Bons negócios ocorrem quando
ambos – comprador e vendedor
– estão satisfeitos. Para
haver continuidade há quem
fale de parcerias, outros de
lealdade ou ainda
simplesmente, de relações
contratualizadas.
Muitos vendedores não sabem,
mas possuem um espelho no
seu dia-a-dia: o comprador.
Tal como num espelho, as
ações e os gestos parecem
invertidos. Tal como num
espelho, o vendedor
reconhece-se no comprador:
necessidades parecidas,
treino parecido,
expectativas iguais. Neste
ponto, convém o vendedor :
• perceber que o comprador
pode estar “num dia mau”
depois de ter recebido
durante o dia mais de uma
dúzia de chamadas
desagradáveis. Será que a
aproximação do vendedor não
terá o mesmo efeito ?
• saber que, pelo menos, 80%
dos compradores conhecem as
mesmas tácticas de vendas e
aproximações comerciais que
os vendedores utilizam. Até
que ponto você é diferente ?
• ter consciência que os
compradores fazem “trabalho
de casa” , pesquisando
informações sobre o
vendedor, seus produtos e
serviços.
• ter presente que
“lealdade” é coisa do
passado. Os compradores
apenas querem baixo preço e
mais produtos ou serviços a
preços inferiores.
• não ignorar que esteve nos
mesmo cursos em que
estiveram os compradores e,
que leu os mesmo livros
sobre técnicas de vendas que
os compradores leram . Por
isso, os compradores sabem
perfeitamente o que o
vendedor vai fazer em cada
momento.
• ter sempre presente que os
compradores podem, à
distância de um “click do
mouse de um PC” comunicar com
os seus concorrentes mais
depressa do que nunca, e
fazerem com eles exatamente
o mesmo.
• ter consciência que os
compradores colocam os
fornecedores uns contra os
outros apenas para esmagar
margens, obter melhores
condições e prazos de
entrega.
• entender que os próprios
compradores são pressionados
pela sua chefia para obter
cada vez melhores acordos e
mais concessões.
No caso dos compradores, não
adianta tomar uma posição
unilateral se do outro lado
estiver um parceiro
comercial que não entende as
suas expectativas. Bons
negócios ocorrem quando
ambas as partes ficam
satisfeitas. As negociações
em que um ganha e outro
perde podem até gerar uma
venda, mas estão longe de
garantir uma relação ou um
fornecimento de qualidade.
No caso da empresa
fornecedora, o foco tem de
estar voltado para o Cliente
e não para a venda do
produto. Geralmente os
vendedores não sabem que os
compradores são bem
treinados e instruídos. Por
isso, costumam afirmar que
não conseguem vender devido
à desonestidade dos
compradores. O ponto é: como
é que uma empresa manda um
vendedor para o mercado, sem
que ele saiba, no mínimo,
com quem ou como falar?
Quanto mais preparado e
informado o vendedor
estiver, mais fácil será
entender como pensa o
comprador e quais as suas
reais expectativas. É muito
provável que um vendedor ao
chegar a uma empresa
encontre um comprador que
possua informações da
produção da sua empresa, do
seu nível de stock, do custo
médio esperado para uma
compra e que saiba fazer com
facilidade cálculos
financeiros. Se o vendedor
não estiver preparado
perante um comprador
profissional, não há nenhum
entendimento ou alguma
técnica de negociação que
facilite o diálogo.
Normalmente, é nesta altura,
que o vendedor recorre então
à sua única opção de salvar
o negócio e começa a
discutir preço. É então que
se proferem as frases mais
disparatadas que nunca
deviam aparecer num ambiente
profissional:
• “Qual é o outro
concorrente ? “ – um
vendedor deve focalizar-se
na venda do seu produto ou
do seu serviço e não nos
concorrentes
• “Não feche o negócio sem
antes falar comigo” – se
assim é, porque não fecha já
o negócio ?
• “Se fechar o negócio
comigo, não se vai
arrepender” ou ainda, “Sabe
como é: uma mão lava a
outra” – frases no mínimo
antiprofissionais e que no
máximo poderão dar prisão.
• “Se houver alguma
diferença de preço, ligue-me
que eu posso fazer mais um
pequeno desconto” ou ainda,
“Cubro qualquer oferta” –
são frases que convidam à
uma negociação interminável,
pois o vendedor está a dizer
implicitamente que pode
oferecer sempre mais um
desconto.
• “Veja lá a quem está a
comprar. Se der problema não
me venha depois pedir ajuda”
– esta afirmação mata a
venda porque é a afirmação
peremptória de que o
comprador é incompetente,
que não sabe escolher o
melhor fornecedor. O bom
vendedor concentra-se nas
qualidades e benefícios do
que está a vender e como
está a vender, e deixa que
seja o comprador a afirmar
qual a melhor opção.
Chegados aqui, é altura de
verdadeiramente falar de
parcerias. Muito se fala e
se tem escrito sobre isso.
Ao ponto de ser hoje um
termo que entrou no léxico
comum, quase mais uma
buzz-word tantas vezes
evocada – muitas vezes em
vão - e que fica sempre bem
em qualquer negociação. No
entanto, não devemos
esquecer que estas relações
são profissionais e
formuladas por contratos de
fornecimento, com
penalidades, obrigações e
deveres para ambas as
partes. Uma parceria não
deve ser posta em causa
devido a um ou outro
problema que possa surgir.
Todas as parcerias precisam
de amadurecer, compradores e
vendedores devem ter um
comportamento profissional e
não gerir culpas e
desculpas. Quando um
vendedor falha, com certeza
que o comprador também tem
as suas culpas por não ter
sido competente na escolha
do fornecedor. Quando o
comprador quer mudar as
regras a meio do jogo,
também desgasta a parceria.
Não se trata portanto, de
algo que aconteça de um
momento para o outro, assim
de repente. Confiança e
compromisso são coisas que
se conquistam com o tempo, e
não por decreto ou contrato.
Parcerias, compradores,
vendedores fazem-se no
dia-a-dia, através dos seus
atos, iniciativas e idéias.
É por isso que ambos
precisam de ter um espírito
empreendedor, profissional e
que pensem a médio/longo
prazo.
Miguel Cristovão é Pós-Graduado em Gestão de Marketing e Mestrado em Estratégia e Desenvolvimento Empresarial. Experiência de quase 20 anos nas áreas de Marketing e Vendas, com funções em empresas como 3M , Tudor, ABB-Adtranz e Sixt. Atualmente na Samsung Portugal, Mobile Divison, com a Gestão de Grandes Contas. Membro ainda da APPM - Associação Portuguesa dos Profissionais de Marketing, do Clube da Negociação e palestrante convidado de Seminários do IIR - Instituto for International Research.

