A Gestão do conhecimento no seu quintal
Por Carlos Alberto de Faria
02/07/2008
A consultoria McKinsey, a maior firma de consultoria do mundo, provavelmente a
melhor do mundo, lançou esta semana (06 a 12.06.2004), um artigo sobre o mercado
interno do conhecimento nas empresas. A leitura do texto resumido da McKinsey
provocou este artigo.
No “e-mail” de chamada para ler o artigo há a seguinte frase:
“Para as empresas, e também para os seus empregados, o conhecimento é poder – e
lucro.”
Vamos apresentar dois aspectos importantes da gestão do conhecimento:
- uma universidade, em geral, possui uma grande concentração de conhecimento,
mas não possui um sistema de compartilhamento desse conhecimento, o que faz com
que o brilho individual cresça e o brilho coletivo seja apagado;
- o McDonalds seleciona empregados com baixa experiência e conhecimento
reduzido, em comparação com uma universidade; no entanto, a sua atuação com mais
de 30.000 restaurantes, em 119 países, servindo mais de 47.000.000 de sanduiches
aos clientes todo o dia, mostra ser uma organização muito inteligente,
coletivamente inteligente, pois garante uma qualidade em diversas culturas. O
McDonalds padronizou o seu conhecimento, de tal forma que facilita a sua atuação
em qualquer cultura, em qualquer parte do mundo.
Na universidade, o conhecimento é poder, mas carece de um sistema que garanta a
circulação desse conhecimento. Não nos parece, inclusive, que seja obrigação das
universidades, essa circulação interna do conhecimento, pois o foco das
universidades é a geração do conhecimento.
No McDonalds, o conhecimento circula e, além de conferir poder, confere lucro. O
conhecimento, limitado, que circula é como fazer negócio com lanches rápidos.
Nós podemos criar conhecimento, obter conhecimento, disseminar conhecimento,
adaptar conhecimento, utilizar-se do conhecimento, aprimorar o conhecimento.
A tão propalada gestão do conhecimento busca conferir vantagem competitiva às
empresas, pois:
- o maior, e único, ativo que pode fazer diferença, é a informação,
- hoje, para uma boa idéia não falta capital de risco.
Dentro desta atividade de ponta, a gestão do conhecimento – os primórdios de sua
utilização, na administração, estão localizados no meio dos anos 90 -, há alguns
conceitos que devem, e podem ficar, claros para os empresários e empreendedores.
Coisas simples, mas úteis. É sobre estas atividades ou tarefas simples e úteis
da gestão do conhecimento que estamos tratando neste e no próximo artigo (A
Gestão Do Conhecimento E A Padronização).
Com o conhecimento há duas atividades principais, que se deve fazer: obter e
disseminar.
A grande maioria dos esforços de gestão do conhecimento, nas empresas, foca a
obtenção do conhecimento externo a essas empresas, mas isso pode estar deixando
para trás o conhecimento interno acumulado durante toda a existência da sua
empresa, devido a algumas possíveis barreiras culturais.
O reconhecimento de que há um grande volume de conhecimento interno à empresa,
acumulado e não disseminado, pode possibilitar o estabelecimento de vantagem
competitiva única e impulsionar ganhos significativos de produtividade.
Imagine que a sua empresa acumulou, durante toda a sua existência, um conjunto
de conhecimentos, junto ao seu mercado-alvo, conhecimento ímpar, que só sua
empresa possui, sobre:
- as forças e fraquezas dos seus concorrentes;
- as melhores abordagens ao seu segmento;
- os clientes dos seus serviços e produtos;
- as melhores políticas e condições de preços;
- como produzir o que seu segmento quer;
- etc;
que, por si, podem fazer, sendo partilhados, compartilhados e empregados, com
que a sua empresa resolva problemas de vantagem competitiva e aumento de
produtividade. O que não é pouco, a um custo baixo e debaixo do seu nariz!
O reconhecimento, de que há um mercado de conhecimento efetivo interno, exige
menos investimentos em tecnologia. Mas exige esforços em dois aspectos
complementares:
- encorajamento dos empregados “proprietários” dos conhecimentos em “vender”
esses mesmos conhecimentos aos outros empregados, e
- encorajamento dos outros empregados em “comprar”, receber e aplicar esses
mesmos conhecimentos disponibilizados pelos “proprietários”,
pois pode haver, com freqüência, uma crença de que “santo de casa não faz
milagre”, crença esta que faz com que o conhecimento não circule, não seja
disseminado, impossibilitando tanto a “venda” do conhecimento quanto a sua
“compra”.
Note, que com esta última colocação, estaremos lidando com a mudança de uma
cultura interna da sua empresa. Caso este mercado do conhecimento não esteja
sendo utilizado, isto pode estar acontecendo por alguns motivos, que precisam
ser trabalhados, como por exemplo:
- baixa auto-estima: o que eu sei não é importante;
- falta de reconhecimento: não dão importância ao que eu sei;
- compartimentos estanques: falta de comunicação entre áreas complementares; ou,
cada macaco no seu galho;
- falta de comprometimento: ninguém se interessa pelo que eu sei;
- etc.
Caso o clima relatado acima seja o existente na sua empresa, adiantaria trazer
conhecimento externo para ser disseminado pela sua empresa?
Este novo conhecimento agregado, vindo de fora, teria condições de estabelecer
vantagem competitiva? Ele seria aprendido? Disseminado?
O novo conhecimento, vindo de fora, traria aumento de produtividade ou
aumentaria o ceticismo?
Este é o conceito de “organizações que aprendem”.
Sua empresa tem a atitude de aprender?
Os empregados gostam de disseminar conhecimento?
Tudo o que colocamos acima serve também ao seguinte propósito: a importância do
fator humano, mais uma vez!
A gestão do conhecimento exige um sistema de registro (não se pode perder
conhecimento quando empregados se desligam da empresa) e disseminação do
conhecimento (o conhecimento não pode ficar restrito a áreas específicas).
É do cruzamento e da interdependência do conhecimento que também nascem idéias
criativas, na fronteira entre as responsabilidades, na divisas obscuras do poder
dentro da empresa, nas interfaces, nessa área de ninguém.
E a gestão do conhecimento também exige uma cultura organizacional que não só
permita, mas promova e recompense a livre circulação de idéias, o que exige se
tenha empregados proativos, dispostos a aprender, debater, aprimorar e a
compartilhar, para gerar inovações na organização, alavancando vantagens
competitivas e aumento da produtividade.
Carlos Alberto de Faria é sócio diretor da Merkatus - Fonte: Merkatus