Novas Formas de Distribuição e Comercialização no Período de 1900 - 1910 - os primeiros Estudos em Marketing
Por Sérgio Luis Ignácio de Oliveira
18/11/2008

Resumo:
Este artigo objetiva discutir alguns aspectos importantes que influenciaram o surgimento do Marketing na economia norte-americana no inicio do século XX, influências estas decorrentes da Revolução Industrial, especialização e divisão do trabalho, aumento da população e de seu poder aquisitivo, crescimento das indústrias, entre outros. Em um cenário como este, rico em transformações, surge a necessidade do estudo de novas formas de distribuição, abrindo assim, espaço para o surgimento do Marketing, como disciplina que estuda as melhores formas de estudo e relacionamento com o mercado.

Abstract:
This article aims at to discuss some important aspects that influenced the appearance of the Marketing in the American economy in I begin him of the century XX, you influence these current of the Industrial Revolution, specialization and division of the work, increase of the population and of your purchasing power, growth of the you elaborate, among others. In a scenery as this, rich in transformations, the need of the study in new distribution ways appears, opening like this, I space for the appearance of the Marketing, as discipline that studies the best study forms and relationship with the market.

Palavras- Chaves:
Marketing, origem, Revolução Industrial e Distribuição.

Words - Keys:
Marketing, origin, Industrial Revolution and Distribution.



INTRODUÇÃO

Este artigo tem como objetivo estudar alguns fatores importantes para o surgimento da área de conhecimento denominada Marketing.
A escolha deste tema surgiu de uma carência que pode ser verificada nas disciplinas voltadas a esta área ministrado nas instituições de ensino, da não existência de uma abordagem de maneira interdisciplinar da “origem” desta área de conhecimento.È comum apenas mencionarem que o Marketing surgiu devido à necessidade das organizações em melhor estudar o mercado. Mas, porque existiu esta necessidade?
Para analisar esta problemática, é necessária uma abordagem mais aprofundada, e para isso fizemos um pequeno estudo dos fatores que poderiam ser importantes no surgimento desta disciplina tão importante em nossos dias.
A linha de raciocínio deste artigo, para que possamos ter uma idéia das características que levaram ao surgimento desta área de estudo, consistiu em verificar alguns fatores decorrentes da Revolução Industrial, como as inovações tecnológicas, o aumento da população e de seu poder aquisitivo, a produção em massa, a divisão do trabalho, a especialização da mão-de-obra e o surgimento das grandes corporações, fatores estes que ocorreram no final do Século XIX e inicio do século XX em nações assim denominadas industrializadas.
Este artigo é dividido em duas partes, sendo que na primeira faremos uma breve explanação sobre a evolução do Marketing desde o seu surgimento até os dias atuais. Na segunda parte, nos direcionaremos no período pós-Revolução Industrial até o ano de 1910, época datada do surgimento dos primeiros estudos em mercadologia.

A EVOLUÇÃO DO CONCEITO MARKETING
A palavra Marketing é uma das mais difundidas na sociedade ocidental, sendo atribuída a todos os fatores ligados a comercialização e a promoção de bens, serviços, idéias, como de pessoas e, devido a esta importância é utilizado por empresas com ou sem fins lucrativos.
O conceito de Marketing pode ser definido como uma filosofia empresarial que tem por objetivo satisfazer as necessidades e desejos de seu público alvo, ou como conceitua Kotler (1996:31), “Marketing é a atividade humana dirigida para a satisfação das necessidades e desejos, através dos processos de troca”.
Também podemos conceituar Marketing segundo Cobra (1992:33): “o processo de planejamento e execução desde a concepção, apreçamento, promoção e distribuição de idéias, mercadorias e serviços para criar trocas que satisfaçam os objetivos individuais e organizacionais” ou ainda Richers (2003:18): “(...) definimos Marketing como sendo as atividades sistemáticas de uma organização humana voltadas à busca e realização de trocas para com o seu meio ambiente, visando benefícios específicos”.
Analisando estes conceitos podemos perceber que Marketing é uma filosofia empresarial que tem por objetivo o estudo sistematizado do mercado com o intuito de avaliar determinada necessidade do seu público-alvo, desenvolver produtos para resolver este problema (necessidade), colocar em comercialização através de um preço adequado, no local certo e comunicar as vantagens destes produtos ou serviços que têm por objetivo satisfazer as necessidades ou desejos de seus consumidores reais ou potenciais, antes e depois da eventual comercialização destes bens e serviços.
Tal visão do mercado e da necessidade de seus consumidores é um fato recente, começou a ser difundido apenas no final da década de 1950, e é importante destacar que desde o seu surgimento esta área passou por uma evolução, conforme veremos a seguir.
Kotler (1996:29) explica de forma sucinta tal evolução: “O Marketing evoluiu de suas antigas origens de distribuição e vendas para uma filosofia abrangente de como relacionar dinamicamente qualquer organização ao seu mercado”. Ou seja, no inicio o Marketing tinha como preocupação fundamental apenas a produção de bens e serviços e como escoar esta produção, passando por uma visão de “vender a todo custo”, chegando no final a uma visão de estudar o mercado para a conseqüente satisfação de seus consumidores. Citando novamente Kotler (1996:29), “Desde o tempo da simples troca, passando pelo estágio da economia monetária, até os sistemas de Marketing de nossos dias, as trocas têm-se realizado. Mas o Marketing – o estudo dos processos e relações de troca apareceu formalmente no início do século XX, em virtude de questões e problemas que foram negligenciados por sua ciência mãe, a economia”.
Após a Revolução Industrial onde os processos produtivos passaram da fase artesanal para a produção em massa, neste período a visão do Marketing era pautada no produto, como bem cita Cobra (1992:30), “a fase da produção em massa para atender a demanda de mercado teve início no ano de 1850 até o início do século XX quando tem o início da era do produto (...)”, portanto, o Marketing surgiu no inicio do século XX e tinha por objetivo principal produzir com a máxima qualidade para consumidores ávidos por comprar produtos e serviços, ou como cita Las Casas (2001:21): “Os consumidores estavam ávidos por produtos e serviços. A produção era quase artesanal. Com a Revolução Industrial apareceram as primeiras indústrias organizadas aplicando a administração científica de Taylor. A produtividade aumentou. Assim mesmo a idéia dos empresários e a disponibilidade de recursos eram fatores determinantes na comercialização”. Portanto, no surgimento do Marketing, a ênfase era no produto não existindo uma preocupação com o consumidor.
Partindo da idéia de evolução dos conceitos de Marketing, chegamos na década de 1930 onde começou a surgir os primeiros sinais de excesso de oferta de produtos. Com a produção em série e com o advento da linha de montagem desenvolvida por Ford para o aumento da produção, a oferta começou a superar a demanda e os produtos começaram a acumular nos estoques. Neste cenário as organizações começaram a se concentrar na área de vendas, pois precisavam eliminar os seus estoques, com isso o conceito de Marketing passou a enfatizar a venda, conforme conceitua Cobra (1992:32) “Após concentrar esforço na otimização da produção e da distribuição, a partir de 1930, o processo de vendas começou a ser observado como uma das fraquezas das atividades mercantis, e desde então a área de vendas passou a receber grande atenção”.
Ou seja, após se concentrarem em produzir os melhores produtos e com a melhor qualidade, as empresas precisavam se dedicar em seus pontos mais fracos, que era a comercialização, fato este que gerou uma ênfase maior na área de vendas.
A partir da década de 1950 as empresas começaram a perceber que as vendas a qualquer custo não eram a melhor forma de comercializar e de manter relacionamentos em longo prazo com os seus clientes, pois as vendas não eram constantes e não gerava uma fidelidade por parte dos consumidores, fato este de suma importância para as companhias devido ao crescente número de organizações presentes no mercado norte-americano.
Conforme cita Las Casas (2001:21), “a partir de 1950, os empresários passaram a perceber que vendas a qualquer custo não era uma forma de comercialização muito correta. As vendas não eram constantes”.
Em face de tal situação, as empresas começaram a mudar a forma de relacionamento com o mercado, surgindo assim o conceito atual de Marketing, como bem explicado por Kotler (1996:42): “Conceitua-se Marketing como uma orientação da administração baseada no entendimento de que a tarefa primordial da organização é determinar as necessidades, desejos e valores de um mercado visado e adaptar a organização para promover as satisfações desejadas de forma mais efetiva e eficiente que seus concorrentes”.
Este conceito é o que perdura nos dias atuais, mas como podemos verificar levou aproximadamente 50 anos de evolução até chegarmos a melhor definição de Marketing. Constantemente surgem inovações nesta área, mas são apenas ferramentas inovadoras de fidelização, para facilitar as transações entre empresas e clientes, e que apenas servem para melhor fortalecer esta filosofia empresarial.
Após entendermos a evolução dos conceitos de Marketing, o próximo passo de nosso artigo será analisar os aspectos que influenciaram o que podemos dizer do seu surgimento na sociedade moderna.

O INÍCIO DOS ESTUDOS DA ÁREA DE CONHECIMENTO DENOMINADA MARKETING.
Como já mencionamos anteriormente a área de conhecimento conhecida como Marketing é uma disciplina nova, que começou a ser estudada no meio acadêmico apenas no início do século XX. O motivo para apenas no começo do século passado ter iniciado o estudo das relações entre empresas e seus mercados, haja vista que as relações comerciais vêm de um período muito mais remoto, é o tema que circundará o nosso estudo.
Iremos abordar alguns estudiosos da área para que possamos delimitar um período mais preciso para o seu nascedouro. Citando Revéllion (2003:05): “O Marketing não esteve sempre presente na bibliografia bem como nas atividades organizacionais. A palavra Marketing era inexistente até meados de 1909”.Citando Bartels, “nos primeiros vinte anos deste século, o Marketing era visto como responsável única e exclusivamente pela facilitação do comércio e distribuição de produtos”.
Também citamos De Benedicto (2003:01) para melhor elucidar esta visão do surgimento desta área de conhecimento: “A formação da palavra é datada de 1902 (quando apareceu pela primeira vez na historia da humanidade, foi citada como conteúdo de um curso de economia). Nesta época, inicio do século XX, a preocupação dos economistas era entender melhor os movimentos constantes do mercado.”
Citando Arantes (1975:13) sobre os aspectos relacionados à preocupação sistemática em entender as relações entre empresa-consumidor: “A preocupação pelo estudo sistemático do problema de venda manifestou-se mais nitidamente nos EUA, onde as associações de classe e as universidades passaram a oferecer cursos e ciclos de conferencias sobre o assunto, valendo-se da experiência dos homens de negócio e do trabalho de pesquisa sistemática realizado por intelectuais. Data de 1904 o primeiro curso de Mercadologia (Marketing) oferecido em uma universidade americana, e de 1910 o primeiro livro escrito sobre a matéria”.
Também podemos citar Bartles (1950:01)“Entre 1902 e 1905, quatro homens, simultânea e independentemente em diferentes partes do país, cristalizaram seus conhecimentos de Marketing e começaram a ensiná-lo.”
Independente da precisão de datas, podemos delimitar seu surgimento no período que compreende os anos de 1900 a 1910, e ocorreu devido a uma necessidade das empresas em compreender melhor as relações comerciais junto aos seus consumidores. Neste intervalo existia um crescente aumento da população e do poder aquisitivo tornando o relacionamento mais complexo entre as empresas e seus mercados.
Devido a esta complexidade era necessário um estudo mais sistematizado destas relações. Este fato ocorreu devido à mudança ou de uma evolução de uma economia artesanal para industrial, como bem cita Revéllion (2003:04): “Intimamente ligado à dinâmica social, o Marketing surge e se desenvolve á medida que uma determinada sociedade evolui de um estágio de economia artesanal auto-suficiente para um sistema sócio econômico que compreende a divisão do trabalho e, posteriormente, a industrialização”.
Portanto, enquanto existia uma atividade economicamente artesanal não era tão latente a necessidade de uma estratégia de comercialização eficaz, ou o estudo das relações entre produtor-mercado, porque a produção era limitada, tanto por fatores de capacidade produtiva como de público consumidor, e também era extremamente regionalizada, sendo produzida e comercializada dentro de sua própria comunidade.
Para melhores esclarecimentos destes aspectos, trataremos agora da Revolução Industrial, na qual podemos entender de forma sucinta que foi um movimento social e industrial que surgiu no século XVIII em decorrência das inovações tecnológicas que surgiram como a utilização da máquina à vapor e com as primeiras indústrias. Sua importância na sociedade foi enorme e falaremos brevemente, pois devido a tal complexidade mereceria um trabalho maior, mas como iremos falar apenas de sua influência em nossa área de estudo, iremos abordar apenas alguns fatores importantes e principalmente, em relação às indústrias que é um dos pontos importantes para o nosso objeto de estudo.
Citando Maximiano (2000:147), para melhor compreensão da influência deste movimento no ramo organizacional: “No século XVIII, as tendências que o mercantilismo havia iniciado foram impulsionados pela Revolução Industrial, que foi produto de dois eventos: o surgimento das fábricas e a invenção das máquinas a vapor. A Revolução industrial revolucionou também a produção e aplicação de conhecimentos administrativos”.
A partir do momento em que a economia passou a ser industrializada, ou seja, com a utilização de máquinas, equipamentos, métodos de trabalho especializado e produção em massa, culminou com o crescimento das indústrias e conseqüentemente com a necessidade de melhorar os estudos de Distribuição de bens e serviços.
Para que possamos ter uma idéia da importância da Revolução Industrial para as empresas, vamos verificar de maneira resumida como eram os sistemas de comércio antes deste evento, citando Arantes (1975:08): “As cidades são praticamente auto-suficientes, acarretando a restrição do mercado ao próprio âmbito do burgo; A produção é realizada sob encomenda, em virtude da baixa produtividade do processo de produção por artesanato, e do baixo poder aquisitivo desses mercados; a baixa produção, realizada sob encomenda, em um mercado restrito, é colocada pelo próprio produtor, estabelecendo-se, assim, a identidade produtor-comerciante; Em decorrência do próprio processo de produção, pelo qual o artesão realiza todas as operações de transformação da matéria-prima em produto acabado, forma-se na classe um orgulho profissional que acarreta a tendência de ser a sua principal motivação a perfeição no trabalho e uma garantia de subsistência, mas não o lucro como fator de enriquecimento”.
Podemos notar que nas sociedades Pré-Revolução Industrial não existia a necessidade de analisar sistematicamente as relações de comércio entre as empresas e seus mercados, pois normalmente as cidades eram auto-sustentáveis (produziam de acordo com as suas necessidades e apenas aquilo que era necessário para sua subsistência), a produção era realizada sob encomenda e o lucro não era o objetivo principal dos produtores, portanto não existia a necessidade de uma forma de entender o mercado, pois os consumidores já eram praticamente cativos e os meios de produção incipientes.
Outro fator importante que deve ser realçado no surgimento do Marketing foi o crescimento da população, que ocorreu no período por nos estudado. Partindo do raciocínio de que o aumento da população foi preponderante para tal surgimento, podemos raciocinar que, com o aumento da população, existiu um aumento do consumo de mercadorias, forçando as empresas a um estudo de melhores métodos de colocar os seus produtos em mercados que estavam crescendo em tamanho e complexidade.
O aumento da população é fato que pode ser notado no período de 1875 a 1914 conforme cita Hobsbawm (2002:31) sobre o aumento da população norte-americana :“(...) a América do norte, que aumentou cerca de 7 a mais de 80 milhões de habitantes.”, ou ainda: “O mundo era muito mais densamente povoado. As cifras demográficas são tão especulativas, sobre tudo no que tange ao final do século XVIII, que a precisão numérica é inútil e perigosa, mas não deve ser muito equivocado supor que os aproximadamente 1,5 bilhões de seres humanos vivos nos anos de 1880 representam o dobro da população mundial dos anos 1780.”
Outro fator importante para o aumento do mercado consumidor é o aumento da expectativa de vida da população, conforme cita com muita propriedade Duby(199:255): “A expectativa média de vida aumentou muito ao longo do século XIX. Em 1801, era de trinta anos. Em 1850, é de 38 anos para os homens e de 41 para as mulheres; em 1913, de 48 anos para os homens e de 52 para as mulheres.” , portanto, o mundo neste período estava ficando cada vez mais densamente povoado.
Apenas o aumento da população e o aumento da expectativa de vida não seriam necessariamente resultado do aumento do consumo, pois um mercado menor numericamente pode ter um consumo maior do que outro que possui um número maior de consumidores, portanto seria necessário o aumento do poder aquisitivo, fenômeno que ocorreu neste período conforme cita Hobsbawm (2002:77) :“Ademais, graças ás quedas de preços da Depressão, esses fregueses tinham bastante dinheiro para gastar do que antes, mesmo considerando a redução de salário real após 1900.” Ou ainda “ao redor de 1880 (...), a renda per capita do mundo “desenvolvido” era cerca do dobro da do terceiro mundo; em 1913 seria mais que triplo e continuava aumentando.”
Portanto, a junção destes aspectos podem ter sido importantes para o surgimento do Marketing , como menciona Arantes (1975:11): “(...) embora se expandisse rapidamente a capacidade de produção das fábricas, a procura pelos produtos manufaturados cresceu mais que proporcionalmente, em virtude do aumento rápido da população e do crescimento do poder aquisitivo da classe média, proveniente das relações dessa classe com o próprio processo de produção.”
Também podemos mencionar a evolução tecnológica que também ocorreu com a Revolução Industrial e culminou com a produção em massa na substituição da produção artesanal.
Chiavenato (2000:20) cita com muita propriedade a importância da Revolução Industrial para as inovações tecnológicas e a conseqüente produção em massa: “Com a invenção da máquina a vapor por James Watt (1736-1819) e a sua aplicação à produção, surgiu uma nova concepção de trabalho que modificou a estrutura social e comercial da época, provocando profundas e rápidas mudanças de ordem econômica, política e social que, num lapso de um século, foram maiores do que as mudanças havidas em todo o milênio anterior”.
As inovações tecnológicas transformaram a sociedade em vários aspectos. Com o uso de novas técnicas ocorreu um aumento na eficiência das indústrias, um aumento na capacidade de produção, a utilização de novos métodos de trabalho (com a especialização do trabalhador), redução de preço dos produtos(que fez com que pudessem atingir à um numero maior de consumidores, como no caso de Henry Ford que com sua linha de montagem conseguiu que grande parte dos americanos comprassem o seu Modelo T que custava apenas 500 dólares), a migração das pessoas do campo para os grandes centros para trabalhar nas indústrias que surgiam.
O uso de novas tecnologias culminou com o aparecimento de grandes economias, o que pode ser bem notado nas palavras de Hobsbawm (2002:81): “(...) a terceira característica da economia mundial é a que mais salta aos olhos: a Revolução tecnológica (...) As indústrias tecnologicamente revolucionárias, baseadas na eletricidade, na química, e no motor de combustão, começaram certamente a ter um papel de destaque, em particular nas novas economias dinâmicas”.
Podemos notar que com a Revolução Industrial ocorreu uma revolução tecnológica com o uso de materiais que antes não poderiam ser utilizados na produção como a eletricidade, o motor de combustão e o uso de materiais químicos, que trouxeram inovações na forma de fabricação que eram praticadas na época, que ocasionou um aumento da produção e conseqüentemente um aumento das fabricas, um aumento do consumo e que terminou com o nascimento de potencias econômicas como os EUA.
Tais fatores foram preponderantes para o avanço das economias mundiais, conseqüentemente com a riqueza das nações. Nações ricas geram aumento do poder aquisitivo das pessoas e este aumento gera a necessidade de melhoria de vida culminado com o aumento do consumo, conforme cita novamente Hobsbawm(2002:47): “Era na tecnologia e em sua conseqüência mais obvia, o crescimento da produção material e da comunicação que o progresso era mais evidente. A maquinaria moderna era predominantemente movida a vapor e feita de ferro e aço.”
Outro fator importante foi a divisão do trabalho proposta por Adam Smith, conforme mencionado por Arantes (1975:09): “O principio da divisão do trabalho – considerado por vários autores como o fator mais importante de renovação no processo industrial. O fundamento do principio da divisão do trabalho, comentado e analisado por Adam Smith, é a divisão dos estagio de produção executados separadamente, de forma a serem repetidos continuamente.”
Com o princípio da Divisão do trabalho, existiu a fragmentação dos processos de produção que proporcionou um aumento da quantidade e da qualidade produzida de bens e serviços.
Como verificamos a Revolução industrial trouxe importantes mudanças na economia no início do século XX, com isso as empresas começaram a utilizar novas formas de organizar o trabalho e conseqüentemente uma forma mais eficaz de colocar os produtos junto ao púbico que crescia em número e aumentava em poder aquisitivo. Um dos nomes que contribuiu para novas formas de administrar as empresas foi Frederick W. Taylor com sua Administração científica, conforme cita Hobsbawm (2002:71): “Assim como a concentração econômica, a “administração científica” (o próprio termo só entrou em uso por volta de 1910) foi filha da grande Depressão. Seu fundador e apóstolo, F.W. Taylor (1856-1915), começou a desenvolver suas idéias na altamente problemática indústria siderúrgica americana em 1880. Procedentes do oeste, essas idéias chegaram a Europa nos anos de 1890. A pressão sobre os lucros durante a Depressão, bem como o tamanho e complexidade crescentes das firmas, sugeriram que os métodos tradicionais, empíricos ou improvisados não eram mais adequados à condução das empresas.”
As empresas cresciam de forma desordenada em decorrência das evoluções tecnológicas provenientes da Revolução Industrial. Mas apenas crescer não era o suficiente, pois necessitavam de uma forma ordenada de trabalho. Com isso surge Taylor com sua Administração Cientifica que, apesar de muito criticado em sua época foi importante para aumentar a eficiência das organizações que passavam por profundos problemas de baixa eficiência produtiva.
Como podemos notar, as empresas passaram por transformações importantes, o que coincidiu com o advento da produção em massa e contribuiu para novas formas de comercialização conforme cita Hobsbawm (2002:81): “(...)foi uma transformação excepcional do mercado de bens de consumo: uma mudança tanto quantitativa como qualitativa. Com o aumento da população, da urbanização, e da renda real. O mercado de massa, até então, mais ou menos restrito à alimentação e ao vestiário, ou seja, as necessidades básicas, começou a dominar as indústrias produtoras de bens de consumo. A longo prazo, isto foi mais importante que o notável crescimento do consumo das classes ricas e favorecidas, cujo perfil de demanda não mudou de maneira acentuada.”
O ambiente era propício para o surgimento de grandes corporações. Aumento da quantidade de consumidores, elevação da renda, inovações tecnológicas, novas formas de administrar as organizações e o surgimento de grandes empreendedores. Conforme cita Sampson (1996:46): “Nas duas últimas décadas do século XIX, muitas invenções transformaram-se em empresas gigantescas de um lado a outro dos Estados Unidos”.
Podemos notar que as empresas estavam em profunda transformação, à troca de um sistema artesanal por uma economia industrial, com a mecanização e formas sistematizadas e a conseqüente produção em massa, mas ainda apresentavam problemas, conforme cita Arantes (1975:11): “O continuo progresso da mecanização, os primeiros passos na direção da automatização, a grande concentração de recursos de produção à disposição de algumas empresas, a crescente aplicação das técnicas de administração científica ao processo de produção, o grande impulso da física e da química, colocaram as empresas na iminência do desastre, do qual só poderão se safar se conseguirem garantir para si parte do mercado existente e procurar o desenvolvimento constante de novos mercados. Essa situação provoca nos administradores de empresas a busca de soluções de mercado, caracterizando-se o que poderíamos chamar de Revolução Comercial em contraposição à Revolução Industrial.”Talvez tenhamos chegado em nosso ponto principal. As organizações cresciam de maneira exponencial devido aos fatores já descritos anteriormente, mas necessitavam garantir para si mercados consumidores para seus produtos. Tal cenário poderia ser propício para uma área de conhecimento que auxiliasse as grandes corporações a entender e utilizar formas sistematizadas colocar os produtos em seus mercados, que aumentavam continuamente.
As grandes corporações surgiam, mas eram localizadas em determinadas regiões que poderiam ser distantes de seus mercados consumidores, conforme cita Surface (1940:06): “as organizações eram localizadas em determinadas regiões divididas por ramo de atividade, onde tínhamos a indústria do Aço localizadas em Pittsburgh, Gary, Birmingham, entre outros, Akron com artigos de borracha e Detroit com a indústria automobilística”, portanto, o desafio que surgia era, como colocar as mercadorias junto ao seu consumidor, haja vista que os EUA possuem uma dimensão continental? Era um cenário diferente que as empresas se deparavam, pois no período Pré-Revolução Industrial, ou como já mencionamos de economia artesanal, os fabricantes vendiam seus produtos aos seus vizinhos, não exigindo muito esforço de distribuição.
Em tal situação, o Marketing surge como uma forma mais eficiente de colocar as mercadorias em seus mercados consumidores, como bem conceitua Surface (1940:03): “Marketing é a série de atividades que envolvem o fluxo de mercadorias e serviços do produtor ao consumidor” ou também “Marketing é freqüentemente chamado de “Distribuição” o termo “distribuição” física ás vezes é usado para designar as atividades envolvidas no movimento físico e controlado de mercadorias por canais de comercio.” Ou como cita Arantes (1975:10) sobre a importância da distribuição: “O grande distanciamento entre produtores e consumidores, causado pela necessidade de exploração de mercados cada vez maiores deu origem ao desenvolvimento de um grande numero de intermediários, parcial ou total, da produção de um ou mais fabricantes.”
Portanto, Marketing aparece como uma maneira sistematizada de estudo de mercado, com o objetivo de reconhecer melhores formas de colocar as Mercadorias em determinados mercados, através do uso adequado de intermediários, vendedores e distribuidores. A necessidade do estudo de formas mais adequadas de colocar os produtos em seus mercados, a premissa inicial do Marketing teve, novamente influência da Revolução industrial e das novas formas de administração surgida com a divisão do trabalho, como bem cita Surface (1940:04) que argumenta em sua obra que o surgimento do Marketing como atividade ligada às empresas começou a ganhar importância com a Revolução Industrial, “Na maioria de suas características fabris e problemas do moderno Sistema de marketing teve seu crescimento com a Revolução industrial e começaram a aumentar com o rugido das locomotivas e os apitos estridentes das fabricas”.
E também menciona o autor que um dos principais responsáveis pelo surgimento do Marketing foi a especialização do trabalho. Na economia Artesanal, não existia a divisão e padronização do trabalho, portanto, em termos gerais, uma única pessoa era responsável pela produção, distribuição e comercialização de seus produtos. Com a Revolução industrial, as novas tecnologias, a divisão das operações proposta por Adam Smith e com a Administração Científica de Taylor, estas tarefas foram subdividas em operações, sendo que passou a existir pessoas para fabricar, outras para comercializar as mercadorias produzidas e por final, pessoas para distribuir as mercadorias de maneira mais eficaz. Com isto houve uma diminuição da importância da fabricação como organismo econômico, sobrando mais espaço para as tarefas de comercialização e distribuição.
Em face de um ambiente altamente rico em transformações, surge a área de Marketing como uma forma mais eficaz de distribuição de produtos, ou seja, de estudar melhores formas por parte das organizações de distribuir os seus produtos junto aos seus mercados consumidores.
Analisando de forma sucinta, pois a idéia do surgimento do Marketing merece estudos mais aprofundados, podemos verificar que o inicio desta área de conhecimento se deu no período de 1900 à 1910, devido a necessidade de um estudo mais sistematizado das formas de comercialização e distribuição. Tal necessidade surgiu após a Revolução Industrial que culminou com o fim da produção artesanal e o início da produção em Massa, a especialização do operário com os métodos inovadores de Taylor e a linha de montagem de Ford, o crescimento da população e o aumento de seu poder aquisitivo.
Em um cenário como este, de profundas transformações, ou as empresas modernizavam seus processos de comercialização, ou estariam fadadas ao fracasso. Este foi um terreno fértil para o surgimento de modernas técnicas de comercialização e distribuição e o conseqüente início de interessados nestes processos, tanto no âmbito acadêmicos como no empresarial, culminado assim, com o surgimento de uma das áreas mais importantes no cenário empresarial e social de nossa sociedade moderna.
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Sérgio Luis Ignácio de Oliveira é Administrador de Empresas com ênfase em Finanças Empresariais pela Universidade São Judas Tadeu; pós-graduado em Administração de Empresas e Administração de Marketing pela FMU; mestre em História da Ciência pela PUC-SP, com a dissertação “A Influência da Filosofia e das Ciências nos Primeiros Estudos de Marketing no Início do Século XX”; doutorando em História da Ciência com a continuação do mesmo objeto de pesquisa do mestrado. Trabalhou por mais de vinte anos em empresas de vários ramos de atividade, nas áreas de Finanças, Administração de Materiais, PCP e Administração de Vendas. Foi articulista do jornal SP News com a coluna Desmistificando o Marketing.Atualmente é professor de graduação e pós-graduação, palestrante,administra o blog Desmistificando o Marketing (desmistificandomarketing.blogspot.com) e autor do livro “Desmistificando o Marketing”.