Argumentação e Marketing
Por Conrado Adolpho
04/11/2005
O que Retórica tem a ver com marketing? Tudo.
Quando, em 1981, Al Ries e Jack Trout lançaram aquele que seria o livro
de cabeceira de publicitários por todo o mundo “Posicionamento - A
Batalha Por Sua Mente”, afirmaram muito do que Aristóteles já havia
vaticinado há praticamente 2.400 anos. Se o sábio de Atenas, discípulo
de Platão, dispusesse de um bom editor e uma campanha de marketing para
o lançamento de um livro seu, que na realidade nunca existiu, talvez
tivesse tomado o lugar de Ries no Olímpo do marketing.
Muito do que é falado hoaje pelo gurus do marketing, da administração,
da futurologia – atualmente existem gurus para tudo – já foi criado e
profundamente estudado há mais de 2.000 anos. Porém, o culto pelo novo
faz com que abandonemos velhas idéias, até que alguém as encontrem e as
dê uma nova roupagem. Vejam só a quantidade de livros que estão saindo
tomando por base o clássico Arte da Guerra, de Sun-Tzu. Em uma busca
simples em um site como o da Saraiva.com.br, encontramos mais de 20
destes livros: A Arte da Guerra – uma nova interpretação, A Arte da
Guerra para Mulheres, A Arte da Guerra – Teroria Geral da Estratégia, e
por ai vamos.
A revisitação de antigos conceitos com novas roupagens não é novidade no
mundo dos negócios. A busca de um Graal executivo esbarra desde palestra
de motivação a livros que prometem fórmulas mágicas em todos os campos.
A solução de muitos dos problemas pelos quais as empresa têm passado não
está simplesmente na aglutinação de fórmulas prontas vindas de teorias
americanas ou européias que nem ao mesmo são adaptadas ao mercado
nacional. Deve-se entender o conceito, o que está por trás.
Por falar em conceitos, a Grécia é rica deles.
Como não deviam ser únicos e prazeirosos os momentos que os filósofos da
Grécia antiga discutiam com seus púpilos os segredos da natureza humana.
Platão, no livro VII do República, nos traz o conhecido Mito da Caverna.
Nele, um povo, que desde a infância vivera acorrentado no interior de
uma caverna, obrigados pelas correntes a só olharem para as paredes a
sua frente, só enxergavam espectros, as sombras dos que passavam em
frente da caverna, e tomavam-nas pela realidade. Platão chamou tais
sombras de ídolos. Um povo que vivia uma existência de ignorância.
Platão nos mostra que a realidade não existe, somente o que percebemos
dela. Pensamento reavivido, em outro contexto, pelo filme Matrix, pelo
best-seller “Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes” e pela atual e
vitoriosa PNL quando diz que “o mapa não é o território”. Uma bela frase
para um antigo dilema da filosofia.
Os autores, consultores e palestrantes Ries e Trout trouxeram alguma luz
sobre o processo de fixação de uma marca na mente do consumidor.
Seguindo os passos de Platão afirmam: “a essência da idéia de
posicionamento (de uma marca) consiste em aceitar as percepções como
realidade e então reestruturar essas percepções a fim de criar a posição
que você deseja (na mente do seu consumidr)”. Isso é o que se chama de
“pensamento de fora-para-dentro”. Escutar essas palavras fazem com que
eu me sinta na Grécia antiga.
Parece que muito pouco mudou neste campo nos últimos 2.300 anos. O
famoso “Conhece-te a ti mesmo” continua a andar de braços dados com o
“Conheça teu interlocutor”. No processo comunicativo, a mensagem começa
no seu interlocutor, antes mesmo que você diga uma só palavra, a
comunicação já se iniciou com os sinais emitidos por quem é o objetivo
da sua retórica. As percepções que o seu interlocutor tem a respeito do
mundo, moldadas por suas crenças, experiências e valores, irão
influenciar, não só em como ele o vê, mas também na maneira como escuta
o que você diz. Na maior parte das vezes, o que você diz não é o que o
seu interlocutor escuta de fato. Daí surgem um dos principais problemas
de empresa dos portes mais diversos: má comunicação.
A mensagem, transmitida, tanto por Ries e Trout, em sua obra que tomou
ares de Bíblia ao longo desses anos, quanto por todas as escolas de
persuasão e argumentação vigentes, parece ser válida, desde uma
negociação envolvendo milhões, até a confecção de um website na
internet.
A persuasão nos dias de hoje está no verbal e no não-verbal. No texto e
na imagem. Na forma e no conteúdo. Toda comunicação deve ser persuasiva
quando se trata de um mercado que as cifras anuais de propaganda beiram
a casa dos bilhões de dólares. Tudo deve ser pensado, repensado, baseado
em pesquisas de mercado e embasado em complexas teorias sobre o
comportamento do consumidor.
Aristóteles está mais atual do que nunca na Madison Avenue.
Outro dia, em um curso de oratória, reconheci mais uma vez meu velho
amigo socrático travestido de modernas teorias. O palestrante afirmava
que o trunfo de um bom discurso estava no que ele, e Aristóteles,
chamavam de tese de adesão inicial. “Consiga o maior número de respostas
afirmativas logo no início de sua apresentação. Depois disso ficará mais
fácil conduzir o ouvinte pela sua linha de raciocínio” dizia ele com a
certeza de que nos revelava um segredo de Fátima.
Argumentação pura que a propaganda usa e abusa.
Há muito se sabe que as pessoas confiam naqueles indivíduos que se
parecem com elas próprias, as vendas falam de “rapport” e os recusrsos
humanos falam de empatia. Pessoas compram de quem elas confiam e confiam
naquelas que falam aquilo que elas já acham ser verdade. Assistir a uma
palestra de motivação, um político declamando ou um culto religioso é
ter uma aula de tese de adesão inicial. A catarse pseudo-libertadora
enevoa a percepção da realidade e opera mudanças significativas
comportamentamentais...por 72 horas.
A boa argumentação, derivada da lógica, suscita a compra, seja de uma
idéia, de um produto ou de um serviço. A argumentação pode se encontrar
em um discuso empolado de um advogado num tribunal do juri ou, em uma
propaganda da Zoomp.
Se a argumentação prescinde de pressupostos, a propaganda bem produzida
sabe trabalhá-los bem. Imagine o que um outdoor da Zoomp transmite para
as mulheres que o observam. Apenas com uma bela foto, e a logomarca do
anunciante, o outdoor incita o seguinte pensamento: mulheres bonitas
vestem Zoomp, eu quero me sentir bonita, vou comprar uma calça da Zoomp.
Pressupostos, hipótese, tese e todos os elementos essenciais para uma
boa argumetação sem a utilização de uma única palavra.
Você pode dizer que não pensa dessa maneira. Você está certo, e errado.
A nível consciente, muito pouco disso é percebido. Por isso mesmo
ospressupostos subentendidos são tão poderosos. Atuam em nosso
subconsciente.
A argumentação pode estar em uma foto de uma família sorrindo na página
inicial de um site como o Itaú anunciando o novo Itaucard ou em um
matéria de jornal, teoricamente imparcial, sobre remessas de dólares
para o exterior por membros do governo.
Entre outros, Aristóteles já falava do argumentos da autoridade, que é
utilizado largamente pela propaganda e pelas campanhas.
Há muito mais argumentação no que observamos do que somente nas palavras
que lemos. A maneira como uma embalagem é feita ou as ilustrações que
estão presentes em seu exterior podem nos convencer a comprar o produto,
sem ao menos conhecê-lo. O design gráfico traz embutido em suas linhas,
sejam tão complexas quanto um vestido de noiva ou tão enxutas quanto um
Hemingway, muita argumentação. Desde as cores utilizadas até a foto
escolhida para uma simples embalagem de café ou o nome escolhido para
uma marca de sabão em pó tem argumentação.
A argumentação é bem mais do que a argumentação.
O conceito de segmentação de mercado nasceu com a crescente concorrência
e a necessidade de se especializar em um nicho cada vez mais menor.
Quanto mais especializado você é em um determinado tipo de público, mais
confiança você recebe dele. Confiança, no mercado, representa dinheiro.
Daí vem uma outra questão da argumentação: o que é elemento persuasivo
para uma pessoa pode não ser para outra. Aliás, excetuando-se o Chico
Buarque, existem bem poucas unanimidades por ai.
Voltando ao “Conheça teu interlocutor”, os pilares da argumentação se
fixam sobre o correto entendimento de quem é o ouvinte. Não tentar
vender ursinhos de pelúcia para executivos ou ações da Vale para
pré-adolescentes é uma lição que muitas empresas parecem não ter
aprendido direito nos bancos do Sebrae.
Cada dia mais, antes de iniciar qualquer que seja o processo
comunicativo, é necessário se especializar no ouvinte. Saber suas
preferências, seus medos, seus desejos, suas necessidades. Para só
então, se utilizando dessas informações preciosas, posicionar sua
mensagem na mente do interlocutor.
Conrado Adolpho é empresário, publicitário, escritor e palestrante. Sua formação vem de faculdades de excelência como ITA e Unicamp. Trabalha com tecnologia, Internet e marketing. É especialista em marketing on-line, presta consultoria e ministra palestras em marketing na Internet, e-business, estratégias de marketing on-line, otimização de sites para mecanismos de busca e outros assuntos ligados à Internet e marketing. É autor do Livro Google Marketing - O Guia Definitivo do Marketing Digital.