Construindo Marcas que vendem
Por Nori Lucio Jr.
14/04/2009
A marca é, e
continuará sendo, cada vez mais importante para o sucesso das organizações que
pretendem competir pelo tão disputado espaço no cérebro do consumidor, seja ele
um indivíduo ou uma empresa.
A marca, para sobreviver e principalmente crescer “saudável” num mundo
digitalizado, enfrenta novos, desconhecidos e, portanto mais complexos desafios.
No passado para o processo de construção e manutenção da marca aplicavam-se
fórmulas tradicionais de propaganda que hoje surtem pouco ou nenhum efeito no
público-alvo que está muito mais bem formado, informado e conseqüentemente mais
maduro.
Com o excepcional desempenho da economia mundial dos últimos anos, o novo
consumidor tem dinheiro e principalmente crédito fácil. Ele está mais exigente e
quer experimentar o que compra e quer também interagir com a marca de alguma
forma.
Exemplo de interação:
Clube de usuários, newsletter com novidades, informações sobre acessórios, novos
modelos e lançamentos futuros, programas de fidelidade etc.
A má notícia para os gestores mais afoitos e normalmente com pouca capacidade de
planejamento e sem disciplina de execução, é que não existe forma ou fórmula
mágica de construção de marca que não envolva a variável tempo.
Construção de marca é um trabalho de equilíbrio entre coerência estratégica,
consistência na execução.
Um alerta importante nesta fase de angústia e ansiedade na busca por um milagre
instantâneo seria: Não contar com fórmulas miraculosas vindas de “diretores de
criação” nem cair na falácia de agências caras. Normalmente, este grupo ainda
pertence à escola antiga de comunicação que busca como prioridade premiações e
badalações. Pertence a um ecossistema todo particular, no qual sua empresa não
está incluída. Sua empresa é apenas e tão-somente quem paga a altíssima conta.
O ponto central para construção de uma marca eficaz, que vende, está
primeiramente na elaboração de objetivos e estratégias compreensíveis e que
reflitam a competência central da empresa. Aí, sim, vem o plano de comunicação
que deve considerar um conjunto de variáveis, entre elas o volume de impactos em
todo(s) tipo(s) de audiência(s) que orbita(m) no mercado em que sua empresa
atua.
Este enorme volume de impactos tende a tornar a experiência da marca superficial
e na maioria das vezes distrai um determinado público-alvo que acaba por não
compreender com clareza a proposta de valor de uma marca por meio de seus
produtos e serviços.
De onde vem a distração então...
Além dos tradicionais meios de TV e revistas, estão nascendo e amadurecendo
rapidamente outros meios de comunicação agora de “mão dupla”, com tecnologias
chamadas convergentes que se caracterizam pela interação com o consumidor de
forma instantânea, a qualquer hora e em qualquer lugar.
Alguns exemplos:
Blogs, E-Commerce, email marketing, TV digital com IP, Wireless, smartphones,
iphones, centrais de televendas, SMS entre outras que certamente virão cada vez
mais sofisticadas.
Apesar da inevitabilidade de termos que conviver com estes novos meios, um ponto
negativo dá-se por sua característica intrusiva, ou seja, são “pop-ups” que
abrem no seu site preferido sem sua autorização, SPAMs que chegam à sua caixa
postal, SMS que chegam aos telefones celulares, ligações inconvenientes de
operadores de telemarketing na hora do jantar, etc.
A grande maioria dos “marketeiros” já percebeu este movimento de inovação e vem
substituindo, de forma acelerada, em seus planos de marketing e comunicação as
mídias tradicionais, chamadas “off-line” por programas de geração de demanda com
resposta direta. Aqueles do tipo “só sábado!” ou “ligue nos próximos 10
minutos”.
Para ganhar eficiência nestes programas, empresas estão implementando
ferramentas sofisticadas de CRM (customer relationship management) e BI
(business intelligence).
A marca afeta o comportamento das pessoas
Num passado recente era mais freqüente o surgimento de marcas que hoje se
tornaram verdadeiras lendas. Naquela época, a experimentação do produto, o
envolvimento, era construído mais lentamente.
Os detalhes eram mais bem degustados pelos usuários que acabavam por incorporar
determinados produtos em seu dia-a-dia a ponto de determinarem um estilo de vida
peculiar, caracterizado por um conjunto de atitudes que influenciaram desde a
for
ma com que certos grupos de pessoas se vestem, sua linguagem corporal, até tom
de voz.
As marcas legendárias têm influência sobre estes grupos quase como os mitos têm
sobre seus fãs, ou seja, despertam reações,
estabelecem pontos de vista, opiniões, transformam-se em souvenires como
camisetas, bonés, etc.
A representação gráfica - o famoso “LOGO”
Existem várias escolas de pensamento que analisam a marca em seus diferentes
aspectos. Umas enfatizam a representação gráfica, traços artísticos, símbolos
quase tratando a marca como uma jóia. Outras observam aspectos culturais,
cognitivos e até antropológicos.
Independentemente da tendência mais cognitiva ou mais artística, a busca é por
um único resultado, ou seja, pelo reconhecimento da marca.
Empresas querem que seus clientes recebam toda a carga de atributos que
caracterizam sua essência, dando a ela, a marca, uma narrativa única, original,
inovadora e por fim autêntica.
Toda marca tem uma narrativa, uma história que a define com maior ou menor
intensidade e rigor de detalhes.
Quanto mais
consistente e coerente for a construção da marca ao longo dos anos, mais fiel
será a construção de sua narrativa e, conseqüentemente, a reprodução durante sua
perpetuação no decorrer do tempo.
A propaganda especificamente deve reforçar esta narrativa, mas não tem o poder
de criar a marca por si só. Propaganda é como um alto-falante gigante que
reproduz a história para milhões de pessoas. Não tente criar sua marca por meio
da propaganda como tática única.
Existe uma frase antiga, boa para reflexão.
“Tenho certeza que metade do que gasto em propaganda vai para o lixo, só não sei
qual metade.”
Nenhum “marketeteiro” tem a chave ou a fórmula mágica de como transformar uma
marca ordinária em lenda. A compreensão de como o cérebro interpreta certos
estímulos a ponto de associá-los ao inconsciente coletivo e transformar uma
marca em mito é desconhecida.
Não existem fórmulas nem livros que expliquem a criação de fenômenos como Nike,
Harley-Davidson, Apple, entre outras relatadas em qualquer publicação de
marketing.
Em comum estas marcas possuem narrativa e vida própria, que independem do
diretor de marketing que as gerencia por certo período de tempo. O gestor de
marketing não tem domínio sobre o caminho que estas marcas irão trilhar. Assim
como elas são criadas por estímulos que ativam áreas cognitivas desconhecidas,
outros estímulos podem neutralizá-las.
Normalmente isso ocorre quando se tenta racionalizar este relacionamento “marca
versus consumidor” por meio da propaganda criada a partir do resultado da
pesquisa de mercado que tentam explicar o inexplicável.
O “case” Coca Cola, por exemplo, numa situação de desespero, tentou alterar seu
sabor original para reconquistar o mercado do concorrente. Investiu milhões em
pesquisa, mudou a fórmula, o nome do produto e como conseqüência teve que voltar
atrás para não arruinar o que restou.
Outro “case”
Outro fator de neutralização mercadológica é o poderio econômico das empresas
líderes de mercado. A Microsoft e a Intel, por exemplo, conseguiram durante anos
confinar a Apple num nicho de mercado. Até aí sem problemas. Foram ações
puramente mercadológicas tomadas pelos dois gigantes da indústria. O programa
Intel Inside é o maior exemplo de todos os tempos de marca ingrediente criada
pelo por gênio chamado Dennis Carter, então VP de Marketing da Intel. A
Microsoft, que se transformou em símbolo do PC mais que o próprio hardware,
também foi protagonizada por Bill Gates.
Assim que os dois gigantes pararam para dar uma respirada e relaxaram de certa
forma na liderança, a Apple retornou com força ainda maior e conquistou
reconhecimento em segmentos de mercado criados pelas próprias gigantes da
indústria: -MP3 é sinônimo de iPod! -Notebook está ficando mais para Apple do
que para o processador que o equipa.
Vale ressaltar outro gênio inovador, Steve Jobs: sai da Apple, cria Pixar, quase
compra a Disney que é obrigada, mercadologicamente falando, a comprar a Pixar
por vários bilhões de dólares, Steve retorna a Apple e daí para frente veja o
que aconteceu com as ações da empresa.
Conclusão: Neste caso, mesmo empresas éticas, sérias e líderes em seus segmentos
como Intel e Microsoft, empresas que determinam os padrões tecnológicos que o
mundo deverá utilizar, simplesmente não conseguem aniquilar totalmente a força
da marca Apple.
No Brasil, a penetração de iPods é incrível mesmo sem a Apple ter investido R$1
em propaganda nos últimos anos.
Outro “case” - este ainda em andamento
Outro exemplo de embate mercadológico que vem se configurando rapidamente está
entre a Microsoft e o Google.
O Google inicialmente se aproveitou do mesmo efeito anestésico e com muita
competência, agilidade e inovação conquistou a internet de forma irreversível. A
Microsoft está correndo atrás com todas as suas forças e ferramentas. Tentou até
comprar o Yahoo. O que está em jogo neste caso é o “modelo de uso” da internet,
ou seja, se o sistema operacional e os aplicativos continuarem no PC, a
Microsoft, que detém mais de 90% de participação de mercado, venceria este
embate. Se, por outro lado, o “modelo de uso”, juntamente das ferramentas de
produtividade, migrar para internet, o Google é que teria a vantagem e provável
liderança. Só o tempo dirá quem vencerá a batalha. Não muito tempo!
Como tudo que nos cerca no mundo, o sucesso depende da originalidade, que quase
sempre está associada à inovação. A velocidade das mudanças na economia mundial
exige das empresas uma constante renovação em suas ofertas de produtos.
No entanto, vale lembrar que:
“Produtos vêm e vão, a marca fica!”.
Nori Lucio Jr. é
fundador da brandMe, consultoria especializada em planejamento estratégico. - 20
anos de experiência na indústria de tecnologia, com passagens pela gerência de
marketing e comunicação na Intel® e Microsoft®. Formado em marketing, com
especializações no Brasil e exterior, respondeu pelo desenvolvimento de vários
projetos relacionados a construção de marca, marketing & comunicação e
desenvolvimento de canais de venda no Brasil, América Latina e Estados Unidos.