Em janeiro de 2001, a Gol
Linhas Aéreas iniciou suas
atividades, a partir de um
grupo empresarial oriundo do
ramo de transporte
terrestre, e começou uma das
mais fantásticas trajetórias
empresariais brasileiras. A
empresa recém criada tinha
inicialmente um patrimônio
de vinte milhões de reais,
quantia irrisória para o
setor da aviação moderna.
Após seis anos de uma
verdadeira “aventura”
empresarial, passando pela
abertura de seu capital na
bolsa de valores, a empresa
foi avaliada em 12 bilhões
de reais e teve um
crescimento de 17 vezes em
seu faturamento. Em 2007,
para fechar com chave de
ouro este ciclo de sua
trajetória, arrematou a
Varig, ex-empresa líder, e
abriu caminho para novas
possibilidades de
crescimento.
Mas qual a explicação para
tamanho desempenho? Como
pode um grupo empresarial,
aparentemente sem nenhuma
experiência no ramo da
aviação, sair de uma
participação de mercado de
menos de 5%, e conquistar
37% do mercado em apenas 6
anos de vida, passando por
cima de empresas gigantes e
tradicionais no setor da
aviação. Será que este
desempenho excepcional é
apenas fruto da genialidade
de alguns homens, ou eles
tiveram muita sorte?
Acreditamos que,
conscientemente ou não, a
GOL empreendeu esta aventura
utilizando um conjunto de
ações e estratégias
competitivas, que a exemplo
de outras empresas no Brasil
e em outros países, foram
responsáveis pelo seu
formidável sucesso.
Empresas internacionais como
o McDonalds, a Microsoft, o
Cirque du Soleil e mais
recentemente a Google, e as
brasileiras Alpargatas,
Casas Bahia, Dedini
Industria de Base, Taurus e
mais recentemente as lojas
Ricardo Eletro, fizeram algo
diferente das demais
empresas de seu setor de
atividade e por isto se
modificaram a ponto de
conquistarem uma “inovação
de valor” significativa para
seus clientes e, com isto,
deixaram seus concorrentes
para trás.
Existe um padrão de
comportamento nestas
empresas, e segundo os
autores do livro “A
estratégia do oceano azul”,
este padrão, ou método de
trabalho, pode ser
sistematicamente modelado,
copiado e executado por
qualquer outra empresa ou
profissional. Compreender o
que ocorreu com empresas
como a GOL, pode ser útil e
permitir que outras
organizações, mesmo em
segmentos de mercados
diferentes, possam copiar as
idéias básicas, á luz da
teoria da “Estratégia do
Oceano Azul“ e aplicá-las em
seu contexto particular.
Neste texto vamos analisar
as ações que foram
implementadas pela GOL, e
compará-las com algumas
técnicas sugeridas pelos
autores do livro, assim
ficará mais fácil entender o
funcionamento da teoria na
prática. Cham Kim e Renee
Malbourne sugerem que é
preciso realizar quatro
passos para visualizar o
contexto da empresa no
mercado e assim implantar a
estratégia.
Segundo os autores é preciso
começar com uma mudança de
foco e parar de olhar apenas
para as empresas
concorrentes. É necessário
pensar em novas
oportunidades. Buscar
competências alternativas,
pesquisar as empresas
estratégicas que estão se
saindo bem no mercado,
inclusive em outras áreas,
examinar sua cadeia de
clientes, pois seu futuro
cliente pode estar
atualmente em um mercado
complementar ao seu.
Examinar a oferta de
produtos e competências
complementares e observar as
tendências de mercado e não
apenas os modismos.
A seguir os quatro passos de
visualização desta
estratégia:
Passo 1 - O despertar visual
Para realizar o despertar
visual, é preciso analisar
suas competências e suas
qualidades positivas e
negativas. Uma empresa como
a GOL, ao analisar suas
competências, compreendeu
que tinha diversas
qualidades para competir no
mercado da aviação, mas
também diversos “defeitos”,
ou limitações.
Como qualidade, a GOL tinha
a experiência de ter sido
bem sucedida no ramo de
transporte terrestre, tinha
uma estrutura de custos
enxuta, tinha a humildade de
saber que era uma pequena
empresa num mercado de
grandes corporações e tinha
um grande conhecimento de
relacionamento com clientes
de baixa renda.
Como “defeito”, a GOL tinha
uma grande limitação de
recursos e pouca experiência
no ramo da aviação.
Provavelmente estas
“limitações” ajudaram a
empresa a desenvolver
estratégias diferenciadas
das outras empresas do
setor, o que, em grande
medida, foi responsável por
seu sucesso.
Passo 2 - A exploração
visual
Uma vez consciente de suas
qualidades e limitações, a
empresa precisa conhecer
agora o mercado, os
concorrentes e os clientes.
É necessário imaginar as
tendências futuras e
perceber antes dos
concorrentes o que é valor
hoje e o que será valor
amanhã para o mercado. Para
isto, é preciso pesquisar,
conhecer, conversar com
clientes, ir ao mercado,
descobrir tudo que puder
sobre os clientes e sobre os
concorrentes.
Nesta etapa, provavelmente a
GOL estudou o comportamento
de seus principais
concorrentes e tentou
imaginar uma forma de agir
diferente para poder
competir num mercado tão
difícil.
Ao analisar a concorrência a
GOL percebeu que era inútil
tentar vencer em um mercado
tão competitivo disputando
os mesmos espaços que as
empresas tradicionais no
setor, assim buscou
encontrar formulas
alternativas de atuação. A
resposta óbvia para os
executivos da GOL era tentar
conquistar o tipo de cliente
que ela conhecia tão bem, ou
seja, os usuários das linhas
de transporte terrestre.
Dessa forma, montou todas
sua estratégia para
conquistar este tipo de
cliente que vinha sendo
negligenciado pelas outras
companhias.
Passo 3 – Visualização da
estratégia
Nesta etapa é preciso montar
seu plano
tático-estratégico, uma vez
que a empresa já fez uma
análise de suas próprias
competências e já conheceu
melhor o mercado para
definir qual será o melhor
plano estratégico a
executar.
A GOL tinha definido
competir na parte baixa do
mercado da aviação civil, ou
seja, conquistar os clientes
de baixa renda que teriam
interesse em utilizar os
seus serviços, desde que
tivessem condições para tal.
Para isto, a GOL buscou
implantar um sistema de
custos reduzidos que pudesse
viabilizar sua estratégia.
Começou por mudar a forma de
comercialização das
passagens, realizando
praticamente todas suas
operações pela internet, e
eliminando os
intermediários, o que
significou uma redução
significativa em seus
custos. Em seguida,
implantou um sistema de
viagens sem luxo algum, em
termos de atendimento de
bordo, o que era comum na
aviação. O resultado? Mais
redução de custos.
Outra “cartada genial”, foi
a utilização de promoções
noturnas, com passagens a
baixíssimo custo. Os aviões
que antes ficavam parados no
pátio dos aeroportos,
passaram a realizar viagens
noturnas, “lotados”, o que
significou uma entrada de
dinheiro extra, que não
viria de outra forma.
A estratégia obteve tanta
aceitação, que a GOL não
apenas conseguiu conquistar
novos passageiros para a
aviação civil, oriundos das
companhias terrestres, como
também, seduziu antigos
passageiros que utilizavam a
aviação comercial e que
toparam viajar de acordo com
as novas regras, pagando
preços mais acessíveis.
Parte 4 – fazendo a
comunicação ao mercado
Montada a estratégia, só
restava a GOL comunicar seu
plano ao mercado, e a
companhia o fez de forma
competente, sem vergonha
alguma. A mensagem era a
seguinte: “olha pessoal,
chegou a hora de popularizar
o transporte aéreo, viajar
de avião pagando preço de
passagem de ônibus”.
Como tinha um sistema de
custos operacionais que
chegavam a ser 60% menores
do que seus principais
concorrentes, a GOL
conseguiu viabilizar sua
estratégia. Em muitos casos,
numa viagem entre Rio e São
Paulo, ou São Paulo e Belo
Horizonte, por exemplo, era
mais econômico viajar de
avião do que de ônibus
Leito.
A partir da comunicação de
sua estratégia ao mercado, a
GOL rápidamente construiu
novas fronteiras para o
mercado da aviação civil, e
passou a ocupar sozinha este
mercado. Como não tinha
concorrentes, a empresa
passou a nadar no oceano
azul da aviação civil.
A lição que se pode tirar
deste caso: competir em
mercados altamente
disputados exige um enorme
esforço e os resultados em
geral são sempre abaixo das
expectativas da maioria das
empresas competidoras. Mas
ao contrário, competir em
mercados inexplorados, ou
oceanos azuis como estamos
denominando, permite às
empresas experimentar grande
crescimento de demanda e
obterem ótimos resultados
financeiros.
Portanto sugerimos às
empresas de qualquer setor
da economia que, a exemplo
da GOL, realizem os quatro
passos para visualização da
estratégia do oceano azul, e
descubram novos mercados ou
novas fronteiras para seu
antigo mercado, criando uma
“inovação de valor” e
construindo as bases para
seu crescimento presente e
futuro.
Ari Lima é
empresário, engenheiro,
consultor em marketing
pessoal e gestão de
carreiras e especialista em
marketing e vendas.
Desenvolve treinamento em
marketing pessoal e
marketing jurídico para
profissionais liberais,
empresas, escritórios e
estudantes universitários.
Ministra cursos, seminários
e palestras realçando o lado
prático e funcional do
marketing e escreve artigos
diariamente para diversos
sites e revistas. Além de
uma sólida formação teórica,
possui 25 anos de
experiência prática em
gerenciamento e treinamento
de vendedores e de gerentes
de vendas, bem como
atendimento a clientes.

