Aqui e Agora
Por Luís Sérgio Lico
09/04/2008
Vivemos uma síndrome de denuncismo. Em todo lugar apontam letras, câmaras e
microfones. São tantas as irregularidades, desmandos, desvios e descasos que na
pauta somente entram as mais escandalosas. Como aqui as coisas levam tempo para
se resolver, cria-se uma situação onde a própria denúncia é esvaziada de seu
frescor, solapada pela vigarice mais recente. Instrumentos legítimos são
utilizados para a metaexposição de tantas irregularidades que perdem sua aura de
seriedade. Quem sabe, estamos cansados de tentar descobrir se o poço tem fundo.
O que gela a espinha é termos nossas endemias atingido um grau tão diáfano de
sofisticação, que na iminência de qualquer flagrante, será melhor efetuar a
denúncia. Assim, para o meliante matam-se dois coelhos: não há mais risco de ser
chantageado e perder muito dinheiro e, com a ressaca no mar bravo das mazelas
semanais, logo o caso será esquecido e superado pelo andar da fila. Além do
mais, o trâmite agora será o da justiça e, se o dito cujo for bem administrado
nas variadas brechas da lei e da criatividade brasileira, significará uma
senhora enormidade de tempo. Entrementes, a vida continua. Vamos tocando.
Assim, neste fluxo contínuo, o que catalogamos diariamente são apenas os
alertas. Repentes midiáticos, por um lado ajudam a organizar, em nossa mente, a
emersão da bandalheira ou da novidade. Sendo que, por outro, nos remete a uma
seletividade grotesca, onde o resultado é a apatia e omissão. Isto, porque, com
estes movimentos opinativos contraditórios, a todo volume nos veículos de
comunicação, acabamos formando medleys: misturas onde nada se destaca ao fundo.
Sabemos tudo, mas não lembramos nada. Dói a impotência e por isso se diz que não
se tem nada com isso, nem os bispos. Na pátria amada, el condor pasa e reclamar
não leva a nada!
Dada a impossibilidade da réplica eficaz, ou da inutilidade da interação seja
pelo correio, cartório ou via on-line, acabamos inserindo esta torrente de
“informação” – boa, inútil ou ruim -, como parte de um “processo” e relegando,
finalmente tudo à caixa de spam. Os estímulos valem no máximo um comentário e as
indignações são tão perecíveis, quanto pífias nossas reações. Anestesiados, não
mais reagimos se for alta a taxa de repetição. Alguém sabe o endereço do
ombudsman?
O marketing cunhou a pérola: Realidade é igual a percepção. Querendo dizer que o
impacto é que importa na campanha. Na vida real, acertou no que não viu.
Portanto, nada é real, se não é conosco ou não percebemos. Lembra o papo dos
céticos sobre se a cadeira continua na sala se sairmos dela... Assim, misturamos
alhos com bugalhos e nos alheamos de tudo, mesmo sem saber. Afinal, em sociedade
é preciso não “destoar” da multidão de contemporizadores.
Em todos os sentidos, acabamos desmotivados por nossas próprias reflexões,
talvez ruminando aquela sensação antiga de que “as coisas nunca vão mudar” e
adoçando o paladar com adoçante. Neste ponto é que geralmente encerramos o café
peão com um acento papai sabe tudo afirmando: a vida é assim! Bola prá frente.
Alguém precisa pagar o supermercado.
Perspectivamente, este monday morning feeling que aqui nos trópicos dura toda a
semana, seja explicável, pela engenharia da máquina. Mas, deve ser superado ou
murcharemos. Pequenos passos de gigante é que poderão nos tirar da má situação.
A constância na ação é que produz o resultado desejado e, somente assim, as
coisas mudam! Sucesso é fazer a mesma coisa mil vezes, da maneira certa. Toda
transação deve ser justa. Outra coisa a evitar é que a cegueira causada por
discursos do tipo "temos que dar nossa cota de sacrifício para a rentabilidade
da empresa ou para o progresso do país", que condicionando a felicidade à fusão
alienígena do sujeito no objeto, aliena completamente os caraíbas. Depois vem o
consultor e diz: A vida é assim, acostume-se e aprenda a "superar desafios". A
tropa é de elite e o soldado, raso. Say yes!
Aí eu pergunto: os straight tragets nos fazem render tanto assim? Quero dizer:
Na velocidade das mudanças, com tanta demanda cognitiva e afeto-sensorial sendo
exigida, como evitar que sua essência sublime ao vento e, desapareça sua
produtividade em pouco tempo? Melhor dez anos a mil? Se for assim há pouco
espaço para manobras. Atravessar os pântanos do mercado e aterrissar nos
resultados é uma tarefa arriscada. Pela lei do core business, perde-se tudo pela
conquista míope das coleções de Mbas. Entenda bem: Você só dança se errar o
árvaro!
E o resto? O mundo e as pessoas: Que mundo? Que pessoas? Se eu não percebo sua
dor ou necessidade, a lógica diz que, ou você não existe ou não está sofrendo.
Além disso, os modelos funcionam e as estatísticas são confiáveis. Alguém vai
querer contrariar a razão? Então é isso: Vamos em frente que atrás vem gente,
afinal: Nós que aqui estamos por vós esperamos!
Luís Sérgio Lico é Palestrante e Conselheiro Organizacional. Mestre em Filosofia e Especialista em Gestão do Comportamento. Autor dos Livros: O Profissional Invisível e Fator Humano. www.consultivelabs.com.br