O Turismo Criativo
Por Gisela Kassoy
20/10/2007
Você conhece a “caramanhola", aquela garrafa feita para ciclistas? Sua tampa não
precisa ser aberta ou fechada, permitindo que a água seja bebida mesmo com a
bicicleta em movimento. Além disso, o líquido nunca escorre e nem suja, pois o
recipiente fica vedado. Pois bem, essa garrafa segue os princípios de uma
válvula cardíaca, e funciona da mesma forma que ela.
Soluções criadas para outros universos são fontes inesgotáveis de idéias
inovadoras, pois obrigam a quebrar paradigmas. Chamo isso de turismo criativo, a
busca de inovações e soluções em universos diferentes.
No gráfico abaixo ilustro várias formas de se obter dicas para inovações por
meio de viagens de corpo e mente rumo a novas idéias:

Mais próximo ao foco estão as pesquisas junto a clientes, usuários ou usuários
potenciais.
Pessoas que adotaram produtos e serviços e que darão indícios que poderão
resultar em idéias revolucionárias. Mas não adianta pesquisar da maneira
convencional. Perguntas tradicionais obterão respostas igualmente tradicionais e
nem sempre verdadeiras.
Normalmente esses públicos possuem uma vaga noção de suas ambições e do que os
incomoda... É melhor observar do que perguntar. Você saberia dizer quais são
suas expectativas em relação ao cabo de uma escova de dentes? Foi observando seu
uso que os designers da IDEO chegaram a um cabo mais grosso e mais confortável
para as mãos dos usuários.
Atuo junto aos clientes visando buscar formas não lineares de obter informações,
seja observando o comportamento dos usuários presencial ou virtualmente, seja
analisando seus lixos, suas casas ou ainda provocando situações nas quais eles
estarão usando o produto ou serviço.
Já os lead users, pessoas que adotaram produtos e serviços com entusiasmo podem
ter até idéias prontas, e com certeza os indícios serão inúmeros. O papel de
quem quer inovar é estar entre eles e dar espaço para que eles troquem as
informações de interesse. Blogs, comunidades de prática, encontros presenciais
são fontes excelentes. O importante para conhecer os desejos dos clientes e
estar aberto para se surpreender.
Num nível um pouco mais distante do foco estão as soluções análogas. Este nível
é mais recomendado para o desenvolvimento de produtos. Por exemplo, a 3M obteve
dados importantes para a confecção de pele artificial para enxertos conversando
com maquiadores da Broadway. Evidentemente, a idéia do maquiador não caiu do
céu. Foi pensando no problema em questão e buscando sistematicamente
profissionais que poderiam ter algo a contribuir que a 3M chegou nele.
Propositalmente distantes do seu foco estão a arte e as vivências ou visitas
necessariamente fora da zona de conforto de quem quer inovar. Ao sair da rotina,
as pessoas aprendem com o diferente, pois obtém novas informações, quebram
paradigmas, estimulam a curiosidade. As artes, pessoas que atuam em profissões
exóticas, sites diferentes são fontes inspiradoras. O foco não está sendo
desprezado, mas sim servindo de atalho para chegar a idéias originais. O
Estímulo Aleatório, uma das mais populares técnicas de geração de idéias criada
por Edward de Bono, utiliza justamente a associação da situação a temas não
relacionados para provocar alternativas diversificadas.
Comece sua busca já. Passe a observar o mundo com olhos ávidos. Einstein dizia
que não dá para resolver um problema com a mesma atitude mental que o criou. É
quase tão difícil quanto inovar olhando apenas para o que já foi criado.
Gisela Kassoy - Consultoria em Criatividade - www.giselakassoy.com.br