A cada dia que passa, e quanto mais palestras eu
faço, viajando pelo Brasil, mais noto que estamos
presos no que Seth Godin, autor de Permission
Marketing, chama de "Armadilha da Competência".
Godin define competência como “fazer algo de forma
previsível e confiável, procurando resolver uma
situação ou problema particular". Isso significa que
uma pessoa competente é, antes de tudo, previsível e
confiável. Mas aqui é que começa a surgir o
problema: ela é previsível e confiável numa situação
ou problema particular.
Na economia atual, precisamos cada vez mais de gente
com visão ampla, e temos cada vez mais
especialistas. Precisamos de flexibilidade - temos
cada vez mais burocracia. Precisamos de criatividade
- temos a rigidez das regras. Porque isso acontece?
Porque pessoas competentes (e empresas competentes)
alcançaram o sucesso dessa forma - sendo
competentes, confiáveis e previsíveis. Experimente
pedir um cachorro quente no McDonald's e você vai
entender do que estou falando.
Os competentes têm orgulho da sua competência. É o
seu porto seguro, o que os distingue do resto. Mais:
têm pavor de mudanças, já que isso os obrigaria a
entrar em território desconhecido, questionar sua
própria competência (tão ligada ao amor próprio) e
obrigar a reinventar-se - sempre um processo
doloroso. Então que fazem os competentes? Criam
barreiras e obstáculos para a mudança, já que mudar
significa colocar em perigo o cálice sagrado da
previsibilidade.
Medo de errar. Não é à toa que as novas empresas e
casos de sucesso na Internet são fruto do trabalho
de jovens. Eles ainda não são competentes, então
também não têm medo de errar. O único problema para
estes jovens, ao ter sucesso, será apaixonaram-se
pelo sucesso, achando que são competentes - e
começar automaticamente a erguer as mesmas muralhas
contra as mudanças que, por não existirem,
permitiram em primeiro lugar que florescessem.
Sempre que faço um trabalho de criatividade nas
empresas, os vendedores (estimulados a criar novas
formas de vender), dizem "a empresa tinha que fazer
isto, a empresa tinha que fazer aquilo". Sempre
alguém tem que fazer. Nunca ele, vendedor.
Terceirizando a responsabilidade. Não falha nunca.
Uma dificuldade imensa de chamar para si a
responsabilidade pessoal pelos seus próprios
resultados - muitas vezes, pelo seu próprio destino.
Mas fale com um campeão de vendas, e não tem nada
disso - ele (ou ela, muitos campeões são na verdade
campeãs) já tem seu plano pronto. E aqui resolvemos
a charada dessa armadilha da competência.
Qual a solução, então? Precisamos de heróis. O
mitólogo Joseph Campbell definiu o herói como alguém
que se testa, aventurando-se em território
desconhecido, arriscando sua identidade, e depois
voltando da aventura com um presente para a
comunidade (este final é muito importante - heróis
não são egoístas). Ou seja, ter uma habilidade
especial não é o que identifica o herói, e sim o
risco, a aventura, a jornada pessoal de crescimento,
o escolher o caminho mais difícil, mas que também
traga as maiores recompensas. Pensar o que ninguém
pensou, andar por onde ninguém andou, fazer o que
ninguém fez, enfrentar o que ainda não foi
enfrentado. E, porque não, vender o que ninguém
vendeu.
O herói não procura a segurança e a estabilidade da
competência. Pelo contrário. Sabe que, ao
acomodar-se, será logo engolido pelo próximo dragão.
Pense nisso - você é competente, ou é um herói? Esta
semana, coloque um pouco de heroísmo nas suas vendas
- e venda mais.
Raúl Candeloro (raul@vendamais.com.br) é palestrante
e editor das revistas VendaMais®, Motivação® e
Liderança®, além de autor dos livros Venda Mais,
Correndo Pro Abraço e Criatividade em Vendas.
Formado em Administração de Empresas e mestre em
empreendedorismo pelo Babson College, é responsável
pelo portal www.vendamais.com.br.

