A Descoberta e a Extinção da Infância
Por Arnaldo Rabelo
05/01/2007
Estamos tão acostumados com a idéia de que a
infância é uma fase bem definida da vida, com características específicas, que
naturalmente causa estranhamento o uso dos termos “descoberta” e “extinção” no
título.
O que muitos não sabem é que nem sempre essa fase foi encarada como hoje.
Podemos até dizer que a infância nem sempre existiu.
A DESCOBERTA
Se analisarmos a história da humanidade, veremos que as crianças sofreram
tratamento muito variado. Muitas civilizações antigas cometeram verdadeiras
atrocidades, inclusive sacrificando vidas em rituais místicos. Por muito tempo
as crianças foram abandonadas, exploradas e violentadas.
Na antiguidade se considerava a criança um ser inferior, incompleto,
representando a ausência da razão e da compreensão, devendo-se submeter aos
adultos, que a moldariam para o que deveria ser. O que as crianças pensam,
produzem ou fazem sempre foi desqualificado. A criança não é parte de nós, mas
apenas “o outro”. Com essa visão, não há diálogo possível.
Na Idade Média, o conceito de infância estava muito mais ligado às classes mais
altas. As crianças de classes baixas entravam no mundo adulto a partir dos sete
anos de idade. Com o calvinismo – e o protestantismo em geral – houve uma
mudança de foco, talvez em função da ascensão de uma classe média ou por causa
do foco da religião no indivíduo.
Até o período renascentista, as crianças eram tratadas como adultos em
miniatura, mas com menos direitos. As roupas, por exemplo, eram do mesmo desenho
que as dos adultos. Nos passeios, os filhos eram exibidos como que enfeites,
seres inocentes e divertidos que entretinham os adultos. Já as crianças de
classe baixa, trabalhavam duro desde cedo, primeiro no campo e mais tarde até em
minas de carvão. Considerava-se que, se ficassem ocupadas com atividades
produtivas, suas almas seriam salvas.
Apenas no início do século 17 começou-se a ter a percepção de que a infância é
um estágio de desenvolvimento com características distintas e necessidades
específicas. Vários fatores influenciaram para o surgimento dessa nova visão e
sua evolução ao longo dos séculos seguintes: uma mudança na visão da natureza do
ser humano, o surgimento da indústria, a urbanização e a crescente conquista de
direitos pelas mulheres.
Com a migração do campo para as cidades, por exemplo, as classes baixas passaram
a precisar não apenas de mercadorias básicas, mas também de dinheiro para a
aquisição de outros itens de necessidade. Para isso, todos da família, incluindo
as crianças, tinham que trabalhar. Desta forma, as famílias cresceram em
resposta às necessidades da indústria. As crianças se tornaram uma espécie de
patrimônio.
Com o aumento da produtividade das indústrias e a diminuição da demanda por
mão-de-obra, as crianças se tornaram um problema social nas novas áreas urbanas.
Foi então que surgiram as escolas infantis. Para as crianças que trabalhavam, a
escola era também um lugar em que se transmitiam os valores que interessavam às
indústrias.
Gradualmente, a idade mínima exigida para que a criança pudesse trabalhar foi
aumentando e o número máximo de horas permitido para que trabalhasse foi
diminuindo.
No século 19, várias medidas foram tomadas para garantir esses direitos
trabalhistas e uma certa proteção à criança, o que influenciou para a
disseminação de uma nova idéia de infância, que se estendia agora a todas as
classes. Entretanto, o aparente aumento da importância da criança nessa época
pode disfarçar um movimento que levou a manter a mulher dentro de casa, em vez
de ocupada com afazeres externos remunerados.
Mas é inegável que a partir dessa época a criança passou a receber cada vez mais
atenção e afeto, acompanhando o aumento de importância da própria família na
sociedade moderna. Desde então, embora a infância tenha recebido tanto ternura
quanto severidade, a criança tem conquistado cada vez mais poder e assumido
novos papéis.
É interessante notar que nossa visão da criança até a definição do que é a
infância mudou ao longo do tempo, conforme nossas mudanças sociais, políticas e
econômicas. Hoje, podemos dizer que estamos em uma fase de ansiedade em relação
à criança, onde buscamos protegê-la dos muitos problemas que podem afligi-la, na
saúde, educação, segurança, nos papéis que desempenha como membro de família,
como consumidora, como cidadã. Estamos repensando a infância.
A EXTINÇÃO
Em setembro de 2006, cento e dez professores, psicólogos e autores de livros
infantis escreveram uma carta aberta ao jornal inglês Daily Telegraph pedindo ao
governo providências urgentes para se evitar a extinção da infância. Eles
consideram que a sociedade atual tem envenenado as crianças não apenas com junk
food, mas também com cultura inútil, games violentos e educação competitiva
demais.
As crianças, sendo tratadas novamente como mini-adultos, têm apresentado
depressão e problemas comportamentais. Eles partem do reconhecimento de que o
desenvolvimento físico e psicológico da criança não pode ser acelerado e pedem
um debate público sobre como deve ser a educação neste novo século.
O grupo alerta que os políticos e as pessoas em geral não estão compreendendo as
necessidades do desenvolvimento infantil.
UMA NOVA ERA
Até hoje estamos descobrindo muito sobre a infância. E o adulto começa a
descobrir o que a criança tem para nos ensinar. Nosso modo de lidar com as
crianças tem mudado rapidamente, mas ainda temos muitos tabus. Acredito que, de
agora em diante, precisamos ter consciência da importância de compreender as
crianças, de amá-las e ajudá-las a se desenvolverem de forma mais saudável,
dando-lhes tanto autonomia quanto orientação, sem a arrogância de nos
considerarmos superiores. Nesse processo, devemos resgatar um pouco da criança
dentro de nós, sem temer nos reconhecer inacabados.
As empresas de produtos e serviços voltados ao público infantil, assim como os
profissionais de marketing, têm uma grande responsabilidade. A sociedade está
cobrando cada vez mais uma postura ética, que favoreça as crianças ao invés de
explorá-las. Minha convicção é que somente as empresas que proporcionarem reais
benefícios a longo prazo para seu público – especialmente o infantil – poderão
se tornar vencedoras.
Arnaldo Rabelo é diretor da Rabelo & Associados, consultoria de
marketing infantil e licenciamento. www.arnaldorabelo.com.br