O fabuloso texto de Platão, “A Alegoria da Caverna”,
conta a história de um grupo de pessoas que nasceu
agrilhoado às paredes de uma caverna cujo túnel de
acesso possuía uma curva que impedia a visão direta
do mundo exterior. Deste, só visualizavam as sombras
das pessoas, animais e utensílios que cruzavam a
entrada. Por terem nascido nesse ambiente e não
conhecerem outra coisa, os habitantes desta caverna
substituíam as sombras pela realidade, pois era tudo
que conheciam.
No texto, Platão descreve o que aconteceria se algum
dos prisioneiros fosse libertado. Ele caminharia em
direção à entrada da caverna, por onde entra a luz,
e ficaria cego pela luz do Sol (representando aqui a
luz da verdade). Aos poucos seus olhos se
acostumariam à luz e, surpreso, ele descobriria que
fora da caverna existia um mundo real. Que as
sombras que sempre tinham visto na caverna eram
apenas representações da realidade. E voltaria
correndo contar aos outros a novidade.
Acomodados e acostumados às sombras, segundo Platão,
ele seria inevitavelmente morto pelos que não querem
acreditar na verdade, que não conseguem nem aceitar
que ela seja verdade. A luz inicial, que provoca a
cegueira, é tão dolorosa que a maioria das pessoas
não tem coragem de enfrentá-la. Preferem ficar na
escuridão, na ignorância e no conforto, mesmo que
errados.
O raciocínio livre hoje em dia é uma raridade,
poucas são as pessoas que conseguem ver além da
mediocridade que os cerca. Pensar e mudar dói. Leva
um tempo para acostumar-se com a realidade e com a
verdade que muitas vezes choca. É muito mais cômodo
ficar dentro da caverna, no mundinho que sempre
conhecemos, achando que aquela nossa versão da
realidade é a verdadeira. Ou que é verdade o que nos
chega filtrado pela televisão, pelos jornais, pelas
revistas. Somos manipulados por interesses,
recebendo de maneira ‘mastigada’ uma versão
distorcida dos fatos, e confundimos as sombras
publicadas com a verdade e a realidade.
Se não engano, foi o filósofo armênio Gurdjieff que,
em um de seus escritos, disse acreditar na
reencarnação, mas de uma maneira diferente. Não como
planta ou animal nem outra pessoa, mas como você
mesmo. Ou seja, você deveria viver sua vida
novamente, até acertá-la, tomando as decisões
difíceis que evitou, por preguiça, acomodação, medo
ou ignorância, reencarnando eternamente como você
mesmo, castigado e proibido de evoluir, por não ter
tomado as decisões que deveria.
É uma forma interessante de ver as coisas, pois o
obriga a pensar nas suas decisões de maneira
completamente diferente, sabendo que, se você não
fizer a coisa certa, vai ter que voltar e voltar e
voltar até acertar e viver de verdade. Ou seja, é
preciso sair da caverna, encarar a luz da verdade,
acostumando-se a pensar livremente, sem as amarras
criadas pela educação, família, pressões da
sociedade e, ultimamente, pela mídia também.
Significa ficar em pé e não viver de joelhos, ou
arrastando-se. Significa nascer original e morrer
original, porque a maioria das pessoas nasce
original e morre uma cópia. Significa fazer algo de
valor com sua vida, deixar sua marca neste mundo,
ser humano como só você pode ser. Significa
arriscar-se a sair da caverna, a ficar
momentaneamente cego, a enfrentar as críticas e
dúvidas dos descrentes, dos ignorantes, dos
acomodados. Significa viver a vida de forma valente,
como um herói ou heroína, seja quais forem suas
condições e sua realidade. Significa ter um ideal,
uma aspiração, um projeto de vida, e dedicar-se a
melhorar sua vida e a dos outros, por mais duro que
seja. Significa testar-se, descobrir seus limites,
viver plenamente, não economizar-se para amanhã.
Estar vivo é um presente, temos a obrigação de
agradecer a dádiva com honra. Viva de maneira
correta e corajosa desta vez – agora! lembre-se: se
você não tomar estas decisões, é bem capaz que tenha
que voltar, e voltar, e voltar, até acertar. Por que
não ter a coragem de acertar agora?
Raúl Candeloro (raul@vendamais.com.br) é palestrante
e editor das revistas VendaMais®, Motivação® e
Liderança®, além de autor dos livros Venda Mais,
Correndo Pro Abraço e Criatividade em Vendas.
Formado em Administração de Empresas e mestre em
empreendedorismo pelo Babson College, é responsável
pelo portal www.vendamais.com.br.

