consumo.
Tudo isso causou enorme impacto nos meios de produção, com a conseqüente
ampliação geográfica da participação das marcas e o aparecimento de novos
produtos que iriam competir com os já tradicionais e líderes de mercado. Também
cresceu a malha rodoviária, o sistema de distribuição e logística, as formas de
crediário ao consumidor, a adoção do planejamento estratégico pelas grandes
empresas, a pesquisa e o teste de mercado.
Dessa forma, o marketing foi ganhando adeptos, estudiosos, pesquisadores e novos
autores. Despertou o interesse de empresários de diversos segmentos, bem como
dos publicitários, que passaram a propor para seus clientes cada vez mais
anúncios, comercias e campanhas completas, traduzindo a evolução do próprio
mercado, na busca de um modelo competitivo. As empresas adotaram o
estabelecimento de verbas anuais para sua propaganda, que chegaram a representar
até 100% do investimento em marketing. Nesse mesmo período a regulamentação do
trabalho publicitário, através da Lei 4.680, e a determinação de percentuais de
comissão foram importantes para o surgimento e fortalecimento das agências de
propaganda, principalmente no eixo Rio - São Paulo. Isso fez com que a
propaganda se transformasse no foco das atenções e na principal denominação da
atividade mercadológica.
Com a alta visibilidade conquistada pelas agências, estabeleceu-se, no entanto,
uma certa confusão semântica para o termo marketing, que ganhou uma série de
interpretações e sinônimos, responsáveis pela distorção do seu verdadeiro
sentido. Profissionais e leigos passaram a utilizar definições e conceitos de
marketing e propaganda sem distinção, como se fossem uma coisa só, até colocando
o primeiro como uma ferramenta do segundo e não o contrário, conforme defendem
os especialistas e as maiores autoridades no assunto. Por sua vez, publicidade
virou sinônimo de propaganda, quando na verdade são disciplinas complementares.
Posteriormente, algumas formas de propaganda passaram a ser chamadas de
merchandising , ou simplesmente merchan para os inculturados, com o absurdo aval
de veículos de grande porte. Ou seja, estabeleceu-se uma verdadeira torre de
babel no marketing.
Nessas quatro décadas não houve melhora nesse contexto, apesar do esforço feito
através das pesquisas nas grandes universidades e das bibliografias que se
multiplicaram. E, se antes a confusão derivava apenas da ignorância sobre o
tema, hoje ela parte dos próprios autores e títulos de livros com tendência
editorial oportunista. Tanto, que podemos encontrar nas bibliotecas e livrarias
toda sorte de configurações, tais como: marketing tuttifruti, marketing de
convergência, marketing viral, marketing sexual, marketing de permissão,
marketing político, marketing médico, marketing editorial, marketing de imagem,
marketing eleitoral, marketing de resultados, e a lista continua.
Infelizmente, como ocorre em outras atividades profissionais, nessa área
encontramos pessoas que se autodenominam "experts", quando na realidade não
passam de espertalhões e aproveitadores de plantão. Muitos mandam imprimir em
seus cartões de visita: gerente de marketing, supervisor de marketing, consultor
de marketing, agente de marketing, assessor de marketing, sem nunca terem feito
um curso sério, nem estudado com profundidade os consagrados autores. A
preocupação aumenta de tamanho quando deparamos com formadores de opinião,
principalmente na mídia, deturpando sobremaneira o conceito do que é marketing,
desconsiderando tudo que já foi pesquisado e escrito com seriedade sobre o tema.
O mau uso da terminologia, que gera interpretações errôneas, tem levado as
pessoas a tratarem o marketing como se fosse qualquer tipo de ação promocional,
e até pior, como algo que serve a uma venda forçada e enganosa, sem falar das
maquiagens absurdas em produtos e serviços.
Para fermentar um pouco mais a questão cunhou-se nas duas últimas décadas, de
maneira negligente, a palavra " marqueteiro" : uma denominação adotada pelos
estrategistas que trabalham para eleger políticos. O termo "marqueteiro" é
pejorativo e indesejável para se atribuir a um profissional de marketing. Ele
não passa de um profissional episódico, que constrói figuras volúveis como os
políticos atuais. O verdadeiro mercadólogo não "faz" a imagem ninguém e
desconfia da existência de um "marketing político", pois utiliza seus
conhecimentos teóricos e técnicos para posicionar produtos ou serviços corretos,
criando alianças duradouras com os consumidores e usuários, garantindo a
satisfação e a imagem positiva das marcas, no longo prazo. O legítimo
mercadólogo repudia a invencionice e a alquimia dos "marqueteiros".
"Tudo é marketing e marketing é tudo" para aqueles que acham que conhecem da
matéria, mas que não passam de curiosos e empíricos. Esses, além de
desconhecedores da teoria, costumam criar rótulos, frases de efeito, conceitos
absurdos e outros termos inadequados. O marketing, segundo os grandes autores, é
definido como um conjunto de técnicas que envolvem pesquisa e desenvolvimento de
produtos e serviços, teste de mercado, avaliação de micro e macro ambiente,
análise da concorrência, lançamento, política de preço, construção de valor,
distribuição e logística, força de vendas, branding e composto de comunicação.
Com isso, podemos afirmar que o marketing se apresenta, neste início de século
como a disciplina mais badalada e menos compreendida pelos leigos. Há o
marketing traduzido pelos marqueteiros, mau visto pelos mercadólogos, e o
marketing verdadeiro daqueles que estudam, pesquisam e fazem suas reflexões
sobre fundamentos e tendências, livre das propostas especulativas dos
espertalhões e aproveitadores. Fazer marketing é o oposto de enganar, maquiar,
forçar, ou iludir. Torna-se, assim, indispensável para o profissional que atua
nesta área um conhecimento aprofundado da sociologia, da economia, da
antropologia, da psicologia e até mesmo da filosofia. O marketing não é
disciplina para os vendedores que vendem lenço quando todos estão chorando, como
sentenciava a antiga máxima das técnicas de vendas.
Admir Borges, consultor empresarial na área de atendimento ao cliente e Coordenador e Professor de Pós-graduação de Marketing e Comunicação da Uni-bh, Universidade Fumec. e IEC-PUC.