Uma discussão que sempre tenho nas minhas palestras
é se a tecnologia ajuda, atrapalha ou substitui o
vendedor. A resposta é um categórico depende. Ela
atrapalha quando se confunde a ferramenta
(tecnologia) com a estratégia. Veja por exemplo o
CRM (Customer Relationship Management, ou Gestão do
Relacionamento com o Cliente). Consultorias e
vendedores de software trombetearam ruidosamente que
o CRM seria a solução dos problemas de todas as
empresas – ou pelo menos daquelas que comprassem e
implementassem um software de CRM, comprado
obviamente de uma dessas próprias consultorias.
O resultado foi extremamente desapontador, a tal
ponto do próprio conceito de CRM, cujo valor é
inegável, ter ficado chamuscado. O problema foi na
verdade um mal-entendido, mistura de propaganda
enganosa de um lado com preguiça e incompetência do
outro. Gerentes e diretores achavam que comprar um
software resolveria seus problemas de gestão em
vendas. As consultorias, procurando fechar mais
negócios, estimularam esta visão de curto prazo. E
todo mundo saiu perdendo. Na verdade, o software é
uma ferramenta, que precisa estar alinhada com a
estratégia, a cultura da empresa, sistemas de
remuneração, etc. Mais do que um software, CRM
implica em repensar a empresa inteira e sua forma de
atuar.
É mais ou menos o que tem acontecido com a
informatização da força de vendas. Algumas empresas,
acredite, ainda discutem se existiriam benefícios em
informatizar a equipe. Vou reforçar e repetir: elas
não estão discutindo “quanto” vão ser beneficiadas,
mas sim “se” serão beneficiadas, o que chega a ser
inacreditável. É típico ouvir frases do tipo “no
nosso mercado quem dita as regras são os clientes,
então não tem nada que um palm top ou um notebook
agregue de valor, já que o cliente é que faz e o
vendedor só tira o pedido. Além do mais, já temos um
excesso de informação e não temos nada de útil para
fazer com ela – a última coisa que precisamos é de
mais informação. Não precisamos de mais informação,
precisamos de resultados!”. Trincando os dentes de
maneira constrangida, tenho vontade de chorar.
Não saber o que fazer com a informação coletada só
demonstra duas coisas: preguiça ou incompetência.
Até hoje, aproveitando o amadorismo e as
características do mercado brasileiro, foi fácil
crescer. Bastava ser razoavelmente competente e um
pouquinho melhor do que os concorrentes. Concordo
que até agora não investir em tecnologia foi uma
opção, já que o mercado realmente sempre foi amador.
Mas é meu dever alertar que a mamata acabou e quem
não for competente na gestão de tecnologia da sua
empresa vai estar irremediavelmente comprometido.
Uma das primeiras coisas a fazer num mercado
competitivo é entender o valor da informação e como
utilizá-la.
O Wal-Mart, maior empresa do mundo, cujo faturamento
anual é maior do que todo o PIB brasileiro (deu para
entender? O Wal-Mart sozinho fatura mais do que a
sua empresa, a minha e todas as outras centenas de
milhares de empresas brasileiras) coleta informações
de venda minuto a minuto e faz a análise TODO DIA.
Tem gente que só faz isso no Wal-Mart: analisar
informação. O que vende, o que não vende, quais
produtos as pessoas compram juntos, quais vendem num
lugar mas não no outro, etc. É um exercício
permanente de aprimoramento contínuo. Eles fazem
isso porque são a maior empresa do mundo ou são a
maior empresa do mundo porque fazem isso?
A maioria das empresas tem muitos relatórios, mas só
o básico do básico. Faturamento, volume,
inadimplência, etc. Qualquer coisa um pouco mais
detalhada, tendências, estratégia, não existe. É
estipulada uma meta (de forma questionável também,
para variar) e a única coisa que interessa é atingir
aquele número mágico. Como diz o Paulo Ferreira, tem
muita empresa que diz assim para a equipe de vendas:
não interessa se o pato é macho ou fêmea, eu quero é
o ovo. Ou seja, vale tudo para cumprir a meta de
curto prazo, mesmo que seja antiético ou prejudicial
a longo prazo.
Um vendedor que não tem acesso imediato ao histórico
de compras do cliente, à disponibilidade de produtos
e serviços, às características de compra daquele
cliente, à sua lucratividade, etc., não pode agregar
nenhum valor. Ele simplesmente tira o pedido e
pronto. Perde todo mundo: o cliente, que poderia ser
melhor atendido, sendo tratado de forma consultiva,
e não totalmente passiva; a empresa vendedora, que
perde oportunidades de segmentar melhor seus
clientes e criar vantagens e diferenciais
competitivos; e perde o vendedor, que passa a ser
quase desnecessário na função.
Na verdade, um dos grandes problemas por trás de
tudo isto está num conflito de gerações. Em muitas
empresas, quem decide os grandes investimentos
necessários em tecnologia da informação vem de uma
época onde isto não existia ou não era necessário.
São pessoas que se sentem desconfortáveis e muitas
vezes não têm nem o conhecimento nem a visão
necessários para opinar, muito menos para decidir
acertadamente em relação ao assunto.
A tecnologia está aí, a nosso dispor. Usar
ferramentas foi o que fez a humanidade evoluir. Seja
inteligente: use seu cérebro e todas as ferramentas
a seu dispor.
Raúl Candeloro (raul@vendamais.com.br) é palestrante
e editor das revistas VendaMais®, Motivação® e
Liderança®, além de autor dos livros Venda Mais,
Correndo Pro Abraço e Criatividade em Vendas.
Formado em Administração de Empresas e mestre em
empreendedorismo pelo Babson College, é responsável
pelo portal www.vendamais.com.br.

