De Volta à Empresa Circular
Por Conrado Adolpho
09/12/2009
Viver no caos não é mais uma opção: é uma imposição. Viver em um
ambiente que muda constantemente é a realidade. A regra é que nenhuma
regra é válida por muito tempo.
Tenho defendido o modelo circular de processos nas empresas e volto a
debater esse tema nesse artigo por se tratar de uma discussão da maior
importância. A empresa circular demanda um outro tipo de dinâmica - a
constante revisão de processos, produtos e pensamentos. Muitos diretores
de marketing e publicitários em geral podem dizer que não há tempo para
isso dada a já assombrosa demanda diária para atingir metas
impraticáveis. O mundo, realmente, está cada vez mais difícil de se
compreender e de caminhar de forma segura.
Implementar um processo circular em uma empresa implica muitas horas de
discussão e muitas semanas ou meses de adaptações e recriações. E o pior
de tudo, viver em uma incerta realidade. Sinto muito, mas é como sua
empresa deverá ser nas próximas décadas e, pensando bem, a vida de todos
nós já é assim, mas tendemos a negar tal fato.
O marketing veio se modificando ao longo dos últimos anos, moldando-se
ao mercado porque é dele que extrai suas leis. As mudanças do
comportamento do consumidor exigiram que as empresas mudassem (ou
quebrassem). Tal ciclo de mudanças não acabou, e nem vai acabar, pois o
ser humano evolui a cada instante.
O consumidor, visto muitas vezes como um target - uma massa disforme de
indivíduos sem rosto e sem nome - agora tem perfil no Orkut e blog. Cada
um quer ser tratado como indivíduo e não como estatística. Diante da
valorização cada vez maior do sujeito em si, em detrimento da
valorização de grupos de predicados semelhantes, a empresa precisa ter
não só a capacidade de mudar, mas de aprender de forma autônoma sobre
qual direção tomar diariamente. Deve ser flexível e ágil o suficiente
para modificar seu rumo com base em observações das tendências mais
sutis, estabelecendo um estado de alerta ininterrupto.
A empresa deve ser uma leitora de almas, deve prover a si a liberdade de
mudar de opinião, ideia ou produto quando perceber que algum elemento de
seu mix de ideias, (seja em átomos ou bits) não for mais relevante ao
seu cliente. A empresa não pode ter medo de errar, pois o erro faz parte
do aprendizado. Não existe sucesso sem fracasso.
As empresas - e as pessoas - correm dia a dia atrás de um objetivo
determinado e, quando finalmente o alcançam, acham que a viagem
terminou. Esse é o raciocínio linear-ocidental-católico-corporativo que
prega que existe sempre um fim para a jornada, o mesmo raciocínio que
fixa seus olhos no fim da estrada reta e que não consegue evitar a
aflição diante da curva que nunca termina. O corporativismo que prega as
férias de fim de ano como a redenção final, o encerramento do ciclo - a
nova chance de começar de novo, agora do jeito certo. Existe um texto
atribuído ao Mario Quintana que traduz muito bem isso:
“O cara que inventou o ano com 365 dias é um gênio, é exatamente o
suficiente pra gente achar que já está cansando, quando de repente, vem
um novo ano e ganhamos força, novos planos, novos sonhos e aguentamos
mais um ano de trabalho (quando na verdade vai ser tudo a mesma coisa)”
Um pensamento que nos conforta uma vez que, se temos a consciência de
onde é o início e de onde é o fim, temos também a sensação de que
dominamos o processo por completo e só nos basta segui-lo. A finitude
linear nos é mais aprazível do que ao infinito incômodo do círculo.
Em um processo circular, o fim e o início se confundem e se transmutam
em todos os pontos do próprio caminho. Assim, as empresas devem procurar
uma organização de processos e gestão como numa távola redonda arturiana,
em que todos os pontos, ou homens, tem igual importância. O mesmo
pensamento filosófico oriental que originou o princípio da dualidade
complementar constantemente em mutação do yin-yang, expressa no tão
conhecido diagrama do Taiji, chinês.
A empresa circular aprende com o mercado e corrige sua estratégia de
maneira contínua. Enxerga o mercado como um todo, uma unidade em que,
não só, há uma revisão constante do valor que se está entregando para
seus clientes, mas também olha e analisa todos os aspectos desse cliente
- pessoal, profissional, social e familiar - como já pregava o japonês
Kaizen na década de 50.
Assim como a internet deixa à mostra a marca da empresa tanto no aspecto
institucional quanto promocional, mixando ambos em uma só imagem, o
indivíduo do século XXI também tem todos os seus campos mesclados e
apresentados na web, desde o seu perfil profissional no LinkedIn, até
suas queixas pessoais em um fórum sobre doenças de pele. É sobre esse
indivíduo completo (e complexo) que se deve ter consciência.
A empresa circular deve aprender a aprender. É uma “empresa aprendiz”,
orgânica, humilde diante do que não sabe e eficiente no que sabe, com a
consciência de que um de seus maiores ativos é a capacidade de resposta
frente à mudança. Segue o mercado transformando-o e sendo transformada
por ele.
A empresa circular sabe que a jornada é tão respeitável quanto o
destino. Negando a filosofia maquiavélica, os fins não justificam os
meios porque, tão ou mais importante que o destino, é a maneira como ele
é alcançado. O raciocínio linear mira somente o destino enquanto o
raciocínio circular analisa cada passo dado que encerra em si mesmo o
fim e o início do caminho. Da mesma maneira como cada célula de nosso
corpo é parte e todo ao mesmo tempo, já que traz em em si nossa própria
sequência vital de DNA.
A internet é em si mesma um processo circular. Não tem início, não tem
fim. A navegação é protagonizada por cada indivíduo e é única dado o
infinito número de possibilidades geradas pelo intertexto, pelas
conexões e links, pela interação. Não há fórmulas prontas nem caminhos
já traçados. Diante desse cenário, parece insano seguir velhas regras.
É preciso aprender fazendo. É preciso fazer aprendendo. Ir e voltar,
destruir e reconstruir, mudar, trocar, perguntar, experimentar. O que se
apresenta diante de nossos narizes e teclados é um mundo inseguro e
cheio de incertezas que exige um novo olhar sobre si. Ampliar o campo de
visão para os 360º circulares e repensar os modelos tradicionais
lineares e orientados para o fim ? e não para o meio ? é imperativo e
necessário para sobreviver à guerra do mercado que hoje acontece de
forma declarada.
Pense de forma circular para que seu negócio sobreviva às novas
exigências desse consumidor 2.0 que não tolera mais uma empresa que não
o entenda.
Conrado Adolpho é empresário, publicitário, escritor e palestrante. Sua formação vem de faculdades de excelência como ITA e Unicamp. Trabalha com tecnologia, Internet e marketing. É especialista em marketing on-line, presta consultoria e ministra palestras em marketing na Internet, e-business, estratégias de marketing on-line, otimização de sites para mecanismos de busca e outros assuntos ligados à Internet e marketing. É autor do Livro Google Marketing - O Guia Definitivo do Marketing Digital.