Comunicação Viral nas Eleições: Uma epidemia voto a voto
Por Admir Borges
16/10/2009
Os profissionais de marketing e de comunicação sabem que a informação passada de
uma pessoa para outra costuma ser mais eficiente do que a propaganda planejada e
veiculada na grande mídia. O ser humano sempre teve a preocupação de avaliar os
acontecimentos em seu entorno e influenciar favorável ou desfavoravelmente o
pensamento de outros sobre determinado fenômeno ou ocorrência. Os indivíduos que
tomam a iniciativa de espalhar "boatos" são normalmente formadores de opinião e
empreendem esse processo com bastante eficiência, utilizando os recursos e os
canais adequados para que isso aconteça. O fato é que o "buchicho" tem seu valor
como forma de comunicação, seja positivo ou negativo. No entanto, sabe-se que as
informações negativas são potencialmente mais eficazes, uma vez que seu poder de
multiplicação e velocidade são maiores.
Depois de uma experiência frustrada o indivíduo quer externar sua dissonância
cognitiva falando para o maior número possível de pessoas, muitas vezes
aumentando e exacerbando sua crítica. As empresas de maneira geral não contam
com estratégias para reduzir insatisfações e ações para minimizar os efeitos do
boca-a-boca negativo. Mais desastroso, ainda, é o fato de que um cliente
insatisfeito que não reclama gera grandes inconvenientes, pois a empresa perde a
oportunidade de identificar o problema e poder resolvê-lo. Isso pode abrir
espaço para arranhões na imagem e na reputação da mesma. Os inconvenientes são
de maior gravidade em ambientes altamente competitivos, onde há necessidade de
retenção de clientela e estabelecimento de relacionamento duradouro e redução de
perdas. Existem empresas que se preocupam em diagnosticar, por meio do registro
de reclamações, os fatores dissonantes, encorajando as pessoas a expressar seus
sentimentos e opiniões. Porém, não bastam os registros é necessário que as
organizações apresentem respostas efetivas aos clientes.
Se no passado, o boca-a-boca era resultado de atitudes espontâneas, hoje os
profissionais já se ocupam da tarefa de planejar maneiras de "infectar"
ativamente as pessoas com mensagens tecnicamente elaboradas. Com a percepção do
valor multiplicador e a eficácia do boca-a-boca, os estudiosos e especialistas
em marketing passaram a desenvolver planos de desenvolvimento do "buxixo"
favorável como forma de divulgação de produtos e serviços e criar uma barreira
para a manifestação das influências negativas. A comunicação epidêmica é
conhecida por sua eficiência como ação promocional e pelo custo menor de
produção e execução. Sua eficácia é explicada pelo fato de ser uma técnica
realizada por consumidores satisfeitos e dispostos a recomendar o produto ou
serviço que utiliza. Deforma bem simples, o surgimento do chamado marketing
viral, ou epidêmico, consiste em identificar voluntários e transformá-los em
agentes difusores. Eles experimentam marcas e produtos e depois falam de suas
experiências para pessoas de seu relacionamento. Já existem empresas
especializadas em formar exércitos de difusores, devidamente remunerados.
O marketing boca-a-boca é uma ferramenta que está do lado oposto à publicidade
tradicional com suas inserções nas mídias principais de alto alcance. O viral
tem como ponto de partida a idéia de que a mensagem dirigida a cada individuo é
bem mais poderosa, por sua influência direta e personalizada, além de gerar uma
rede favorável e fortalecida pela credibilidade entre as pessoas. No entanto,
algumas experiências têm demonstrado que o uso exagerado dessa estratégia pode
causar dúvidas, exaustão e fracasso.
Por um lado, o marketing viral pode ser uma oportunidade de divulgação de
idéias, produtos e marcas, com o objetivo de ampliação do nível de conhecimento
e de consumidores, por outro lado, existem empresas que planejam o viral
negativo sobre os concorrentes, criando o boca-a-boca destruidor. Os ataques aos
concorrentes podem utilizar o mesmo esquema do marketing viral, com a
identificação de elementos com grande capacidade multiplicadora e mensagens
negativas que envolvam a marca da concorrência. Essa tática coloca em dúvida as
possibilidades éticas do marketing viral como instrumento de competitividade
mercadológica.
A comunicação viral aportou nas campanhas eleitorais e mostrou que pode ter uma
participação efetiva no processo de influencia do voto, principalmente entre os
jovens. Praticar a comunicação epidêmica significa passar uma mensagem para
outras pessoas, que a repassam para outros tantos. O efeito rede de transmissão
é o impulsionador mais conhecido dessa forma de comunicação. Como se fosse uma
epidemia, esse formato de comunicação aproveita a capacidade do fenômeno em
multiplicar-se rapidamente, atingindo milhares e até milhões de indivíduos. A
ação viral vai depender do volume de transmissão entre as pessoas. Quando uma
taxa elevada de eleitores encaminha alguma informação, dica, denúncia,
questionamento, ou até mesmo uma sátira, em determinada rede social, o rápido
crescimento se transforma numa bola de neve. No passado esse recurso de
comunicação era chamado de "boca-a-boca", que costuma acontecer por acaso, nas
rodas de bate-pato da esquina, nos bares, nas cafeterias, nas comunidades
religiosas e de bairro. Hoje os profissionais de comunicação têm à sua
disposição a ferramenta da Internet e as técnicas necessárias para planejar
formas de "infectar" ativamente redes sociais de eleitores com mensagens
positivas sobre seu candidato, ou negativas sobre adversários. Os meios de
comunicação tradicionais são úteis para estratégias e objetivos de médio e longo
prazo, atualmente insuficientes para resultados imediatos como devem ocorrer no
período eleitoral. A comunicação viral mostra-se capaz de alterar opiniões da
noite para o dia e atingir grupos distantes geograficamente.
A comunicação de marketing numa campanha eleitoral pode ser entendida como um
conjunto de esforços, devidamente organizados, com o objetivo de influenciar o
comportamento das pessoas através de mensagens tecnicamente elaboradas. Elas
visam chamar a atenção dos eleitores, fazer com que memorizem e cantem o jingle
de campanha, bem como mobilizar o máximo de pessoas para comentar e votar no
candidato. Todas essas ações estão baseadas no princípio do estabelecimento
deliberado de um fórum público em torno de uma coligação, de um partido e de um
candidato. No entanto, sabe-se que o momento secreto do voto resulta em grande
parte da atividade dos formadores de opinião, criadores de tendências e dos
militantes que processam a comunicação, traduzem a mensagem para os outros e
influenciam o raciocínio sobre a decisão de votar. O momento e as causas do
movimento de espalhar mensagens relacionadas com determinado fato sobre um
candidato ajudam a ampliar as intenções de voto, ou reduzir se a informação for
negativa. Nesse momento abre-se a oportunidade para a chamada "comunicação
viral", estratégia capaz de encorajar indivíduos de diversos níveis e classes a
repassar uma mensagem de forma multiplicadora, criando um potencial de
crescimento exponencial tanto na forma da exposição como no processo
influenciador da mensagem.
Nas últimas eleições municipais de 2008, nas principais capitais brasileiras, a
Internet serviu como importante ferramenta para atingir os jovens, pois através
das chamadas redes sociais foi possível gerar comentários e trocas de texto e de
imagens, estimulando os usuário ao repasse de mensagens. Os conteúdos
depreciativos tomaram conta dos editoriais da grande mídia e se transformaram em
sátira, como o caso emblemático do candidato do PMDB, Leonardo Quintão, em Belo
Horizonte, com direito a um vídeo protagonizado pelo ator Tom Cavalcanti, que
imitava o jeito brejeiro e forçado do candidato, que acabou perdendo o segundo
turno. Para o pleito de 2010, o uso da internet deverá ser ainda mais
significativo e, certamente, vai tirar o sono de muita gente. Uma pesquisa
realizada em setembro de 2009 pelo Instituto DataSenado avaliou a importância
das mídias, apresentando a Internet como o segundo meio mais utilizado pelo
cidadão sobre questões políticas, superada apenas pela televisão. Os resultados
demonstram que 58% dos eleitores acessam internet mais de uma vez ao mês e 78%
visitam blogs e portais relacionados à política.
Admir Borges é Professor de pós-graduação em marketing e comunicação
(Universidade Fumec, Unibh e IEC PUC-MG)