A Difícil Arte da Liderança
Por Jerônimo Mendes
11/01/2009
Depois de escrever o artigo O CHEFE, publicado no meu primeiro livro, reconheço
que fiquei com aquela sensação desconfortável de arrependimento. Minha impressão
era a de que, cada empresa que eu visitava, cada gerente que eu apertava a mão,
cada empresário que me recebia, sisudo ou sorridente, queria mesmo me dar uns
bons tabefes na orelha e contestar palavra por palavra daquele artigo, mas com
jeitinho fui esclarecendo minhas intenções e quebrando a frieza alheia, a qual,
de fato, existia apenas na minha cabeça.
Os insatisfeitos, assim como eu naquela época, até elogiavam o artigo e
compactuavam com as idéias ali mencionadas, porém, como me fez refletir certa
vez o Max Gehringer, numa gentil troca de e-mails, imagine você na cadeira do
Presidente da empresa, lendo aquele artigo e tentando se convencer de que isso
não foi escrito para a sua pessoa, afinal, chefe é chefe, e qualquer crítica
mais contundente lhe diz respeito.
Naturalmente, muito do que foi dito no artigo reflete a realidade nua e crua do
ambiente corporativo, mas a forma como foi escrito soou mais como uma explosão
de sentimentos pessoais do que lições a serem ensinadas para quem deseja superar
o abismo existente entre o chefe propriamente dito e o líder servidor, conceito
utilizado por James Hunt, autor de O Monge e o Executivo.
Há algum tempo tive o trabalho de relacionar o nome, a empresa e a quantidade de
presidentes, gerentes, coordenadores e outros profissionais de liderança que
cruzaram o meu caminho durante 30 anos de carreira, completados em agosto de
2007, em oito empresas diferentes, sem mencionar aquelas com as quais tive
contato, ora como cliente, ora como fornecedor. São mais de 100, nos mais
variados estilos, uma escola e tanto de aprendizado.
Na primeira vez em que eu perdi o cargo de liderança e, sutilmente, fui
disponibilizado para o mercado de trabalho, tinha sob o meu comando uma equipe
de 65 profissionais. Naquele momento descobri como é difícil manter a firmeza e
a pose diante das pessoas que até então viam em mim, o líder, a esperança de um
futuro melhor, fosse pela oportunidade profissional que concedi a eles, pelos
meus exemplos ou pela forma simples de conduzi-los diante das dificuldades.
O fator preponderante no mundo dos negócios, para quem exerce papel de
liderança, é o resultado. E o resultado nem sempre aparece ou importa quando
mais precisamos dele. E mais ainda, o sucesso no passado não garante o sucesso
no futuro. Significa dizer que o líder vive na corda bamba, alternando entre
momentos de alegria e de depressão.
Com relação à liderança, vale a pena resgatar o pensamento de Nicolau Maquiavel,
autor de O Príncipe: “Aqueles que se tornam príncipes pelo seu valor conquistam
domínios com dificuldade, mas os mantém facilmente; a dificuldade se origina em
parte nas inovações que são obrigados a introduzir para organizar seu governo
com segurança. Vale lembrar que não há nada mais difícil de executar e perigoso
de manejar (e de êxito mais duvidoso) do que a instituição de uma nova ordem das
coisas”.
Você faz um esforço razoável na empresa, investe dinheiro do próprio bolso no
aprimoramento das técnicas de liderança, domina dois ou três idiomas, persegue
literalmente uma posição melhor no plano de carreira, aproxima-se do líder sem
necessidade de bajular o sujeito e, quando mais espera ou menos espera, surge a
oportunidade desejada. Nesse momento você lembra que chefe é aquilo que você
sempre quis ser, mas odeia ter.
Com o tempo percebe-se também que quanto mais amigos você tem no trabalho, maior
a probabilidade de perdê-los a cada degrau conquistado na escada do poder, por
uma simples razão: o poder corrói relacionamentos. Enquanto você é um modesto
colaborador e ocupa um cargo operacional, porém não menos importante, existe a
grande possibilidade de dividir as tarefas, de trabalhar em equipe, de
compartilhar as dores e preocupações com os colegas mais chegados e, quem sabe,
até falar um pouco mal do chefe, para o bem dele, é óbvio.
A partir de agora você é o chefe, o magnânimo, e não está preparado. As relações
mudam radicalmente. Além de ter que mostrar condições de exercer o cargo sem
perder o espírito de equipe daqueles que se diziam seus amigos, você deve tomar
o máximo cuidado para não deixar o nariz ultrapassar o nível dos olhos e para o
ego não superar o saldo da sua conta corrente.
Cargos de liderança exigem uma qualidade fundamental que poucos se dispõem a
conquistar e aperfeiçoar: a arte de lidar com pessoas. Isso é algo tão complexo
que não se aprende da noite para o dia. Basta o ser humano olhar para dentro de
si mesmo e avaliar o quanto ele torna as coisas difíceis, por mais simples que
pareçam, o quanto é intransigente e, por vezes, individualista quando mais se
precisa dele.
Após determinada fase da vida, as pessoas não mudam assim facilmente, apenas se
adaptam a uma condição por um período. Um simples descontentamento é suficiente
para fazê-las voltar à forma original. Ninguém muda ninguém, nem mesmo um líder.
Como dizia Tolstoi, célebre escritor russo, as pessoas querem mudar o mundo, mas
não querem mudar a si mesmo. Portanto, pouco adianta ler uma infinidade de
livros a respeito do assunto se o indivíduo não estiver imbuído do espírito da
liderança e não mudar radicalmente a sua forma de pensar e agir.
Tornar-se um líder servidor é muito mais prático na teoria, pois demanda um
esforço interior disciplinado para o entendimento da alma humana. O resultado é
determinado pelo nível de paciência, de humildade, de respeito, de honestidade e
de comprometimento com o desenvolvimento das pessoas.
Líder é aquele que consegue extrair resultados positivos através da sua
habilidade de influenciar pessoas em torno de objetivos comuns. Entretanto, as
pessoas têm seus próprios objetivos e, por uma questão de sobrevivência, são
remuneradas para atingir objetivos alheios. Isso conflita com os seus
interesses.
Desejo muito que você passe por essa fantástica experiência de liderar uma
equipe ou de administrar uma empresa e, quando isso acontecer, torço para que
conserve a essência da liderança. Ela terá tudo a ver com o seu caráter ou com a
falta dele, portanto, considere as seguintes atitudes e comportamentos para se
tornar um líder em absoluto:
1. O líder vê a liderança como responsabilidade e não como um cargo ou
privilégio. Se as coisas não caminham conforme o planejado, o líder não sai
pelos cantos procurando culpados; ele assume a culpa e refaz o caminho;
2. A liderança surge quando as pessoas são capazes de trabalhar duro porque
acreditam nos objetivos, na missão, na visão e nos valores da empresa, não
porque existe alguém com o chicote ou o cronômetro em cima delas; você não
precisa bater o punho na mesa para adquirir o respeito do grupo;
3. Quando você é líder, as pessoas estão avaliando seu comportamento, portanto,
o seu caráter está em jogo; preocupe-se mais com o seu caráter do que com a sua
reputação; o caráter representa exatamente aquilo que você é;
4. Um simples cartão de visita faz de um profissional um presidente de empresa
ou um diretor, pouco importa se a empresa fatura 10 milhões ou 10 mil reais, se
dispõe de 10 ou de 10 mil empregados. Entretanto, somente a consciência do papel
da liderança e o aprendizado constante transformam um simples recém-formado da
USP ou o recém-chegado de Harvard num líder por excelência; penso que esse
processo dura, no mínimo, uma geração;
5. O líder é feito de carne, osso e espírito, creio eu, portanto, antes de
criticá-lo, imagine-se no lugar dele, torça pelo seu ótimo desempenho e, se
julgar conveniente, prepare-se para o lugar dele de forma discreta, sem ter que
puxar o seu tapete; além de antiético, é reprovável, deselegante e não agrega
nada ao seu currículo;
6. Um líder por excelência não precisa de uma platéia para promover o seu show
particular, a exemplo de muitos que encontrei pelo caminho e que faziam questão
de reunir três ou quatro, no mínimo, para humilhar um simples operário e
demonstrar poder; se sentir necessidade de promover um show de vez em quando,
associe-se a um grupo de teatro voluntário e convide amigos para assistir; é
muito mais louvável e sensato;
7. Nenhum líder é eterno. Todos os cargos de liderança são transitórios,
portanto, se você reprova o chefe, por razões estritamente profissionais, e não
pessoais, não sofra por antecipação; não há chefe incompetente que resista à
clava do destino, segundo Napoleon Hill, e um dia, quando você menos espera, ela
desce sobre a cabeça dele ainda que você não lhe deseje esse mal; e a clava não
é feita de algodão.
Portanto, ainda que você seja o chefe – ou o líder, se preferir – e o seu chefe
estiver com os nervos à flor da pele, dê a ele um crédito até que recobre o seu
o juízo perfeito. O comportamento muda, mas a sua natureza não. Sob extrema
pressão, a natureza humana é incapaz de se controlar. Nessas condições,
falta-lhe equilíbrio e serenidade e ele volta a ser um simples mortal, sujeito a
erros e deslizes de toda ordem.
Por fim, lembre-se: a liderança é uma qualidade que deve ser adquirida. As
pessoas anseiam por reconhecimento e um propósito de vida. Se você conseguir
ajudá-las a entender essa necessidade, certamente estará influenciando seu modo
de pensar e agir e, por conseqüência, os resultados serão os melhores possíveis
para a equipe e para a organização. Pense nisso e seja feliz.
Jerônimo Mendes é Administrador, Consultor e Palestrante
Autor de Oh, Mundo Cãoporativo! (Qualitymark) e Benditas Muletas (Vozes)
Mestre em Organizações e Desenvolvimento Local pela UNIFAE