Uma coisa pouco compreendida pela maioria dos
empresários e executivos é que suas empresas e
também suas equipes de vendas são organismos
“vivos”. Nascem e crescem, evoluem ou morrem.
De acordo com Larry Greiner, que escreveu em 1972,
na Suíça, um artigo até hoje considerado um dos
grandes clássicos da gestão – Evolução e Revolução
no Crescimento das Empresas – existem
fundamentalmente cinco grandes fases numa empresa:
1) Criatividade: ao abrir uma empresa, ou formar uma
equipe de vendas:
- todas as forças são canalizadas para abrir o
mercado;
- iniciativa, proatividade e criatividade para lidar
com poucos recursos e carga intensa de trabalho;
- atividades administrativas são negligenciadas – o
que interessa é faturar;
- a equipe atua próxima dos clientes e reagem
rapidamente à concorrência.
Todas essas características são fundamentais no
começo, mas também são as causadoras dos problemas
que impedem a empresa de crescer. Um número maior de
vendedores começa a entrar e nem sempre o gerente
consegue dar a atenção que dava antes. A
comunicação, antes puramente informal, já não pode
continuar assim: a rotatividade da própria equipe
faz com que os novos vendedores, que não conhecem
todo o passado da empresa, passam a querer fazer
também as coisas do seu jeito.
Surge então a primeira crise, que é a da liderança.
Quem vai organizar e maximizar os resultados da
equipe? Essa crise de liderança é que leva à segunda
fase, que é a da direção.
2) Direção: as empresas que sobrevivem à primeira
crise e conseguem se organizar geralmente passam por
um período muito fértil de crescimento:
- atividades passam a ser mais especializadas;
- departamentos são criados para cuidar de coisas
específicas e liberar os vendedores para fazer o que
sabem fazer, que é vender;
- estruturas de remuneração e incentivo são criadas
formalmente;
- comunicação passa a ser mais formal, pois crescem
os níveis hierárquicos, as responsabilidades e o
número de pessoas na equipe;
- o gerente reina supremo na equipe, recebendo uma
responsabilidade, mas geralmente também bastante
liberdade na forma de cumpri-la.
Embora canalize melhor os esforços da equipe e seja
um grande avanço em relação à fase anterior,
trazendo benefícios financeiros evidentes, logo fica
claro que o distanciamento que é criado entre a
liderança da empresa e os clientes pode trazer
problemas sérios. A equipe passa a exigir mais
liberdade para agir e decidir (negociando descontos,
por exemplo). O problema é que a equipe não foi
treinada para decidir estrategicamente e não entende
como suas decisões de curto prazo afetam resultados
e lucratividade da empresa.
Muitas empresas vão à falência nessa fase, por
reagirem de forma negativa: tentando centralizar
tudo em vez de delegar, treinando a equipe
adequadamente para lidar com as novas
responsabilidades. Por não querer perder o poder,
muitos líderes limitam severamente a forma como
oportunidades são reconhecidas/aproveitadas,
alimentando de forma direta o surgimento de
concorrentes.
3) Descentralização: o próximo passo do ciclo de
crescimento é o da delegação/descentralização:
- começam a se criar responsabilidades e divisões
mais claras dentro da equipe: separação por
territórios, tipo de cliente etc.
- a remuneração é atrelada não apenas a volumes de
venda (faturamento) mas à qualidade (lucro);
- a gestão de pessoas é feita pela exceção: os que
vão excepcionalmente bem são bem recompensados, os
que vão mal são advertidos ou punidos, e o pessoal
do meio vai levando;
- a comunicação/controle da gerência passa a ser
feita de maneira mais distante (por telefone/e-mail
e breves visitas) para ver como andam as coisas.
A delegação é muito positiva, porque estimula as
pessoas de níveis mais baixos a darem idéias e
“vestirem a camisa”. É como se eles fossem os donos
de sua própria miniempresa. Isso seria ótimo se não
começasse a causar um grave problema: a
descoordenação entre áreas importantes da empresa.
Justamente por terem liberdade, muitos departamentos
e profissionais começam a achar que seus objetivos
pessoais são mais importantes do que os
corporativos. Feudos internos são criados e a falta
de coordenação cria a terceira crise, que é a do
controle. A forma errada de lidar com isso é tentar
novamente centralizar tudo. A forma correta de
evoluir é procurar a coordenação.
4) Coordenação:
- criam-se estruturas formais (comitês) para
coordenar atividades dentro e fora da empresa;
- surgem as grandes linhas de produtos/serviços;
- contratam-se pessoas para uma estrutura gerencial
cuja única função é cuidar e supervisionar a
coordenação dos departamentos;
- investimentos passam a ser avaliados pelos comitês
e decididos de acordo com discussões estratégicas
sobre posicionamento, retorno e risco.
Todos esses sistemas de coordenação ajudam a empresa
a continuar crescendo através da alocação mais
eficiente dos seus recursos. Os comitês ajudam a
desenvolver a visão estratégica dos participantes,
encorajando-os a olhar além do seu próprio
departamento. O problema que começa a surgir aqui é
o excesso de burocracia, com muitos relatórios e
demasiadas reuniões. Procedimentos e padrões começam
a engessar a criatividade e a iniciativa, destruindo
a inovação dentro da empresa. O excesso de
burocracia e a lentidão causam um conflito e nós
leva à quinta fase, a da colaboração.
5) Colaboração: para vencer a forte burocracia:
- começam a surgir dentro da empresa grupos
paralelos informais que colaboram para resolver em
conjunto os problemas causados pelo engessamento e
excesso de regras;
- ao invés de comitês formais, migra-se para o
formato de “times”, criados rapidamente para
resolver uma situação ou cuidar de projetos
específicos. Uma vez resolvido o problema ou
terminado o projeto, desmonta-se o time e criam-se
outros para resolver coisas distintas.
A quinta fase é a mais flexível e evoluída das
fases. Treinamentos e programas educacionais
técnicos fazem parte da rotina da empresa.
Informações financeiras, vendas, lucratividade, etc.
são públicas e discutidas com freqüência. A
remuneração é mais voltada para os resultados do
grupo do que resultados individuais. Experimentar
novas práticas e idéias de gestão é fortemente
estimulado.
Uma empresa para crescer tem de passar por todas
essas fases, nessa ordem. Cada uma tem o seu porquê
de ser,e ao mesmo tempo que resolve defeitos da fase
anterior, também cria seus próprios problemas,
obrigando a empresa a evoluir – ou morrer. E evoluir
é desconfortável, pois nos obriga a questionar
práticas que deram certo no passado, mas que podem
afundar a empresa no futuro.
Com base nessa evolução que acabamos de apresentar,
um bom líder saberá reconhecer o momento pelo qual
está passando, prever as dificuldades à frente e
estrategicamente tomar as medidas preventivas (e
proativas) necessárias. Saberá também reconhecer que
o perfil de gerenciamento muda com a evolução da
própria empresa. E o mais importante: entenderá que
existe um ciclo natural e que, ao não evoluir, a
empresa cava sua própria cova. Obter maus resultados
e até falir geralmente é efeito da incompetência em
avaliar e reagir corretamente ao ciclo evolutivo.
Em que ciclo sua equipe/empresa está?
Raúl Candeloro (raul@vendamais.com.br) é palestrante
e editor das revistas VendaMais®, Motivação® e
Liderança®, além de autor dos livros Venda Mais,
Correndo Pro Abraço e Criatividade em Vendas.
Formado em Administração de Empresas e mestre em
empreendedorismo pelo Babson College, é responsável
pelo portal www.vendamais.com.br.

