Cultura em Marketing
Por Lidiane Carminatti Ucella
14/12/2009
CONCEITO CULTURA
Pela Antropologia, a ciência entende a cultura como o totalidade de padrões
aprendidos e desenvolvidos pelo ser humano. Segundo a definição pioneira de
Edward Burnett Tylor, sob a etnologia (ciência relativa especificamente do
estudo da cultura) a cultura seria "o complexo que inclui conhecimento, crenças,
arte, morais, leis, costumes e outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem
como membro da sociedade". Portanto corresponde, neste último sentido, às formas
de organização de um povo, seus costumes e tradições transmitidas de geração
para geração que, a partir de uma vivência e tradição comum, se apresentam como
a identidade desse povo.
O ser humano comum, imerso em sua própria cultura, tende a encarar seus padrões
culturais como os mais racionais e mais ajustados a uma boa vida. Quando muito,
percebe algo que é inadequado e que "poderia ser de outra forma." O que permite
uma percepção cultural mais intensa é o contato com outras culturas.
Mas, uma vez que se dá este contato, a tendência é rejeitar a outra cultura como
inferior, como inatural. É o chamado etnocentrismo, uma barreira que, a despeito
de prejudicar o entendimento e relação com outras culturas, serve justamente
para preservar a identidade de uma cultura frente à possível difusão de
preceitos de outras culturas.
Muitas empresas tiveram de se adaptar aos mercados onde atuam. Estratégias de
marketing que mantiveram as características de seus lugares de origem não
tiveram sucesso em outros culturalmente diferentes, por exemplo, quando uma loja
do McDonald's resolve se instalar numa nova localidade os estudos mercadológicos
são realizados levando em consideração a cultura local, uma loja na Índia, por
motivos étnicos e religiosos, não vende carne bovina nos seus Big Macs, afinal
de contas a vaca é sagrada para aquele povo. Seria inútil qualquer tentativa de
inserir no costume dos indianos o hábito de se alimentarem com um produto que
para eles tem valor muito superior. Se o McDonald's não fizesse esse tipo de
adequação, não teria o sucesso que tem em seus 31.129 restaurantes fast-food
instalados em todo o mundo alimentando diariamente 48 milhões de clientes, o que
o torna uma figura global, que cresce a cada ano, somente no Brasil, possui 562
lojas empregando 34 mil funcionários.
Os motivos que induzem à adaptação cultural são diversos e apresentados a
seguir.
Fatores climáticos. A temperatura nos países tropicais e equatoriais obriga a
instalação de ar-condicionado em casas e carros. Ao contrário, em lugares frios
há demanda para tetos solares e os carros possuem baterias mais potentes para
facilitar a partida. As embalagens de açúcar em lugares úmidos são impermeáveis
para evitar que o conteúdo empedre depois de abertas.
Aspecto legal. Há países que não admitem marcas estrangeiras como aconteceu na
Índia. A marca Suzuki teve de incluir na sua denominação local o nome Maruti, de
modo que ficou Maruti-Suzuki. Os carros têm de seguir as normas de segurança e
de emissão de gases que mudam de acordo com o país, pois alguns são mais
exigentes que outros. As tomadas elétricas norte-americanas, francesas,
espanholas e britânicas são diferentes, e, portanto, é necessário o uso de
adaptadores quando vai a outro país. Por exemplo, a tensão elétrica nos Estados
Unidos e no Marrocos é de 110 volts e na Europa é de 220.
Ambiente cultural. A percepção dos consumidores varia por cultura. A palavra
diet, por exemplo, tem diferentes significados. Nos países de língua inglesa,
significa alimento de baixo teor calórico; na Espanha e na França é sinônimo de
regime de alimentação por conta de algum transtorno gastrintestinal, doença ou
desejo de emagrecimento. A Coca-Cola vende seu refrigerante sem açúcar sob
denominações como Diet, Light ou Lite de acordo com cada país.
Percepções. No Japão, a pizza não é considerada um alimento que substitui as
principais refeições, mas, uma comida dos jovens, e seu tamanho é sempre
reduzido. Em vários países europeus, a cerveja e a sidra não são consideradas
bebidas alcoólicas em razão de seu baixo teor.
Língua. Palavras mudam de significado conforme suas culturas. Por exemplo:
chapa significa maquiagem na Colômbia. Falar em chapas de aço suscitaria
curiosidade ou provocaria risos naquele país. Moco é um modelo de carro da
Nissan no Japão; e a Mazda também vende lá seu modelo Laputa. Em países de
língua espanhola e portuguesa, essas marcas têm significados dificilmente
associados à indústria automobilística. A pronúncia da palavra Coca-Cola, em
chinês, significa "morda um girino de cera".
Gostos. Os franceses não gostam de cereais no café-da-manhã e os chineses
preferem as pizzas de peixe. Os ingleses gostam muito de sopa de tomate e os
poloneses preferem sopas picantes. Os espanhóis consomem azeite de oliva e alho;
já os alemães não ligam para azeite. Os franceses gostam de pisos acarpetados
enquanto os espanhóis preferem pisos frios ou de madeira cobertos com tapetes.
Valores éticos e religiosos. Países muçulmanos são muito rígidos no
cumprimento dos preceitos do Alcorão e rechaçam bonecas como a Barbie, pois vêem
nela um símbolo, segundo eles, da decadente sociedade ocidental. Foram criadas
bonecas pensadas nos países islâmicos como Razanne, Sara e Dara. Os alimentos
ingeridos pelos muçulmanos devem ser halal, quer dizer, permitidos pela lei do
Alcorão. Cultivo, criação, produção, transformação e forma de preparo dos
alimentos devem seguir determinadas normas que afetam aditivos, pesticidas ou
ingredientes incorporados. Algo parecido acontece com os alimentos kosher dos
judeus, os quais comem karpas (ou karpás) na sua festa de Hanucá, os muçulmanos
comem harira depois do Ramadã3, e na Espanha come-se torrone no Natal, já no
Brasil, o panetone é bastante tradicional durante as festas natalinas.
Etnocentrismo. O sentimento de superioridade de algumas culturas sobre outras
varia. Os Estados Unidos têm uma cultura muito etnocentrista e levam seus
valores, crenças e hábitos as demais culturas. Por essa razão já sofreram
derrotas importantes, por exemplo, na França com a EuroDisney. Empresas, como a
Mattel, tiveram de criar produtos novos para outros mercados, como o japonês. As
meninas japonesas não gostam de mulheres loiras, com olhos azuis e seios grandes
- arquétipo da beleza norte-americana. As denominações de origem dos alimentos,
como outras estratégias de marketing, aproveitam para explorar os sentimentos
etnocentristas dos consumidores.
Símbolos variam conforme as culturas. Cores, animais ou coisas não têm o mesmo
significado em todas as partes. Para os ocidentais, morcegos simbolizam o mal,
para os chineses eles trazem felicidade. Europeus associam as corujas à
sabedoria, mas na Índia elas simbolizam a má sorte. O sete é um número
cabalístico na cultura ocidental. O quatro traz má sorte no Japão e na China; e
na Espanha, o número é o treze. As formas triangulares são rejeitadas na Coréia.
A cor cinza é usada em objetos de baixo custo na China, mas em muitos países
ocidentais é uma cor elegante, especialmente em ternos masculinos e em carros.
As formas de comunicação variam pelas culturas. Os anúncios alemães têm muito
texto explicativo, mas na Espanha as imagens são mais importantes. Gestos com as
mãos, com o corpo ou com os olhos têm diferentes significados. Os nórdicos não
toleram quando são tocados; é freqüente ver homens caminhando de mãos dadas em
países muçulmanos; não se deve tocar uma mulher muçulmana, mas entre europeus,
homens e mulheres se cumprimentam com um, dois ou três beijos nas bochechas,
conforme o país.
CULTURA E ANÁLISE DE MERCADO
A pesquisa de mercado consiste em técnicas de captação e análise da informação
para conhecer o ambiente, tomar decisões ou avaliar as já tomadas. Seu
planejamento e desenvolvimento estão condicionadas por influências culturais (Herbig,
1998 e Usunier, 1996). Os aspectos que devem ser considerados têm a ver com as
possíveis fontes de erros e com a conveniência do uso de diversas fontes de
informações.
A pesquisa deve ter em conta que o transplante de sua metodologia de um ambiente
cultural a outro pode levar a graves erros, que são:
Definição da Natureza da pesquisa ou a forma de definição do problema a
investigar, por exemplo, nos países mais desenvolvidos poderia ser planejada uma
pesquisa sobre o perfil socioeconômico dos consumidores de café, onde a maioria
da população o compra embalado. Pode ser que em outros lugares também se compre
café com Marca, porém é possível adquiri-lo a granel ou, ainda, que ele venha de
produção própria. Usar análise de dados em painel pode levar a conclusões
equivocadas sobre o consumo, porque os painéis não propiciam informações sobre
os produtos que não sejam comprados sob uma marca, em lojas, ou ainda
precedentes de uma colheita própria.
Equivalências de Conceitos. Os pesquisadores devem falar uma mesma linguagem
e, para isso, devem procurar equivalências de constructo, que, por sua vez,
podem ser conceituais, idiomáticas, funcionais, de percepções, experimentais e
instrumentais. A equivalência conceitual refere-se ao significado de conceitos
em ambientes culturais diferentes. Nas pesquisas é necessário utilizar palavras
que tenham o mesmo significado, independente da língua utilizada, é importante
atentar-se que palavras têm significados diferentes, devemos ter pleno
conhecimento sobre produto e sobre o mercado em que o mesmo será inserido afim
de não agredir padrões étnicos e culturais do mesmo, se dizer, em não passar por
ignorante.
O conceito de família ou lar, muda com a cultura. Nos países anglo-saxões
refere-se apenas ao parentesco em primeiro grau: pais e filhos. Em outros países
o parentesco pode ser em segundo grau. Na Espanha usa-se rede de parentesco ou
grande família, que abarca outros parentes e, inclusive, pessoas com quem se
mantém relações estreitas sem que existam vínculos familiares.
Nas pesquisas de mercado é muito freqüente encontrar equivalências de tradução,
especialmente na construção de questionários e quando escalas são utilizadas. As
palavras podem ter diferentes significados, pesquisadores devem procurar por
equivalências léxicas ou idiomáticas.
Equivalência Léxica é a que aparece no dicionário, a idiomática é o
significado da palavra em outro idioma. Na pesquisa de mercado deve ser
procuradas as diferenças idiomáticas e não as léxicas, os idiomas têm seus
dialetos e suas formas coloquiais, o mau uso da linguagem pode dificultar ou
distorcer uma pesquisa.
No Canadá havia uma frase em uma embalagem de biscoitos que dizia "os biscoitos
não contém preservativos". O tradutor confundiu a palavra conservantes (preservatives,
em inglês) com preservativos. O mesmo aconteceu com alguns produtos que tinham
impressos em suas embalagens "Feito no Peru" quando, na verdade, haviam sido
fabricados a milhares de quilômetros de América do Sul. O tradutor traduziu
Turkey - Turquia, país originário do produto - por Peru, pois, em inglês, turkey
significa peru.
Equivalência Funcional é saber para que serve determinado bem em seu ambiente
cultural, uma geladeira é um bem de uso doméstico em alguns países, mas pode
representar status em países menos desenvolvidos, um relógio-jóia não é uma
máquina para medir o tempo e não pode ser comparado a relógios Viceroy, Lótus ou
Casio. As roupas Chanel não cumprem somente a função de vestir o corpo ou
protegê-lo e não podem ser comparadas com marcas como Benetton ou Zara.
Equivalências Perceptivas são utilizadas para realçar e chamar a atenção para
transformá-la em um questionário elegante na China, serão usados adornos nas
cores vermelha e dourada, na Europa usam-se tons claros e sóbrios e é freqüente
combinar cores ácidas e chamativas, na América Latina e nos países muçulmanos
não seria recomendável apresentar questionários na cor púrpura nem na cor verde,
respectivamente.
Equivalências Experimentais, os mesmos produtos, bens ou serviços, não possuem
o mesmo grau de uso em diversas culturas, algo que é familiar em uma pode ser
novidade ou desconhecida em outra, deve-se buscar por uma equivalência
experimental no uso de uma categoria de produtos que, ainda que diferencia entre
os países, cumpre a mesma função, por exemplo, os mini-discs para ouvir música
foram quase desconhecidos na Espanha,onde discman ou walkman dominavam o
mercado, mesmo assim a Espanha não poderia ser classificada como um país menos
desenvolvido que a Inglaterra onde o minidisc era de uso comum até a chegada do
MP3.
Equivalências Instrumentais se refere à possibilidade de fazer comparações
entre os instrumentos de medição suscetíveis de uso. Concretamente os
questionários e as escalas de medição associadas. Os pesquisadores devem validar
os questionários e as escalas de medição associadas. Os pesquisadores devem
validar os questionários em ambientes culturais diferentes, por exemplo, esquiar
é considerado um esporte de luxo em países quentes, enquanto em países frios
esquiar é considerado uma prática comum, ao alcance de todos.
Equivalência Métrica deve ser variável de acordo com cada país e sua cultura,
por exemplo, as escalas de Likert não devem conter o mesmo número de pontos, na
Espanha é muito freqüente utilizá-las com cinco pontos ( concordo muito,
concordo, indiferente, discordo, discordo muito), nos Estados Unidos é comum
encontrar escalas com sete, nove e até mesmo dez pontos, já os alemães são mais
radicais e tendem a pontuar somente os extremos da escala.
Métodos de capacitação de dados que devem ser equivalentes, técnicas
objetivamente iguais podem não proporcionar o mesmo resultado, dentro das
técnicas qualitativas, a dinâmica de grupos ocupa um posto relevante, mas
existem diferenças importantes na sua composição e desenvolvimento conforme as
culturas. Em primeiro lugar, a concepção de tempo, monocrônico ou policrônico
determina a duração. Os países monocrõnicos, como Estados Unidos, Inglaterra,
países escandinavos ou Alemanha, as dinâmicas duram a metade do tempo de países
latinos, com um sentido de tempo mais tendente ao policrônico. Nos países do
leste europeu, não adiante convocar os participantes com muita antecedência,pois
não vão cumprir o compromisso. A dinâmica deve ser marcada quase que
imediatamente. O tamanho dos grupos de discussão também varia. Nos Estados
Unidos se reúnem entre oito a dez pessoas. Na Espanha, sete e, na Inglaterra,
entre quatro e seis. Nos países mais desenvolvidos, a retribuição pode ser um
cheque-presente, porém, em outros deve-se convidar os participantes para um
almoço ou jantar. Japoneses, chineses e latino-americanos não costumam discutir
nem manifestar seu desacordo com idéias que sejam tratadas na sessão. Um traço
cultural japonês é que eles não gostam com sessões com estrangeiros ou pessoas
de outras raças e preferem grupos formados por conhecidos, amigos ou familiares.
No que diz respeito a pesquisas de mercado, as pesquisas por correio, devido a
sua infra-estrutura a comunicação condiciona sua efetividade, devido a fatores
como mudança de endereço, por exemplo, já em pesquisas por telefone, sua
utilização requer, que a telefonia seja abrangente, em países como México,
apenas 60% da população possui linha telefônica, e na cultura muçulmana não é
bem visto solicitar dados sociodemográficos, na Índia a pesquisa nos locais de
compra, seja em grandes ou pequenas lojas não fazem muito sentido, porque os
hábitos dos consumidores são muito diferentes uns dos outros, não se tornando
muito confiáveis. Nem todos tem o desejo de se socializar, participar e
colaborar com pesquisas de mercado, as chaves para entender o desejo de
socialização são as culturas. Os pesquisadores devem ter em conta o que se pensa
sobre o próprio humano, isto é, se acredita em determinada cultura sobre a
bondade intrínseca do ser humano. O conceito que se tem de outras pessoas também
é influenciado pelas percepções de idade, sexo, classe social e até sobre
experiências políticas e sociais. O nível de individualismo e coletivismo afeta
a pesquisa de mercado.